segunda-feira, setembro 12, 2016

O xaixai

Quando era pequenina não precisava de muita coisa: a minha mãe, o meu pai e o meu "xaixai", o cobertor rosa com rebordo de seda branca. Com quatro anos, ainda não conseguia adormecer sem o xaixai, agora velho e puído de tantas noites a fazer-lhe festinhas. Queria levá-lo para todo o lado, o meu melhor amigo de lã: a minha mãe tinha de o pôr na mala e carregar o cobertor mesmo que só fossemos passar uma noite fora. Quando íamos de férias para a aldeia, o xaixai também tinha de ir - e vir. O primeiro drama da minha vida aconteceu precisamente quando meus pais se esqueceram (se foi de propósito ou não, até agora nunca confessaram) do xaixai na aldeia e só se aperceberam disso quando chegámos a casa, a mais de 300 km de distância e, nessa altura, mais de cinco horas de viagem. Foi nessa altura que os meus pais tiveram o seu primeiro encontro com o monstro que vive dentro de mim, o meu mau feitio, assim como meu talento para o teatro. Uma choradeira dos diabos, ameaças de que não iria dormir sem o xaixai, súplicas imensas e discursos Shakespeareanos sobre a importância metafísica de um cobertor velho, da boca de uma minúscula criança de quatro anos. Venci-os pelo cansaço. Após uma viagem duríssima, eles só queriam dormir, e eu não deixava. Nunca foram de me fazer as vontades por uma birra, mas abriram uma excepção (julgo que o meu pai foi o primeiro a ceder, a minha mãe goza e diz que ele não resiste quando faço beicinho): percorreram a lista de contactos de amigos que podiam estar na aldeia e que viessem para Lisboa naquele dia, ligaram para os escassos números de telefone que existiam, e descobriram que o João e a Luz ainda estavam em Aldeia Velha. Foram eles que, já com dois filhos e fartos de birras, ouviram as preces de outro jovem casal, à beira de um ataque de nervos com a sua (ainda) filha única. Depois da longa viagem para Lisboa, em vez de irem descansar para casa, fizeram um desvio e vieram deixar-me o xaixai à cama - com o maior carinho depositaram o meu bem mais precioso ao meu lado, e eu adormeci finalmente, para alívio dos meus cansados papás. Ainda hoje se fala dessa história, pois não eram todos que, à meia-noite e depois de uma viagem de 300 km pelas santas terrinhas, vinham deixar um xaixai a uma miúda birrenta, que não era sobrinha nem era nada. Era uma criança chorona filha dos amigos deles. Dos amigos de infância, de quem foram vizinhos numa aldeia pequena, em que todos são amigos ou primos, que estudaram juntos desde a primária até aos tempos da Guarda ou do seminário, que todos os domingos faziam bailes semi-clandestinos nas garagens dos pais que estavam em França, que foram aos casamentos uns dos outros e aos baptizados dos filhos.
É deste carinho que é feito o laço que une os amigos de Aldeia Velha. Temos todos as nossas rotinas e preocupações, mas quando toca o telefone ninguém diz que não. É desta amizade que me enche o coração. Que me dá esperança nas pessoas. Que me ajuda a continuar. Como diria o Jorge Palma "enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar"... todos juntos, pela mesma estrada, saltando as pedras do caminho,  todos nós que somos "da terra dos sonhos, onde toda a gente trata a gente toda por igual"...
<3 (Até sempre...)

sábado, agosto 13, 2016

Cartas ao meu tio - VIII

Passou um ano, querido tio. Passou um ano agora, do malogrado 8 de agosto de 2015, esse sábado quente de agosto em que acordei para celebrar contigo e o resto da família o regresso da tia Betty, que acabava de chegar de França, quando o telemóvel tocou e destruiu os planos todos, era a maldita chamada que me anunciava que não, aquele Verão não seria de reencontros, mergulhos felizes no mar, brindes intermináveis nas festas de Aldeia Velha, não, aquele Verão seria de tristeza, saudade, olhos perdidos e roupas pretas numa aldeia em festa, onde nós éramos a única família que não ria, não brindava - faltava um braço de copo ao alto, um copo cheio de risos e vinho fresco, o teu.
Passou um ano e faltam-me as palavras. Encontrei-me num texto de alguém que, como eu, se encontra nos braços dos tios, dos primos, à mesa com a família. Alguém que, como eu, perde o chão quando desaparece um dos seus. "Eu achava que a vida trazia GPS incorporado mas não traz. E quando desaparece, assim, uma referência que sempre lá esteve, eu perco-me e dificilmente me volto a achar, até posso voltar ao caminho mas o caminho nunca mais é o mesmo e fico perdida de qualquer maneira. Morrem-me pessoas e eu morro sempre um bocadinho com elas, as pessoas para quem eu sou a Liana, a miúda, as pessoas para quem eu posso ser só eu. A vida não tem satélites que ajudem a recalcular o percurso mais rápido, mais fácil, onde se pagam menos portagens ou onde cheguemos mais rápido ao nosso destino. A vida não tem sequer mapas ou bússolas e às vezes temos que nos resignar a prosseguir pelos caminhos confiando na fé e nas estrelas. Talvez seja por isso que acredito naquilo que disse à Ana: "O tio foi para o céu e mora agora numa estrelinha". Que a sua estrela, como a do meu avô e da minha avó, me guie sempre que me perca já que tenho a certeza que a vida não vem com GPS incorporado." (Da Pólo Norte, no seu Quadripolaridades)

Saudades, meu tio. Tantas saudades, para sempre.

quinta-feira, julho 21, 2016

Coisas

 Coisas simples para fazer alguém feliz.  O som de uma música que torna os nossos pés efervescentes, com vida própria, a viajarem dentro de si mesmos na descoberta da alegria. O som dos pássaros e o sol a adormecer lá longe, no horizonte. A areia da praia a escorrer nos dedos e os pés dentro do mar quando o calor se faz sentir. Coisas felizes para abençoar a alma. Um livro para devorar, para nos manter acordados pela madrugada fora, um riso fácil a preencher os  nossos silêncios, um caminho difícil que no fim valeu a pena.  A beleza de cada manhã, cheia de novidades e promessas para encontrar e descobrir, em ziguezague. Porque a vida nunca poderia ser em linha reta pois não? Discutir mas fazer depois as pazes. Rir por algo que nem sabemos bem o que é. Coisas que nos aquecem o coração. Uma chávena de chá e uma lareira acesa. O ronronar do gato e o cheiro a pão acabado de fazer. Uma nova história. Coisas que não são apenas coisas. São a nossa identidade quando nos sentimos prestes a perder o chão. Como se o mundo nos quisesse engolir. O mundo é o bicho papão e quer-nos devorar. Vou-me agarrar às coisas, pequenas, ínfimas, partes de mim para não esquecer quem fui, quem sou. Para construir  e reconstruir a alegria sempre que ela me quiser fugir. 

terça-feira, junho 14, 2016

As ruas da minh'aldeia

Percorro as ruas de calçada da minha aldeia, sentindo a cada passo a energia de cada beco, quelhe ou travessa, as histórias que os caminhos guardam, beijos roubados, garotos nas suas correrias, velhotes curvados a conduzir carroças, mulheres de xaile na cabeça e vestidas de preto, encerros e bailes pela madrugada adentro. Nós vamos partindo e outros pés percorrerão a nossa calçada, que testemunha em silêncio o ir e vir das gerações de Aldeia Velha.
Dou volta à aldeia e vou encontrando alguém que se queixa dos joelhos ou da saudade - longe vai o tempo em que tinha de ziguezaguear entre burros, vacas e carroças para passar pelas largas ruas da minha aldeia. Chego à porta da eterna casa da avó, apesar de ser agora do Tio Gustavo. Entro pelo curral vazio, percorro o chão empedrado e lembro-me de quando era de terra e estava coberto de palha, quando as galinhas se passeavam livremente e todo o curral era um gigantesco ninho de ovos. A loje dos animais está vazia: já não é preciso burra para lavrar os campos nem de porcos para o Natal. Estranho o silêncio de uma casa que sempre foi barulho e vida. Entro pela garagem e percebo que tem o mesmo cheiro, talvez devido aos anos e anos em que a avó ali guardou as cebolas e batatas que cultivava no "tchão", o prado Ana Ramos (ou como se diz lá, Prad'naramos). Descubro aí reminiscências de um tempo que não volta mais: a albarda da burra, a chave grande e ferrugenta do portão antigo, a cadeira de plástico do avô, a cesta das batatas, a tenaz velha do lume. Estas pequenas recordações levam-me de volta à altura em que os meus avós eram vivos e eu pensava que assim seria para sempre, a casa da avó na aldeia era um paraíso só meu do que me fazia mais feliz: brincar ao boi com os meus primos, levar a burra ao Prad'naramos com a avó e o Tio Gustavo, a chegada da família de França e os grandes banquetes da avó, os dias quentes de capeia e de festa no mês de Agosto.
Sigo para casa do Tio Eusébio, que hoje faz 59 anos. Estamos quase todos presentes: uns vieram de Lisboa, outros do Porto, fazemos quilómetros com gosto porque sabemos quão valiosos são estes momentos, quão importante se torna cada vez mais celebrar a vida dos nossos tios. Sentamo-nos à mesa e trocamos sorrisos contidos, ninguém diz nada mas toda a gente sente a ausência do Tio Gil. Ocorre-me o curral da avó e as ruas quase vazias da aldeia. Respiro fundo e encho o copo de sangria. Brindamos ao meu tio. A bebida fresca enebria o medo do tempo que há-de vir e a saudade do que já foi, prendendo-me finalmente ao presente. Rio, brinco com os meus primos mais pequenos e delicio-me com as sobremesas da minha mãe e da minha tia. Afinal, a aldeia ainda é o paraíso do que me faz mais feliz, mas agora compreendo que, mais que um lugar, é por eles que regresso sempre. Pelos sorrisos e a felicidade dos meus.

terça-feira, abril 05, 2016

Cartas ao meu tio - VII

Tio, amanhã farias anos. Hoje apenas quero dizer-te: "Nós só morremos quando ninguém se lembra de nós" (António Lobo Antunes).

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Quase uma da manhã. Ela não dorme. Com uma caneca de chá na mão, contempla a chuva que cai lá fora, distraindo o turbilhão de pensamentos com o mau humor que vem dos céus. Será só isto, afinal? "Passamos a maior parte da nossa vida frente a um computador", disse-lhe uma colega hoje, naquilo a que chamam emprego. Passam os dias sem novidades para contar à noite, fazem-se horas extra de olhar vazio, o ano passa, os ordenados chegam, as contas pagam-se. E de repente, os amigos aparecem na televisão, na capa da revista, compram casas e têm bebés. Ela não sabe se já quer brincar aos adultos. Uma vida de gente grande, a correr da creche para o trabalho e daí para o quarto do bebé. Não sabe o que quer. É o problema desta geração de meninos mimados, diriam os tios dela. Têm razão, claro. Antigamente iam todos trabalhar e pronto, não havia tempo para choraminguices. Mas falta qualquer coisa, essa paixão dos tempos de faculdade, a inspiração dos 18 anos, a vida a vibrar nos dedos.
Ela deita a cabeça na almofada do sofá, e as mãos, outrora loucas de ideias e projetos, jazem encolhidas na barriga - a sala está gelada. "Gelada como a minha alma", pensa ela, melodramática. Quanto vale o pijama quentinho, o robe polar, o chá a escaldar. Ela fecha os olhos e tenta sonhar. Vai. Os 18 anos não estão assim tão longe. Foram só há mais de dez anos...

sábado, janeiro 09, 2016

Ontem a minha mãe disse-o. De repente, fugiu-lhe dos lábios o que há seis meses evitamos dizer. Soou-me a algo errado, surreal, soou-me até a um erro de gramática, como se o sujeito e predicado não jogassem um com o outro. Quando ouvi, percebi: ainda não caiu em mim. O tio Gil morreu. Foi isso que ela disse, num de repente, vírgula isto e aquilo da conversa que estávamos a ter. O tio Gil morreu, por isso, tal e tal. Mas antes da vírgula está tudo errado, risca e volta a escrever por favor. E saiu-me, eu tenho o cérebro colado à boca: que estranho isso que tu disseste. A mãe limpou os olhos e eu pensei: pronto, já fiz asneira, podia ter deixado passar, mas não, ainda pisei mais na ferida. E continuo sem conseguir deixar de escrever sobre isso. Desde aquele quente sábado de agosto, véspera do tão aguardado encontro de família, que não compreendo a que realidade fui parar. Parece que entrei para uma nova dimensão, essa de ter primas sem pai, a minha mãe sem irmão, os meus tios cinco quando sempre foram seis, quando o tio Gil partiu, mesmo ao jeito dele, de súbito e sem avisar, porque ele nunca gostava de incomodar.
Ontem a minha mãe disse-o e eu agora escrevi-o. Mas continua a parecer mentira.