quarta-feira, dezembro 26, 2007

Escolha

Escolhe um caminho, mas nunca o sigas por muito tempo. Afinal, muitas coisas mudam como as estações. Sempre que possível escolhe outro caminho mas não vás por atalhos. O mais fácil é sempre o mais difícil. Não vás arranhar o coração e alma. Escolhe um local e uma música favorita mas não deixes tocar por muito tempo. O banal é demasiado enfadonho. Vai procurando a música certa para o momento certo. Escolhe um amor mas não ames sempre igual. Ama mais, ama diferente. Nem as folhas que caiem da mesma árvore, no mesmo Outono, são iguais. Se reparares, cada uma tem a sua textura e a sua cor. Ama muito, com texturas de madrugada solta nos cabelos, de sonho inacabado, com raiva ou com ternura. Mas ama, afinal a vida não é grande coisa sem paixão. Mas quando falo em paixão refiro-me não só ao amor de amantes. Amor de amigos, Amor de amar, Amor da vida. E digo paixão não com o sentido original de sofrimento. Paixão de ser feliz. Escolhe um sorriso, mas não negues as lágrimas. Afinal, tal como a sombra que nos acompanha, a alegria vem sempre acompanhada de rasgos de tristeza, que nos fazem tomar consciência de como é bom estar feliz. Porque felicidade é um estado, jamais uma certeza. Em tudo o que faças e em todas as escolhas, recorda que na vida (quase) tudo é possível de ser sujeito a uma nova transformação, a uma nova escolha, a um novo retrocesso ou avanço.

domingo, dezembro 23, 2007

Mary Poppins

Havia portas mas não havia saídas. Mary Poppins a voar no seu chapéu ansiava agora voar para outras paragens. O medo escondido no bolso do casaco, o tempo a ferver no vento que passa. E as horas que avançam no relógio grande da praçeta. As pessaos que passam, os rostos conhecidos a passarem a desconhecidos na intermitência de um piscar de olhos. Mary Poppins quer voar no seu chapéu mas gostava que os dias fossem maiores para gravar na sua mente os beijos e os sorrisos, o cheiro da terra que é sua, a textura da sua almofada e da sua vida que será outra. Vida heterónima, por assim dizer. Tão outra. Percorre-a um arrepio de ansiedade. Mary Poppins revolta os cabelos na reviravolta da sua vida. Os lugares a mudar, a presença a fazer-se ausência. A cidade a tornar-se saudade. as badaladas do relógio. A meia noite. O novo ano. a nova vida. E Mary Poppins transforma-se em cinderela sem sapatos, o tempo transforma-se em sem tempo, o principe fica. A princesa vai. Os amigos tornam-se pequeninos vistos do pássaro gigante que leva a cinderela. A sombrinha da Mary Poppins. A nave de sonhos espaciais (especiais) a rodarem no sentido inverso dos ponteiros do relógio. Porque tudo roda ao contrário na vida. Os sonhos da aventura apo contrário do tempo da despedida. Eu, Mary Poppins. Cinderela. Bruma de Avalon. Cidade perdida em mim.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Chá

Quando o tempo parou, faltavam 11 minutos para o meio-dia. O almoço tardava, entre telefones por sossegar e coisas por contar. Desapareceram dois pequenos olhos do corpo de caixa branca, e a cadeira ficou a girar sozinha. Quadro de Dalí, a sala de trabalho: computadores com olhos. E dali fugiram os pés pequeninos para outras cores, outras caras: cabeças com vestidos pretos iguais e corpo de montra. Chá, por favor. Obrigado. Ah!; as mãos na chávena. Quentes numa sala fria. Anestesia de tudo num mundo sem tempo para nada. E os olhos mergulhados no chá, cheios de lágrimas por chorar. E pelo bar ficou, esquecida no chá.
Pousou a chávena, o toque na mesa cortou o silêncio e acordou os ponteiros. Voltaram os dedos à correria. E os olhos ao computador, corpo de electrões operários incansáveis, coração esquecido. Sempre assim, dia após dia.

"She found a lonely sound
She keeps on waiting for time out there
..."
"Porque sempre vivi isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturante pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Eu estou aqui, reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até ao meu silêncio e compreendam-me, mas não se pode compreender, Sofia, o que não se diz, as pessoas olham, não entendem, vão embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em Outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado".

António Lobo Antunes

quarta-feira, dezembro 12, 2007

For reasons unknown

"I pack my case. I check my face.
I look a little bit older.
I look a little bit colder.
With one deep breath,
And one big step,
I move a little bit closer.
I move a little bit closer.
For reasons unknown.

I caught my stride.
I flew and flied.
I know if destiny’s kind,
I’ve got the rest of my mind.
But my heart, it don’t beat,
it don’t beat the way it used to.
And my eyes, they don’t see you no more.
And my lips, they don’t kiss,
they don’t kiss the way they used to,
and my eyes don’t recognize you no more.

For reasons unknown; for reasons unknown.
"

The Killers

domingo, dezembro 09, 2007

Ataraxia

Ouve-se a melancolia do outro lado da estrada. Um mendigo corta o silêncio com uma melodia que soa a Domingo. Soam sempre assim os Domingos, como uma música que sempre ouvimos e nunca gostamos muito. Mas faz parte. Faz companhia. Deste lado suspira a letargia dos atrasos de autocarro. Ninguém tem nada que fazer e no entanto, toda a gente perde o que podia ter feito. Mas é só mais um dia. Só mais uma pessoa no banco dos cépticos. Nada abala o quase. Nada esbofeteia a apatia da emoção de ontem. Bate-me até ficar de carne viva. Deixa-me os lábios sangrentos, morde-me, beija-me, faz-me chorar de rir. Vem euforia, amiga da onça, deixa-me triste. Mas faz qualquer coisa, aperta-me até ter medo de precisar de ti. Porque não preciso, e isso assusta. Faz-me acreditar que ainda há vida onde tu estás. Onde estou, até o mendigo desistiu de tocar.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

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"Somewhere over the rainbow
Way up high,
There's a land that I heard of
Once in a lullaby.

Somewhere over the rainbow
Skies are blue,
And the dreams that you dare to dream
Really do come true.

Someday I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are far
Behind me.
Where troubles melt like lemon drops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me.

Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly.
Birds fly over the rainbow.
Why then, oh why can't I
?"

The wizard of Oz

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Dead Poets Society

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"Fui para os bosques viver livremente
Sugar o tutano da vida
Para aniquilar tudo o que não era vida
Para que, quando morrer
Não descobrir que não vivi"

Thoreau

terça-feira, novembro 27, 2007

"Ainda não manejei nenhuma arma que não desse ricochete
E a cicatriz sobrevive sempre
À mais perfeita ligadura
..."

JP

domingo, novembro 25, 2007

Um ano depois

Demos a volta à vida, demos a volta às letras. Entretanto, passou um ano. O LetraSoltas continua à venda na livraria Sá da Costa, na Baixa, e ainda por encomenda na Fnac ou pela editora.

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Bem haja a quem continua a viajar pelas letrasoltas.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Creep

"When you were here before
Couldn't look you in the eye
You're just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
And I wish I was special
You're so fuckin special

But I'm a creep, I'm a weirdo.
What the hell am I doing here?
I don't belong here.

I don't care if it hurts
I want to have control
I want a perfect body
I want a perfect soul
I want you to notice
When Im not around
You're so fuckin special
I wish I was special"

Radiohead

Ainda me lembro

Ainda me lembro do teu sorriso de água, a desabar em cascata sobre todas as coisas. Ainda me lembro de cada prenda, surpresa, gesto ou qualquer coisa especial que tenhas dito. Ainda ardem os ouvidos das palavras que me disseste, como se estivesses a pronunciá-las agora e pudesse sentir o bafo quente da tua boca. Ainda te digo mais de tudo o que me lembro e que, perto ou longe, não posso esquecer. Peço-te que te lembres e saibas que vou guardar comigo cada pedacinho de ti, solto em mim. Afinal tu és já parte indissolúvel de mim. Tu és estrela, eu Lua, Tu íman, eu metal. Tu és mar, eu areia da praia. Cruzamo-nos sem cessar. Somos parte do mesmo fio embaraçado, aquele que se tenta e não se consegue desfazer o nó. Diria que somos um nó cego, mas de cega não posso ter nada porque me perco a olhar para ti, e cada vez que olho quero olhar mais e mais, como se fosses todo o horizonte e toda a alegria. Eu parto, ou por outra e não querendo adivinhar o futuro, suponho que parto ou partirei (devo usar o futuro), mas a minha boca irá continuar a saber a fruta da época, como dizem. Fruta da nossa época, que espero seja longa, frutuosa e feliz. Que o fio não se desate, que o amor não se gaste ou avarie. Perto e longe, os teus braços ainda, porque os imaginarei. E a imaginação e o coração sabem mais de mim e conhecem-te, como nunca antes conheci ninguém. E depois de tudo espero poder dizer: "espera por mim ao pé da fonte" ou "estou quase a chegar". E o coração a rebentar de não poder mais. E dizer ainda ao teu ouvido "Eu ainda me lembro". Não te esqueces?

quarta-feira, novembro 21, 2007

Sinfonia e disfonia

O teu beijo é como uma cereja. Um rebento primaveril no meio da invernia que assola Lisboa,a minha vila ribatejana e muitos dos lugarejos do meu país. O teu beijo é morno e coberto de esperas, quando os nossos lábios se afastam por dias que se assemelham a meses e se cobrem de saudade os campos da minha alma. E só quando chegas, em passos rápidos até mim, se cobrem de flores os campos e voltam as cerejas. As cerejas são assim, não se pode comer só uma. E entre um beijo e outro se aquece o paladar de sonhos e revivem-se memórias de outros beijos. Perco-me no labirinto a que chamei éden por ser nosso. As palavras dos outros habitantes terráqueos envolvem-se de bruma, nesse preciso instante em que colho as cerejas, ou mais precisamente, te cubro de beijos. Só quando os nossos lábios se voltam a desencontrar se desfaz o encantamento. Regressa o burburinho de vozes na rua, no centro comercial. Os nossos olhares riem um para o outro de satisfação. Conversamos longamente, entre pausas e silêncios, entre jogos de olhares ou palavras conotadas sempre com a mesma entoação apaixonada. Assim é, nos dias de inverno em que nos reunimos para dar lugar à paixão. Certas vezes, esquecemo-nos do tom e perdemo-nos em notas mais agudas, soltadas fora da harmonia em que se processa a nossa melodia. Mas tudo volta com naturalidade ao início melódico de que se havia retirado. Como se um maestro invisível, a que chamo amor, pudesse comandar o retorno das notas ao mundo da musicalidade e da sinfonia. A disfonia fica de fora, a nevar sobre lugares distantes e gelados. Cá entre nós meu amor, sempre fomos Verão não é?

terça-feira, novembro 20, 2007

Óculos escuros

"Dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

Conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

Dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos"

Al berto

Esta almofada não é minha

"O mundo é uma travesseira estranha (...) porque nem sempre nos aconchega da forma que ambicionamos. (...) O mundo é uma travesseira estranha porque chegados à cama nem sempre a travesseira nos aceita(...) E nos trata como um corpo estranho, um amante ausente (...) Uma cidade órfã num país que sabe não ser o seu. (...)

Quantos de nós já não acordamos numa cama que sabemos não ser nossa pela estranheza do barulho da rua, do cheiro que habita o quarto, da almofada que é mais alta do que deveria, da rigidez do colchão, dos passos de pessoas que não nos são familiares, das vozes que entoam agora pelos corredores e que nunca havíamos ouvido, do toque do telefone de casa, do bater da porta que é diferente em todas as casas – entre, entre! - Do cheiro, do cheiro a caruma, do cheiro da comida dos outros que deve estar tão bom, do cheiro das outras pessoas que ainda agora passaram num firme e seguro passo que eu julgo desconhecer, alguém que atenda o telefone, da chiadeira infernal de uma carrinha que tudo indica estará estacionada em frente a esta casa a vender produtos frescos. E alguém sabe onde é a casa de banho? E chegados lá, depois do corredor na primeira porta à esquerda, percebemos que não é a nossa casa, quando nos é aí revelada a marca de champô, o gel de banho, os cristais, o espelho menos amplo que o nosso, as toalhas menos garridas que as lá de casa, o estupor da água que não há maneira de estabilizar na temperatura certa (...)"

Fernando Alvim in "O mundo é uma travesseira estranha"

sábado, novembro 17, 2007

Fotografia

E ali, no centro de uma luz pálida e despreocupada de fim de tarde encetei a mais árdua e difícil de todas as tarefas a que já me propus. Aventurei-me dentro, nos caminhos inóspitos das varandas e jardins secretos da memória e da alma, como ouvi dizer. Comigo levei apenas´o olhar de que me sirvo para guardar o mundo em fragmentos. Esses flashes de tempo que resistem. Esses cheiros e sorrisos presos num fio do obscurantismo do pensamento.Faço força em recordar e aventuro-me assim pelo templo das preciosas memórias. Frutos suspensos de uma árvore reluzente. Alguns frutos caiem apodrecidos. Esquecimento. Outros permanecem intocáveis nas linhas da tecelagem do tempo. Brilhando, ainda que proibidos. Já diz o poema: o que foi não volta a ser. Poderá ser semelhante mas jamais igual. Na vida não há repetido como nas fotografias em que as cópias miméticas do ser se massificam. E aí, congeladas mais do que para sempre (a não ser que as rasgue um golpe de fúria ou outro qualquer) os sorrisos do que já foi e não mais será, dum qualquer segundo de um qualquer solstício ou equinócio que passou. Bom ou mau. Amargo ou doce. Náquele efémero instante.

domingo, novembro 11, 2007

"Nunca quis saber nunca quis acreditar
Que tu irias partir não podias cá ficar
nunca quis escutar muito menos quis ouvir
O teu silêncio que avisava a intenção de não voltar
(...)

Pede-me que fique mais
Por um segundo eterno
(...)

Aperta-me a mão
Ri por um instante
Deixo-me ficar
Só por esse instante
"

Donna Maria

segunda-feira, novembro 05, 2007

Partir outra vez

Acordei sem chão. Fora da almofada, longe de sentir. Atirada para o dia que me roubou a noite, os meus olhos a quilómetros dos teus, a saudade.
E é sempre assim a cada madrugada, quando falta outra vez tanto tempo sem te ver, o sonho anestesia a solidão, e o dia grita-a com todas as cores. Será sempre assim. Acordar de saudades, por mais que saiba que vou voltar, por mais que o filme se repita. Sabes, é o meu filme preferido.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Abismo

Já não estremeço quando o teu cabelo me tapa o Sol. Quando apareces sem aviso no meio de toda a gente, já não falo pró ar para que se riam comigo, não contigo. Olho-te de frases curtas, olhas-me vazio. Olhamo-nos de pontos finais. Estou do outro lado da montanha, fito-te desafiante pra que saltes, mas sabes, o abismo é grande. Abismo de saudade ou voz engolida. Nessa falta d'ar de não saber que dizer. Nessa garganta funda de silêncios. Longa de mistérios. De procurar até ao fundo algo que nos ligue. Sem encontrar. Porque nunca me conheceste. Apaixonaste-te sem mais nada, eu não. Eu quis-te descobrir, tu querias-me engolir. Quando percebeste que eu não podia ficar sempre no teu colo, tiveste medo. O teu quarto sempre foi grande demais, dizias tu, "Preciso de cor e não gosto de posters, podes ficar aqui?" Não pude.
Hoje estava cansada, desisti de os fazer rir quando chegaste. Deixei de fingir que estava entretida pra não te ligar. E tu fizeste-os rir, mas a tua voz tremeu. Eu senti.

sábado, outubro 20, 2007

Mais uma vez

Mais uma vez eu era mais um daqueles bonecos de madeira, que nunca chegam a ser bonecos de verdade, os que depois de tanto se brincar se esquece e se deixa no canto mais escuro da sala. Tal e qual a professora que punha os meninos mal comportados de castigo, virados de costas no canto da sala. Senti uma estalada estalar-me na face, mesmo que não fosse de verdade. Tal como eu, naquele canto perdido do meu próprio quarto-mundo. Eu devia deixar de me preocupar, de te proteger e amanhecer em ti para que não te falte sol. Porque ontem adormeci de chuva, na mente e no rosto. Mas tu não deste por isso. Não te preocupaste contigo nem com os outros que se preocupam contigo. E pior que isso, esqueceste-me e desiludiste-me. E hoje apenas sou um boneco de madeira, preso nas linhas de ser um fantoche que não quer subir para o palco. Há demasiada luz por aí. Prefiro ficar no meu canto escuro, mastigando as horas e os factos com o relógio do meu coração apertando a cada hora que passa. Tic tac interminável de mim.

segunda-feira, outubro 15, 2007

a viagem

Imaginei-me subitamente no avião a olhar pela janela, a afastar-me do aeroporto e das pessoas que começaram a ficar pequeninas na altitude a que estaria naquele momento. Pequeninas no tamanho e enormes na emoção que nos liga. Há em mim um misto de vontade e saudade antecipada de partir nesta jornada diferente. Há ainda a duvida e a incerteza se esta viagem poderá mesmo ter lugar. Se se concretizar, o nervosismo de ter de partir, naquelas viagens em que os bilhetes são só de ida e falta tanto para voltar. Imagino os meus olhos brilhantes como lâmpadas em curto circuito no momento da despedida. E vou agarrar-vos com tanta força como se num abraço pudesse contar as histórias da nossa convivência e do sentimento que nos une. Depois de abraçar os que me deram as raízes iria beijar-te. Iria beijar-te num beijo molhado pelas lágrimas e pelo terror de te perder. Neste barco somos dois, estão constantemente a dizer na televisão. Se isto não é um barco, mas um avião irás esperar por mim do outro lado do oceano? Eu podia viajar o mundo inteiro, ser alma estrangeira de mim mesma, mas tu vives em mim, és o pássaro no meu peito. E se o meu destino for abrir asas para essa misteriosa e bela ilha, quero passar a minha última noite contigo, a amar-te e decorar todos os pormenores. Quero beijar-te para não mais esquecer o pormenor do teu beijo e do teu sorriso de estrelas e fragrâncias. Do teu tom de voz. E nas muitas chegadas e partidas da nossa vida, eu quero partir e voltar, e ver-te mais uma vez naquele aeroporto de sonhos, em que o meu sorriso de amor irá iluminar mais que a lua ou que não sei quantos Watts.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Um pouco de céu

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Ontem, 19:27, Alcoitão (Estoril)

quarta-feira, outubro 03, 2007

Entrelaçar

Entrelaça-te à minha volta. Eu já não era eu. Transformada num objecto. Um fio feito de côco e missangas, entrelaçado para sempre à volta do teu pescoço e perto do teu peito. Nunca me tiravas, mesmo quando te perguntavam "não te magoa o pescoço?", a tua resposta era sempre no mesmo tom de voz. "Não, porque haveria de magoar?. Muitos passavam por ti e gostariam de saber que força te trazia esse fio que se gastava com o uso e o tempo. Mas nenhum deles sabiam. Amor. Talismã. Se eu não fosse de carne seria o teu fio. Estaria contigo em cada começo e em cada final, entrelaçada nas tuas palavras e no teu corpo. Seria a tua protecção quando te sentisses fraco, ou triste. Como não sou um fio, rodeio-te com os meus braços, levanto-te com a pouca força que tenho mas estou lá, sempre. E se não fosse um fio ou uma pessoa seria um gato. Os meus olhos brilhariam no escuro para te velar o sono, o meu corpo quente enroscar-se-ia nas tuas pernas e chamaria pelo teu afago. Seria feroz com quem te tentasse fazer mal. Eu seria tudo, tudo e muito mais só para te ter, te sentir e te amar.

terça-feira, outubro 02, 2007

Era uma onda

Era uma onda
Veio a onda
Apaixonou-se por uma rocha
Embateu na rocha
A onda a onda
Onde está a onda?
Ondeou seus cabelos de raiva,
Ondeou seus cabelos de espuma,
A verdade é que a raiva
Não a levou a parte nenhuma.
A rocha não se moveu,
Afinal a pedra não tem vida.
E a onda na praia morreu
Rebentando perdida.

segunda-feira, outubro 01, 2007

"Então o rapaz... já foi?". "Sim, foi". Tornas tudo mais fácil pai, falas como se o "rapaz" (mais velho que tu), tivesse partido numa simples viagem, e tu chegaste quando o carro desaparecia na curva. Sei bem que odeias despedidas. A mãe não, a mãe chega antes da viagem, chora e não quer deixar ninguém partir. Os vossos amigos vão desaparecendo, para a mãe são pequenas facadas, para ti é como dormir todos os dias, natural. Os teus olhos têm tanto por chorar lá dentro. Cortes a carne e engoles vorazmente a notícia que te dei, a dor empurrada para o infinito de ti, depois do almoço esquecida. Como num filme de Spielberg, somos um grande grupo a fugir dos dinossauros, até que vamos sendo apanhados um a um, "continua, eu não posso mais, foge!".
Às vezes gostava de fugir com os dinossauros, para não ver os outros a ser engolidos.

sábado, setembro 29, 2007

Agora

É agora. É agora que o tempo aperta, que o tempo dói, que o tempo asfixia e rouba as palavras, é agora que o tempo foge, é agora que o tempo se perde no que foi e não volta a ser, é agora que o tempo leva o teu sorriso e os teus olhos, a tua voz por cima da varanda, por cima da televisão, o teu ar pachorrento no sofá, a tua gargalhada no café, é agora que o tempo é tirano e carrega bigornas nos teus, é agora que a tua cadeira fica vazia, é agora que há menos um braço pra brindar, é agora que falta gente para a sueca, é agora que se entreolham os amigos, é agora que se vincam rugas de choro e se apertam de cachecóis que o frio da idade arrepia. É agora que te choramos sem te abraçar, é agora.
Porque é que tem de ser agora?

sexta-feira, setembro 28, 2007

mais e mais

Eu quero mais
Muito mais
O mundo num espelho em cilindro
A palma da mão aberta
Jamais vazia
Um prisma de aventuras
Um cone de alegrias
Mais e mais e mais
Do romance
Da esperança
Mais do mundo
Feito gelatina
A tremer no cubo
Que é o meu coração.

Conseguirás ouvi-lo bater?

quinta-feira, setembro 27, 2007

Eu era aquela que ria por qualquer razão ou chorava, sem querer, por um qualquer motivo. Aquela que se perdeu no primeiro dia de faculdade quando quase toda a gente seguia naturalmente o caminho para o portão. Eu sou aquela que não vê um palmo à frente do nariz e a quem toda a gente aponta com um sorriso "ali estás a ver". Aquela que cumprimenta toda a gente com um beijinho, a não ser que os ódios de estimação não o permitam. A que confunde o botão da luz com a campaínha e deixa sempre cair as coisas que traz na mão. Cabeça na lua sempre a fervilhar de tantas emoções. A que corre e tropeça sempre, invariavelmente, em qualquer coisa. Que fala alto e usa as mãos para gesticular as frases e as vive cada coisa no seu êxtase. Que fica feliz por ver a lua no alto do céu e que às vezes se comporta como uma criança de quatro anos. Que nunca faz nada certo mas que tem graça por fazer tudo errado. Todos os dias promete que hoje vai correr tudo bem mas tem sempre uma peripécia para contar no fim do dia. Mas agora não tem graça nenhuma. Não tem graça magoar ou irritar alguém com as suas criancices e esquecimentos. Com a sua vida vivida à velocidade da luz entre o contentamento e a incerteza. Ela é aquela que experimenta mil pares de óculos até achar um que lhe fique bem. Que não gosta de chocolate e fica possessa quando lhe fazem partidas que envolvam esconder coisas. Afinal, ela já perde tudo. Ela é aquela que faz a cama e no fim de ter tudo se depara com um lençol esquecido. A dos sonhos estranhos e dos dias de mulheres de mau humor, com vontade de esganar pessoas. Ela cresceu assim, na confusão das suas coisas e dos seus medos. Do embaraço que a descubram assim, imperfeita de forma infalível e mais que tudo: indefesa. E de tão nervosa irá concerteza ganhar bochechas encarnadas e olhos parados no chão. Se não tiver cuidado, irá gaguejar. Ela é aquela que bebe galões e capuccinos com prazer no olhar brilhante. E que nunca se fartará de galões mesmo que beba mil por dia. Aquecem-lhe a alma e os sonhos. Ela é aquela que pensa e repensa todas as coisas e tem as ideias mais absurdas e as prendas mais inesperadas. As atitudes mais parvas e os abraços mais apertados. Que ignora e grita. Que rabisca sonhos em folhas de papel. Aquela.

bruma

Resta a bruma
Nos despojos da tempestade
a bruma que penetra todos os espaços
Do vazio de mim
Tempestade de cabelos revoltos
E sonhos de cristal baço.

"Não tem importância",
alguém diz e vêm as aspas
A corroborar
Que não fui eu que achei
Que não tinha importância.

Tempestades e tempestades
Enroladas na garganta
No travo esfusiante de álcool
E de fantasias

Abraça-me
No meio dos cabelos despentados
Desculpa.
E os cabelos enevoados
No meio do furacão de palavras mal ditas
Mal entendidas
E um silêncio pesado a enevoar o mundo
A bruma...a bruma
Nos despojos da tempestade.

quarta-feira, setembro 26, 2007

O poema

Na palpitação dos teus dedos
A volúpia das minhas palavras,
Amanhecia um poema de amor
Ou um poente de desejo,

Construí nas janelas de todas as casas
O poema que li e reli
Nesses (nossos) encontros,
E mesmo quando se entreabriu a porta
Dos nossos medos
Restávamos nós e o poema
Que escrevi ou se escreveu em mim,
Batalha de sentidos,
Trégua de ilusões.

Não sou mais que um poema
Plantado à beira mar.
Desenho torto sem régua
Ou compasso,
Mesmo que seja de espera.
Sem ambição de alguma vez rimar
Com algo deste universo.

Verso branco e solto
No céu azul dos teus braços,
Cadentes de luz.

Assim é no meu poema.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Pensamento brilhante

Quando terá sido a última vez que leste as minhas emoções nas entrelinhas das minhas palavras?Eu, a entrelinha de tantos textos escritos em modo panela de pressão, deitando devagarinho o fumo de tantos quebra-cabeças. Devorei as horas na deliquência inocente das palavras, pousei os pés no soalho frio para me recordar que estou viva. Sentir o frio percorrer-me devagarinho e o contraste com o calor da tua boca no meu pescoço. Ao lançar mais um olhar pela varanda não vejo qualquer vulto. Permanece a inconstante invasão desses pensamentos que gostaria de poder evitar. Mas já me conformei que sou sempre assaltada, em dados momentos, por pensamentos negativos e que apenas atraiem o mais negativo de mim. Vou soltar um pensamento brilhante, forte e maior que eu para não arredar pé da minha varanda, para fincar o pé na minha mente, para cobrir os montes e os vales do meu palácio de âmbar. Um pensamento que seja íman, atraia o mundo e seja o mundo. Porque a cada pensamento sou eu que tenho o mundo na palma da minha mão. E se perderes um segundo na barafunda das minhas entrelinhas irás perceber, cada uma é mais uma pista para me conheceres. E quem sabe, para eu me conhecer também.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Das nove e meia às seis

As palavras saem-me todas erradas, misturadas do dicionário, apetece apagar tudo e dormir sobre a mesa. Como uma religião, o trabalho é bom de longe, como sonho. O verbo gostar fica à porta e entra o fazer, pesado sobre as horas, tanto que os ponteiros lutam por se mover. Esquece o que aprendeste, simplesmente escreve! Não penses nem romanceies, são três mil caracteres, nem mais, nem menos! Caracteres? Caracteres é nome de bicho. Letras, palavras. Trabalhos? Estórias, vidas, mundos. Traduzo pra mim as palavras feias, a minha língua brinca com a pastilha de fruta, framboesa a minha preferida, e os pés balançam o corpo na cadeira com rodinhas.
Não uso caracteres. As minhas letras são soltas.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Hoje

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Entardece cor-de-rosa sobre o Tejo, sou anjo mau para Jorge Palma no Cais do Sodré, troco desabafos surdos entre versos, vejo-me nos olhos que cantam comigo a canção de Lisboa (mesmo que ele não a tenha tocado). Por meia dúzia de músicas e um pôr-do-sol somos maiores que o fuso horário das amizades. E no final da noite, três pequenas grandes amigas encontram-se no segundo de uma mensagem, um acaso e um autocarro tardio.

Avenida da Liberdade

Pela minha janela se agita a bandeira de Portugal, ao centro da Avenida, acenando a quem passa, amarelos autocarros e velozes carros que vão colorindo a paisagem. Tenho estores entrecortados como os detectives, vejo o mundo às tiras, como um puzzle. Brincam pelos meus olhos as peças loucas, tão vivas, a imensa Avenida cabe no meu olhar como um quadro.
Daqui me vejo, tudo vejo, e ninguém me vê. Daqui crio sem saberem, inspiro-me naquela pequena madame de tailleur e mala do tamanho do telemóvel, movendo-se rápida e nervosamente, tantos passos por quantos a esperam, tantos passos por tanto que tem de fazer, e a criança que corre suja de poeira do futebol para o ralhete da mãe, mala a escorregar nos ombros, batendo impiedosamente nos joelhos. E o mendigo que toca melhor que o cantor do top de vendas.
Esqueço-me do copo na minha mão, plástico com espuma seca do café que ainda saboreia a minha boca e me delicia a cidade. Esquecido também o trabalho, tão difícil concentrar-me em mim quando há tanto pra ver.

O dia

Espreguicei-me sem pressas e abri os olhos. Era mais um dia como qualquer outro daqueles em que chove para fazer sol logo depois. Eu era assim, uma chuva seguida de sol ou uma tempestade a desabar na claridade. Uma mestiçagem impressionante de pinturas e cores diferentes. Não me consigo compreender e talvez seja por isso que muita gente não me compreende. Se disser que às vezes só me apetece fugir no carrossel que há dentro de mim, não estaria a mentir. Daqueles dias em que só apetece ficar sozinha e escrever uma banalidade qualquer. O estranho é estar feliz e sentir-se estranho depois do estar feliz. Uma ressaca emocional de sentidos, de sensações em catadupa que passaram tão depressa e cessaram. E vinte e um anos volvidos do meu primeiro encontro com este local esquisito, que é o mundo, continuo a sorver a vida tão intensamente, que às vezes parece não haver tempo para degustar, qual prato raro, servido com talheres de prata. Olho as fotos e não sei se estive lá ou imaginei que estava lá. Mas dizem-me que estive e eu acredito. Que passeámos pelos enormes jardins e demos as mãos em retratos que agora olho e são de sépia. Mas quando os vivemos eram bem coloridos. Agora são apenas memória. Oh como gostava de ter vivido esse dia com mais calma!Que não tivesse passado por mim a correr, como um ciclista desejoso de chegar à meta. E nesse dia a festejar o "eu ter nascido", houve sol e meio-luar na lua escondida, talvez a não querer ofuscar o brilho de uma aniversariante. Houve beijos e presentes, dentro e fora dos beijos. Houve luz e houve vida. E amizades dos que se recordaram do dia e acharam por bem recordar. Talvez porque gostem de mim, talvez porque sim.

terça-feira, setembro 18, 2007

Fim de tarde

Sorris a amarelo alaranjado, meu quente e sereno pôr-do-sol. Trazes o fim de tarde, morno e vagaroso, doce beijo antes de adormecer, raro segundo de olhos nos olhos entre tantos olhos a que somos invisíveis. Chegas entre mil rostos do metro, pequena e leve, oásis de vida para mim. Despertas-me pela modorra da tarde como se o dia começasse contigo. Antes de ti o tempo é uma cópia de todos os outros dias que nem parecem acontecer. Quando acordo sinto-me a viver o dia de ontem, porque nada muda até que te tenha.
De dia somos prisioneiros da desafogueada luta do mundo, sempre preferi a noite pelo silêncio de abandono e certeza de ser minha. Agora tenho também o pôr-do-sol. Tenho-te a ti.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Epifania

Tenho medo que me tenhas amargado. A nossa voraz e obsessiva paixão envelheceu-me quando os habituais pontos e vírgulas passaram a um assustador e fatal ponto final. Comecei a exigir mais de mim e dos outros, tentando recuperar em tudo o que uma só pessoa e sentimento me dava, tu.
Demorei a entender que por mais sociável, sucedida e amada que fosse, não tendo o teu silencioso sorriso e amor do outro lado, nada valeria assim tanto a pena.
Odiei-me por conseguir gostar mais de ti que de toda a gente que a cada minuto demonstra gostar mais de mim que tu.
Odiei-me por chorar no dia do lançamento do meu livro, por nem saberes que eu tinha, finalmente, alcançado o sonho da minha vida, o mais rapidamente possível para ainda arder em ti a frustração de não me ter.
Afastei finalmente a poeira que fomos dos meus olhos, sinto-me lúcida. Quero encontrar-me sem precisar de mostrar que posso ser maior que tu, sem ti. Muito do que me moveu a lutar foi a vontade de me sentires independente, madura, segura. Mas afinal o desespero de engolir a vida só me tornou mais nervosa e ansiosa, eu que outrora me destacava pela calma e sensatez.
Sinto-me maior que eu. Já posso ser maior que tu.

sexta-feira, setembro 14, 2007

running away from the sun

O sol está a perseguir-me. Disse ela em olhares-gargalhada. O sol parado na sua luz incandescente de fim de tarde. O movimento pelo movimento das coisas. Tornava ridículo aquele sorriso sobre uma perseguição policial com o sol como protagonista. Mas o sorriso dela não era ridículo. Era mergulhado de estrelas e hipóteses. A cada sorriso uma hipotética razão à escolha. Tinha um sorriso para quando estava feliz ou quando fingia estar feliz. Cada um peculiar para quem conhecesse os seus gestos e se desse ao trabalho de prescrutar o mais íntimo da sua alma. Na partilha atabalhoada de tantos sentidos. E o sol que continuava parado, veria a rapariga sorrir ainda mais uma e outravez enquanto fugia dele e de tantas outras coisas que não sei contar.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Sala de Espera

Como ver uma fotografia de um desconhecido, simples rosto sorrindo porque sim sou eu sem sentido e em silêncio. Chega, já são ésses a mais. Emudeci como se tivesse entrado numa sala de espera para um transplante de medula, uma sala tão cheia de rostos vazios e unhas roídas, olhos apagados de palavras. Ninguém fala, cada um ocupa completamente a sua cadeira direito e expectante, como pode haver vida se a morte está tão perto?
Deve ser isso. Entrei numa sala de espera e nada mais me resta que aguardar a vida, não vale a pena fingi-la enquanto não chega.

Espero que voltes antes do Inverno.

Sobre nada, paradoxo

Por dentro um abismo por fora uma muralha. Por dentro um mundo por fora o medo. Os meus olhos. Por dentro um turbilhão por fora um túmulo. A minha boca. Mais fortes que eu, por mais que a cabeça gire não há vida que se agite. Grita o génio por dentro e cala o medo por fora. "Nós não inventámos nada, está tudo descoberto" sentenciava Francisco desembaciando os óculos do fumo, palavras cambaleantes de vodka e voz arrastada pela madrugada, olhos-holofote do palco para mim.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Espelho

Há um espelho no mais fundo de mim que reflecte tudo o que fui ou quis ser, tudo o que sou e me esqueci de ser. Porque afinal, eu ainda sou aquele nascer do sol que ofusca a minha própria vista, o pôr do sol no cansaço dos dias de mim mesma, a dança que incomoda os outros no autocarro, um encontrão forte com alguém. O meu espelho em formato de quarto crescente cresce a cada nova aura de dia. Com aquilo que serei amnhã ou depois, ou até mais tarde. E o espelho iá reflectir difrenças e semelhanças entre mim e eu a cada recomeço, a cada sorriso e cada lágrima de cada paixão ou desventura. Só desejo que o meu espelho tenha sempre esse reflexo incandescente do teu olhar, mergulhado no mais fundo de tudo o que sou e serei.

quarta-feira, setembro 05, 2007

There she goes, there she goes again...

Autocarro, comboio, metro... Metro, comboio, autocarro. Arrasto-me adormecida mas logo as luzes e azáfama da urbe despertam e agitam a vida em mim, por pequenos mas rápidos passos vou ziguezagueando pelas ruas e tantos rostos iguais, o turbilhão da capital girando pelos meus olhos, montanha-russa. Infinito horizonte da minha janela, a Avenida da Liberdade.

Gosto. Sinto-me bem no meio de tudo, esqueço o resto, agora sou apenas eu e a cidade, ardendo louca e fugazmente como tabaco pela vida.

terça-feira, setembro 04, 2007

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

(Fernando Pessoa)

Marta?

"Chamava-se ela Marta
Ele Doutor Dom Gaspar
Ela pobre e gaiata
Ele rico e tutelar
Gaspar tinha por Marta uma paixão sem par
Mas Marta estava farta mais que farta de o aturar
- Casa comigo Marta
Que estou morto por casar
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo, deixa-me da mão
Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
Tenho talheres de prata
Que estão todos por lavar
Tenho um faisão no forno e não sei cozinhar
Camisas, camisolas, lenços, fatos por passar
- Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão
Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
Tenho uma cama larga
Num dos meus apartamentos
Tenho ouro na Suíça e padrinhos aos centos
Empresto e hipoteco e transacciono investimentos
- Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão
Casa comigo Marta
Tenho rédeas p´ra mandar
Tenho gente que trata
De me fazer respeitar
Tenho meios de sobra p´ra te nomear
Rainha dos pacóvios de aquém e além mar
- Casas comigo Marta
Que eu obrigo-te a casar
- Casar contigo, não maganão
Só me levas contigo dentro de um caixão"

Letra: Sérgio Godinho

sexta-feira, agosto 31, 2007

ten things I hate about you

"I hate the way you talk to me and the way you cut your hair. I hate the way you drive my car. I hate it when you stare. I hate your big dumb combat boots and the way you read my mind. I hate you so much it makes me sick. It even makes me rhyme. I hate the way you're always right. I hate it when you lie. I hate it when you make me laugh. Even worse when you make me cry. I hate it that you're not around and the fact that you didn't call.

"But mostly I hate the way I don't hate you. Not even close, not even a little bit, not even at all." (I guess that means she loves you right?Yes. )


Às vezes é tao verdade...

Retirado do filme "ten things I hate about you"

quinta-feira, agosto 30, 2007

Clarividências

Ao fazer amor com o próprio horizonte, apercebi-me que há sempre mais além, mesmo depois do último raio de sol. Que depois do horizonte ainda há horizonte a perder de vista, a sombrear a pintura que subjaz à vida. Explodi em gotas cristalinas enquanto beijava as linhas do mais além. Além ali. Noutro lugar que não é este. Que não é uma cadeira solitária povoada de previsibilidades. Uma praia ou uma floresta para onde me teletransportei, naquele segundo em que fiz amor com todas as coisas belas da vida. A vida e o próprio amor, mesmo no deserto de um único ser. Enquanto te espero para partilhar todas as maravilhas do mundo, incompletas sem o teu sorriso. Sem o teu beijo mesclado de sentidos, do tacto ao paladar dos nosso desejos. E o horizonte ainda a percorrer-me o corpo e a alma. No momento em que do alto de mim todas as coisas são possíveis. Como se tivesse asas e voasse dentro do meu ser com a leveza infinita de uma pluma. Como se pudesse estar em qualquer lugar que a minha imaginação conceba. Apenas ela me acompanha no silêncio quebrado de flores murchas e vidros partidos a magoar os pés. Apenas ela me acompanha em cada cena solitária do meu filme. Em cada minuto sentada na cadeira de uma sala fechada e sem luz. Afasto o olhar para dentro e, por momentos, o mundo está à minha imagem. Olha, neste momento é um mundo leve e azul, em que o tempo está parado. Deixa. Por favor. Deixa o meu tempo ficar parado. Deixa-me ficar aqui. Porque lá fora eu..eu não sei se acredito. Qual ateu sem Deus. Qual sonho sem sono. Apenas a imaginação forasteira e eu forasteira dentro de mim.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Tu

Tu não podes ser como toda a gente. Tu não és como toda gente. Mentirosos, perversos, mentecaptos, falsos, idiotas e mais alguns do catálogo das pessoas que todos conhecemos. Na tua imperfeição humana não pode caber a mentira e a traição ou o cheiro do perfume barato de mais uma noite sem rumo. Podem chamar-me ingénua ou doida. Eu sou doida, apaixonada pela vida e pela altitude das coisas. A altitude dos meus sonhos que irrompem pelos tectos e chaminés e voam para longe. Recusa. Tu não és uma ave de rapina. Pomba branca no muro do luar. No meio dos meus erros e dos teus não há espaço para a malvadez premeditada dos actos. No teu coração há luz e não escuridão. Fogo e não cinzas. Que alimento a cada madrugada com pensamentos que fazem sorrir ou trazem lágrimas pequeninas da fonte secreta do amor. De mim só tu me faltas. De nós somos um só. Num espaço de curto-circuito interno em que a felicidade passa por unir e jamais separar. Tu não podes ser como todos aqueles que conheci no passado. Porque tens marcada em ti a lealdade de outras eras e de outros enganos. Porque tens alma de sobra e amor quanto baste. Assim te escrevo quando a noite se apodera do meu ser, no medo que em ti eu não amanheça. Perdoa-me por parecer que em ti não confio. Apenas desconfio do mundo e de mim, da minha infantilidade absurda de ainda acreditar em coisas que este mundo deixou de acreditar. Na pureza e verdade das coisas. Na dedicação e finalmente, no amor.

quinta-feira, agosto 23, 2007

my wonder moon

Gosto das noites quentes de verão. Noites quentes de agosto em que apenas uma suave brisa embala os passos do meu caminhar. Caminho até avistá-la, máscara de luz no negro do céu. A lua. Adivinho-lhe a boca, o nariz e os olhos que os outros não conseguem ver. Ar de máscara antiga e imponente. Lembra-me o carnaval de Veneza, o carnaval que sempre foi a minha vida. Dou por mim a ansiar novas aventuras . E ao olhar de forma profunda a lua, sei que a centenas de quilómetros daqui, nesse mesmo céu poderás contemplar esta mesma lua. E sei que estás perto, o teu respirar na brisa de verão e o teu olhar reflectido na lua. Passeio em mim e estico os pés para tentar chegar ao sonho redondo do luar. Mas é tão longe, oh tão longe! Resta-me dar passos no quintal e sonhar com histórias e aventuras de sorrir que a noite me traz. Só ela me recorda quem sou e o fascínio da vida. Tão breve e bela, tão vã e valorosa. Rodopio de braço dado com os sonhos e recordo as palavras de uma música que toca na rádio. «Lua lua eu quero ver o teu brilhar». Salto e pulo e a lua parece troçar de mim. Dos . sentimentos e emoções. Quimera brilhante pousada no etéreo reino. Obrigada por esta noite. Por me mostrares a beleza simples de uma noite quente de verão. Em mangas de camisa e de coração aberto numa noite de luar.

quarta-feira, agosto 22, 2007

...

Vou contar-te um segredo: sinto a tua falta. Sinto aquela palavra que muitas línguas não podem traduzir. Saudade. A ti não te devolvo estas palavras porque não quero que oiças os meus lábios formarem esta palavra de mil faltas e de mil pensamentos. A tua boca está agora congelada num beijo perdido num qualquer tempo que já não é hoje. Separa-nos a gravidade da vida e do mundo nestes dias sem ti. Que são apenas isso mesmo. Dias sem ti. Em que sorrio ou choro como dantes mas em que a viva presença de ti é apenas um reflexo da memória de mim. Ridícula saudade. Igual aos livros que devoro apressada, em instantes que sem ti se transformam em eternidades. Sinto a tua falta. As amoras estão por colher no campo dos nossos corpos. A fruta agreste das almas continua espalhada pela herdade. E a saudade meu amor?Foste tu que a plantaste.Poderás ajudar-me a colher?

quinta-feira, agosto 09, 2007

Maomé

Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé... dizem por aí. Mas se não houver montanha o que acontece a Maomé?Morrerá de tristeza por não ter onde ir?Ou a solidão de ninguém ir ter com ele?Deixa a montanha Maomé corre para o fim da Meca das tuas ilusões. Beija o chão sagrado do teu amor a alguma Deus e sonha Maomé, sonha! Mesmo sem Montanha. E aí vai Maomé a Meca mesmo sem montanha ...

Summer Sunshine

Conspirou toda a noite para que me abandonasse. Acordei no silêncio de não ter de acordar, sem hora nem alarme, passava das duas da tarde. E o corpo fraco com fome de tanto tempo dormido sem saber se teria força para se levantar, e comer. Tanto me sentia em mim, cabelo enrolado no nariz, braços na almofada, que uivava o vento do outro lado da janela e ainda não o tinha ouvido. Quando de repente apeteceu um pouco de mundo e soube-o agitado. Câmara lenta no meu quarto, e tão rápida lá fora. Porque se exageram as pessoas num dia tão quente de Agosto? É o vento, louco, nervoso empurra tudo. É o vento. Esse uivar trocista da rotina que abafa a brisa quente da praia, aqui tão perto. E sinto-me tão lentamente que mais não consigo pensar que isto. Pequenas palavras com fome, não há frases grandes sem galão e torradas afinal.
A casa está muda. Ou talvez ainda não a tenha começado a ouvir também. Casa-de-banho. Um reflexo preguiçoso, feio mas irritantemente descontraído para quem do trabalho me visse acordar às duas da tarde. Gargalhada por cima do redemoinho selvagem de cabelo, que em mim tem personalidade própria. Sou um bicho. Sim, mas também nunca quis ser normal, que enjoo de palavra, ou então boa desculpa para quem não é bonita. Água no rosto e o corpo vai despertando aos poucos. I won't be comfortably numb. Sem querer despertar parece uma música de Pink Floyd ou um ritual espiritual. É tão fácil viver. Basta acordar sem pressa. E ser Verão.
"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma."

Fernando Pessoa

Contadora de histórias

Duas mulheres sentadas lado a lado no autocarro. Nas feições, o tom de pele denunciava a sua origem. Índia. A primeira, do banco da esquerda, tinha o cabelo solto e revolto e não ostentava sinais da sua cultura. À excepção de um jornal colocado debaixo da mala. O jornal era formado por arabescos. Palavras que eu não poderia entender. As vestes eram algo antiquadas e simples. Uma camisa comprida e umas calças castanhas. Enquanto o autocarro chiava pelas ruas a indiana, de pele cor de canela, sorria. Talvez sorrisse por desafiar as regras da sua terra. Na cadeira do lado, sentava-se uma velha. As suas vestes pareciam lenços que a cobriam, um brinco brilhava no seu nariz. Olhava para todo o lado e prescrutava a rapariguinha que sorria sem aparente razão. A carteira tinha elefantes dourados. Algo de cor vermelha surgia na sua testa escura. Em que pensariam? A mim pareceu-me ver reflectido nelas a modernidade e as tradições ancestrais. Ali, naquele autocarro onde mais ninguém deveria estar a pensar nisso. Onde raças e etnias se misturavam enquanto o autocarro abanava por todos os lados. Apeteceu-me não sair na minha estação e continuar a encontrar pessoas e reflectir nas suas histórias. Forjar as suas discussões mudas. Continuar sem conhecer as estações seguintes e perder-me por onde o autocarro me quisesse levar. Pelos bairros, jardins e fontes onde irei sempre beber desta fonte inesgotável; a imaginação. Com ela não sou só mais uma pessoa no autocarro. Sou uma contadora de histórias. E sou a própria história que criar.

Talk....

"I'm so scared about the future and I wanna talk to you" (Coldplay)

Would you hear?

terça-feira, agosto 07, 2007

pôr do sol no coração

Eu mereço mais. Mereço que faças isso por mim! O grito que lhe saiu assemelhava-se ao coaxar de uma rã. As palavras pulavam nervosas, talvez fosse essa a razão. Tentava equilibrar-se nos saltos altos e nas frases. Não és tu uma alma que tropeça sempre?Alma-escorrega a deixar-se levar até ao caminho do ser feliz.Não obteve resposta ao seu grito. Talvez se conseguisse crescer mais um bocadinho.Inchou o peito de ar. Pôs-se muito direita. Saltou de palavra em palavra e pendurou-se no seu pescoço. Mordia o lábio. Nunca chegou a saber a resposta dele. Ouviu algumas palavras em tom de concordância. Uns sim e uns talvez que nada lhe disseram do que estava dentro dele. Sim, lá dentro dele. Teria dito a verdade?Confiava, mas não conseguia ver. Já tinha caído dos saltos e esgotado as vírgulas. Escondeu o rosto onde chuviscavam ainda alguns sorrisos e se iluminavam, cada vez mais radiantes, as lágrimas. O mundo sufocava-a. O peso do amor a sufocar tudo.O mundo, as palavras e os gestos informes por colher. Os por-dizer, a baloiçarem no alpendre do peito e, os pôr-do-sol, a caírem de mansinho na sombra do coração

segunda-feira, agosto 06, 2007

escrito apressadamente na mesa do café

Entraste na minha vida pela porta da frente. Não por aquela pequenina nas traseiras do meu quintal. Foi assim que entraste também na minha vida. Em dia de vendaval num mês de Fevereiro. Os teus olhos, uma lareira. Aquecem-me. E ao meu olhar. Olhar sensível de uma suposta escritora. Dedilho o teu corpo e a tua alma como uma viola. Enche-se agora o sítio onde estamos: de música, uma melodia que apenas eu consigo ouvir. Na curva perfeita do teu nariz enrolo a minha língua e apercebo-me desta singela verdade de que és mais para mim. A infinita soma das emoções. Tu és emoção à flor da pele. És a pele, eu a flor. Não proferimos uma única palavra. O que estarás a pensar? Dúvidas e medos enquanto me apertas a mão por cima da mesa. Espalham-se talheres e tilintam copos. A minha mão treme ao encontro da tua. O meu corpo-íman que se encosta ao teu. Mesmo que mais ninguém acredite, eu descobri o amor naquela tarde de fevereiro. Em que abriste a porta da frente. Esse teu sorriso, a tua pele a florescer nas minhas mãos. A beleza gentil das tuas formas. O vermelho fica-te bem. Não sei se alguma vez te disseram. Tu, o maior suspiro do meu coração. E sim, saberia ficar sozinha. Em qualquer lugar sem ti sou apenas uma alma perdida, um copo sem água. Garfo sem faca. Tu que entraste pela porta da frente com o calor das tuas mãos nas minhas costas.

sábado, agosto 04, 2007

Desenho animado

Eras tu a mão que me desenhava entre saltos e gargalhadas que faziam tremer a sala. Eras tu que me ressuscitavas quando me caía um piano em cima. Tu que me pintavas de sorriso estúpido e voz esganiçada mesmo que estivesse triste. E eu ia caminhando de vinheta em vinheta em episódios burlescos, umas vezes ridículos outros espirituosos onde me davas mais cor e brilho, sempre com a certeza que serias tu a desenhar o próximo momento, que a minha vida partiria sempre de ti. Um dia deixaste-me a preto e branco, bloqueio de artista disseste. Mas tenho estado em branco desde então. Em silêncio os dois, vida e criador. Sem ti serei apenas cartoon de jornal, quotidiano, simples, seco, previsível, encolher de ombros "é sempre a mesma coisa", do homem conformado. Contigo fui obra-prima. A arte é assim, única, rara, e efémera.

Last goodbye

"This is our last goodbye
I hate to feel the love between us die
But it's over
Just hear this and then I'll go:
you gave me more to live for,
more than you'll ever know.

This is our last embrace,
must I dream and always see your face
Why can't we overcome this wall
Baby, maybe it is just because I didn't know you at all.

Kiss me, please, kiss me
But kiss me out of desire, babe, and not consolation
You know,
it makes me so angry 'cause I know that in time
I'll only make you cry, this is our last goodbye
(...)"


Jeff says it better.

quarta-feira, agosto 01, 2007

mentira

Se a mentira parecer verdade ou a verdade que me parece se revelar mentira, irás mentir-me que é verdade a mentira que contaste?

Fingimento

Há tanto que te queria contar mas não sei como te dizer. Escrevi uma carta que rasguei em mil pedaços. Revoltei lençóis e em cada pontapé no silêncio gritei desvairada na ausência de ti. Tanto para te dizer das incertezas. A boca colada e as incertezas na paragem cardíaca da fala.Há tanto para te dizer e não sei como. E os dias correm apressados numa maratona sem meta. As flores continuam a sua rotina, as árvores crescem e morrem, os pássaros cantam. E eu ainda não te disse o que tinha por dizer. Deixei-me ficar no sofá da sala e menti a mim mesma que não tenho receio. Que serei heroína de uma série que ninguém vai ver. De mim para mim na sonolência de outros dias que se irão arrastar, preguiçosos pela carpete. Calçados de dúvidas, calejados de medos. Quando te irei contar?

terça-feira, julho 31, 2007

tristeza

Voltaste. Trouxeste as incertezas das palavras que pedi mas não me deste, das primaveras céleres de cada infância da alma. A minha alma hoje está demasiado velha, demasiado madura, prestes a desprender-se de uma árvore e aterrar no chão. Estou prestes a aterrar no chão também. Dessa árvore onde fiquei à tua espera e tu não me vieste buscar. Tristeza porque voltaste? Arrastaste a melancolia contigo e voltei a sentir o aroma das lágrimas que não saíram por um triz. Continuo a guiar uma bicicleta pelo campo numa descida vertiginosa de pensamentos que acabam em curva. Tristeza vieste mais cedo. Corrompeste tudo à tua passagem e escancaraste as janelas e as portas. Não te esperava tão cedo mas não te vou servir um chá. Porventura é do calor que aquece as vidraças ou do meu vestido vermelho que roda ao acaso nas ruas desta cidade. O facto é que a tristeza hoje teve uma especial afeição por mim. Quanto a ti, saí da capa do teu álbum e fiquei à espera na árvore. Plantada a dez quilómetros de lado nenhum. Que é para onde vou com as linhas deste poema-prosa.

Há mais peixes no mar

A resposta veio em tom displicente. O corpo bamboleando ao som das palavras que tilintavam como as pulseiras. O olhar frio e sarcástico. Há mais peixes no mar. Bem podes nadar para outro lado. Naquela altura ele queria nadar na mesma direcção que ela. Não tardou muito que cedesse a uma dança e quando deu por si já dançava nesse mar. Ele não passava de um pescador com redes enormes de frases feitas. Caiu na rede e nas frases, enquanto tentava colocar vírgulas que a impedissem de cair no insidioso plano dos apaixonados. Estava tão habituada a dar cartas e pontos finais. Mas o pescador é que dava a linha e ela nem percebia. No fim também foi ele que perdeu. Não restava muito para eles. o pescador prometeu mas nunca cumpriu. O amor deles não era mar. Era um aquário. Um dia o vidro estalou. Ao acordar naquela manhã ela soube então: o amor não é um aquário. Mergulhou no mar com caudas de sereia e nadou nas frases feitas até às profundezas da sua vontade. No local onde o mar se abria em anémonas de luz e de sorrisos. Onde as caudas brilhantes de um peixe desconhecido douravam o silêncio de mil eras. Sempre havia mais peixes no mar. E no fim nunca mais quis aquários. Porque só no mar se aprender a amar.

Carrossel

A minha pele transpira o teu cheiro, o meu coração ainda bate no impulso das tuas mãos nas minhas costas, as bocas desafiando-se mais e mais, mordendo-se de ódio por se amarem. Adormeci e senti-te de novo, acordo e não sei se te vivi ou apenas te sonhei, o que somos parece a mais louca fantasia, obsessão disputada a quatro mãos, nunca realidade. O que quero não é a ti mas o rodopiar do vestido quando dançamos, o verde ofuscante no escuro da pista, a música que enrola o cabelo e enlouquece as pernas. Deixa-me girar sempre em ti, só sou vida quando te amo.

segunda-feira, julho 30, 2007

Cinderela

Dança. No teu passo desengonçado de cinderela abandonada. Já passam cinco minutos depois da meia noite. O rimel esborratado. O coração totalmente desmaquilhado, afinal com a noite caíram as sombras... e as esperanças, sem sombra de dúvida. Só a sombra da noite. E a cinderela que dança embriagada de uma dor que não tem nome. Dança com os braços em volta de si mesma, dança com a sua dor. Perdeu o sapato, o sorriso e o sonho. E dança com a solidão, a saudade e o silêncio. Não vale a pena perguntar pelo príncipe. A cinderela dança sozinha para esquecer. Numa dança sem música e sem passos definidos. Arrastando os pés pelo soalho que range.

Mãe

Era uma vez. Bem não foi só uma vez. Era apenas uma de tantas vezes. Os gritos que se atropelavam sem respeitar semáforos. Sons de portas que se fechavam e se abriam e se batiam com força. Já sem forças tento explicar-te ainda quem eu sou. Eu sei perfeitamente quem és. Estiveste naquela cama do hospital em que nasci de dentro de ti, parte de ti, peça infinita do teu mais escondido puzzle. Só que agora as peças são muitas, mãe, e já não me podes ajudar a encaixá-las a todas. Algumas delas nem sei se saberias onde colocar. Só tu continuas a gritar sozinha como se ainda estivesse presa a uma qualquer membrana do teu corpo. Fecho a porta em tom zangado. Escorrem lágrimas que ensopam a alma. Espirro. Será um espirro de dor da alma?Por entre os aguaceiros de lágrimas. Só as minhas lágrimas pareces não sentir, tu que dizes que fazes tudo por mim e eu nem ligo. Eu quero reparar mas preciso que repares menos em mim, que me deixes passar as paredes como os fantasmas, por vezes, sem que seja notada. Sem mexeres na minha vida e as minhas coisas. Pode doer, mas eu já não sou parte de ti. Somos dois afluentes, mesmo que acabemos por desaguar no mesmo rio. Eu gosto de ti , sabes? Até mesmo nas tuas palavras vestidas de dureza, por entre o teu cabelo loiro-pintado. Ergues as sobrancelhas. Não vais ficar sem resposta. Talvez seja mesmo uma filha da mãe. Filha da minha mãe. Só porque sou demasiado parecida contigo. Já te disse. Não encaixes todas as minhas peças. Mesmo que erre muitas vezes. Um dia este puzzle será completo. Não nos faças desaguar em rios diferentes.

domingo, julho 22, 2007

Lembra-te de mim

Lembra-te de mim. O medo corroeu os cordões dos sapatos e de repente mordeu-me o dedo do pé. De súbito poderias acordar e maquinalmente desfrutar um dia maravilhoso e ensolarado, sem que a tua mente se cruzasse (nem sequer uma vez) com um pensamento de mim. Nem sequer se iria cruzar, quanto mais um engarrafamento de pensamentos de mim ou um choque em cadeia, como os que às vezes tenho, de ideias de ti. Responde-me! Pergunto quase a lacrimejar e a gritar num sussurro que não parta louça. Um sussurro que não arraste tapetes ou interfira nas conversas de alguém. Afinal só poderia ser um sussurro, porque estou a pensar o que não tenho coragem de te dizer. Repito a pergunta presa na retórica do monólogo interior. Não quero que me percas no labirinto de ti. Tenho medo que olhes o céu e eu não seja nenhuma estrela, que não seja mais que uma chamada em espera no teu telemóvel, uma sombra de algo que ficou para trás mas não apetece pensar nem por um segundo, quanto mais um minuto. O medo já acendeu o rastilho e eu seguro-me ao corrimão para não escorregar, sigo com o coração a cambalear até ao final da escadaria das dúvidas. Fecho-me em copas porque esta pergunta não pode sair do meu baralho. Esta jogada eu não posso fazer. Ou irás jogar um cheque-mate mesmo que isto não seja xadrez. Eu não te quero prender. Apenas não te esqueças de mim. A cada dia, como se cada dia fosse um degrau. Não podes descer dois degraus de cada vez. Desce comigo os degraus. O medo levantou as antenas e grita cada vez mais alto. Ninguém mais ouve mas na minha alma-sirene os apitos seguem-se sem ter fim. Lembra-te de mim. Lembra-te de te lembrares de mim.

sexta-feira, julho 20, 2007

BRUXA

Corrige-me se estiver enganada. Como se fosse possível algum engano. Esbofeteia-a um calor infernal enquanto escreve as linhas de uma discórdia inacabada. Corrige-me se estiver enganada. Mas ela sabe que não está enganada, é apenas enganada. Por aqueles que não sabem ou sabem mas não querem saber de quem é. Porque ela é mais que eles, ela é grande, tempestuosamente grande, enorme, gigantesca, avassaladora, montanhesca e esca e esca e esca. E está tão cansada. Tão cruelmente cansada de recitar sozinha o monólogo da vida. Cansada cansada e cansada outravez. E se não está enganada preferia estar. O calor vai desaparecendo e dá lugar a um céu promíscuo malagueta-sangue a penetrar na carne com ventos que cirandam sem cessar. Os zumbidos do vento também não deixam margem para engano. A mudança está próxima. E ela não está de certo enganada. A mãe ensinou-a a escutar as rochas, os ventos, as luas cheias e as luas vazias da sua alma. Estudou escrupulosamente os astros e as madrugadas, os amanheceres e os significados da natureza. Conhece a leitura das mãos como a palma da sua. Tão pequena e de dedos finos onde os anéis baloiçam. Sente o poder da noite que chega e a lareira que arde aos seus pés. Ainda ressoa nos ouvidos o que lhe disseram, o que lhe chamaram, o que lhe quiseram fazer. Só que ela é forte, robusta, poderosa, poderosíssima e não está enganada. Está apenas só. irremediavelmente só.

domingo, julho 15, 2007

Sunset broke in my hometown

Arde a vida como o Sol na pele. Rastilho sempre prestes a beijar a bomba. Não somos todos um texto no último parágrafo? O medo não é the end, o medo é o fim. Que a vida se esgote sem se ter gasto.
Quando a emoção é uma data de números grandes, a vida é um calendário e o despertador está estragado. Gritem-me, porque acho que estou surda.

segunda-feira, julho 09, 2007

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"La vida es como la espuma, por eso ay que darse como el mar."

(in Y tu máma también)

Meninos perdidos

Desilusionei-me de ti. Os teus truques já não me fazem rir, pequeno mágico. Não há magia, não é de perlimpimpim o pó que restou, as palavras de data cada vez mais longe, quase iguais às que se amontoam na caixa de mensagens e hoje, és tão nome quanto o resto das mãos que para mim escrevem. Sempre fui descobrindo os teus truques, mas nunca pensei que me desencantassem assim. Porque em cada um deles vivia o teu imenso sorriso, grande demais para ser mentira. Mas era tudo ilusão, cega de vendas coloridas, baralhavas-me de ouros e lançavas-me espadas. Comigo não jogas mais, pequeno mágico. Pudesses tu abraçar-me e viver quem sou, sem mais inventar. Pudesses tu tirar da cartola um sonho que fosse mesmo real. Não podes. Não consegues.
Apago a luz, e não há mais palco para ti em mim.

domingo, julho 08, 2007

noite perdida

A noite estava perdida, não sabia como se encontrar, vagueava sem destino enquanto a lua austera piscava o olho com ar vaidoso. A noite procurava o amor, que tinha cozido à sua sombra há tanto tempo e com tantas linhas. O amor astuto passou anos a tentar livrar-se das linhas e finalmente tinha conseguido. E agora a noite tinha perdido as estrelas e a gravidade flutuante de todas as coisas havia desaparecido. Só um silêncio-toupeira, vindo do mais fundo da terra cercava todos os monte e vales que a noite percorrera vezes sem fim, cozida ao amor por linhas invisíveis. Só agora sentia no seu vazio de estrelas a plena certeza de que qualquer encruzilhada era mortífera sem amor. Iria encontrá-lo, talvez um dia, mergulhado noutra claridade que não a lua que os havia iluminado, num charco de água ou em qualquer outro lugar. E para uma noite perdida que não se conseguia achar só restava ver o sol raiar e voltar para a toca até um novo amanhecer. Apenas mais um no rol dos dias, embrutecido pela falta do calor e da volúpia do amor, cozido ao sonho e à noite por linhas tão ténues que acabaram por ser quebrar na quebradiça roda viva da vida.

Estrangeiros

Eram loiros e magros, brancos de chuva. Falavam inglês de olhar azul gélido sem olhar para o outro. Ela tinha ombros ossudos, olheiras cavadas e escuras, ponto negro na típica beleza britânica. A pele enrugada traía os jovens calções amarelos e t-shirt branca. A boca era fina e sem lábios, o quadro (im)perfeito de um semblante rígido mas nervoso.
Comiam gelados de cone-bolacha e morango, iguais. Ela mais voraz que ele, o pequeno e magro pulso tremia de gula e a cara ficava mais sulcada e velha quando atacava o gelado, mordia com raiva. Ele nem reparava, era igual em cor mas com ar vivo e decidido. Comia com calma contemplando o mar. Sentaram-se na mesa em frente à minha, ela na minha direcção encostada ao vidro e ele duas cadeiras de distância dela do lado oposto.
Só se encontravam em viés, como se estivessem chateados. Se calhar até estavam. Ou talvez fossem apenas mais dois amantes que não se sabem ver.
"She was the saddest girl to ever hold an ice cream".

Singular plural

Preciso da cafeína de gargalhadas de mesa cheia, a tua viola na relva e as nossas vozes pela minha música, a campainha às onze da noite e uma madrugada a falar de pijama nas escadas, mensagens às quatro da manhã, horas ao telefone, saudades diferentes de chamar o mesmo nome, o meu. E "nunca estou menos só como quando estou só".

sábado, julho 07, 2007

Monótono

Quando entrou em casa, a mala não chegou ao quarto. Lançada pela raiva ao chão ao pé da porta ficou. O corpo caiu na cama, cansado, esquecido de lutar, mais uma semana terminada, e que deixava? Nada. Apenas um estranho fim que não é ainda ponto final, só o arrastar do nevoeiro. No fim-de-semana o fim do ano, do curso, tanto tempo e o estágio porvir, tanto porvir, tanto medo. Um fim que não passa para um papel diferente, o que procurei ainda não cumpri. Um não-fim de palavras monótonas. Cai o pano sem palmas nem encores. Será a próxima peça pior que esta?

sexta-feira, julho 06, 2007

O autocarro dos últimos

O autocarro dos últimos a deixar os amigos, a noite, as luzes ofuscantes de vida, que se arrastam por medo das paredes brancas sufocantes de casa todos os dias igual. O autocarro dos últimos esquecidos a rir pelas horas. Deixam todos passar para apanhar o último caminho das onze e meia escuro e vazio de pessoas apressadas, todos têm cara cansada mas feliz por ter queimado todos os cartuchos antes de guardar a arma. Dormir só quando se está a morrer de sono.

Escrever

Corre-te nos dedos sem que possas impedir, mesmo que não gostes, é o que vive na noite, na música, em cada abraço. Já não consegues estar sem pensar "eu podia escrever isto". Encontrar o indizível, mergulhar no mundo pela vertigem das palavras, tontura de tudo gritar e suspirar de vazio. Queres deixar a vida escrita antes de morrer, não acreditas que é impossível.

Sintra

Sintra anoitece comigo. Traz-me o silêncio que encho com música. Devia estar em todo o lado e estou em lado nenhum, esquecida numa paragem de autocarro com o palácio defronte. A música sobra-me dos ouvidos e sussurra nos outros como a minha voz mais alta sobre a mesa cheia e as palavras que me levam onde nunca chegarei quando me perco sozinha. Amo o poder que tenho nos outros e desespero por me ter, ainda não foi inventada a minha palavra, o meu abraço.

quinta-feira, julho 05, 2007

Inventar contigo

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"Encosta-te a mim,

nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
(...)
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo pra sobreviver em nome da terra,
no fundo pra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo..."

Jorge Palma

Comboio

Éramos nós mas como se não fosse. Falávamos todas ao mesmo tempo. O comboio corria pela loucura das nossas vozes. Palácios praias prédios montes vales e nunca parava como um cavalo galopando e fazendo a paisagem desviar-se.
Passou a tua casa, a minha, a dela, perto tão perto e tão rápido para não as termos, e tão distantes naquele comboio foram um piscar de olhos. Carregávamos no botão de saída e as portas não abriam, o comboio cada vez mais montanha-russa. Ao desespero juntava-se o medo, sem rumo nos lançava o comboio, o tempo crescia em dias mas nunca era de noite. Lá fora o sol parecia sempre meio-dia altura normal para andar de comboio. Mas nós sentadas numa carruagem de repente vazia como sempre que se escrevem estranhas viagens sentíamo-nos mal como se tivesse passado da hora de jantar e adivinhássemos as testas franzidas dos pais.
Sei que me encostei a ti e ela deu-me a mão, chorámos tudo e pensámos igual num lugar onde parar, faltaram só os sapatinhos da Dorothy. O comboio não obedecia à nossa ingenuidade de contos infantis.
"Estás a sonhar, Fátima, não percebes? O comboio só pára quando quiser, elas nem estão contigo". Mas não, mandei mais, acordei. Comboio nem pesadelo nenhum me levam onde posso ir sozinha.

quarta-feira, julho 04, 2007

Sem título

Eu sabia. E deixei-te ir. Entrei no comboio e não olhaste para trás. Eu senti. E mesmo assim deixei-te ir. Não sei como seria se a vida nos tivesse dado tempo, mais tempo. Talvez tivesse acontecido o mesmo. "O amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura"... Naquela altura apenas nos teríamos asfixiado numa desesperada luta por ficarmos juntos apesar de todas as contrariedades. Distância e teimosias. Tu querias estar do meu lado, pertencer ao meu mundo. Eu queria que continuasses do outro lado do passeio. Só podias passar quando não houvessem carros. Mas a espera cansa. Hoje já não espreito todos os lados da estrada com medo dos outros. Estaria bem ao teu lado, de novo. Mas não vou fazer nada por nós. Se tudo começou por um mero acaso, espero pelo meu caminho ser encruzilhada contigo. E se comecei a escrever pensando que as minhas mãos estão vazias sem ti, acabo com a certeza que ainda me vais dar a mão outra vez, com muita força, para que passe a estrada sem fechar os olhos e a correr muito depressa.

terça-feira, julho 03, 2007

Twilight Zone

Com o olhar separei quem me distanciava de ti. Obedientes ao íman dos corpos. E logo se descobriu um corredor entre nós. De súbito vislumbro cabelos diferentes, uma nuca desconhecida naquele amontoado de rostos amigos. A música parou. O coração lutando contra o peito queria sair. Ela virou a cabeça. Tu levantaste a tua. E no instante em que a música voltou senti-me a tocar todos os momentos em câmara lenta, o nosso café e ela estranha como uma personagem no filme errado, eu tinha acabado de chegar à Twilight Zone. Olhaste-me. Ardia o prazer da sua ingénua presença, teus olhos nos meus, cumplicidade incendiada de pecado. Olhares ping-pong para ti vértice centrífugo do triângulo da paixão. Dançavam os nossos rostos onde te beijei e agora lhe sorria, hipócrita. E ela a onda pra lá e pra cá na nossa tempestade. Se te beijasse agora, teriam de nos matar como às personagens que engravidam inesperadamente numa série. Qualquer escritor já nos teria enviado numa viagem sem retorno para não se preocupar mais com a nossa estória, não há fim possível para quem estremeça assim o mundo. Somos perigosos juntos.

segunda-feira, julho 02, 2007

Pai

Nunca te vi de olhos tão vermelhos como hoje. Tu a imagem dos meus livros de História, o menino descalço da aldeia, o combatente do ultramar, o autodidacta, construtor da sua própria casa e oficina. Nunca te vi com tanto medo que a vida te puxasse o tapete da certeza, essa palavra que também em mim martela como a banda sonora da tua, nossa oficina. Na maca do teu primo viste a morte a passos curtos, e o amargo sabor da doença no horrível cheiro do hospital. O teu negócio é o acidente, é a desgraça marcada na chapa dos carros. Nunca gostaste de cobrar mão-de-obra, sabes a estória por trás de cada acidente, vês a fundo cada cliente que chega a reboque de olheiras fundas e olhar perdido no dia seguinte de compromissos inadiáveis e a vida presa por um azar. E até emprestas o teu carro se for preciso. Quando saímos, encontramos sempre alguém que te cumprimenta com a animosidade de quem bebeu uns copos contigo ontem. Tens amigos do Porto ao Algarve pelo teu bom carácter. Mas impacienta-te que te liguem ao almoço, que te procurem a toda a hora, e com quarenta anos de capital foges quase todos os fins-de-semana para a tua aldeia, o teu verdadeiro mundo. E é na aldeia que sorves o dia até ao último minuto, de lés a lés a percorres a pé e ainda conheces todas as casas, pessoas, campos e vales. Dizes que a vida não vale dietas nem limitações. Comes e bebes às vezes como se não houvesse amanhã. O suficiente para aquela gargalhada que faz balançar o teu banco e ressoar por todo o café. E eu umas mesas ao lado, digo orgulhosa aos meus amigos "lá está o meu pai", o mais feliz, o mais lutador, para mim tão calado. O teu orgulho é para mim silencioso e aos outros contado de voz e cabeça alta. Sabes que sou igual a ti, não gosto de elogios, fazem-me parar. Gosto do medo e do desafio, como tu. Esse medo que não nos deixa dormir. Pela quinta vez esta noite te levantaste para beber água, e eu do meu quarto espreito os teus passos. "Não dormes pai?" "E tu?" Pois.
Deixa que não precisamos da voz para falar. Toda a gente diz que tenho os olhos do pai.

Os teus olhos naquela noite, tudo que ainda não consegui escrever. E a tua mão num aperto que se contorcia dentro de mim, tontura de me debruçar para te beijar. Porque me perco sempre em devaneios sobre desejo quando escrevo? Não há nada mais vivo que sentir um outro por mais carnal que isso possa parecer.
O táxi estava escuro, uno com a noite, que nos levava por onde vibram as mais poderosas e fugidias sensações. E tu deitado no meu colo. Intenso o nosso brincar de dedos, amar só com as mãos.
Será como o caleidoscópio dos meus olhos beijar-te, fogo de artifício em mim? Tão forte que prefiro adiar, que não seja no entorpecimento da noite mas na certeza do dia.

domingo, julho 01, 2007

Caleidoscópio

Tapo os olhos com muita força e do escuro estalam jogos de luzes como fogo de artifício no girar de um caleidoscópio. Nada mais vejo que estas ilusões do meu cérebro. Mas é assim viver. Montanha-russa, os teus dedos tatuagem vermelha na minha mão, sensações até ao orgasmo da vida. O meu corpo não é um sistema formatado de ordens e regras, é uma explosão cósmica, estrela cadente, átomos e moléculas em choque e metamorfose, não digerem sopa nem processam horários. Não vou conseguir ser autómato por mais que o caminho do dinheiro e acordar sem medo seja por aí, a estrada sabe-me melhor se puder fazer a curva no último minuto e viajar por sítios a que nunca fui e posso nem voltar. Para o mundo o dinheiro e o amor só importam quando são trocados. A vida só treme na pele e explode em lágrimas quando morre. Para mim não. "Cada dia é uma pequena vida", e deixo que morra se quiser, o marasmo assusta-me mais. Quero ser sempre mais e menos como uma pilha que mesmo perto de se esgotar, dá tudo da sua energia.

quinta-feira, junho 28, 2007

Estávamos os três como sempre na mesa ao lado do balcão a rir para garrafas douradas de cerveja. Toda a gente se sentava um bocadinho connosco atraída por aquelas loucas gargalhadas maiores que a música que tentava fazer mais barulho que nós. Toda a gente se sentava um bocadinho na cadeira de sobra em que apoiávamos os pés. Toda a gente acabava por se levantar por não nos conseguir acompanhar. Até que ela irrompeu pelo café e tremeu o chão das botas bicudas e decididas. Os teus olhos assustados nos meus e dei mais um gole na cerveja. Saíste da mesa chateado e arrastado para o canto pela sua cena de filme barato e decote fundo. Todo o café se virou de nós pra vós como se a televisão tivesse mudado de sítio. O canto em que sempre estavas com ela antes e eu era só mais um na mesa de vida não tão estridente como contigo. Ela sempre te quis roubar de nós. Sempre te quis fazer esquecer que nos precisavas para ser só ela o teu mundo. E quase conseguiu.
Os nervos as cervejas e o corpo dela contra o teu, de relance me olhavas eu que continuava a beber como se nada fosse. Não te sou nada, sempre tiveste medo dos meus lábios, de ficar preso a eles e nunca mais partir, tu o capitão romance de ornatos violeta, “não procuro quem espero, o que quero é navegar”. E ela desesperada à força te quis esconder nos seus braços e nunca mais largar. Beijou-te e soube a nada, mais tarde me contaste. Chega!; gritaste por cima dos seus acriançados soluços, e o nosso simples café a viver uma telenovela. Chegou pra mim também, levantei-me e puxei-te por um braço, “até logo, malta!”, e saímos os três do café. Em silêncio, sem mais. Para que não morresse assim nossa noite, numa cacofonia punk de uma criança em botas de cabedal e lágrimas de rímel, ridícula. Entrámos no carro, e acelerámos para longe de Lisboa. "Os serões habituais, e as conversas sempre iguais, os horóscopos, os signos e ascendentes, mais a vida da outra sussurrada entre dentes, os convites nos olhos embriagados (...) e há quem diga que nunca foi boa, a canção de Lisboa. " (JPalma)

Crusoé

Dormir, esquecer-me de ti pelo menos até amanhã. Fugir sem rumo da ilha em que deixaste. Serás tu o náufrago de longas barbas quantos anos de solidão e pele de pescador estragada pelo Sol, tu frágil e nu e o tempo tão cruel, sem cabana ou casa na árvore que não se desmorone nas noites de tempestade, todas as noites. Serás tu o náufrago que o mundo se esqueceu de salvar e gravar no mural dos Antónios e Josés explodidos em combate, serás tu, mesmo que eu me sinta mais perdida que nunca.

domingo, junho 24, 2007

Transparente

Não gosto de portas, nem de chaves. Sempre me esqueci para que lado fechava e abria, direita abrir esquerda fechar, será?, sempre tentava abrir de qualquer maneira e à sorte entrava em casa. Até dar indicações para a minha rua me irritava, afinal não ia dar tudo a todo o lado? Siga até ali e depois é fácil, é uma casa amarela. Uma casa amarela. O meu Sol por entre as ruas sete ou oito vezes os meus braços abertos, como media eu. De pequenina me tremia a cidade nos olhos e se revolteava no estômago em náuseas antes de ir prá escola. "Senhor doutor, não é normal, a menina fica sempre nervosa antes de ir prá escola." "Coitadinha não terá ansiedade com cinco anos. Vamos fazer exames". Fizemos. Eu e as máquinas, os médicos nunca fazem nada. Tinho a válvula não-sei-quê apertada, "ela não regorgita de nervos, é o estômago, coitadinha". Coitadinha, coitadinha, tinha de ser palavra de médico. Não me cabe o mundo assim de repente, tenho de o mastigar devagarinho. Que raiva de me sentir frágil, os olhos da minha mãe por todo o lado, todo o medo dela pelo que eu não tinha, exagerava-me à mesma. Eu queria viver o mundo. Logo percebi que era mais colorido que os livros da escola. Da escola. Os outros não. Os outros devorava louca e voraz como chocolate. Chocolate. Sou alérgica ao chocolate. Sabe-me tão bem mesmo sendo turbilhão no estômago, às vezes cólicas ao outro dia. Mas era tão bom ficar em casa, não pentear o cabelo e andar de pijama todo o dia a chá, bolachas e desenhos-animados.
Uma vez a professora de português pediu-nos para contar um sonho estranho. (Toda a gente tem estórias com as professoras de português, não é?) Eu tive um sonho azul. Saía à rua e o mundo era azul, como se vê do espaço, como se estivesse debaixo de água, como imaginava Atlântida. A professora sabia que eu não estava a inventar. Podia, era capaz, mas não estava. Sonhei azul como no livro de símbolos, azul é sonho. Como uma falha nas cores do meu cérebro. Escrevi o sonho o melhor que me lembrava e sempre mais um bocadinho. A professora sorriu e disse que eu podia fazer melhor.
Na inocência a verdade e o azul, dizia eu que não queria ser adulta, parece muito cansativo. Incertezas da infância certezas hoje, a corda bamba dos sonhos lançou-me num trapézio sem rede. E agora? Vou engolir o mundo, mesmo que o estômago continue apertado.
Percorres-me num arrepio, como comboio perdido e não ter tempo de dizer adeus, estranho ver-te.
"Já vivemos tempo demais para correr o risco idiota de nos apaixonarmos", escreveu-me António Lobo Antunes.

quarta-feira, junho 20, 2007

Escrevo-te rápido muito rápido para não ter tempo de apagar. Correm nuas as minhas palavras para ti. Chegam-te sem poesia nem pontos finais, atropelam-se no pequeno ecrã, que falta d'ar, "toquem-lhe rápido ond'eu não chego".
Saberás assim ler-me sem o teu sorriso a bailar no meu, nas mãos correndo por letras tudo de mais louco sem metáforas nem eufemismos, quando o amor explode sem sentido, e fujo do silêncio num abraço?

Possodizerquet'amosemtemponemespaçonemolhosdetebeijar?

segunda-feira, junho 18, 2007

"Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?

Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?..."

Álvaro de Campos

sexta-feira, junho 15, 2007

Analfabetismo emocional

Iliteracia sentimental. Analfabetismo emocional.Depois da conferência as cadeiras foram ficando vazias. Falar sobre a política nacional ou internacional era para ela como sopa no mel. Canja. Só gaguejava na amena presença da voz do estagiário. Só corava na presença discreta do novo funcionário, que a tratava por doutora e desconhecia que tinha mais poder do que os deputados que a enchiam de perguntas. Agarrou no casaco e percebeu. Nenhum dos cursos da treta que tinha tirado iria alguma vez eliminar aquele desconforto na alma, o corpo a sair do corpo e a devorar-lhe a alma de desejos. A alma dela icendiava-se sobre a capa austera do casaco cinzento que usava nas ocasiões formais. O rapaz trouxe o café e quem observasse a cena de longe perceberia. como os olhos dela enrubesciam, como as maçãs do rosto brilhavam. Viajava veloz pelo vento a voraz volúpia. E num mundo de v's só não vê quem não quer. Talvez ela tivesse ouvido o que pensei. A dada altura chamou o estagiário e na sala de conferências vazia deu a palestra que mais ansiava. Mas para a qual estaria certamente menos preparada. Ele percebeu o analfabetismo emocional da sua interlocutora, e juntou o aeiou dos corpos, às vogais juntou consoantes que se encaixaram em cada milímetro do corpo-alma. Ela sempre foi uma boa aprendiz. Ele sempre gostou delas mais velhas e mais maduras. Mas ali nem a idade contava porque o tempo perdera a forma, massa informe suspensa nas linhas de uma agulha que não começou a cozer. Assim é o tempo dos amantes, um poema incabado, um intermédio que não chega a ser fim, um para sempre que pode durar apenas escassos segundos.

Temps des Cerises

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Era o tempo das cerejas. Pequenas vermelhas deliciosas e sempre tão pouco. Como as horas contigo as cerejas desaparecem por mãos irrequietas e bocas gulosas. Meus dedos loucos de ti e lábios-sangue de te beijar. Cerejas como pés pequeninos rápidos a chegar a ti. Chega noite que te traz. Passa lento o dia que te espero. Espero o dia pela noite e a gargalhada que em nós explode. Explode rotina estilhaça-te mundo e agarra-me, ficamos em nós que amor não tem chão. "No bairro do amor, a vida é um carrossel"...

domingo, junho 10, 2007

Insomnia

Era como dormir na rua. A sensação que o escuro se prolongava até ao cão que ladrava às três de manhã e os lençóis tão frágeis numa noite de Junho. Gostava mais do Inverno, podia dormir com mantas e cobertores grossos sem que a mãe refilasse ou proibisse aquela estranha mania. Não tinha frio, nem suava muito, era uma maneira de se sentir protegida.
Assim, sem sono, e sem se poder esconder nas mantas, não ia adormecer.
Quando era pequena fingia que debaixo dos lençóis era o mar e tinha de aguentar sem respirar para um dia nadar como os primos debaixo de água. E arrastava o corpo para o breu sentindo o macio dos lençóis na barriga.
Inventava histórias para cada noite que ficavam só na sua cabeça e adormecia cansada antes de poder dar um fim ao seu filme.
Hoje as histórias na sua cabeça são tantas que não a deixam dormir, são reais e voltam teimosas ao acordar.

sexta-feira, junho 08, 2007

Desde que não vens

Noite apagada de vida e puzzle desarrumado. Peças perdidas que confusas me lembram o que sou desde que não vens, saudade. Carris na praia e mar na estação, a roupa que não usavas nesse dia em que acordaste às 6 da manhã irritado de distâncias e teimoso viste o país passar para me ver, e eu que me atrasaria para te beijar às nove. As datas esquecidas e tanto querer escondido na azáfama dos dias. Tu em cada livro e filme a balançar na mala. A mala violenta nas pernas, censurando-me os dias pesados, cansados. Agitados. Mesmo assim a vida sobra. A maior peça do puzzle eras tu.

quarta-feira, junho 06, 2007

Caminha como se não conhecesse a gravidade, em passos largos e quase dançantes. Do fulgurante metro para correrias nas passadeiras sorri distraída entre a música e os seus devaneios, e nem o carro que quase atropelou a sua vibrante vida a perturbou.

quinta-feira, maio 31, 2007

Meu espelho

Acordo, entre a almofada o telemóvel, a rebentar de mensagens, tantas de pessoas que precisam de mim, às sete, oito, nove da manhã. Vens almoçar, sim, não, vens ter comigo à tarde, trazes o gravador para a entrevista, a máquina para a reportagem, o meu elástico do cabelo, o lápis que deixei em tua casa. Trago o mundo na mochila e o medo de todos no telemóvel. A tua mensagem de nome maior destaca-se das outras. Como eu corres de corpo em corpo por abraços fortes de deixar tudo de ti. Cansas-te, os outros cansam-te. Eu gosto de te saber ansiosa e louca de vida, inquieta e maior que o tempo. Encontro-te invisível no ecrã preto e branco mas tão colorido do teu sentir, um espelho de mim. Contigo vejo-me e vejo-te entre caminhos diferentes de um viver igual. Quase igual. Tu, que me seguras para não partir.
Bebo-me até me embriagar de mim, até me odiar e gritar tudo o que dói. Vomito-me até não poder mais comigo e a frustração que pesa, cansa, se arrasta, me arrasta. Acordo sem horas, vida adiada, esquecida, anestesiada, sem mim, melhor.
"O que foi do corpo num turbilhão?
(...)
Só meras, brisas, raras..."

Clã

Enchias as minhas horas de gargalhadas e a mão de saudades. A mão no telemóvel ansiosa com os olhos. Eu era o mundo dos teus olhos. Esperava-te escondida no vão da escada (e tu assustavas-te sempre para me fazer a vontade), passavas horas na estação pelo meu comboio, beijavas-me entre abraços fortes de não me querer deixar partir. Hoje entre olá e adeus ficou o que vivemos. Pouco, silêncio. "Foi melhor assim", disseste tu.

segunda-feira, maio 21, 2007

Volver

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"(...) Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a encontrarse con mi vida
.
tengo miedo de las noches
que, pobladas de recuerdos,
encadenan mi soñar.

Pero el viajero que huye,
tarde o temprano detiene su andar
Y aunque el olvido que todo destruye,
haya matado mi vieja ilusión,
guardo escondida una esperanza humilde,
que es toda la fortuna de mi corazón
. (...)"

A gravata aperta-te o pescoço, os olhos escondidos no escuro dos óculos de sol, e a boca inerte, não sorris direito ao volante, tudo é um sufoco de imagem, um aparato. A única fotografia que tenho tua passado dois anos, é apenas mais uma mentira. Sempre pensaste que eu queria mais do que eras, que não me chegavas. Sempre te forjaste comigo.
Não tiras os óculos porque os olhos te denunciariam. Sempre falaram melhor comigo que tu. O medo, quando me dizias "eu volto prá semana, vou arranjar dinheiro". À distância te constróis e não me queres ver até inchar de orgulho. Para os outros é muito mas eles não sabem o que já quiseste ser. Quiseste um curso que a boémia te roubou e sim, eu também. Lutaste por mim, não por ti. Em fúria te acabas num trabalho que não te dá vida mas nome. O que é um nome se for apenas assinatura nos papéis desarrumados da gaveta? O teu nome será mofo antes da reforma.
Não te quero encontrar. Deves cheirar a papel e notas gastas no bolso. Deves ter as mãos amarelecidas de dinheiro e dentes sujos de café. Deixaste o Acqua de Gio das surpresas. Mãos no meu rosto, quem é? És tu, sei bem. Eras tu a descer da segunda carruagem. Deixaste-o por outro perfume tosco e forte, de Homem como me disseste tu. Sempre te perguntei pelo teu perfume. Quando me telefonavas imaginava-te de jardineiras e inspirava Acqua de Gio de dentro de mim. Imaginava-o meu, ainda na camisola.
Nunca usaste gravatas, gostavas de jogar à bola todos os dias, e agora só tens tempo para ver televisão. Na fotografia a tua gravata nem cor tem, azul escura confunde-se na estofo do carro. És apenas mais um rosto à espera que do sinal verde para passar.
Tenho tanta pena de ti. Estás outra vez a lutar por mim, não por ti.

sábado, maio 12, 2007

HardCore

Morre. Era mais fácil se morresses. Ou vai para fora da Europa onde quando eu estiver acordada estejas a dormir e as chamadas custem uma coca-cola no Hard Rock. Afasta-te. Vai, não sejas palavras de saudade e amor sem boca, faz-me tanto mal como uma tablete inteira de chocolate. Toca-me. Shot de vodka incandescente seria agora o teu beijo. Arde-me. Tiro fatal e orgásmico. Sente-me. Sem te beijar não te quero mais ouvir. Morre.

terça-feira, maio 08, 2007

Quem me dera estar na Jamaica

Há dias que não são bons. Há semanas que se espremem mas não deitam sumo. Há sonhos que saiem pela chaminé em forma de fumo. Há corações apertados entre mãos vazias. Sentada num canto, tece uma colcha de tristezas que já tapa toda a cama. As lágrimas fugiram pela janela, o rio secou. Mas o mar do peito parece querer rebentar no paredão. A alma solta um gemido abafado, mas toda a gente o consegue ouvir. Há dias assim, diz um coro em surdina. Pega-se no carro mas de que serve?Não há para onde ir, apenas uma verdejante solidão cobrindo os passos, as montanhas e os vales de cada um destes dias arrancados à força do calendário. Que demoraram a passar. Se o carro não vai para lado nenhum, não vale a pena esperar o autocarro. Ele não apareceu ou perdemos o único desta plácida manhã. Não, eu nem tenho jeito para escrever. Estou a abarrotar de letras que não querem sair, de lágrimas que não querem ser choradas. Lágrimas que pensam e que imploram para permanecerem quietas e escondidas. Os dedos martelam furiosamente para tentarem ser mais rápidos que a água que quer preencher os olhos. Hoje não vais quebrar a promessa. Não vais chorar nem alimentar desesperos. Fica apenas sentada na cadeira que te mostra o teu pequeno e enfadonho mundo. E não esperes mais porque quem espera desespera. Ama e sente o coração encher-se de ar. Sorri mesmo que tenhas de morder o lábio quando o fazes. A culpa no fundo é tão tua. E as letras hoje tiraram férias. Desistiram de te entender também. Letras na jamaica, na boca do inconfundível sotaque melodioso dos que habitam as margens da despreocupação. Só tu prescrutas o vazio de olhos maiores que o mar e imensos como o mundo. só tu mexes furiosamente no cabelo e tentas a todo o custo não chorar. Enquanto os outros estão na Jamaica das emoções.

segunda-feira, maio 07, 2007

Torpes emoções

yeah_thumb.jpg

Sou emoções a conta-relógio, sempre prestes a explodir de tão ansiosas e intensas, atropelando-se violentamente. O coração parece martelar os dedos a necessidade fulgurante de não parar. Vivo rápido demais, hoje roubaram-me um ano de irresponsabilidade e amanhã tenho de trabalhar, afinal não soube desistir, atrasar teorias de exame de vida marcado ou fugir.
Ziguezagueei pela inconsciência sem me perder, à beira do desastre sempre me segurei - mas só no último segundo, triunfal, como os heróis nos filmes. Noites enlouqueci farta de fingida perfeição e insana me embriaguei até não me sentir. De mãos nervosas o copo esvaziava esquecendo-me de ser até ao fundo transparente, onde descobria o meu desfocado espelho, olhos desistindo de abrir. Desfocada estava já essa torpe e frágil barreira de loucura, mas maior era o desejo de a quebrar, de me desafiar.
Deambulando ruas arrastadas de riso louco e genuinamente feliz valia a pena o fulgor ininterrupto de cada dia. Cada noite como cada dia, sim, vivida até à vertigem do sono, o sol tão oposto à lua. Acelerei a vida porque me parecia fugir, porque não tinha tempo para ela. Live fast, die young.