sexta-feira, junho 27, 2014

Robôs, explosões e o meu sofá da sala

Às vezes sinto que levo a vida como um espectador do cinema de Michael Bay: sento-me a assistir ao artifício das explosões e lutas de robôs gigantes sem interesse nem sentido, nada que discutir quando me levanto do sofá. Esqueço-me de mim enquanto absorvo o fogo das cores brilhantes e rostos bonitos que distraem dos projetos e objetivos que já não sei se tenho ou se alguma vez tive. É o desemprego, são os estágios, as ofertas desinteressantes, os salários baixos, mil e uma desculpas, talvez, ou apenas inércia, apatia, preguiça. Não sei o que quero, mas a culpa é só minha. Muda de vida se não te sentes satisfeito, cantavam o Camané e a Manuela Azevedo. Sim, sim, mas há por aí tanta gente sem trabalho, sem dinheiro, quero eu também voltar a depositar nos outros o meu sustento, para seguir, egoísta, um sonho que sei irrealista?
E então deixo-me estar, o vinho ainda está fresco, o sofá é confortável. Estão a passar os Transformers outra vez na televisão.

quinta-feira, junho 19, 2014

Janela

Eu sou uma janela sobre o mar, muitos olham-me e limitam-se a apreciar a vista. Alguns têm medo do que possam descobrir e não se atrevem a dar uma espreitadela. Depois há os que imaginam os segredos que se escondem, para lá da rebentação das ondas, lá longe no horizonte. Esses que têm a certeza que há mais do que mar e marés. Abrem essa janela que eu sou e ficam ali como se o tempo tivesse, subitamente, parado. A brisa doce vai soprando ao longe como um sorriso e a janela torna-se indiscreta, os aromas do mar tornam-se paixão. É aí que se levanta um vendaval que sucede à brisa. Aí mostro outras janelas que existem em mim, que o vento abre de par em par. Com vista sobre o tempo infinito, os sonhos ou outra maravilha qualquer. Junto ao mar os sonhos não ganham raízes, vão-se transformando na areia molhada, naquela praia, a que se avista ainda desta minha pequena janela. Onde há sempre sol no horizonte. Mesmo em dias de chuva, quando as gotas molham a minha janela e sou obrigada a fechá-la com força. Tanta força e sem cerimónias. Assim é esta minha janela, com vista sobre o mar.

segunda-feira, junho 16, 2014

Como gosto de te ver correr

Tenho uma fotografia tua que é toda a minha infância. Nessa foto estás a correr à minha frente, por entre um beco que chamaste de teu esconderijo, pela calçada que conheço tão bem. Sabes, quando tiveres idade para isso, vou contar-te que esse também foi um dos meus esconderijos na aldeia. Vou contar-te que, quando tinha a tua idade, e ainda mais velha, adorava esgueirar-me pelas "quelhes" que para mim eram caminhos mágicos, especialmente aquela em que entrava perto da casa da minha avó, na avenida de Santa Cruz, e ia dar diretamente à igreja - especialmente boa para evitar os ralhetes da avó, que não gostava que chegasse atrasada à missa. Mais tarde, quando fores um bocadinho mais velha, vou contar-te que me juntava ali com os meus amigos, nas noites de baile, para beber uma ou outra cerveja às escondidas dos nossos pais. Vou contar-te também, se me prometeres segredo, os namoricos que começaram nesse teu esconderijo. Tu ainda não sabes, mas cada pedacinho de calçada tem a sua história, desde os tempos que nem tu ou eu imaginamos, até à minha época e do teu pai. Na calçada das tuas brincadeiras, passaram outros pés e outras vidas, com as suas histórias e recordações, que as pedras, confidentes, guardam para todo o sempre.
Sabes, quando te vejo correr consigo esquecer por um pouco a nostalgia de que sou feita, as saudades dos meus avós e tios-avós, aquela mania dos mais velhos de pensar que nunca será tão bom como era antigamente. Não, porque tu vieste e também te apaixonaste por aquela aldeia, porque sabes correr cada beco e decorar cada caminho, como eu e os meus primos fazíamos. Também foi lá que aprendeste a andar e a cair de bicicleta, a tomar banho de mangueira e a brincar ao boi. Vais descobrir e amar aquela aldeia como nós e não a vais deixar morrer, mesmo que só possas ir nas férias de Natal e de Verão. Serás feliz na aldeia, como nós fomos e somos.
E é por isso que, excepcionalmente nestes dias, troco os saltos altos pelos ténis e corro de mão dada contigo, pelas ruas e "quelhes" de Aldeia Velha.

quarta-feira, junho 04, 2014

Game over, os meus olhos perdiam o jogo e as letras do livro ficavam búzias, já estava quase em Alcântara quando me deixei adormecer no comboio. Em menos de cinco minutos comecei a sonhar, mas nada de absurdo e surreal como de costume, era um sonho antigo, daqueles cheios de pó da gaveta mais escondida em mim. O meu inconsciente, poderoso omnisciente com requintes de malvadez, levou-me de volta aos meus quinze anos, à minha mais antiga teimosia. 'E se tentasses novamente?', perguntava ele, perverso. E se tentasse novamente, perguntei-me eu, já num limbo entre o sonho e o comboio, olhos a estremecer do burburinho da chegada ao Cais do Sodré. E se? Se voltasse a estudar e começasse tudo de novo? Uma nova profissão, que lidasse com pessoas reais, em vez de cabeças de computador e pés apressados no corredor, corpos presentes em cadeiras azuis almofadadas. Quando cheguei ao elevador cumprimentei os meus 'colegas' com um bom dia, devolveram-me silêncios de telemóvel, apressados em ligar o wifi da empresa, abrir o email e começar a responder antes que chegassem as nove e um da manhã. Hora e meia volvida e continuo com essa ideia a fazer-me comichão na nuca. E se?...