sexta-feira, dezembro 17, 2010

Como eu escrevo

"Como não escrevo. Não escrevo sem lavar os dentes, as palavras ganham sarro e devem sair frescas da boca para a ponta dos dedos. Não escrevo sem pensar que são quê, cinco da manhã, voltaste a acordar antes do sol e é bom que tenhas algo a dizer na confusão do mundo. Não escrevo de barriga cheia ou com vestígios de ressaca. Reduz o horário de escrita do ano, mas nada a fazer. Se começas a ficar tonto, come as palavras que estão a mais, há sempre muitas. Quando não aguentares o jejum, se a própria fome te engorda a frase, vai ao frigorífico e repõe o açúcar e o sal no sangue.



Não escrevo sem pensar nas possibilidades do ridículo de escrever, que nunca acabam. Não escrevo sem pensar que posso ser mais uma pessoa que devia fazer outra coisa na vida. Não escrevo sem perceber que então ia fazer o quê?


Agora como escrevo, se conseguir. Escrevo contra a maldade e a ignorância que estão dentro de mim. Escrevo também a favor delas, são adversários magníficos a quem foram dados muitos anos de avanço.


Escrevo a pensar nas formas impossíveis do amor, se for preciso inventa-se mais uma verdadeira.


Escrevo contra a escravatura das religiões, a obrigatoriedade da fé que tanto mal faz às crianças da Terra. Tenho respeito por Deus, mas se existe é má pessoa. Eu mudava de atitude, com tantos poderes.


Escrevo a combater as conspirações da realidade, a meio desta frase lá está ela a conspirar, algures. Apesar de tudo, acredito que a vida triunfa, não escrevam Fim antes de acabar a história. Sou um optimista mas não percebo porquê. E se isto fosse fácil era para os outros, como dizem os marines e disse uma pessoa que amei. Escrevo porque me pediram para escrever e porque me pediram para não escrever e foram todos bons conselhos de gente formidável. Escrevo porque tenho muitos amigos e amigas e alguns deles são um pouco malucos. E tenho filhos e pais e irmãs.


Escrevo porque viajei e vi injustiça e sofrimento. Não serve de nada escrever sobre desgraças, ou quase nada, mas algum nada temos de fazer. Muito do sofrimento que vi é meu e português e mundial. Também faz rir, mas acredito que o humor é aprofundar, não aligeirar.


Escrevo contra as pessoas parvas.


Escrevo porque as mulheres são bonitas e cheiram bem. E pelos vivos e pelos mortos, as pessoas vivem e de repente morrem-nos. E o mar tem peixes e os bosques pássaros e o esgotos ratos. Escrevo porque é uma profissão interessante, há de certeza melhores, mas não me calharam nem podia ser."

Rui Cardoso Martins, em Time Out Lisboa. Autor de Deixem Passar o Homem Invisível, de 2009

Como mudar para um país diferente

Um dia ele olhou para mim, e fez-me feliz. Ele, com o seu olhar maroto mas tímido, misterioso como só ele. Abriu-me uma janela para o seu mundo, mas eu queria entrar pela porta. De tapete vermelho estendido, triunfante, qual Napoleão, queria conquistar o mundo dele e declará-lo meu. Para mim parecia tão simples como entrar numa loja e comprar qualquer coisa. E dizer que era minha. Para mim era óbvio que se eu gostava dele, ele tinha de gostar de mim. Mas percebi, para desespero da minha arrogância e temperamento impestuoso, que não era bem assim. Que amar alguém é como mudar de país. Tudo acontece aos poucos e a seu tempo. Primeiro temos autorização para nos mudarmos, deixam-nos entrar. Arrendamos uma casa só com portas e janelas. Compramos uma cama e decoramos a nossa nova morada, o número de telefone. Mas ainda não sabemos falar a língua. Aprendemos a dizer bom dia, boa tarde, bom almoço, mas ainda é tão pouco. Depois descobrimos que eles não servem pequenos-almoços depois do meio-dia. Acordamos mais cedo, mudamos rotinas. Descobrimos que ali o tempo é demasiado quente, renovamos o armário. E aos poucos a cidade que pintávamos todos os dias, de ruas e caras novas, a cidade em que volta e meia nos perdíamos e que nos frustrava porque pensávamos que já tínhamos decorado o caminho para casa, torna-se familiar. As ruas tornam-se amigas e já não nos confundem, o caminho é automático e simples, tudo se torna mais fácil e habitual.


Amar alguém é assim. Amar não é entrar de rompante e já saber o que ele costuma guardar em cada gaveta. Amar é descobrir, todos os dias, como se fosse o primeiro, é entrar em casa de bicos dos pés para não o acordar, até um dia deitar no sofá dele quando ele não está. Amar é assim. Um país, uma cidade, uma vida nova, que aprendemos a viver todos os dias.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

herói ou vilão

O meu avô é como um herói dos livros. Nunca o conheci bem e, no entanto, sempre ouvi falar dele. Quando nasci, ele já não estava em condições para me contar as suas aventuras do passado. Um avô tem sempre histórias para contar. Mas o meu tinha mais. E por isso tenho pena de ter sempre ouvido na terceira pessoa as suas aventuras e desventuras pelo mundo dos homens. Quando me contavam quem tinha sido o meu avô, eu olhava para ele, de olhos arregalados, aquele velhinho que se fazia pequenino e frágil no sofá da marquise, encolhido em si e de mãos cruzadas no peito, de olhar fixo num ponto invisível. Dizia ele que era um menino pequenino, que não sabia nada da vida, e que queria fugir. Estas eram das poucas coisas que ele dizia. Um dia, depois de muitas histórias que me contaram sobre ele, percebi.
O meu avô foi de pequenino trabalhar para uma casa de uma família rica da aldeia, onde aprendeu a ler e a escrever, a escutar às portas dos meninos ricos que aprendiam em casa. Também aprendeu a tocar acordeão, piano, guitarra e flauta - tudo sozinho. Os meninos tocavam e ele imitava. A música corria-lhe pelas veias. Foi também naquela casa que aprendeu o ofício de barbeiro, que naquele tempo envolvia não só aparar barbas e cortar cabelos, como curar feridas e agrafar cabeças partidas. O barbeiro era uma espécie de enfermeiro naquelas aldeias a dias de distância dos hospitais.
Quando a idade lhe permitiu, abriu uma barbearia e inventou um novo ofício: o de taberneiro. Na taberna no meu avô, tanto se serviam copos como se faziam barbas e se agrafava a cabeça do miúdo que caiu a andar de burro. Nos serões da taberna do meu avô, ainda se liam cartas de familiares emigrados e se resolviam burocracias: afinal o meu avô era dos poucos que sabia ler naquela aldeia. Era para o meu avô que todos se viravam, na alegria e na tristeza, para um copo de vinho ou uma guitarrada, ou para ler a carta do filho que estava em França.
Mas o meu avô cansou-se cedo da vida de taberneiro e barbeiro. Os livros alimentaram-lhe ambições, e trocou a taberna por um contacto em França. Partiu, contra a vontade da minha avó, a minha mãe e os meus tios, que se tinham habituado aos serões da taberna, em que ele os sentava no balcão e acompanhavam com a voz o meu avô à guitarra. Quando ele partiu para França, foi também quando a minha mãe e os meus tios, que devido ao negócio do meu avô tinham conseguido ir todos para a escola, começaram a ver o seu futuro mais enevoado. A minha mãe sonhava ser professora de português e francês, e já estava no 5º ano, num colégio na Guarda, quando a minha avó percebeu que não dava mais e teve de tirar os filhos da escola. Eram seis crianças, todas com livros e quartos no colégio para pagar, que na aldeia não havia mais que a escola primária.
Entretanto, o meu avô tinha aprendido a falar e a escrever francês, devido à facilidade que tinha em aprender, e arranjara um trabalho na fábrica da Vichy. Mas só trabalhou até ganhar dinheiro para comprar uma bicicleta e atravessar França, Suíça e Alemanha em duas rodas. Viveu durante vinte anos como um bon vivant em França, de peito e sorriso embriagados pela liberdade.
Às vezes penso em como gostava de fazer o mesmo que ele, deixar tudo e partir, começar de novo e largar as amarras. Mas depois lembro-me como a minha mãe não pode ser professora de português como sempre sonhou, e o meu tio Eusébio veio para Lisboa carregar mercearias desde o Terreiro do Paço ao Castelo de S. Jorge. Não consigo decidir se o meu avô foi um herói ou um vilão. As suas histórias fazem-me vibrar de curiosidade, e tento inventar a vida que levou em França - dizem que se deixou enamorar no Molin Rouge... Mas ao mesmo tempo penso na minha avó, que envelheceu a trabalhar de sol a sol no campo, e a minha mãe, que tanto queria ensinar, e não quero saber mais histórias sobre ele.
Gostava de ter conseguido falar com ele, saber se valeu a pena. Gostava de saber se valeu a pena voltar para o amor-ódio dos filhos e da mulher, para se abandonar num sofá de uma marquise. Gostava mesmo de o ter conhecido.

deixem-me

Deixem-me só seguir por aquela estrada lá ao fundo. Não sei onde leva mas sempre é um desvio deste trilho onde fiquei, sem mais opções do que seguir em frente. Por vezes penso em ir pela esquerda mas não me deixam. Eu quero aquela outra estrada, aquela que não se sabe onde termina, aquela onde pode haver outro mundo para mim. Porque este já não sei o que é.Apenas uma sucessão de pressas para lado nenhum, de esforços que se traduzem na mais estonteante fumaça já vista. Estou cansada do mundo. Este não foi o final para a história que escrevi, para o argumento da minha própria vida. Não posso ficar por aqui, tenho de achar outros finais antes que o mundo me mate de ressentimentos e pesadelos. Parece que parei de viver e vivo em função de um sonho que o deixou de ser. Nunca voltar atrás. Digo a mim mesma. Mas o que é que tu fazes quando te apercebes que os teus sonhos nunca passaram de miragens e que a realidade é tão difícil?Será que atas os sapatos e corres, será que te acostumas a viver numa espécie de filme de suspense até que te tirem a respiração no final? O que é que fazes quando te apercebes que queres mudar mas não consegues? Atei os sapatos, estou pronta para a maratona da vida mas a vida prefere obrigar-me a correr. O mundo continua a girar a uma velocidade que não consigo acompanhar. Tens de ser luz, som, para andar assim tão rápido. Apagaram-me a luz e cortaram-me a voz e as asas. Só me restou o teu amor para me lembrar que ainda há sonhos doces no planeta. Continuo a ver a tal estrada ao fundo mas ainda não consegui lá chegar. Quero desviar-me do trilho, quero ir po ali!Aquela estrada. Deixem-me sair daqui. Sufoco, morro, intoxico-me. O tempo passa por mim a fugir e escapa-me entre os dedos como areia. Só o teu amor. Ainda. E as incertezas onde outrora floriram rosas de uma nação. Rosas, dizia o poeta. Porque é que uma flor tão bela teria de ter espinhos? E porque é que alguns caminhos ficam tão longe uns dos outros?

quarta-feira, novembro 10, 2010

coração

O meu coração sofre de claustrofobia. Não suporta lugares fechados e, por essa mesma razão, fui obrigada a entregá-lo a alguém. No meu peito sentia-se demasiado desconfortável, fechado, privadado da liberdade. Entreguei-te, então, o meu coração. Para que pudesses tomar conta dele. Só não me apercebi que o meu coração iria crescer contigo, tornar-se grande, gigante. De facto, era previsível. Um coração pequeno não poderia conter o amor que nutro por ti. No meu coração há uma varanda em particular, na qual se bombeiam palavras e o sangue corre mais acelerado nas veias. Foi onde nos beijámos pela primeira vez. Da claustrofobia do meu coração não há vestígios. Apenas um palpitar acelerado quando o tomas nas mãos. O meu peito não tem coração mas acho que estou bem assim. Enquanto ele pula e avança pelo mundo e descobre as maravilhas de continuar a bater. Talvez, assim, tenha razões que a razão desconhece e bata sincronizadamenhte com a vida durante muito, muito, muito tempo.

terça-feira, novembro 02, 2010

Mais que amor.

Dizer que te amo é muito pouco para exprimir o que sinto por ti, és como uma canção arrancada aos silêncios da minha vida. Uma música com mais sinfonias que Beethoven, com andamento ora rápido, ora lento, com a cadência particular adequada aos momentos da nossa história de amor. Nessa canção encontrei um rumo e outras vezes perdi-me. Partilhámos tantos segredos debaixo daquela árvore encantada, que mais ninguém - a não estas duas almas enamoradas- consegue vislumbrar. Provámos desse fruto proibido e eu dei-te tudo e tu deste-me, até, a lua. Não a achei assim tão bonita, vista de tão perto. Nada que se compare ao brilho dos teus olhos e ao perfil do teu rosto. Esta é uma história de amor real, com lágrimas, sorrisos e em que nem tudo é um mar de túlipas. Poderiam ser rosas, só que a túlipa sempre foi a minha flor favorita. Encheste-me a cama de flores e depois soltámos as pétalas pelo chão fora enquanto me beijavas. O teu beijo é a incandescência pura e luminosa deste nosso mais-que-amor. Maisamor, ou Amormais, esta palavra nova que inventei enquanto as nossas bocas se tocavam no banco solitário daquele jardim. O que vou fazer se não estiveres por perto? Tu e eu somos uma fusão, uma miscelânea de diferenças e proximidades. Uma vertigem de pontes e pontos sem nó. De fins e de começos. Não sei se te amo, porque perdi contigo o significado do amor. Para nós, é tudo extremamente (a) normal. Era mesmo assim que eu queria. Mais que amor. Tão mais que tudo que se transforma em nada. Nada com que os outros tenham a ver. Dizer que te amo é tão redundante e ínfimo, é tentar contar todas as estrelas do céu e achar que se chegou à conclusão certa. De qualquer forma, não há estrelas que cheguem quando se ama assim.

terça-feira, outubro 26, 2010

apetite por destruição

"as coisas estavam a melhorar, pensei. talvez por isso, porque parecia que ia finalmente sair do atoleiro, fiz o que fizera sempre que a minha vida encarreirou pelo bom caminho: deitar tudo a perder"

porque bem não é bom. bem é confortável. bom é outra coisa

Rei Sol

Há certezas que nos acompanham ao longo da vida, talvez a tentarem trazer um pouco de paz à mente atormentada do Homem. Repleta de tantas (in) certezas. Tal como o sol, que nasce a cada novo dia, como as ondas que batem incessantemente nas rochas. O sol nunca se cansa da sua rotina e o mar segue o seu fluxo. Nesta pedra em que sento, no alto do mundo, vejo tudo e sei. Quando eu morrer o sol vai nascer para ser contemplado por outros olhos, as ondas vão desaguar do mesmo modo. Só ficarão estas letras, que talvez até o tempo apague. Por agora, oiço o rumor do mundo à minha volta, respiro, sorrio. O sol regressa, entretanto, às entranhas da terra.Espalham-se sonhos vermelhos de nuvem pelo céu.Que será de mim? Não sei. Mas o sol, esse, vai emergir do seu sono de bela adormecida e mostrar o rei que há em si. E eu, rainha do meu reino do aqui, que um dia será mais além.

sábado, outubro 23, 2010

diz-me

"diz-me o porquê dessa canção tão triste
me fazer sentir tão bem
decerto alguma coisa mais te disse a mesma voz
que tu não dizes a ninguém"

Manel Cruz

sexta-feira, outubro 15, 2010

poesia

como uma chama que de pequenina se faz gigante te sinto a chegar, aqueces-me, incendeias-me, sinto-te a correr pelas minhas veias, o fogo de ti que me enlouquece, sinto-te a cada bocadinho de mim, primeiro as mãos, sempre onde me nasces, os braços num sopro, inflamas-me a garganta, de súbito tenho mil palavras a querer sair pela boca, loucas atropelam-se e eu sinto-me poderosa. envolves-me no teu manto de loucura mas paz, de emoções mas calma, levas-me o medo e devolves-me o coração, quando te grito o que sinto, e me deito nas palavras, finalmente, mais calma, regresso a mim. voltaste. poesia.

a serra

são dias-tempestade, os segundos, os minutos, as horas, são árvores enraivecidas pelo vento que me fustigam sem piedade, batem os minutos como ramos enlouquecidos de girar. e eu resisto, continuo como quando na aldeia dos meus pais cortava as silvas com uma navalha para passar, no caminho da serra que tanto gostava de fazer a pé. sozinha. eu bato-me, mas como naqueles passeios entre silvas que em miúda chamava de silvias não me livro sem sangue, os braços crivados de cortes e arranhões, eu bato-me mas um dia não haverá pele para mais feridas. e aí ficarei a meio do caminho, a capela no alto da serra ao longe, a paz tão longe e tão perto, e eu estirada sem pele nem força que resista

Horas e segundos.

Apetecia-me que as horas passassem mais velozes que a velocidade da luz, mais rápido que o metro que percorre a cidade, numa vertigem que engolisse os minutos, os segundos e os milésimos. Para correr para os teus braços, esbaforida e sem ar, para fazer um sprint até ao teu beijo. Derrubar todos os obstáculos e chegar até ti. Para encontrar o meu coração, que ficou contigo. Preso a ti na última vez que nos encontrámos. Deixa-me aconchegar-me no cobertor dos teus braços, na ternura pura dos teus lábios. Deixa-me saber como foram os dias-sem-mim e eu conto-te como foram as horas-contadas-para-te-ver-outravez. Permite-me que te encontre. Rogo ao tempo que passe rápido e me leve para perto de ti. Sinto-me longe de tudo, nesta manhã cinzenta, e tão absurdamente distante das tuas mãos. Apetecia-me que os quilómetros se transformassem em metros que se atravessassem a pé. Que os semáforos estivessem todos verdes para chegares mais depressa ao teu destino: EU. Estas paredes apertam-me, agora, sem cessar, os meus pensamentos estão roucos de gritar por ti. Quero sair daqui, quero ter passos de gigante para te encontrar em três pulos. E lá estarás, a reflectir tudo o que importa, tudo o que me alenta. Há dias tão longos não é? Apetece-me que este dia tenha o sabor de um segundo. Pode ser?

Quem mora na minha cabeça?

Quem será, que já não sou eu?

quinta-feira, outubro 14, 2010

coelho

esta era mais uma noite de chegar a casa, mais uma noite para dormir e esquecer até amanhã, quando as luzes do meu carro iluminaram um pequeno coelho, que, apressado, se meteu pelo mato sem avisar. deixei de o ver. procurei-o, fui atrás dele, mas não havia nenhum buraco encantado por onde cair

segunda-feira, outubro 11, 2010

"I'm dreaming my life away..."

enquanto me perco nos sonhos perco-me da vida e peço só mais um minuto ao meu despertador, por favor deixa-me ficar. deixa-me ficar que a vida há muito que me perdeu. dei-lhe um tempo, disse-lhe: "amor, volta quando me amares outra vez, espero para sempre por ti", mas o amor esqueceu-se de voltar, perdeu-se entre as rotinas cinzentas e os olhos a meia haste, fugiu para o alasca qual intelectual frustrado com a sociedade. eu e a vida acabámos. e não, não insistam. quando não há amor, não vale a pena voltar

terça-feira, outubro 05, 2010

Da modernidade

"Desenvolvemo-nos, mas continuámos fechados. A maquinaria que produz a abundância deixou-nos na pobreza. O nosso conhecimento tornou-nos cínicos e a nossa inteligência duros e cruéis. Pensamos demasiado e sentimos demasiado pouco. Mais do que de maquinaria, temos necessidade de humanidade. Mais do que de inteligência, temos necessidade de amabilidade. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo será em vão".

Charles Chaplin, em The Great Dictator

Somewhere...



Banda sonora dos últimos dias. Em repeat na minha cabeça há tempo demais...

segunda-feira, outubro 04, 2010

A chuva

A chuva, o amor e um cobertor, um sofá, meia dúzia de filmes e o fim-de-semana parece não acabar, não acabes por favor fim-de-semana, não acabes que eu quero ficar sempre aqui, nos teus braços debaixo do cobertor, de mãos quentinhas na chávena de chá, de coração aconchegado no teu peito, de paixão doce de Inverno, daquelas que se saboreiam como a um chocolate quente, lenta e demorada.
Lá fora a chuva cai e eu abandono-me em ti, entre uma chávena de chá e um cobertor, não preciso de mais nada.

sexta-feira, outubro 01, 2010

"But the tigers come at night,
With their voices soft as thunder,
As they tear your hope apart
As they turn your dreams to shame
..."

terça-feira, setembro 28, 2010

Escrever

Todos viam como os olhos lhe brilhavam de novo. Naquele dia ela voltou a pegar no microfone, a ler olhos desconhecidos e a beber histórias novas. Voltou a voltar a casa com horas de conversa para desgravar, como uma matéria-prima que se carrega como um bebé até à oficina, para lhe dar forma e pô-la a brilhar. Porque nunca se tinha esquecido de como se fazia, tudo o que era preciso era polir muito bem, tirar o pó às palavras, suspirar bem fundo e ser mais forte que o silêncio daquela folha branca. Tudo o que era preciso era evocar com força a magia adormecida nos seus dedos, até voltar a saber escrever de olhos fechados. Até que aqueles dez anõezinhos voltassem a ser tão trabalhadores como os amigos da Branca de Neve.
Aquela emoção voltou. Conhecer, descobrir, escrever. E é incrível como sabe sempre, sempre, como se fosse a primeira vez.

The Pretender

Quando parares de fingir quem és, será que ainda te vais lembrar de quem foste?

segunda-feira, setembro 27, 2010

Tanto tempo

"Procura no sítio mais escabroso do teu coração
Lá me encontrarás, a cantar,
De cerveja na mão,
E se te parecer que sorrio,
Não vai passar de uma impressão,
Causada pelo calafrio constante
Que me traz a solidão.
Baixa o volume,
Dá-me a mão,
E um abraço.
É que eu passo tanto tempo
À tua espera
"

Orelha Negra

Para me lembrar de não esquecer

domingo, setembro 26, 2010

A estrela pequenina

Era uma vez uma estrela pequenina que sonhava ser Sol. Nasceu com aquela mania, nada a fazer. Estrelas somos muitas, pensava ela, sou igual a tudo, uma noite vou ser dia e ser Sol. As outras estrelas, invejosas, cujos sonhos se tinham apagado há muitas noites (e toda a gente sabe que os sonhos é que dão brilho às estrelas), contaram ao Sol, que, na sua arrogância de ser Sol, ordenou a todas as estrelas que ao nascer daquela noite tapassem a estrela pequenina e não a deixassem brilhar. E foi assim que fizeram, as estrelas más. Ao nascer daquela noite, a estrela pequenina acordou e procurou um espacinho no céu para brilhar, mas as estrelas apertavam-se e não deixavam a estrela pequenina iluminar nem o bocadinho mais pequenino de noite. A estrela pequenina, triste, chorou, chorou muito, e as estrelas más riram de satisfação, porque uma estrela triste não brilha. Até que a estrela pequenina engoliu as lágrimas e fez força para brilhar o mais que conseguia. Mordeu os lábios, fechou os olhos, cerrou as mãos, e a noite fez-se dia. As estrelas más, loucas de raiva, procuraram a estrela pequenina pelo céu-noite feito dia, até que viram uma bola gigante e iluminada pendurada no céu mais alta que elas, mais brilhante que elas, mais forte que elas. A estrela pequenina tinha nascido Lua. E naquela noite em que se fez bola gigante e iluminada, rival para sempre do Sol, prometeu iluminar para sempre as estrelas pequeninas como ela, que tantos Sóis e tantas estrelas más tentam tapar. Para sempre seria a confidente dos sonhos das estrelas pequeninas, como ela.

sábado, setembro 25, 2010

A palavra

Era uma vez uma palavra. Tão pequena, tão fugaz, que ninguém daria por ela. Chegou de mansinho, de boca em boca, e desaguou no meu coração. Nunca julguei que houvesse palavras assim, capazes de nos fazerem sentir tão sozinhos e idiotas. Palavras-punhal ou palavras-flecha que chegam sem pedir licença. Não pedem nada mas tiram tudo. Palavras que me mostram o frágil que sou e me dizem que não faço nada certo. Cujo sussurro-veneno me corrói, dança comigo e me acompanha quando afasto os lençóis para mais um novo dia. Dizem que as palavras doíem menos que uma estalada. Eu acho que as palavras são um murro no estômago, um vazio no coração, um salto no abismo. Quando choramos e a culpa é das palavras, quem mais poderemos culpar? Os ouvidos que ouviram estas sementes de lágrimas? As mãos e os pés que não fugiram antes de serem bombardeadas com respostas a perguntas que nunca se fez? Para não ouvir as palavras vou criar uma bolha. Vou viver dentro ela e ser apenas eu. Nada me poderá magoar, proque sou apenas uma bolha de sabão, saída da arte de uma criança. Uma bolha colorida com vontade de sonhar e palavras doces a encherem a boca. Quero que as minhas palavras saibam a vida, amora, hortelã, amor, prosa, poesia. Ao menos não são como as tuas palavras com um trago de solidão, tristeza e raiva. A partir de agora vivo numa pequena bolha, a flutuar no céu. Onde já não há lágrimas, porque só as nuvens podem chorar as lágrimas do céu. Haverá tristeza dentro de uma bolha?

sexta-feira, setembro 24, 2010

Pensamento

Há pensamentos que nos corroem a um certo ponto da nossa vida. Parece que estão vivos e, futilmente, acreditam que devem perturbar a nossa - já de si - problemática existência. Tenho um desses fantasmas no meu armário e que insiste que o seu lugar é ali, bem perto de todas as coisas que formam o presente e a lembrar que não posso esquecer o passado. Há um labirinto de escadas que subo, a trilhar novos caminhos e a acender novas chamas, mas o pensamento que me magoa obriga-me a descer degraus, a voltar atrás, a saltar de dois em dois e a começar a subida de novo. Quero mandá-lo embora, só que ele não ouve os meus gritos e enamora-se da minha covardia. Deixem-me voltar ao tempo onde este pensamento ainda não tinha sido conjurado, em que ainda não tinha sentido o peso que é calarem-nos de repente com a palavra desilusão. Desiludiste-me e eu não te pedi. Amaste-me e eu deixei. Agora há um pensamento, ainda, que se eleva acima dos meus gritos e das nuvens do céu. Vestido de negro e cara coberta, a lembrar-me a inocência perdida. Volto mais atrás na vida e estou ao baloiço. Tenho sete anos e não preciso de relógios. Alguém me empurra e o voo é em direcção ao céu. Dou beijos no armário e tenho namorados imaginários que não me podem magoar. O carrossel avança e depois já sou uma mulher, olho-me ao espelho e por entre os sorrisos sei que ele está ali. Imperturbável, sentado na poltrona da sala, o pensamento que me atormenta. Revela-se depois dos fingimentos de mais um dia e parece estar cada vez mais forte. Sorri-me, de quando em vez, e já nem precisa de falar para corroer as cordas da minha garganta. É uma memória de traição, desamor e confusão. Fecho a luz e tento adormecer. Sei que ele está lá, no meu mundo de maravilhas a dizer-me que é apenas um mundo de almas perdidas e anseios desfeitos. Vai estar nos meus sonhos. Vai regressar uma e outravez. A lembrar-me que não esqueci. A lembrar que há arranhões demasiado pronfundos que nunca vão chegar a sarar. O pensamento que me corrói.

quinta-feira, setembro 23, 2010

hoje

Os meus olhos devoram o mundo e procuram respostas para todas as perguntas do mundo. Os meus olhos grandes abarcam a vida num segundo. São persianas que se abrem, a cada manhã, para a vida. Presas em janelas de sonhos que se espreguiçam numa vista de mar e sol. Ao longe, as gaivotas voam e depois vêm pousar-me nos ombros. Digo "bom dia" ao mundo e agradeço por poder olhá-lo, respirá-lo, senti-lo, ouvi-lo. De repente sinto-me em casa, enquanto os meus cabelos esvoaçam e o meu sorriso se escapa sem precisar de chaves ou segredos. Vens sentar-te a meu lado e continuo a sorrir, a rir, levantam-se vendavais de gargalhadas que arranham a garganta. E o mundo sabe-me a mar, a sonhos perdidos mas nunca esquecidos. O mundo sabe-me à tua boca, tem o aroma do teu corpo a tocar no meu. Agora já nem sinto o mundo. Sinto-me nós. Sinto a tua mão a sussurrar-me verdades que julgava ter esquecido. E vejo agora o teu sorriso, tenho medo que me escape entre os dedos. Mas afinal é só areia. Não me canso destas emoções. Hoje o mundo sabe-me a felicidade. Até quando?Não sei. Só consigo saber que a tua pele é quente, o teu coração palpita contra o meu e sinto que vou morrer agora. Nos teus braços, no teu riso, nos labirintos do teu beijo. Sinto-me completamente completa. Lua cheia. Laranja com todos os quartos. Um puzzle finalmente terminado. Afinal a peça que me falta és sempre tu.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Espero-te

Espero-te como a D. Sebastião. Espero-te sem olhar para o relógio, sem hora marcada, deixo os segundos, as horas, os dias esquecerem-se de te trazer sem te esquecer, sem deixar de te lembrar com um sorriso e um arrepio, sinto o teu rosto como se ontem o tivesse beijado.
Esperar-te faz parte de mim, de cada segundo em que nada se agita senão a doce lembrança de ti, ainda sinto os lábios quentes dos teus, os meus braços vazios dos teus. Sei que não virás mas no meu pequeno mundo imaginário prefiro viver-te a não ter mais nada. Pequenas coincidências te trazem pela fina barreira entre a ilusão e o vazio, como acordar depois de sonhar contigo e receber de repente um bom dia teu no telemóvel, pequeno aparelho que te traz a mim sem te poder ver. Palavras que surgem da tua mão sem lhe poder tocar. Desejos da tua boca que não posso sentir.
Quando te sonho é como se te tivesse nesse perfeito mundo paralelo entre a almofada e o infinito nada da noite. E em silêncio te namoro, como um segredo que nem tu sabes, re-estreia de um filme antigo pelas mesmas deixas que sei de cor, um amor sem tempo, um romance de pedaços rasgados de outra estória, a mesma, reescrita por mim. Espero-te. Espero-te sempre.

A minha mão direita secou

A minha mão direita secou, fraca deixou-se cair de palavras e histórias por inventar. A minha mão direita secou, foram-se as metáforas, as sinestesias, as personificações, os paradoxos, as analogias, as ilusões-palavra, os textos arco-íris. A minha mão direita secou, agora não serve para nada, tudo o que sabia fazer era brincar com vírgulas e pontos finais e fazer de sinais escuros em papel branco um quadro de Van Gogh. A minha mão direita secou, áspera perdeu a magia que lhe dava vida, as palavras que pareciam nascer por entre os dedos, as unhas cor-de-rosa, os dedos pequeninos e vertiginosos de emoção, feiticeiros de ilusões e mundos-mentira.
A minha mão direita secou. Fui eu que abandonei as palavras, ou as palavras é que me abandonaram a mim?

Impressões do Crepúsculo

"Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!"

Fernando Pessoa

Anoitece,

e lembro-me sempre dela, de adormecermos à lareira a remexer os paus do lume, de lhe falar das brigas com o colegas da escola primeiro e de como queria ser médica depois, para curar o avô, de como ela sorria placidamente e dizia que sim a todos os meus sonhos, todos eram possíveis aos olhos dela, todos, todos, até mesmo entrar em medicina sendo uma nódoa a matemática, até mesmo curar o avô...
Hoje anoitece ao ecrã do computador, não há lume para remexer, ela já não me pode prometer todos os sonhos que eu quiser, com cheiro a arroz doce com canela, com doce de abóbora e torradas feitas ao lume, com os olhos e o rosto dela a cabecear para o lume, "vó está a adormecer, está cansada, vamos dormir", "não estou nada filhinha, diz lá vá".
Que me dirias agora se pudéssemos adormecer outra vez ao lume, vó? Foste embora, e levaste os sonhos também. Já não há olhos como os teus para me ajudarem a sonhar.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Que os sonhos já não são mais iguais

"Que os sonhos já não são mais iguais
E a noite não dança em mim
E a noite não dança em mim
Por eles posso ser o que sou
(...)"

E enquanto não dançava em mim, Manel Cruz

sábado, setembro 18, 2010

Vírgula ponto final vírgula ponto final

Procuro-me entre estas letras e não me encontro, sei que me abandonei num qualquer ponto final, perdi por lá os sonhos também, hoje percebi que devia tê-los deixado entre vírgulas, ou parêntesis, quem sabe, que o saramago existiu para destronar a tirana gramática, viveu e morreu entre vírgulas também, sem pontos finais, e eu sem saber fui deixando pontos finais pelo caminho, em vez de vírgulas, que como as migalhas do Hansel e da Gretel dão sempre para voltar atrás, dá sempre para deixar mais uma ou outra e virar a história, como a vírgula vira o texto, deixei de virar a minha vida, e fiz pior, pior que pontos finais, fiz parágrafos, e de enter em enter deixei silêncios e sonhos por viver, sonhos calados no vazio da folha entre parágrafos, deixei que a gramática e o mundo ditassem os pontos finais dos meus sonhos-palavra, formataram-me o texto e a alma, as palavras arco-íris fizeram-se cinzentas e choveu, choveu, choveu até me varrerem as ilusões e perceber que o sonho não serve de guarda-chuva, é pequeno demais e vira-se com o vento, de repente parte-se e chove em mim, fica frio e tenho de desistir, é só por agora penso eu, como penso sempre, faço um novo parágrafo, e tento de novo sem parágrafos, sem pontos finais, tento resistir ao mundo de guarda-chuva-sonho nas mãos, e volta a chover, chove e tenho de mudar de parágrafo de novo, talvez até de capítulo e de palavras, e penso vai ser amanhã, amanhã é que vou conseguir, amanhã começo do zero, amanhã vai ser como dantes, começo um caderno novo de folhas ainda quentinhas, a força e o guarda-chuva-sonho vão ser maiores, mas nunca são, todos os dias chove e eu resisto, então procuro os seus beijos e ele dá-me um guarda-chuva-sonho novo, abraça-me e aquece-me do frio da chuva, e procuro-me entre estas palavras outra vez, não me acho mas resisto ao ponto final,

terça-feira, setembro 14, 2010

O rapaz mais bonito da minha vila

Ele era o rapaz mais bonito da minha vila encantada de sonhos. Parecia ter sido feito à minha medida, especialmente porque a minha cabeça assentava perfeitamente na curvatura do seu ombro. Não era demasiado alto ou muito pequeno. Tinha a altura ideal e simétrica em relação à sua beleza. Ele era, de facto, o rapaz mais brilhante, esplendoroso, apetecível e misterioso da minha pequena vila. Uma vila cheia de pomares cobertos de maçãs vermelhas, de moradias coloridas e jardins cor-de-rosa. Ele preenchia todos os vazios e todas as esperas e todas as quimeras. O seu rosto era intenso, doce e tinha a cadência de uma pauta escrita a preceito. O seu rosto era música para os meus ouvidos. Os seus lábios desenhados a carvão faziam curvas e contracurvas, no meu coração sem travões. Não podia haver beleza assim. Não devia ser permitido porque assim alguém iria acabar por se apaixonar. Os seus olhos pareciam ter nascido só para que os olhasse assim, pareciam rir sozinhos e por si só e até acho que me faziam caretas. O rapaz mais bonito da vila tinha ar de matreiro e sorriso-verão. Tudo porque derretia até a neve mais espessa dos Invernos mais frios das ruas da pequena vila onde eu morava. Sobrancelhas levantadas, testa franzida, ao rapaz mais belo do meu mundo já lhe conheço as feições e as fintas. Esse rapaz parece ter sido pintado a tinta da china, mas é bem português. Brinca com o meu coração porque sabe que lhe dou troco. E não é pouco. Às vezes acho que me sinto um iô-iô e vou para cá e para lá no balanço das traquinices deste miúdo. Os seus beijos sabem a amoras e sem demoras quero prová-las outravez. A gula é um pecado feio, só que não há mal que não venha por bem. Se o diz o provérbio, porque não provar deste mal dos teus lábios, uma e outra vez, e colher as amoras até o sol se pôr e a noite chegar de mansinho? O rapaz mais bonito da vila diz que está apaixonado por mim. Dá para acreditar? Agora quando ando acho que os meus pés mal tocam o chão e caminho sobre nuvens. Não sei se ele sabe, no entanto, que eu também estou apaixonada por ele. Às vezes olha-me, de modo altivo, e parece estar longe. Está na minha vila mas acho que se perdeu noutro lugar. Saberá que é o mais bonito de todos? Tem de saber, é inevitável e completamente absurdo que essa ignorância possa existir. Ele sabe que é como um poema que não consegui acabar, porque me dói tanta beleza. É o rapaz mais bonito da minha vila e diz que só tem olhos para mim. Só que agora, às vezes e quando me olha, tenho medo que assim não seja. Afinal, que posso eu esperar?Uma comum mortal numa vila repleta de ruas pequeninas e tortas, como eu. De locais onde é bem possível que me perca mil e uma vezes, como num labirinto. Que tropece, caia, me arranhe. Será que ainda assim, o rapaz mais bonito da minha vila vai querer ficar comigo? Hoje ainda não o vi. Se o encontrarem digam-lhe que hoje gostava de colher mais amoras. Ele irá perceber que se tratam de beijos. É que o rapaz mais bonito da minha vila é meu namorado.

domingo, setembro 12, 2010

São bocadinhos

São bocadinhos. São bocadinhos de amor, de magia e de luz. São bocadinhos em que me dás a mão e sorris para dentro dos meus olhos. São bocadinhos de magia em que me lês mesmo antes de eu escrever. São bocadinhos de amor em que me abraças e fazes o mundo desaparecer. São bocadinhos de luz em que me fazes rir e reencontrar o meu sorriso, perdido em bocadinhos sem ti. São bocadinhos de sextas à noite no cinema, sábados em Sintra e domingos na praia, são bocadinhos de férias a correr entre este lado da fronteira e o outro, entre montanhas-russas de olhos fechados e museus de olhos arregalados, são bocadinhos que até podem ser mais que bocadinhos mas que nos fogem como aquele filme tão bom de três horas que parece que só foram dez minutos. Às vezes são bocadinhos tão bocadinhos que em texto seriam um fax, um telegrama, frases de jornalista com ponto final à vista. São bocadinhos que deviam ser frases do Saramago para serem sempre vírgulas e nunca pontos finais com carros a desaparecer na esquina e eu sozinha outra vez. São bocadinhos tiranos de um tempo que nos foge. Mas é por esses bocadinhos que eu espero todos os dias, todas as semanas, bocadinhos de amor, magia e luz, que enchem de saudade os bocadinhos vazios que passo sem ti.

Tudo são histórias

"- Quero que reúna todo o seu talento e se dedique de corpo e alma, durante um ano, a trabalhar na maior história que alguma vez criou: uma religião.
Não pude deixar de desatar a rir.
- O senhor está completamente louco. É essa a sua oferta? É esse o livro que quer que eu lhe escreva?
Corelli assentiu serenamente.
- Enganou-se no escritor. Eu não sei nada de religião.
- Não se preocupe com isso. Sei eu. Não ando à procura de um teólogo, mas sim de um narrador. Sabe o que é uma religião, amigo Martín?
- Lembro-me muito mal do pai-nosso.
- Uma oração muito bonita e bem trabalhada. Poesia à parte, uma religião é no fundo um código moral que se expressa por meio de lendas, mitos ou de qualquer tipo de artifício literário a fim de estabelecer um sistema de crenças, valores e normas com os quais regular uma cultura ou uma sociedade.
- Ámen - repliquei.
- Como na literatura ou em qualquer acto de comunicação, o que lhe confere eficácia é a forma, e não o conteúdo - continuou Corelli.
- Está a dizer-me que uma doutrina não passa de uma história.
- Tudo são histórias, Martín. Aquilo em que acreditamos, o que conhecemos, o que recordamos ou mesmo aquilo com que sonhamos. Tudo são histórias, narrativas, sequências de acontecimentos e personagens que transmitem um conteúdo emocional. Um acto de fé é um acto de aceitação, aceitação de uma história que nos contam. Só aceitamos como verdadeiro aquilo que pode ser narrado. Não me diga que a ideia não o tenta.
- Não.
- Não o tenta criar uma história pela qual os homens sejam capazes de viver e morrer, pela qual sejam capazes de matar e deixar-se matar, de se sacrificar e condenar, de entregar a sua alma? Que maior desafio para alguém do seu ofício do que criar uma história de tal modo poderosa que transcenda a ficção, transformando-se em verdade revelada?"

in O Jogo do Anjo, de Carloz Ruiz Zafón

terça-feira, setembro 07, 2010

Nostalgia

Dizem que o amor não dura para sempre. Mas acho que nunca vou desaprender de amar-te, tal como continuo a saber o aeiou e a fazer contas de somar e de subtrair. Parece, no entanto, que já não sou tão boa na matemática do amor. Por muitas reviravoltas que dê, e me perca em equações, é impossível medir a distância, largura, comprimento, altura e raíz quadrada da minha afeição por ti. Contei os segundos e as horas, os dias, os meses, os anos que o calendário nos juntou. Tempo algum é suficiente para estar contigo, para te abraçar, para te dizer todas as coisas que tenho para te contar. Lembras-te dos risos? Dos passeios na praia, dos pés descalços e encharcados de mar, dos olhos reluzentes?Não eram já olhos, eram rebuçados. Doces de te olhar assim. o que é que mudou? As contas falam-me em infinito, mas os teus olhos já não me sorriem. Depois abraço-te e choro baixinho, sabendo que me estás a ouvir. Apenas não dizes nada. Conheço-te e às vezes, nas noites mais escuras deste caminho a duas mãos, parece que não sei quem és. Apesar de saber o mapa do teu corpo de cor. De adivinhar, tantas vezes, o que vais dizer a seguir. De conhecer o teu cheiro e mergulhar de cabeça nos teus braços. A forma como mordes a colher do café, o copo da cerveja. A forma como o teu riso nasce e o toque das tuas mãos. Sei de cor as linhas do teu rosto. O que mais odeias e o que mais amas. Sei exactamente que presente te oferecer e, na maioria das vezes, irá assentar na perfeição. As tuas facetas também as sei de cor. A romântica, a alegre, a triste, a zangada. Conheço-te. O teu sabor. Ainda assim, sento-me no banco do jardim e choro compulsivamente. Porque neste momento não sei quem és. As tuas palavras parecem vir de outra boca, os teus olhos frios nos meus olhos-rebuçado. Talvez continue à espera que chegues ao banco do jardim e me digas "vem, anda comigo". Aí vamos voltar a ser o Darcy e a Lizzie, o Wall-e e a Eva. Vamos passear nos jardins e voltar a falar de coisas que só nós conhecemos, a rir de fantasias que só nós soubemos imaginar. Veremos as formas das nuvens, eu irei correr para me apanhares. Nada será mais importante que eu. Irei olhar nos teus olhos e verei uma lareira. Acesa, inflamada, com o que chamam paixão. E a tua mão na minha. E ninguém vai saber que te perdi. Porque nesse dia, meu amor, talvez me possas encontrar.

Lisboa

Lisboa acorda na penumbra dos despojos de mais uma noite. As garrafas espalhadas pelo chão, os vidros partidos em jeito de memória de conversas que já se tiveram. O aroma de mil aromas desta Lisboa, indecifráveis e que deixam o seu rasto. É assim o despertar da capital, como se Lisboa dormisse. Tem sono leve, esta cidade do mundo, enebriada de gente que passa na sua calçada. Toc Toc Toc. O barulho dos saltos das mulheres nos passeios, o arrastar dos pés do homem da mercearia, que carrega as caixas da fruta como um fardo que lhe pesa. Lisboa pesa na alma de quem aqui vive, é rumor de conversas, de memórias, de estátuas que se falassem teriam mais que histórias para contar. Uns vêm-na como a cidade boémia, de bares em ruelas escondidas, de conversas sufocadas pelo fumo do tabaco. Outro encontram-na todas as manhãs, no caminho para a escola, para o trabalho. Alguns visitam-na pela primeira vez. Amam-na ou detestam-na. Esta Lisboa de pombos que voam e povoam as ruas divididas entre o passado e o presente. Lisboa de encantos e olhares, de Fernando Pessoa, menina e moça. A cidade que me acolhe ainda o dia é uma criança e de mim se despede, já com o cansaço nos olhos, quando a tarde já vai longa. Onde encontro sempre um lugar diferente, uma montra que ainda não foi descoberta. Que me cansa e me atormenta. Lisboa de mil amores, de mil passados. Cidade onde uns se perdem e outros se encontram, e guarda os seus segredos bem escondidos. Lisboa de insónias, que nunca dorme, talvez para jamais ser esquecida. Que embala nos seus braços os mendigos, que dormem nas suas vielas e recantos. Passamos todos uns pelos outros, nas suas ruas, e no bulício matinal. Ninguém se fala. Nada se diz. E Lisboa respira, cada vez mais acelerada, no tempo moderno em que pomos sempre os olhos no chão. Em que há pressa de ter pressa para chegar a um lugar. Por agora, chegámos a Lisboa. Quem sabe qual será a nossa próxima paragem...

sexta-feira, julho 30, 2010

Ela

Sempre que oiço a notícia de uma morte, lembro-me dela. Especialmente quando são mortes injustas, prematuras, forçadas por doenças más, impiedosas, que escolhem à sorte quem atormentar.


Lembro-me dela, do sorriso que sempre nos guardou mesmo quando a vida a castigava sem que ela merecesse castigo. Quando o meu avô se recusava a comer. Quando o máximo que levava para a cama era um copo de vinho e um pedaço de pão espanhol com queijo la vache qui rit, um único que gostava. Ele comia sempre de pé, de olhos perdidos fixos num ponto invísivel, esquecido das vinte ou mais pessoas que o rodeavam à mesa, sentadas, regaladas com os almoços fartos da minha avó. E ela sorria-nos e fingia que não ligava àquele homem de 70 anos de comportamento de 5, que não queria comer, que dizia que era um menino pequenino que não sabia nada, que queria morrer, que apontava para o cemitério e dizia que queria ir dormir para ali, que fugia de casa para a serra e que às vezes só encontrávamos dias depois. Que punha toda a aldeia à procura dele.

Uma vez encontrei-o eu, esbaforida de bicicleta, bronzeada pelo calor da aldeia. "Cigana!", disse ele quando me viu, sentado à sombra num muro de pedra perdido nas encruzilhadas da serra. Não me conheceu. A minha avó, de passos curtos e olhar ausente mas triste pela rotina que se tinha tornado as fugas do meu avô, alcançou-nos depois de eu ter gritado que o tinha encontrado. Parou a passos dele, baixou os olhos e puxou-lhe o braço, sem nada dizer. Ele começou a gritar o que dizia sempre: "eu sou um menino pequenino! Eu não sei nada!" Olhava-me com desconfiança, enquanto a minha avó o arrastava pela serra abaixo, eu com a bicicleta pelo braço. Até que a minha avó lhe disse "Então não vês. É a fatinha, da Elce". E ele olhou para mim. "Passarinho..."

Sempre esta rotina, e ela nunca esmoreceu, nunca se queixou, nunca nos deixou ouvir nenhuma palavra de raiva contra a doença mental do meu avó. Contra o seu destino ingrato, há anos a cuidar de um homem que a condenou a cuidar de seis filhos, que deixaram de estudar quando os sonhos se adivinhavam e começaram a trabalhar aos 12 anos, porque a mãe não tinha dinheiro. Na aldeia, o povo, com pena do sofrimento daquela mulher, que nunca se tinha conhecido igual, ditava: "ele doente ha tanto tempo, mas ela ainda morre primeiro e ele fica desamparado..." Agoirentos. Estúpidos. Odeio-os. Foi mesmo assim. Ela nunca cuidou de si, porque só cuidava dele. Não tinha tempo para ela. Tantos sinais de doença, tanto tempo de anemia, e ela recusava-se a sair da aldeia, recusava-se a deixá-lo sozinho. "Quem cuida dele?" "Alguém cuidará, avó" "Ele não come. Não deixa que ninguem lhe toque" "Agora é tempo de cuidar de si, ele está bem" "Não estará, quando eu não estiver..." E tinha razão.

Ele também o sabia. Não era tão doente nem tão perdido como se fazia. Um dia, antes de irmos embora de Aldeia Velha, fomos todos despedir-nos dele ao quarto, à vez. Voltavam de braços encolhidos - ele nunca dizia nada, nao cumprimentava, nada. "Xau, avó. Beijinhos. Voltamos no Natal...", e fiz-lhe uma festa na cara, mesmo sabendo que ele não gostava e que podia levantar a mão contra mim. De repente, olhou-me, apertou-me o braço e disse-me, de olhos muito abertos "Não vás, que a tua avó está doente. Não vás. Fica a cuidar dela". E eu tremi, ele nunca me tinha falado assim. Ele nunca falava. A ninguem. E disse-lhe, nervosa, no alto dos meus 10 anos. "Mas a escola..." Porque eu nao sabia que a minha avó estava doente. Ninguem sabia. Só ela, em segredo. "Sim, vai para a escola. O teu lugar ao pé dos teus pais. Vai, vai, vai-te embora". Voltou a fitar o tecto da sua cama, perdido. Sai, nervosa, a chorar. Naquele dia,não consegui contar aquele episódio a ninguem. Guardei-o para mim, mas tive medo. A avó estava doente? Mas parecia tão bem...

Meses mais tarde, um cancro no estômago. A minha avó. O meu avô no lar, sem que lhe fosse explicado nada. "Ele não percebe" "Ainda lhe dá uma coisa" "Ele fica agressivo".

E confirmavam-se os ditos do povo. Ela faleceu. A vida castigou-a por ter sido demasiado boa. Anos a tratar de um homem alcoolico, esquizofrénico, agressivo, doente, louco. Anos depois de anos em que ele se passeava pela europa de bicicleta e ela cuidava de 6 filhos que ele lhe foi deixando quando voltava a portugal. A trabalhar no campo, de sol a sol. a pagar a fiado, sempre que à espera que ele mandasse dinheiro de frança.

Meses depois de ela ter morrido, ele morreu tambem. Como ela tinha ditado, nao sobrevivia sem ela. Nunca soube que ela tinha morrido, que ninguem quis que se lhe dissesse. "Ainda lhe dá uma coisa" Na verdade, era a raiva do que ele tinha feito à mãe deles, seis irmãos, unidos entre a raiva e o amor a um pai que nunca tinham conhecido. O amor que tinham visto nos olhos dela, por ele. Só o amor podia justificar uma vida assim, tão dedicada, tão perdida...

Tenho tantas saudades dela. De como me abraçava, de como se ria quando eu dizia parvoices na igreja, baixinho ("Se ele nasceu ha muitos anos, porque dizemos hoje que nasceu, e nao lhe cantamos os parabens?" - Era dia de natal), de como me mostrava às amigas na aldeia "É a fatinha, filha da minha Elce", com um enorme sorriso e orgulho nos lábios - eu era a filha, a neta, que demorou 10 anos a nascer.

Tenho saudades dela. E sempre que morre alguem, assim, injustamente, como morreu Antonio Feio, levado por aquela doença horrivel que aprendi a odiar como o meu unico e verdadeiro odio, doi-me a morte dela como no dia em que morreu...

segunda-feira, março 08, 2010

Mulher

O céu terá sempre estrelas, disseram-me um dia. Mesmo quando parece que alguém apagou todos os candeeiros do céu. Por vezes choro tanto que não consigo descortinar, entre as lágrimas, o brilho que o céu e a lua me trazem. Mas noutros dias, naqueles a que chamamos felizes, sinto que o céu se enche de estrelas que brilham só para mim. Eu sou uma estrela. Por vezes, tenho andado distante do meu próprio brilho. E talvez esteja na altura de mostrar ao mundo que brilho mais que muitas estrelas falsas que por aí andam. Que tenho não a beleza dos outros, mas a minha própria beleza. Tecida por fadas de sonhos e amizades, por olhos que me souberam ver. Os olhos que não me quiserem conhecer ou me achem menos do que sou, podem passar e olhar para outro lado. O mundo está cheio de gente assim. Mesquinha e irrelevante. Só eu sei quem sou.Só eu me deito comigo e adormeço a meu lado. Sou mulher. Sou eu. Sou mais do que uma cara ou um corpo. Sou estrela e luz. Sou um livro que vou escrevendo. Arranco páginas quando me revolto com a história que sou. Outras vezes escrevo sem parar para me reconhecer. Conheço-me? Nem sempre. Sou muitas vezes uma imagem desfocada, uma fotografia que não mostra o que verdadeiramente sou. Por trás das sobrancelhas erguidas, do olhar de desafio e do sorriso ou das lágrimas, está mais de mim. Está a estrela que se tem escondido atrás das nuvens e que nem todos merecem ver. Hoje mostra-se, verdadeira. Despida de sentidos e cheia de luzes. Eu própria. No meu céu.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

jardim

Ouço a chuva cair lá fora e em cada gota há uma memória de nós. Do que fomos, do que poderíamos ter sido. Do que o futuro nos reserva. Em cada gota de água, que cobre a minha vila e os campos da minha memória, há uma pergunta à espera de uma resposta. As dúvidas estragaram a minha colheita de flores. Da panóplia de cores mais belas que já conheceste. O campo agora está de novo semeado, mas temo que as flores demorem mais tempo a desabrochar do que o normal. Espero que tragas contigo algo que possa fazer sorrir as flores e despir o meu jardim da tristeza com que se vestiu. O meu coração é um jardim. Deixaram crescer as ervas daninhas, deixaram crescer os espinhos das rosas até que alguém picou as mãos. O sangue jorrou da ferida aberta nas mãos de alguém, nas minhas mãos. Mas agora é tempo de sarar as feridas. De arrancar as flores murchas e começar de novo. Plantar orquídeas, túlipas, rosas que tenham menos espinhos, margaridas, violetas, jasmim. Jasmim. O amor que jaz em mim. Poderia ser. Podes trazer essas ou quaisquer outras flores. Devolve-me o amor que me roubaste. Devolve as partes do meu coração que partiste. Trouxeste um furacão na tua última passagem pelo meu jardim. Um vento tão forte que praticamente não sobraram flores de pé. Nem a árvore da confiança, que sempre esteve de pedra e cal no canto mais recôndito do meu jardim-coração. A minha alma está só a metade, como uma máquina a meio-gás. Estou a meio da felicidade, a meio do amor, a meio de desenrolar a teia das perguntas e das dúvidas que assolam e matam o meu jardim. Senta-te comigo esta noite no meu jardim. Conta-me como tudo começou em nós, fala-me das constelações que conheces e inventa nomes para aquelas que não sabes o que são. Reinventa o amor e diz-me que não é mentira o que sentimos. Faz-me acreditar. O meu jardim espera por ti para ser acarinhado, agraciado, plantado, encontrado. Põe as mãos na terra e luta. Luta para que a semente do tu e do eu volte a germinar em nós. Apenas te aviso: não plantes flores que possam murchar novamente. Não plantes sofrimento ou mágoa. Planta mudança, muita mudança em tons de branco e amarelo. Ou em rosa e azul. As minhas cores favoritas. Reconstrói o meu jardim.