segunda-feira, maio 30, 2005

Notas soltas num momento


 Posted by Hello
"Momento é, por definição, o instante irrepetível. A música é, pois, ainda que de forma estranhamente parodoxal, a arte de tornar perene o momento, estruturada que é no conceito de tempo e da repetição encantatória deste."

Pedro Abrunhosa, in "Momento".

Porque afinal a música é o suspiro da alma, o grito do coração. É o eufemismo do sofrimento, da loucura, o canto de uma lágrima ou de um sonho. A música beija a alma que treme e chora, abraçando-a na adversidade e sorrindo com ela na plenitude, eternizando um singelo e raro momento de harmonia, fugidio, mas suficiente para se tornar inesquecível... Porque, afinal, o que é a felicidade senão pontuais momentos de euforia que se perdem no tempo, nos subterfúgios da memória e do inconsciente...? A música é a arte que exalta e eterniza o instante em que um sorriso se começa a desenhar num rosto sonhador e perdido, o brilho de um olhar preso num passado feliz na desesperança de um presente vazio e um futuro incerto... a música embala lágrimas num sono de tranquilidade, pinta risos em telas de encantar, soltando notas agudas e graves ao sabor da inconstância do eu.

"Eu não sei quem te perdeu"


 Posted by Hello
Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
«Não partas nunca mais».

E dançou, rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.


Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.


(Música e letra de Pedro Abrunhosa, em "Momento")

sexta-feira, maio 13, 2005

Sinos


 Posted by Hello
Ao ensurdecedor ressoar dos sinos na sala escura, fechada, asfixiante e tenebrosa em que está aprisionada, a minha alma treme à solenidade condenadora de cada toque, e a música torna-se um uivar aterrador de dedos esticados que gritam revolta, desilusão, condenando, julgando, abrindo-me por dentro e apontando a podridão que me consome. Tapo os ouvidos. Destapo. Os sinos já não tocam lá fora… os dedos desapareceram… mas os sinos martelam ainda a minha mente, movidos pela minha alma, transformada, distorcida, modelada por tantos dedos finos, pontiagudos, de longas unhas afiadas de incompreensão e julgamento…

sexta-feira, maio 06, 2005

Vive

Olhos que não querem ver, olhem o arco-íris que se desenha à vossa frente. Boca que sente o que não diz e diz o que não sente, deixa-te calar pelo beijo doce que é a tua vida. Cabeça que gira agonizando, desesperando, exagerando, sem parar, gira ao ritmo do relógio da tua alma, doido, imparável, mas vivo! Gira, gira, ao ritmo dos segundos de sorrisos e risos, dos minutos de sensações e emoções que se sucedem a uma velocidade estonteante, preenchendo-te, possuindo-te, impedindo-te de viver no marasmo, na apatia! Abandona-te ao que move a tua alma, liberta-a da prisão do sofrimento que só tu crias! Sente o sol que queima a tua face, sente o brilho que ofusca os teus olhos, sente os seus raios que aquecem a frieza da tua pele, abre os teus lábios num sorriso… e vive!

quinta-feira, maio 05, 2005

Musa de (des)ilusão

Solto um grito louco, liberto o meu sufoco. Calaste a minha alma, moldaste-me como a um pedaço de barro virgem. Esculpiste como pela primeira vez uma estátua desbotada do olhar de tantos sóis, suja de mil toques. Uma estátua em ruína por um passado que é presente e será futuro. Desenhaste a perfeição e a clareza que viste na tela surreal e abstracta que sou eu na folha amachucada do teu coração. A cada cor que pintavas em mim a folha sorria e os vincos de sofrimento desapareciam. Quieta, calada, deixava-me ser modelo de candura e beleza, até que o teu olhar cruzou o meu e a prisão confusa de cores da minha alma rebentou e perdeu todo o seu azul. Agora só vês negro, cinza. Olhaste a tua folha e viste sonho, ilusão…olhaste-me e viste pesadelo, desilusão. E a caneta dos teus olhos foi borrando as cores, formas, sorrisos de um alguém que pintaste e não sou eu, uma musa singela e pura que viste em mim.

domingo, maio 01, 2005

Naufrágio


 Posted by Hello
Solto as amarras do sonho que é pesadelo em que me prendias, em que me sorrias, em que fingias. Desancoro-me do teu mundo enevoado de ilusão, rasgo o mapa de palavras inconsequentes, de sentimentos forjados, e momentos inebriantes que lhe levaram até ti. Deixo a insignificante ilha de um arco-íris de vida, beleza e pureza aparentes que és tu, abandonando a quimera que teces entre ti e os outros. Parto desafiando o oceano tumultuoso do meu coração, cortando as ondas de revolta que se levantam ao meu olhar vestido de raiva. Sinto a maresia e a brisa fresca do mar tocando o meu rosto ferido e magoado de mentira. Estremeço no barco fragilizado pelas viagens loucas em que me levaste, pelo naufrágio que provocaste. O vento uiva a voz que me roubaste, grita o meu sufoco, e conduz os restos da alma que se perdeu em viagens de mentiras e naufragou em ti, à terra que inocentemente deixei. Reencontro a minha alma e prendo novamente as minhas amarras à verdade, à vida, e no horizonte não alcanço a tua ilha. Perdeu-se num estonteante acumular de realidades forjadas, como tu.