domingo, abril 13, 2008

Deus das pequenas coisas

As palavras faziam ricochete na água. Eu encostava o ouvido ao rio para escutar a sua música. As palavras a tocarem mansamente o tempo e a solidão. As palavras fundidas numa música que me afastava da rotina sem sabor de tantos dias. Que afinava o desafinado e monocórdico desenrolar das semanas em que nos afastamos da beleza do Deus das pequenas coisas e nos fechamos em copas. Na catadupa dos dias que nos afastam de nós mesmos. De quem fomos, de que alma temos. De que a janela pode ser aberta. Lá fora há outro tempo fora do tempo, outros mistérios fora dos nossos pequenos detalhes a que chamamos problemas. Outras árvores sempre mais imponentes que o nosso pequeno arbusto de jardim. Outras formas de dar sentido ao facto de amarmos ou, por outra, de nos fazerem entender o que é amar. De traçarmos os nossos verdadeiros gestos, como uma autobiografia. Porque não são os outros que nos devem escrever. Biografias em nada semelhantes umas com as outras sobre o que somos. Porque somos tudo isso. E a música continua a afagar o piano da alma. A gravidade não existe. Flutuei ao som da beleza da música sem que o chão me impedisse. E nada de grave havia nisso. Sem ser as notas graves que saíam da viola. E a música que tocava era para todos nós que nascemos com uma alma que nunca vimos. Que nunca cheirámos. Devia ralhar com a minha alma tantas vezes por estar sempre a querer sair do corpo. Bastará de facto de perguntar quem somos e apreciar este sol. Sim, está a chover mas há sol na beleza desta chuva que gentilmente toca as vidraças. E a música da chuva mistura-se com tantas recordações e não posso adormecer agora. Não posso. O mundo espera por mim. Apesar do tempo que perdi. Apesar dos erros que cometi. Apesar de eu ser eu. E continuar sem saber quem sou.

segunda-feira, abril 07, 2008

O violino, o maestro e o piano

Eu sou o violino e tu o maestro. Naquele dia esqueceste-te de como ler a partitura mesmo que soubesses de cor e salteado o dó-fá-sol-mim. Se o professor te visse ia fazer como antigamente, dar-te reguadas nas mãos e repreender-te porque afinal rapazinho, não estás a tocar a melodia como deve ser. "Vá lá rapazinho um, dois, genica". O professor ao longe a bater o pé e a repetir as mesmas palavras. Dó-Ré-Mi. Voltamos ao presente. Deixamos o professor como uma daquelas imagens a preto e branco e a realidade volta a cores. Continuas estático em frente ao violino que chora baixinho nas tuas mãos, mas não não estás a tocar a melodia certa. O violino sabe. Ao longe o piano ilumina-se e tenta seduzir o violino para outras danças. A deixar de seguir sempre o maestro e a ser um violino simplesmente. "Não me toques mais nas cordas", poderia o violino dizer se conseguisse falar. Mas habituou-se às mãos do maestro e à leveza da sua forma de tocar as suas cordas. 1,2,1,2. Então o maestro pára de repente. Apoplexia instantânea de sentidos. A música recomeça e ilumina-se o mundo, como uma melodia inacabada e acabada de começar. No palco não há mais ninguém e o maestro lembra-se como lia a partitura. Com o coração, pum-pum-pum, seguir o ritmo da partitura e ler o coração. Bem, talvez seja ao contrário. O maestro conta ao violino do seu amor, da sua paixão e à cabeça voltam todas as imagens esquecidas. Em troca o violino vibra nas cordas com força e enche tudo de música. Cada recanto poeirento do coração do maestro.Um calor invade o palco, uma subtil fragrância a vida invade todas as coisas. Estás a ver maestro? Não é preciso muito para se fazer uma orquestra. Bastamos nós dois. E dispensamos a intromissão de pianos na nossa música.

sexta-feira, abril 04, 2008

«Escreves o primeiro rascunho com o coração. Tornas a escrever com a cabeça. A primeira regra da escrita é escrever. Não é pensar»

Descobrir Forrester, Gus Van Sant