segunda-feira, dezembro 29, 2008

Pétala

A Avenida cheirava a Primavera
Era Outono.

O amor cheirava a castanhas assadas na brasa,
Sem pressas os corpos ardiam.

Os meus sentimentos cheiravam a neve.
Já era Verão.

Só o amor cheirava a gelo
Sem pressas os corpos congelavam.

O amor é uma sombra estranha.
E então era Primavera.

O amor cheirava a nada misturado com tormentas
Sem pressas os corpos procuravam-se.

Mas nunca se chegavam a encontrar.

O meu amor por ti percorre todas as estações do ano.

Quando cheira a neve
Gostava que ardesses como a castanha,
Quando me pareces uma sombra
Gostava que fosses uma flor da Primavera.
A desabrochar no meu corpo, na minha mão.

Eu sou a pétala arrastada no tempo e na vertigem,
Eu sou o nada transformado em tudo.
Eu sou a força que aparenta fraqueza.
Eu sou mulher, eu sou lágrima.

Uma pétala de uma túlipa desfolhada ao vento,
Pisada, magoada, amada, enlouquecida,
Eu sou o rubor do Verão.

Eu sou Outono na folha que cai,
Na lágrima que sobrevive no olhar.

Eu sou ponto de encontro entre mim e nós.
Eu sou o frio da nossa distância
Quando o amor é Inverno.

Eu sou o medo
Do não em vez do sim.
A meia lua
E quando a lua enche
Eu preciso de ti.

Porque eu sou só uma pétala
E só tu me podes tornar flor.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Grace

"there's the moon asking to stay
long enough for the clouds to fly me away
well it's my time coming, i'm not afraid to die
my fading voice sings of love,
but she cries to the clicking of time
oh, time

wait in the fire...

and she weeps on my arm
walking to the bright lights in sorrow
oh drink a bit of wine we both might go tomorrow
oh my love

and the rain is falling and i believe
my time has come
it reminds me of the pain
i might leave
leave behind

wait in the fire...

and i feel them drown my name
so easy to know and forget with this kiss
i'm not afraid to go but it goes so slow
"

Jeff Buckley

quinta-feira, novembro 13, 2008

Bonjour Tristesse

Vous vous faites de l’amour une idée un peu simpliste. Ce n’est pas une suite de sensations indépendantes les unes des autres…

Je pensai que toutes mes amours avaient été ainsi. Une émotion subite devant un visage, un geste, sous un baiser… Des instants épanouis, sans cohérence, c’était tout le souvenir que j’avais.

“C’est autre chose, disait Anne. Il y a la tendresse, le manque… Des choses que vous ne pouvez pas comprendre.”


Bonjour Tristesse, Françoise Sagan

sábado, novembro 01, 2008

Trapézio

Os olhos dela brilhavam na escuridão da vida e do tempo, ela dançava para afastar o medo porque as velas já tinham sido apagadas há muito tempo. Ela sempre foi perita em acender rastilhos mas nunca soube evitar que as coisas explodissem de repente. A tua mão é teimosa, uma vez mais, em agarrar-me quando mais ninguém o faz. Quando toda a gente me olha mas não me entende. Ninguém sabe quem sou. Pó de estrelas e sonhos espalhados por aí, sorrisos e danças num trapézio sem final. A vida ensinou-me que não se brinca com o fogo, mas por vezes deixo-me embrenhar nas chamas que consigo acender. Amei-te em cada salto na fogueira, em cada riso outonal da minha vida, em cada gargalhada a cheirar a verão da minha memória. O amor é essa memória de bocados de passado e presentes de futuro, é esse laço que nos une irremediavelmente ao outro, como se não houvesse alma própria. A minha alma está dentro da tua, ou a tua dentro da minha, por assim dizer. O amo-te é muito pouco para te dizer, meu amor, a forma como a tua mão no meu rosto ou a tua mão a escorregar silenciosamente pelo meu corpo, me faz sentir. a aragem morna da tua boca colada na minha, o teu corpo a queimar junto do meu e os risos perdidos na noite em que mais ninguém nos pode ouvir. Quando me amas explode a galáxia, explode o mundo e eu sou mais que muito. Sou vida na própria vida. Amar-te é cometer erros mas dar o melhor de mim. Amar-te é ser uma onda a rebentar incessantemente na areia do teu abraço meu amor enquanto o teu corpo baloiça no meu pela noite fora. O teu barco a navegar no meu mar e o cheiro a maresia e a mar de amar. Meu amor.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Versailles

Fechei a porta e deitei-me na cama. Mas não consigo adormecer, não chega fechar os olhos, faltas tu. Tu na minha almofada, a despentear-me o cabelo, tu de olhos intensos, entrando-me pela alma, descobrindo segredos e acalmando os medos. Olha para os meus olhos. Não para os olhos, para dentro dos olhos. Estás dentro dos meus olhos. És os meus olhos. Menino dos meus olhos. Como em tão pouco tempo soubeste ser os meus olhos. Fazes-me ver arco-íris na tempestade e sorrir entre lágrimas. E sempre que o medo bate à porta, sei que estás do meu lado fazendo força para que ele não entre. De ombro forte contra a porta. Ombro a ombro com os meus medos, és tu o meu herói. E eu a teu lado, no nosso quarto infinito de jardins de perder a vista. É Versailles, Versailles só nossa. É tudo, tudo por viver e descobrir.

Fechas o nosso mundo à chave e atira-la fora. Ficamos nós, longe de tudo, longe dos outros, de todos. Eu e tu é um verbo que gosto de conjugar em nós. Gosto de ficar fechada em ti, gosto de sentir que escrevemos poesia em silêncio, no olhar do outro. O teu mundo é a música, o meu, as palavras. Juntos somos um mundo de versos e linhas e tanto tanto por escrever. Não me deixes a meio do texto.

terça-feira, setembro 30, 2008

Mundo manteiga

Estou cega. Estou cega ou estou num quarto escuro. Estou num quarto escuro sem paredes nem janelas nem porta nem cama onde me esconder por baixo como quando tinha cinco anos e me descobriam mais uma diabrura. Estou a sonhar, sim. É um pesadelo, pois. E é então que o mundo me foge, o chão fica escorregadio, o mundo é um tapete que me estão a puxar por baixo dos pés. A minha respiração sugada para dentro. Sobressalto, é assim que se chama. Quero fugir, quero fugir pelo pouco mundo que ainda me resta, quero encontrar um cantinho perdido que chegue para o meu corpo onde me possa abandonar. Um último bocadinho de mundo, um último cantinho onde possa ser. Quanto mais corro, mais me sinto a cair a escorregar neste resto de mundo-tapete-rolante-manteiga que se desfaz mais rápido que o desespero das minhas pequenas pernas. As minhas mãos, loucas, teimosas, resistem – não quero cair! –, agarram tudo em volta, mas tudo se desfaz, puxo tudo para o fim comigo, tudo se estilhaça a meus pés. Minhas certezas, porcelana estilhaçada. Estendo as mãos para as prateleiras, sorrisos, palmadinhas nas costas, elogios, o meu nome pelos escaparates. Amigos antigos que nunca me falharam. Tudo cai a meus pés, tudo perdeu a força que parecia imortal, tudo se cansou de esperar por mim, de esperar por mais. E sou puxada do vazio, vem a vertigem do chão, seduz-me desistir, seduz-me o fim. Olho para baixo, o mundo é um tapete colorido abstracto que braços sem corpo puxam, o tapete rasga-se em gargalhadas e cospe fotografias minhas que dançam e se riem à minha volta, fico de pés descalços, nus, frios no chão impiedoso. Os joelhos fracos de tudo acabam por ceder ao chão, abandono-me ao fim, o meu corpo relaxa, suspira, chega, pronto. Rendo-me ao mundo que entretanto me deu tréguas, parou. Silêncio. Agora levanta-te, vá. Ok, eu sei. Não queres.

terça-feira, agosto 19, 2008

Dias e dias

Os dias passaram sempre um atrás do outro. De que outra forma poderia ser? O tom grisalho dos anos vai colorir todo o vale encantado de poesias da nossa vida. O tempo deixa apenas sobras e estilhaços do que somos ou quisemos ser. O tempo traz-nos a sabedoria de que o próprio tempo escasseia. E a amena certeza de que basta um poema e uma folha a cair da árvore,em surdina, para nos acordar para a mais inesperada felicidade. O calendário não perdoa, mesmo que arranquemos as páginas e fique na gaveta. Ninguém espera por nós, porque é que a vida tem de esperar? Nunca seremos tão novos como agora, como ontem, como há dois dias. O tempo certo para agir será sempre agora. O tempo certo para viver sempre será agora. Porque nunca se sabe quando o agora dará lugar a um tarde de mais. Tarde de mais para ser novo. Tarde de mais para esquecer as responsabilidades que nos vestiram desde cedo. Os dias passam uns atrás dos outros, em fila indiana. E nós que fizemos enquanto os dias passavam? Estaríamos numa fila indiana à espera do momento certo para viver?

quinta-feira, junho 19, 2008

vazio

Em mim há só um vazio. Um longo, imenso, terrível vazio... e lágrimas. Algumas choradas e outras por chorar. Há em mim uma desilusão tão quente que arde em mim, vulcão a irromper na lava das minhas pequenas lágrimas. Há em mim uma criança abafada que soluça na noite. Que se cala, mas quem cala consente. E quem ama? Um amor que muda tudo o que existe, que nos enche a alma e que nos magoa. A mágoa é uma palavra muito triste. Quase tão triste como eu. Quase tão assustada como eu, no canto da sala para que ninguém me encontre e veja que estou de novo a chorar. Até que as lágrimas correm e correm e o rio seca. Depois fica só um silêncio doloroso de querer chorar e não poder e a raiva contida cá dentro e as mil e uma palavras que se queria dizer numa noite mas não se consegue. As explicações que se queria ouvir e as que se queria dar. E querer que a mágoa e a dor passassem leve no vento que vai e vem e volta e vira e voa. Mas a mágoa mantêm-se martelando, moendo a mente.Só um vazio e um era uma vez sem felizes para sempre. Afinal, hoje eu sinto-me por demais infeliz para essas histórias. "Oh mas onde está a princesa". A princesa esta noite morreu.

segunda-feira, junho 16, 2008

Escrevo-te com a fé infantil da criança que já fui e que, muitas vezes, continuo a ser. Amo-te sem tamanho possível de conceber. A minha mão nunca largará a tua nos caminhos difíceis da vida. Da nossa vida. E quando chorares eu chorarei contigo, e quando sofreres e rires eu farei o mesmo. Porque tu és parte de mim, metade da minha carne. E vou observando os teus gestos, a tentar-te conhecer mas falta muito até ter a tua alma por inteiro. Talvez nem o queira, porque conhecer-te dá vontade de ver mais sem nunca tirar todo o véu. Magoas-me mas eu entendo. É uma dor que te persegue, tu lutas contra ela e eu tento. Eu não sei tentar melhor. Talvez possa entender mais e ser mais. Mas os anjos ainda não me deram um par de asas novas. Já parti tantas vezes as asas. Mas eu queria muito voar de novo até ti e dizer-te ao ouvido que estou aqui. Escrevo-te para te pedir que não me ignores, que não mostres a indiferença que magoa mais que tudo o resto. Afinal, eu amo-te com o comprimento de todas as luas e estrelas que percorrem o céu. Desculpa pela minha falta de asas. Mas eu tento voar no teu sorriso e no meu. Não o apague.

domingo, junho 15, 2008

Escrever

"Nesta obstinada profissão de fé, só muito tarde aprendi que escrever é cumprir uma promessa feita não se sabe a quem - nem porquê. E de que a fronteira entre dois mundos, o visível e o invisível, nasce do que imaginamos ser o que o não é.
Mercador de simulações, inventei ruas, bairros e uma cidade, através dos quais, e das pessoas que lá coloco, procuro a música dos estribilhos que nos indique algum sinal de esperança. Tédios e perdas, desalentos e desventuras, módicas alegrias e suaves aspirações, eis sobre o que escrevo. Pequenas sagas de nada que nos enredam nas mãos do frágil e caprichoso tempo."

Baptista-Bastos in "A cara da gente"

quarta-feira, junho 11, 2008

faróis e pó de estrelas

Eu já não tenho medo do escuro. E tu que pensavas que eras a única luz. Pois é. Os faróis apagaram-se. Naufragou-se numa esperança doce e leve. Peço desculpa pelas vezes que apaguei as estrelas, em vez de acender as candeias. Eu já não tenho medo do escuro. Por vezes tenho medo dos meus pensamentos, de me perder no fundo negro de alguns deles. Desculpa se por vezes os meus pensamentos te castigaram ou te magoaram e divagaram para fora de mim. Eles amam-te, os meus pensamentos. Eu sinto-me uma estranha em mim, uma tempestade de areia lançada num qualquer deserto. Pergunto-me sobre o oásis, és tu, serás tu? Seremos nós? A vida muda tanto. Eu cansei-me de lançar redes. Destruí todas quando ficaste preso no meu barco e depois foste tu que me libertaste. Só que eu gelo de medo e as lágrimas caiem frias pelo meu rosto. Eu não sou perfeita como escrevi que queria ser. Sou um reflexo de uma perfeição inacabada, uma amálgama de barro mal acabado, de erros feitos e por fazer. Perdoa-me mas a minha alma navega em ti ainda. Secalhar ainda tenho medo de algum escuro. Das planícies dos meus temores e dos teus olhos muito abertos sem me ver. Do teu coração perto do meu a bater devagar em vez de galopar na minha direcção. Eu grito mais alto que as nuvens e as tempestades para que ouças e outras vezes sussurro-te com os dedos na tua testa sem palavras. Eu sou o gesto. Que te embala quando tiveres medo. Mas eu confesso, estou tão assustada de mim mesma, do que penso e do que sou. De nós e do mundo. De que se apaguem as estrelas e eu não tenha tempo de te mostrar a constelação que desenhei no céu para nós dois. Uma cúpula de sorrisos e de sentimentos espelhada na imensa galáxia.

terça-feira, maio 13, 2008

poemando

Escrito está o que escrevi na carta,
A carta levou-a o vento,
O vento foi em derrocada até ao mar,
Arrancou a carta.

E tudo o que havia no mundo,
Era aquela carta
de sal e areias,
Que dizia tudo
o que te queria dizer.

As gaivotas tocaram de leve,
com as suas asas viajadas,
naquela carta.

Que te procurava entre ondas,
náufrago buscando as margens do teu beijo,
na adrenalina de um mergulho,
sem retorno.

A carta que não era de papel,
foi dar à costa nas dunas,
de algum sentido por achar,
Sentiu as mãos quentes e calejadas do pescador,
transportarem-na.

Um dia achaste a carta,
voando noutro vento,
ali na tua janela.

Leste-a depois da derrocada,
das gaivotas,
das ondas,
e do pescador.

Era já outra aquela carta,
amarelada de sal,
quente do pescador,
com asas de gaivota,
forte da derrocada.

domingo, abril 13, 2008

Deus das pequenas coisas

As palavras faziam ricochete na água. Eu encostava o ouvido ao rio para escutar a sua música. As palavras a tocarem mansamente o tempo e a solidão. As palavras fundidas numa música que me afastava da rotina sem sabor de tantos dias. Que afinava o desafinado e monocórdico desenrolar das semanas em que nos afastamos da beleza do Deus das pequenas coisas e nos fechamos em copas. Na catadupa dos dias que nos afastam de nós mesmos. De quem fomos, de que alma temos. De que a janela pode ser aberta. Lá fora há outro tempo fora do tempo, outros mistérios fora dos nossos pequenos detalhes a que chamamos problemas. Outras árvores sempre mais imponentes que o nosso pequeno arbusto de jardim. Outras formas de dar sentido ao facto de amarmos ou, por outra, de nos fazerem entender o que é amar. De traçarmos os nossos verdadeiros gestos, como uma autobiografia. Porque não são os outros que nos devem escrever. Biografias em nada semelhantes umas com as outras sobre o que somos. Porque somos tudo isso. E a música continua a afagar o piano da alma. A gravidade não existe. Flutuei ao som da beleza da música sem que o chão me impedisse. E nada de grave havia nisso. Sem ser as notas graves que saíam da viola. E a música que tocava era para todos nós que nascemos com uma alma que nunca vimos. Que nunca cheirámos. Devia ralhar com a minha alma tantas vezes por estar sempre a querer sair do corpo. Bastará de facto de perguntar quem somos e apreciar este sol. Sim, está a chover mas há sol na beleza desta chuva que gentilmente toca as vidraças. E a música da chuva mistura-se com tantas recordações e não posso adormecer agora. Não posso. O mundo espera por mim. Apesar do tempo que perdi. Apesar dos erros que cometi. Apesar de eu ser eu. E continuar sem saber quem sou.

segunda-feira, abril 07, 2008

O violino, o maestro e o piano

Eu sou o violino e tu o maestro. Naquele dia esqueceste-te de como ler a partitura mesmo que soubesses de cor e salteado o dó-fá-sol-mim. Se o professor te visse ia fazer como antigamente, dar-te reguadas nas mãos e repreender-te porque afinal rapazinho, não estás a tocar a melodia como deve ser. "Vá lá rapazinho um, dois, genica". O professor ao longe a bater o pé e a repetir as mesmas palavras. Dó-Ré-Mi. Voltamos ao presente. Deixamos o professor como uma daquelas imagens a preto e branco e a realidade volta a cores. Continuas estático em frente ao violino que chora baixinho nas tuas mãos, mas não não estás a tocar a melodia certa. O violino sabe. Ao longe o piano ilumina-se e tenta seduzir o violino para outras danças. A deixar de seguir sempre o maestro e a ser um violino simplesmente. "Não me toques mais nas cordas", poderia o violino dizer se conseguisse falar. Mas habituou-se às mãos do maestro e à leveza da sua forma de tocar as suas cordas. 1,2,1,2. Então o maestro pára de repente. Apoplexia instantânea de sentidos. A música recomeça e ilumina-se o mundo, como uma melodia inacabada e acabada de começar. No palco não há mais ninguém e o maestro lembra-se como lia a partitura. Com o coração, pum-pum-pum, seguir o ritmo da partitura e ler o coração. Bem, talvez seja ao contrário. O maestro conta ao violino do seu amor, da sua paixão e à cabeça voltam todas as imagens esquecidas. Em troca o violino vibra nas cordas com força e enche tudo de música. Cada recanto poeirento do coração do maestro.Um calor invade o palco, uma subtil fragrância a vida invade todas as coisas. Estás a ver maestro? Não é preciso muito para se fazer uma orquestra. Bastamos nós dois. E dispensamos a intromissão de pianos na nossa música.

sexta-feira, abril 04, 2008

«Escreves o primeiro rascunho com o coração. Tornas a escrever com a cabeça. A primeira regra da escrita é escrever. Não é pensar»

Descobrir Forrester, Gus Van Sant

segunda-feira, março 17, 2008

Jornalismo

Cada notícia é uma janela pela qual espreito o mundo e organizo a paisagem. Faço as pessoas mexer brincando com as palavras, esta aqui, a outra mais à frente, e este parágrafo pode ir mais para baixo, vou puxar esta frase para cima, vai ser a protagonista da história. É como fazer banda-desenhada, cada balão deve estar na personagem certa e a história qual fotografia, fiel ao cenário. Cada frase é única, especial e irrepetível. Cada frase é um bocadinho de vida. Cada nome é uma peça no monopólio do mundo cujo caminho desenhamos e explicamos em palavras, um filme de todos os dias com personagens reais. Cada frase teve horas a passar e um telefone ansioso por outra voz, e fintas como num jogo de futebol para descobrir aquilo que mais ninguém sabia. O jornalismo é um jogo que aprendo cada vez com mais emoção, dia após dia.

quarta-feira, março 12, 2008

=)

obrigado pelo sorriso. Que entrou em mim como uma luz esquecida, refugiada no aroma das tuas rosas, o rubor da cor das rosas percorreu-me as faces em passo acelerado. Corrida de fórmula 1 no coração. O sol dentro de mim, a rebentar em sangue de raios. A alegria a desfazer-se em sorrisos naquele segundo. Tentar apagar a desilusão com uma borracha e viver. Amo-te.

sábado, março 08, 2008

okay

Sentou-se no ramo mais afastado da enorme árvore. Precisava pensar. Sorria em parte, mas numa parte que tentava esquecer algo remexia. Reflectiu enquanto as folhas caíam e os pensamentos iam passando e aventurando-se por aí. Ao princípio era uma dor quase imperceptível no fundo de si. Uma pequena ferida que mal se dava conta. Mas quando anoitecia e parava para pensar ou como agora, pendurada no ramo daquela árvore, se punha a disparatar doía tanto. Era uma desilusão tão funda que parecia que se escorregava para uma gruta. A dor aí era maior, quando estava escuro e não se podia pensar noutra coisa. As noites acabavam todas assim. E na manhã seguinte, outra manhãe novas esperanças. Porque assim tinha que ser. Até a dor se cansa de doer quando vencida pelo sono. Não havia nada que pudesse dizer. Apenas as palavras nas quais espelheava um entendimento que mais ninguém ia entender. Como aquela dor que mais ninguém saberia que sente, como aquela dúvida que a persegue. Dúvidas, ela tem dúvidas. Do que sente, do que quer. Só aquela dor persiste nas suas gargalhadas e sorrisos. Mesmo quando se sente alegre.

segunda-feira, março 03, 2008

O Inverno acabou. os glaciares derretaram vagamente, em silêncio. Os cristais desfizeram-se com o estalido de partir pratos. a camada estalou e todos voltaram a ser quem realmente eram. Deixaram sair de si o sol, por cada poro e foram verdadeiros. O mar aqueceu e todos mergulharam nas despreocupações de um Verão quente e sonhador. Os casacos de incertezas eram rasgados com força num turbilhão de lágrimas de quem já não tem medo de chorar. Afinal, cada um de nós nasce de um raio de sol numa noite de Verão. Porque é sempre Verão, na lareira de dois corpos que se unem e forma estrelas e pó de estrelas. E tudo o mais era apenas isso. Tudo o mais. Assim se passou naqueles dias em que as vozes se juntaram e berraram contra tudo. Em que o tempo se esqueceu de marchar e correr e andar e tudo o que fizesse mover. Dizem que o tempo engordou nesses dias enquanto que o medo, esse teve de fugir como o diabo da cruz. Porque agora só a loucura reinava na terra. A loucura e de gritar de dentro para fora. De amar como uma diabólica experiência. Era Verão e caminhava-se descaço sem magoar os pés. O inverno decidiu então voltar. E toda a gente se esqueceu da essência. Vestiram-na como roupa interior mas abafaram-se de casacos. Nada mais foi igual. O rio secou. E as lágrimas também. Tudo era agora uma feliz aparência. E mais ninguém amava de verdade. E toda a gente tinha voltado a errar mais do que o normal. Tantos erros. Somos uma massa de erros, argamassa de tempo e fuligem. O tempo emagreceu, andou muito rápido, tão rápido que já não deixava ver o céu e a luz. Que nos fechou num calabouço escuro. Era inverno figurado. Amor fingido ou amor AMADO.

domingo, março 02, 2008

Pela primeira vez esvaziou a mente de tudo, e flutuou sem se importar com mais nada. O café arrefeceu em cima da mesa e o sono teimou em ser intermitente como uma lâmpada. Mas ocupou os espaços da mente para não chorar. Picou-se na roca, mas não chorou.......pelo menos não muito. Dançou no quarto sem espelho mas viu-se reflectida. A cara distorcida pela mágoa e quebrou a imagem com um sorriso. Tudo se virou e a música animou-se. Ouvia-se sons de moedinhas quando mexia a cintura. Estás longe da vista e agora também do coração. Deixei-te escapar só hoje, de propósito, mas não vale a pena enganar-me. Tu preenches todos os cantos, mesmo os mais escondidos. Depois o telefone tocou mas as palavras pareciam distantes como se eu estivesse no outro lado do mundo. E nada mais existe agora. Só um conto de fadas longíquo no tempo, era uma vez de uma história da infância. Eu estou bem sozinha por agora. Não tenho medo do escuro porque acendi velas e mais velas e vou velar sozinha o meu sono. Amor por entre as velas. Devia ter-te peguntado como estás. Remói a dúvida do que a tua cabeça te dirá sobre mim. e o teu coração. Eu faço o que posso mas não, não te consigo esquecer. E mesmo quando digo que te esqueço, dizer que te esqueço faz-me lembrar de ti. Mas hoje eu vou lembrar-me de ti sem raiva e sem lágrimas. Porque eu cresci. Saí da cama e caminhei segura pela areia. Só a tua imagem não quis deixar de caminhar comigo. Só que eu , eu arranquei-te de mim. Só hoje.

sábado, março 01, 2008

Meu querido

O lago era um coelho veloz que corria para o mar. Só ele sabia para onde ia porque eu, eu estava perdida. No ramo de uma árvore com alguma falta de equilíbrio. Afinal, meu querido, eu sempre gostei de dançar na corda bamba. Apetecia-me voltar aos velhos tempos. Tal como o cineasta que quer voltar aos filmes a preto a branco. Ao tempo em que corrias atrás de mim por entre os labirintos das minhas loucuras e caminhavas seguro no ziguezague das minhas perguntas. Não penses mal de mim, meu querido, afinal eu sou a mesma. Apenas fomos um, mas agora parece que apenas somos dois. Não me leves a mal nem quero que a desilusão te arraste como ventania. São apenas palavras como tantas outras, as demoníacas palavras que me ferem por dentro muitas vezes. Reguei as plantas, meu amor, estendi a minha alma na janela para arejar mas não sei se já está completamente pronta para voltar a usar. Talvez fique assim sem alma para não sentir falta de nada, nem me criticares ou pensares mal de mim. Porque sem alma eu não vou sentir mais, vou pensar com a cabeça e não com o coração, não vou ser mais louca. Prometo, meu querido, que o cansaço já passou e voltou o mundo das fantasias na minha cabeça. Até a escrita voltou, uma e outra vez. Volta tu também, mas traz contigo um cestinho com as coisas que te esqueceste. Com a parte de ti que me falta. Deve estar tudo no frigorífico. Espero que o nosso prazo de validade não tenha passado. Eu já limpei o pó de mim. Estou pronta para te receber no meu abraço, para te aquecer até o apito da chaleira dizer que já ferveu. Depois podemos ser chá. E dançar o chá-chá-chá. Posso te dizer que a camisola te fica bem ou que os teus beijos sabem a mar. E tu saberás porque sabem a mar. E se te me irritar irás sorrir e fazer como antes, tirar-me a irritação como remédios que se dão para a constipação. E irei ter tanta paciência como a senhora do tear que enrola fio por fio. Irei ouvir a tua história palavra por palavra até à última sílaba. Irei beber dos teus lábios e, por fim, apanhar a minha alma antes que comece a chover e não seque mais. Nunca, nunca mais.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

palavras leva-as o vento..porque não as leva o mar?

O reflexo do sol brilhava no mar, na areia e nos passos. Mas a mim perseguia-me uma nuvem enorme, cinzenta, chuvosa. O mar imponente balanceava sem pestanejar. Era bom ser mar, não reflectir ou entender. Ser só o mar e fazer música e ser apenas onda. A praia era tão linda, tão linda que a sua beleza sufocava a poesia. Porque nenhuma poesia poderia descrever como aquele mar era bonito... e como tantas vezes na correria dos dias não parei para olhar por instantes para aquele mar que parecia engolir tudo, que rodeava todas as casas da cidade. Mas hoje e por ínfimos instantes eu vi o mar e senti-me tão pequena. Tão pequena e sozinha. Apaixonada por esta ilha e apaixonada por ti. Só que tu não estavas. E apeteceu-me esquecer-te, porque me dói às vezes no estômago. Porque me dói estar dividida entre dois mundos. Ser dos dois e afinal não ser de nenhum. Querer partir e querer ficar. Sempre com a cabeça na lua, no mar ou no horizonte. Sempre com tantos projectos que acabo por me perder em tantas chegadas e partidas. Tu nem me viste, eu passei por ti mas nem viraste a cabeça. Não ergueste a tua mão para me tocar devagarinho como antes. Paraste e desististe da corrida e eu que estava quase a chegar à meta. Estou à tua espera do outro lado, daquele onde me conheci e encontrei, daquele em que me compreendes e sabes escutar. Onde estás tu?Atrás de que parede te escondeste? Será que mudei?Ou será apenas este cansaço, esta roda viva, que me impede de ver a beleza que sempre vi em ti e no mundo. E até em mim. Por isso hoje parei e olhei o mar e fiquei com vontade de voltar lá. Porque eu agora vivo na terra do mar. Onde o mar comanda e faz sonhar. E apetece ficar aqui para sempre. Mas uma parte chama no fundo de mim e diz-me que também devo partir.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

You're a part time lover and a full time friend
The monkey on you're back is the latest trend
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
I kiss you on the brain in the shadow of a train
I kiss you all starry eyed, my body's swinging from side to side
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
Here is the church and here is the steeple
We sure are cute for two ugly people
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
The pebbles forgive me, the trees forgive me
So why can't, you forgive me?
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
I will find my nitch in your car
With my mp3 DVD rumple-packed guitar
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
Up up down down left right left right B A start
Just because we use cheats doesn't mean we're not smart
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
You are always trying to keep it real
I'm in love with how you feel
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
We both have shiny happy fits of rage
You want more fans, I want more stage
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
Don Quixote was a steel driving man
My name is Adam I'm your biggest fan
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you
Squinched up your face and did a dance
You shook a little turd out of the bottom of your pants
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Winter of 2008 (like the summer of 69... I knew that nothing could last forever)

Tudo parecia agora mais difícil. O cheiro nas almofadas, os bilhetes escondidos debaixo dos objectos e o prazer da descoberta. Mas permanecia um longo e enorme vazio, como se estivesse perdida no meu quarto-labirinto. Como se o conhecido voltasse a ser desconhecido. De repente estava de novo sozinha, a minha sombra sem outra sombra, as minhas palavras sem outra voz a dar-lhes resposta. E as fotografias e as memórias a pairarem sobre todas as coisas. Parece que arrancaram uma parte de mim. As despedidas deviam ser proibidas, mas já sabíamos. Era uma despedida antecipada quando nos encontrámos. Mas atirei-me de cabeça a estes dias, enchemos o quarto de risos e suspiros. Perfumámos as horas de beijos e devorámos o mundo. Atravessámos a ilha e de repente eu não estava cá. Havia um pouco de casa, um quê de familiar. E um palpitar na barriga e cócegas no corpo e no coração. Uma lareira na alma que fumegava.Agora volto à estaca zero nesta corrida de saudades. A procurar novos sentidos para os dias e a seguir em linha recta. Preferia as nossas curvas e contracurvas por aí. Mas como ambos sabemos não pode ser. Por muito que seja uma dor tão forte que parece que estilhaça o coração. Por muito que as lágrimas chovam em mim em milhares de aguaceiros. Não vai voltar atrás. O tempo passou que nem uma bala nessa semana. E finalmente a bala atingiu-nos. Perfurou a carne. E do samba dos nossos corpos ficou agora uma música triste. Apenas escrevo para matar as horas e a dor. E sorrio na alegria do que vivemos com a tristeza do que me falta viver. Esta alma sôfrega de aventura e cheia de desejos que viveu estes dias sem pensar. Esta loucura de ser e sentir que palmilhámos por aí. Ficou o eu. Mas preferia a tua mão na minha mão.

sábado, fevereiro 02, 2008

...

E todas as vozes ecoavam de novo ao sabor daquela canção. Mordia-se a lingua de vez quando mas ninguém acreditava. Depois o ritmo de todas as coisas acelerava e rodávamos dentro de nós mesmo, baratas desatinadas num burburinho em roda e sem fim. Dizia-se a verdade e o medo ia saindo, e aquela voz e aquela melodia tocavam de fundo sem parar. Foi a música que me inspirou, que brotou de cantos de mim desconhecidos e me trouxe de volta a ti escrita. Que me abriu os olhos em vendaval e me disse para não esperar mais. Chovia a potes mas eu saí pela porta dentro. Para dentro do mundo. Para dentro de ti. Mergulhei na silhueta da tua janela de lua e sufoquei-me de ti. Só a estranha melodia pintava todo o tempo. Em nós tudo nasceu. Em mim nada morreu. Escrevo sem dó e martelo furiosamente o piano de teclas que me arrasta sem volta para ti. O mundo tão estranho, tão estranho a tocar só para mim. Maestra de mim talvez, mas mexendo-me ao ritmo do mundo. A música da chuva ressoando nas vidraças e o assobio do vento alongando as pausas. O tilintar dos copos e das facas. O arrastar pesado de móveis. O elevador. Os estalidos da porta. O cansaço. As olheiras. As corridas. O tempo sem tempo. A porta fechada. Mergulhar dentro. A piscina de mim. O mundo. E a estranha melodia. E a escrita regressando lentamente ao cacifo dos sonhos. Dentro de mim. Fora de mim quando escrito. Plim Plim. A água. Patipati. Trauteiam. O chilrear das aves. O último acorde. Sair da porta para dentro. E todas as vozes ao ritmo daquela canção. Seria de amor?