quinta-feira, agosto 31, 2006

O que foi não volta a ser


"Eu trago um buraco no futuro
traz presentes fugidios
e memórias de navios

Traz tanta confiança
que se é sempre criança
mesmo quando não se quer
o que foi não volta a ser
e o que foi não volta a ser
mesmo que muito se queira
e querer muito é poder
e o que foi não volta a ser

Pode vir algo melhor
embora sempre pareça
que o pior está por vir

Nunca se deve esquecer
que não há volta sem partir
e o que foi não volta ser

E o que foi não volta ser
mesmo que muito se queira
e querer muito é poder
e o que foi não volta a ser

(...)"

Xutos e Pontapés

O teu beijo quente e violento ficou no baú das brincadeiras, das correrias e dos segredos. Ninguém podia saber, e serpenteavamos entre as árvores e as silvas que nos arranhavam as calças. E as amoras que manchavam a saia que a minha mãe pediu para não sujar. O que foi não volta a ser, mas fui feliz para sempre entre os calções sujos de terra e o joelho esfolado. Entre o murmúrio do teu sorriso e o calar dos nossos sonhos. Nós não tínhamos bibe e a boca suja de chocolate. Mas parecia.

terça-feira, agosto 15, 2006

Nunca são as grandes coisas.

Nunca são as grandes coisas. Os grandes gestos espalhafatosos, cheios de jogadas estudadas. São sempre as coisas mais pequenas, como a tua mão pousada no meu cabelo.Como os teus braços discretos enrolados à volta da minha cintura. Como o teu sorriso iluminado pela lua. Ou os meus pés dentro da água fria do mar numa noite de Verão. No universo delicado de pequenos momentos-pétala em que o meu riso soa cristalino e se descobre, tal qual uma ostra que revela possuir uma pérola. E o meu riso-pérola caminha contigo de mãos dadas. Aí estou eu a cair num labirinto de sensações, mais uma vez, a inebriar-me em ti e na tua forma de me despertar de manhã. E na forma como sonho contigo mesmo a teu lado. Nunca são as grandes coisas, os violinos ou dares-me o Mundo de mão beijada. São pequenos universos paralelos que me ofereces, que possuem a beleza de uma música encantada, da minhamúsica favorita, que não é mais que o som da tua voz. Nunca são as grandes coisas. Os teus olhos cerrados no rumor de um beijo, o teu olhar de criança livre, os teus murmúrios e rebates apaixonados. E aí estás tu. E são sempre essas pequenas mas grandes, enormes, gigantes, exorbitantes e hiperbólicas coisas.

sábado, agosto 12, 2006

Rasto de estrela cadente radiosa e fugaz. O brilho perdido no breu do meu quarto, janela para a lua. Flashes dos teus olhos no relâmpago ofuscante de palavras-amor que fugiram da tua boca e que repeti quando os meus lábios ainda sabiam aos teus, quando sabia de cor a tua voz e gostava de mastigá-la devagarinho, de imitar e ser por segundos o teu sotaque meigo e grave, arrastado e envolvente. Porque a tua voz confortava-me como os teus braços e ainda ecoava nos meus ouvidos (segundos antes tinhas murmurado na minha pele a respiração quente do teu querer). E o teu perfume. O teu perfume! Aquele odor forte e sensual mesclado no teu corpo que sabia mesmo a nome italiano... e a luxúria. A nossa luxúria. A tua camisola extasiava-me. Fechava os olhos no fervor lascivo do teu passear em mim e o meu quarto era o teu cheiro. Tudo eras tu e nada era saudade. Nem agora o é. Sabes a filme, a paixão de cinema, e foi assim que te escrevi. Amor de perdição, cegueira, exuberância, vício, coup-de-foudre. Não me conheceste, saciaste o meu desejo de adoração. Por isso desce do teu altar de certezas e do trono de escárnio, e despe esse ridículo manto de sorrisos. Porque eu perdi-me em ti, mas fui eu que te usei.

terça-feira, agosto 01, 2006

Espantalhos sem coração

Quando irão fugir os monstros do armário? Monstro do meu armário e papão debaixo da minha cama, se me estão a ouvir (ou a ler, neste caso) não assaltem o portão azul, rua de todos os medos, nº de não sei quantas almas em mim depostas. Força de espírito e de vontade faz-me uma estaca para espetar nas entranhas dos espantalhos de palha que me perseguem. Que nos perseguem nas esquinas da rua da vida. Talvez, como no feiticeiro de Oz, os espantalhos só precisem de um coração, e eu que me finjo de leão, necessite de ir ao grande feiticeiro de Oz pedir coragem. Em Oz, no país das maravilhas, na terra do Nunca. Num mundo paralelo onde o ser humano bebe a água da fantasia e abre todas as portas sem chaves tangíveis.

Quase Perfeito



As minhas costas voltadas e os teus braços apertados sobre a minha teimosia. Os teus lábios de chocolate e os meus dentes cerrados de medo. Feridos de te querer. E as minhas mãos por trás das costas, como uma menina pequenina que esconde um brinquedo que não quer mostrar a ninguém. O meu sorriso tímido nas minhas mãos em concha. Posso dar-to, mas não o podes mostrar a ninguém.
Eu e tu, baunilha e chocolate, sabor a maracujá, cheiro a morango. Acúcar e Pimenta no ser, Algodão Doce no querer. Calor de um dia de Agosto, todos os dias. Salada de frutas fresquinha ou gelado tutti-frutti à beira-mar. As nossas vozes cantadas com sorrisos, descompassadas como a música brasileira do bar. Confissões como cerejas. E tu a pegares-me ao colo para ver o cantor lá ao fundo. ("Sou pesada!", "Tá caladinha!")
Deixa-me abraçar-te até aprendermos a respirar ao mesmo tempo.

Sabes... Seria quase perfeito.

"Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Quase que não chegava
A tempo de me deliciar
Quase que não chegava
A horas de te abraçar
Quase que não recebia
A prenda prometida
Quase que não devia
Existir tal companhia

Não me lembras o céu
Nem nada que se pareça
Não me lembras a lua
Nem nada que se escureça
Se um dia me sinto nua
Tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua
Eu confesso não sai da cabeça

Se um beijo é quase perfeito
Perdidos num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der
O tempo a que temos direito

Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito."


Donna Maria, Quase Perfeito
"Estás só. O passado está morto, o futuro é inimaginável."

1984, George Orwell

Há letras que doem.