quarta-feira, dezembro 16, 2009

Como te echo de menos

No corropio dos dias e dos anos que passam tu continuas a ser a candeia acesa que me ilumina as noites. Ontem estava tanto frio mas tu sorriste e nem o vendaval mais destrutivo é capaz de resistir ao teu sorriso. No teu sorriso mora a lua e o sol, unidos numa perfeição mais que perfeita. Se é que isso é possível. Só eu hoje me sinto tão imperfeita, como se as palavras de repente me tivessem abandonado e dito "até amanhã". Só que eu amanhã eu não estou cá, porque fui procurar a minha sombra. Dizem que foi parar à terra do Nunca, mas eu acredito que está para lá das paisagens do Ainda. E hoje sinto-me tão imperfeita e para lá de mim. Olho-me ao espelho e não me reconheço, olho as minhas lágrimas, mas sinto que não sou eu que as choro. Só tu continuas a brilhar para mim e a sussurrar-me ao ouvido que estou aqui. Talvez esteja a perder tempo. Deveria sorrir, mesmo que ao sorrir sinta que alguém sorri por mim naquele espelho pequeno, ao fundo da sala. Só tu ainda me reflectes.

sexta-feira, julho 31, 2009

A túlipa do teu coração

Inspiraste-me uma e outra vez e a pequena flor, nascida do teu coração, ainda não murchou. Pergunto-me tanta vez se essa flor ainda resiste por minha causa. Suponho que talvez se tenha transformado num jardim, de tão forte que parece ter-se tornado. Passa por cima das tempestades que por vezes nos assolam. Quando o teu coração bate, sinto essa pequena flor ondear ao ritmo de uma brisa sonhadora e sei que é por mim. Porque quando te abraço, quando por fim acaba o tempo das esperas, só aí essa flor desabrocha e acorda. Cada pétala dessa flor do teu coração fui eu que construí. Cada letra do nosso abecedário fomos nós que inventámos. O A não vem a seguir ao B. A primeira letra do alfabeto será sempre a do teu nome, a que mais repito nas noites solitárias da minha vida. Aquelas em que eu só existo por existir. Mas depois tu regressas com o perfume do teu coração, e eu imagino um mar de túlipas brancas e eu a afogar-me nelas. De repente encosto a minha cabeça ao teu peito e quando o escuto, a flor-coração, aberta em janela de par em par, é mais que uma flor. É uma palavra. Diz chamar-se amor. Mas eu continuo a preferir chamar-lhe flor. Ela desabrocha em ti. Mil vezes oferecida, volta a renascer.

terça-feira, junho 16, 2009

Pétalas

Pétala a pétala se constrói a flor. E o poema. Que vem de dentro, como sangue a circular no caule esguio até chegar ao topo. O vento transporta o poema, pólen a revirar nas asas gentis da brisa do mundo. Pétala a pétala vamos morrendo enquanto o corpo se desfolha em cada madrugada da nossa existência. Pétala a pétala vamos construindo o amor. Bem me quer, malmequer, bem me quer. Só que o amor tem demasiadas pétalas e flores e acabamos perdidos no jardim. Pétala a pétala vamos seguindo o caminho, sem sabermos exactamente se é o correcto. Mas é disto que os sonhos são feitos, de pétalas a cheirar a almíscar e jasmim, de longes feitos perto, de orquídeas que nunca passaram de rosas cheias de espinhos. De pétalas de sangue, de pétalas de lágrimas. Cubro a cabeça com as mãos e choro pétalas de tristeza que se desprendem da flor do meu coração. Ninguém disse que a vida ia ser um mar de rosas. E se as rosas têm espinhos, eu quero um mar de pétalas para construir poemas. E quando a última se desprender e me disser que o meu lugar já não é aqui, partirei tranquila. Seguirei a viagem até ao outro lado do rio, onde o coração já não bate. Porque pétala a pétala também morre a flor.

terça-feira, maio 05, 2009

A água estava fria. Estava tão fria que o meu coração batia como um tambor enlouquecido por entre as ondas. Depois vi-te lá ao fundo a mergulhar no imenso azul e senti um calor estranho invadir-me. Talvez porque enquanto te vi mergulhar no mar senti-te mergulhar em mim. O amor é um mergulho. Às vezes batemos com a cabeça nas rochas e dói, dói muito. Outras vezes a água é pura, refrescante e apetece nadar até ter pele de galinha. Estendi-me na areia do teu abraço e nada mais interessava. Nos teus braços o tempo descolorido, sépia, negativo, preto e branco. Parado na imensidão das coisas que dissemos um ao outro sem nenhuma palavra. Era fácil de entender que o nosso amor era um mergulho bem sucedido. E eu que sempre nadei mal, com medo de ser arrastada pelos ventos e pelas marés. Pegaste-me ao colo e as minhas pernas levantaram voo, depois a minha cabeça seguiu o compasso das minhas pernas e fundi-me com a beleza de céu, sol, mar, tu. O sol brilhava e pareceu-me, por momentos, que sorria. Ou, porventura, reflectia o meu sorriso-concha, que se abria pela praia fora. Os meus pés e os teus brincaram na imensidão do arenal e a tua mão pousou discretamente no meu ombro. Os teus olhos tocaram a minha alma e naquele instante foi como se tivesse acabado de te conhecer. O mesmo riso, a mesma criança que eu vi aos tropeções dentro de ti ansiosa por brincar no mundo. Aquela esplanada e o modo como o amor nasceu debaixo da nossa varanda. E apaixonei-me uma e outra vez naquele instante. Depois deixámos a praia e os dias ensolarados de beijos. Aí acordei e a cama estava vazia, telefonei-te para dizer que não estavas lá. Gostava que estivesses. Então mergulhei dentro dos lençóis. Bati com a cabeça. E doeu, doeu muito. Mas tu nem sentiste.

segunda-feira, março 23, 2009

Alice



"Na luminosa tarde de Verão mergulhados,
Vagarosamente deslizamos,
Nossos remos manobrados

Por bracitos inábeis

Enquanto frágeis mãos procuram, em vão

Guiar nosso caminho sem destino.


Ah, cruéis Três! Numa hora destas

E por um tempo de sonho assim

Implorar uma história a quem
Não tem fôlego para agitar sequer uma pequena folha!
Mas que pode o pobre solitário

Contra três imperiosas vozes?


A Primeira, ordena, implacável,

«Começa já!»
A Segunda, mais doce, pede:
«Tem de haver muita fantasia!»

E a Terceira interrompe-me

Não mais do que uma vez em cada minuto.

Logo, ao súbito silêncio submetidas,
Na fantasia seguiram
A criança dos seus sonhos, pelo País

Das maravilhas, fantásticas, diferentes,
Em conversa amena com pássaro e animal

Quase em tudo acreditando...


E, sempre que a história secava

As fontes da fantasia,

Eu, cansado, lhes pedia
Para pararmos:

«Fica para outra vez...»; «A outra vez é já!»
Ordenavam as alegres vozes.


Assim foi avançando a história do País das Maravilhas

E um a um, lentamente,
Se traçavam fantásticos sonhos.

Agora, a história está pronta...

E rumo a casa, tão felizes, vogávamos

Sob a intensa luz do poente...


Alice! Aceita esta ingénua história

E com a tua mão carinhosa
Entrega-a ao mundo de infância
Onde místicas memórias se entrelaçam

Como coroas de flores raras, que um peregrino
Colhesse em longínqua Terra Prometida!"

Lewis Carroll

quinta-feira, março 19, 2009

Tempo

A minha pegada marcada na areia. O vento a fustigar-me a cara e a sensação de que estou viva. "Nunca me tinha sentido tão viva", murmuram os meus sentidos. O meu paladar envolve-se no sabor salgado do mar.No tacto, a areia escorre levemente pelas mãos e os pés envolvem-se com o mar. O meu olhar perde-se na imensidão das ondas e o aroma forte da maresia penetra-me no nariz. Visão e olfacto. O tempo passa mas o relógio permanece com os ponteiros parados. Deixei de dar corda aos meus relógios. Estou farta do rebuliço de mais um dia que não espera por mim. Puxo o tapete ao tempo mas ele não cai. Continua firme, a correr num passo apressado de quem não vai para lado nenhum e não tem ninguém. Só que a mim o tempo já não me ganha. Ele pode vestir-se de manhãs e das mais ricas noites e madrugadas mas não sabe amar. E com um amor como este que tenho pode desmoronar qualquer castelo de horas. A sensação de estar viva torna-se mais forte a transformar-se em riso, em gargalhada, em grito. O tempo ainda olha para trás, espantado porque não o estou a seguir, a contar ansiosa os minutos para nada e para não chegar a lado algum. Hoje só há o aqui e o agora e a praia onde descanso os meus medos, sentados numa duna. No mar reflecte-se a tua imagem, feita de rimas de saudade e asas de açúcar. Não estou com pressa, espero-te enquanto o tempo avança. Mais uma vez, para nenhum lugar em que eu queira estar. Estou farta que o tempo me diga o que fazer. Que são horas disto ou daquilo. Que é tarde demais para os meus sonhos. O mar arrepia-me a pele. A sensação de estar viva.

quinta-feira, março 12, 2009

Esta noite

Esta noite eu não quero dormir sozinha. Vou embrulhar-me num xaile feito de amor e da tua presença, agora feita ausência, que não me deixa dormir. Mas esta noite eu não quero sentir a falta que me faz o teu calor, ou por outras palavras, a forma perfeita como a minha cabeça repousa no teu peito. Esta noite vou imaginar que te materializaste num xaile bordado de cor amarelo-alaranjado-vermelho-arco-íris-amor-paixão. O xaile mais bonito da festa. Nesse xaile pintado de cores que o mundo não tem, eu vou sentir-te apertares-me o corpo contra o teu. Vou sentir a tua mão a conversar com os meus silêncios. Vou fazer um chá do teu aroma a príncipe-real. Vou pegar na chávena e no xaile e vencer a insónia do longe que estás. Porque quanto maior a tua ausência, mais a tua presença se torna forte. Porque é a tua não-presença que me faz perceber o quanto a tua presença me conforta e a tua ausência me dói. Hoje vou falar-te de uma dor que não tem nome e que se ergue sobre o meu olhar. A dor de não te ter e um xaile que vai caindo sobre os ombros com tecido de esperas. Esta noite eu não vou dormir sozinha, vou dormir abraçada aos pensamentos sobre ti e repousar a minha cabeça na minha almofada, como se fosse o teu peito. O xaile, o chá e a chuva lá fora. Mas mesmo que seja uma tempestade, a saudade, essa eu não vou deixar entrar para dentro de casa. Esta noite eu não durmo sozinha.

quarta-feira, março 11, 2009

Verso livre

Tentei escrever um poema que falasse de ti. Mas como poderia um poema falar de ti, se tu és mais que poema, mais que prosa, tu és um conto para ler irrepetidamente antes de adormecer. E cada vez que contar a história que li e que não é mais do que a nossa história, vou acrescentar um ponto nesse conto. Tu és um verso livre, um verso em branco que vou escrevendo. O teu verso eu já traduzi na língua que melhor sabemos falar. A minha língua e a tua no prelúdio de um beijo. Numa conversa infinita. E agora que não estás sobram-me as rimas, mas eu preferia um verso sem sentido e sem rumo, como os nossos passeios amenos. A tua mão silenciosa na minha face e o teu beijo pleno de perfeição. Porque cada verso-beijo que emana de ti é uma conjugação no mais-que-perfeito. Entre nós é tudo (in) condicional. E nenhum escritor poderia definir exactamente o que sinto por ti. Já não é amor, já não é paixão. Sem ti a poesia no mundo esvai-se num sopro. O azul torna-se cinzento. Sem ti o encontro é desencontro. Sem ti sou apenas um pássaro num dia de céu azul, voando em círculos sem destino. Um único pássaro, perdido do seu bando. Abrindo as asas no vazio, engolido pelo céu. Uma única folha, arrastada pela ventania. Um pintor sem musa que deambula pelos dias e pelas horas. Quero apenas dizer que me fazes falta, como se em ti morasse o sentido do amor. Agora que não estás, a poesia escondeu-se e deixou de me falar. A inspiração embriagou-se de saudade. Os teus lábios afiguram-se nos meus sonhos e esperam-te. Afinal, que esperam uns lábios senão outros?Uns lábios como os teus, lábios alma-gémea dos meus. Volta para o meu livro de poemas. Faz-me falta esse verso que és tu.

Céu

Abrimos os lábios e banhámo-nos de céu envolto nas nuvens. Era uma suave tarde de início de Primavera e as tuas mãos, aves voando pelo meu rosto. A tua língua, tinta da china, pintando a brisa leve de um murmúrio de amor. A tua língua, aninhada no meu ouvido contando uma história. Numa mais, desde essa essa tarde de Março eu deixei de abraçar os poentes e saudar as madrugadas. Enredei-me nalgumas teias e labirintos e esperei. Ficou tão escuro, que me banhei de noite em vez de luz, remorso em vez de céu. Eu prometi que te contava mas a vergonha impediu-me de pintar estrelas. Ficou só o ceu, cada vez mais negro e eu a tiritar de frio. Os teus braços em brasa vão aparecer mais uma vez no fogo dos teus lábios e vou sussurrar baixinho de mim para mim: desculpa. O céu irá clarear num gerúndio com ar de canção. Irei olhar-te e sussurrar mais alto para que, então, me escutes. Amando. Porque eu amei, amo e amarei. As pombras brancas que se desprendem das tuas mãos hão-de acariciar o meu coração. E esquecerei que por momentos me esqueci que o céu era assim, tão mas tão azul.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

O éden dos amantes

E então a lua escondeu-se. “Não há nada para mim aqui”, pensou. Apenas uma figura inanimada destinada a proteger a humanidade, um archote no meio da escuridão. A lua escorregou silenciosamente, um baloiço prateado descendo os céus. O mundo inteiro, impávido, assistia à escuridão enquanto a lua descia e rodopiava pelo céu. As estrelas murchavam, o céu perdia a beleza. A lua rodava e rodava em redor de si mesma, para fugir para fora da galáxia. Porque o mundo era triste, porque os homens faziam actos capazes de gelar o coração. A lua era a luz dos amantes, mas a humanidade perdera o sentido do amor. A lua era a luz da esperança, mas os homens já não sabem cultivar esperança. Então, de repente, uma luz brilhante, maior que o mundo apareceu. Uma luz que ofuscou a lua na sua lenta viagem para fora do mundo. Era uma luz tão límpida como uma lágrima de amor. Era uma luz tão bela que transportava dentro de si todas as coisas boas que era possível sentir. A luz enchia tudo, e a lua procurou-a. A fonte de onde brotava. E viu um jardim. Um jardim enorme e frondoso que parecia esconder o segredo. A lua entrou, mantendo-se à distância elevada no céu. No jardim, viu a origem do brilho que lhe tinha acariciado a alma. Um casal jovem beijava-se no meio daquele espectáculo de flores, ávores e plantas. Era um beijo tão longo e silencioso, mas que dizia todas as palavras que nenhuma palavra poderia expressar. Pelo menos não assim, tão perfeitamente. Como um pintor, que guiado pela inspiração, completa o mais maravilhoso quadro já alguma vez feito. Naquele beijo de fome, desejo e ligações profundas a lua sentiu o amor. Descobriu que no cosmos ainda havia esperança. Era aquele beijo, o condensar de tantas esperanças. Era aquele toque, quando o jovem se afastou da amada e lhe tocou na face, nas têmporas, lhe beijou os cabelos. Estava nas lágrimas que a jovem chorava quando os amantes por fim se afastarem. E ela viu a jovem caminhando descalça no jardim, iluminada apenas pela luz daquele amor. Viu-lhe o sorriso que parecia querer saltar e inundar tudo. Era aquele sorriso. Apetecia morrer naquele sorriso, sonhar naquele olhar. Então a lua subiu ainda mais no céu, bem para cima. Iluminou ainda mais as faces coradas da jovem apaixonada. Tão apaixonada que parecia protegida por uma teia de amor. Em que nada, nada do mau do mundo parecia poder penetrar.