segunda-feira, julho 31, 2006

Amo-te (limpo de clichés)

Amo-te. Se escrevesse um texto apenas a dizer isto?Tanta gente já o repetiu, e todas essas vezes em que achámos senti-lo...Só que na semana seguinte tudo mudou e o amo-te não passou de uma metáfora, de uma hipérbole. Agora para mim dizer amo-te é um eufemismo, porque nada descreve esta selva ou floresta a rebentar no peito e nas mãos, na boca e na vida. E não importa que mais ninguém acredite. Não importa que seja um texto-cliché. Amo-te com todas as letras e com todas as palavras dentro da palavra amo-te. Com a convicção de passados e presentes. Um amo-te diferente de todos os outros, é meu. Nada similar a todos os amo-te que posso ter proferido. E este amo-te é teu como a minha alma embrulhada em papel de alumínio (não tinha papel de embrulho) e o meu coração numa bandeja de prata (não sou rica o suficiente para comprar uma bandeja de ouro). Não tenho mais a dizer. Sabes quem és. E sabes ver-me dentro das palavras que te digo. Por tudo isso e ainda mais o que não faz parte do "tudo isso" escrevo-te nas linhas digitais do meu canto de poesia, esperando ser um rouxinol que te cante ao ouvido e te traga as boas novas destas sensações.

domingo, julho 30, 2006

Happiness

Eu estava no meio de lençóis e almofadas de penas, numa manhã vestida da banalidade de tantos outros dias, de olhos abertos, mas hesitantes numa dança de abre-fecha algo incómoda. Decidi permanecer no mundo da preguiça e pus um filme a tocar no leitor de dvd. Lá fora um dia de verão, de raios soalheiros a entrarem em bicos de pés pela janela do quarto, foliões e atrevidos. Pensei em ti por momentos e sorri atravessando um certo nevoeiro de saudades. Deixei-me escorregar pelos mundos de fantasia do filme que assistia, hipnotizada nas imagens. Ao longe a buzina de um carro ecoou. Tentei resistir mas havia sonhado muitas vezes em que um dia, por um milagre ou um simples devaneio, alguma coisa de bom pudesse vir daquele simples sinal sonoro utilizado pelos condutores. Mas era uma esperança-faísca no meio de uma impossibilidade-fogo. Ai, tu és uma faísca!Abri a janela como uma criança que busca um rebuçado numa gaveta que sempre pensou fechada...e um dia ..lá estava ela aberta e cheia das gomas mais deliciosas de sempre. Foi com esse olhar guloso e traquina, de brilho inigualável, de raios reflectido nesse olhar, que te vi. Esfreguei os olhos e não podia acreditar. Desci as escadas descalça, de dois em dois degraus para chegar muito depressa. E escancarei a porta. Não a abri apenas.Abri-a de par em par como a alma e abracei-te com tanta força como aquela que possuo. E estava tão luminosa por dentro que só me apetecia gritar e cantar em sobressalto. E foram dias de sol. De luar mágico. E numa dessas noites em que não tinha cera nos ouvidos, e ouvia perfeitamente...ouvi a tua boca formular as palavras mais belas que o mundo inventou. Na reviravolta de uma canção tocaste-me a alma com a tua varinha de condão. E a asa do beijo voou. Como na música. Como no encantamento das tuas palavras.

sábado, julho 29, 2006

A flor

Era uma flor solitária no meio da cidade grotesca de imagens enlameadas e a carvão. Que brotava do ruído de automóveis e de florestas de prédios enegrecidos, ou pela erosão do tempo ou pela incansável ditadura poluente. A flor singela na sua beleza delicada emaranhada no reino da beleza imponente da arquitectura e dos arbustos dos parques da cidade. Branca, de um branco que me lembrava flocos de neve, roupa acabada de lavar, pureza, verdade. Luz de esperanças. A emanar milhares de watts de energia. Aquela flor perdida, do mundo perdido das aldeias da infância, dos jardins da imaginação, das paisagens. Das narinas a inspirarem ar fresco e salutar de árvores que pareciam falar de séculos e séculos de história. Que ali permaneciam, com seus cascos escritos pelos amantes. X ama Y. Tantos dos X já mortos ou separados. Contudo na casca da árvores nada mudou. Até ao dia em que a técnica fáustica se apoderou deles com suas serras. E cortou os cascos das árvores dos tempos de reis e duques. Restam as árvores doentes no centro da cidade. De folhas que se desprendem da árvores como lágrimas. Resta a simples flor. O caule fino, elegante. Linda e triste. Na sua beleza solitária e, por isso, arrogante. E restam ainda os olhos cravados na flor, os olhos de quem passa e assiste a este pequeno momento de (des)harmonia na cidade de prédios encaixados e direitinhos com dezenas de andares. Olhos que carregam a flor solitária no buraco dos seus corações, atravessados por setas de (des)esperança, setas flamejantes de dias iguais. De dias de guerras, sem canhões ou disparos. Guerras de paciência na cidade em que uma flor resiste. Em que cada um dos habitantes das pequenas janelinhas-gaiola (dos prédios da urbe) tenta curar as suas feridas e estancar a hemarrogia infindável do seu coração.

sexta-feira, julho 28, 2006

Asas de açúcar

Pesavam-me as palavras. Carregava-os comigo num saco enorme, daqueles que nenhuma balança conseguirá jamais pesar. E é isto o ser humano. Um enorme saco de medos e frustrações a passarem do prazo de validade. A vida parece tantas vezes estar prestes a expirar o seu prazo de validade. Quando as lágrimas escorrem e molham a almofada, quando a vida sabe a iogurte estragado e os medos a cerveja morta. Vou virar-me para o balcão e pedir uma imperial. Eu não quero cervejas mortas. No meu palco de luzes fluorescentes e néon, onde todas os dias faço o papel de mim mesma para os outros. Assim me pesam as palavras. No constante monólogo representado incessantemente. Um bando de bonecos assiste nas plateias. Pinóquios que ainda não são meninos de verdade. E eu que pouco sei do mundo ou de mim mistifico-me e represento-me. Em troca o vão beijo na bochecha. Gente em diferentes tipos de sapatos a fazer barulho no asfalto: ténis, saltos altos, chinelos a passar num ritmo alucinante e dissonante. De muitos deles ficou-me apenas a memória do som dos passos, da rapidez vertiginosa em que se esfumaram da assistência da minha peça. E eu não sou mais que uma boneca de corda. Irão esquecer-se de me dar corda um dia? O espectáculo deve continuar. A Terra a girar como sempre girou. Eu a ser eu. Mesmo que para os outros não passe de uma bonita boneca de corda que só outros bonecos de corda como eu conhecem. A eterna amiga do Pierrot e do trapezista. Vamos voar. Assim de repente. Só porque sim. Mesmo que as asas ameacem derreter porque são feitas de açúcar. Açúcar. Que não passe do prazo. Que me faça deixar de ser uma boneca de corda. E neste voo de altitude incerta a noite percorre-me em arrepio. Apagam-se as luzes e são horas de dormir. Só que eu não paro de voar. Boneca de corda. Mas não pinóquio neste mundo de mentira.
Se eu conseguisse.
Se eu soubesse!
Se eu quisesse?
Dar um salto de Gigante e ser maior que eu. E gritar que és tu. Tu que sabes tudo. Viste tanto de mim, no cimo da estante. Que ao meu fechar de olhos se esgueirava sorrateiramente para dentro dos meus lençóis, e me afagava o rosto enquanto eu revoltava os cobertores de sono violento e despenteava os cabelos sonhando com outros beijos, outros abraços, outros amores (ilusões sonhadas, ironias da fantasia). Fugias quando adivinhavas o meu acordar no estremunhar de um pesadelo por lembrar - sem esquecer (como me irritam os sonhos traquinas que se escondem em gavetas escuras!).
E tanto tempo te deixei na prateleira para te provocar. Deixei que me visses correr entre Sóis de paixão e Luas de perdição (sem ti), e ria-me quando te sabia perdido. Contigo descobri-me cruel, saciando-me do teu contemplar de mim. O teu olhar azul-abismo e verbo amar que eu desprezava. Hoje preciso-te. Mas já não sei se te quero ou se tenho de fazer as pazes comigo. Ainda estás aí. Mas cresceste e tens ares de menino crescido. Para ser maior que a teimosia de um corpo pequenino. Maior que os meus mini-pés, que te marcaram como a roda de um carro. Eu cuspia os empurrões dos outros em ti. Tu empilhaste os meus gritos numa muralha imensa. Vejo-te a espreitar por mim, encostada ao teu muro. Se calhar é melhor ficar aqui, com a minha comichão de ciúmes. Porque afinal, a Rainha virou mendigo e o pedinte Imperador.

quinta-feira, julho 27, 2006


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"O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as Índias impossíveis, ou para as Ilhas do Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos ou estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono a chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade não mo pode dar."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

terça-feira, julho 25, 2006

Tenho tanto para te contar




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A minha almofada muda lembra-me o teu colo. O meu respirar busca o eco no teu. Como uma menina egoísta que e agarra até partir a boneca preferida quero apertar-te a barriga até ficares aflito de cócegas. Já te quis sufocar com a minha voz estridente, voz de desenho-animado, como dizias tu. Queria ensurdecer-te com tanto que tinha para contar. E tu cansaste-te de ouvir como eu fiquei sem fôlego de tanto falar. Mas ainda me vejo em ti, ainda preciso de ti. Ninguém soube ler-me melhor que tu, Peter Pan. E eu sei que nós combinámos que não nos iamos amarrar mais. Ainda tenho as marcas da força que fizemos nos pulsos... mas fica na nossa Terra do Nunca para que eu possa voltar a voar de novidades e emoção para te contar tudo a correr. Tu viraste o espelho torto em que eu me via, tu ensinaste-me a fazer o pino sem ajuda (porque o mundo está sempre ao contrário). Mas às vezes ainda preciso que me abanes e ponhas o espelho direito por mim.

"Siento que hoy no puedo más,
te busco y sólo encuentro mar,
necesito verte y hablar.
Sé que estás lejos de aquí
sonriendo sin reir
escribiendo algo para mí.

Una noche fui a buscar
en tus brazos el lugar
que hace años no supe encontrar.
Te he escuchado caminar
te siento pero tú no estas
mírate y mira ahora hacia atrás.
Has venido a despertar
mi alegría y felicidad,
tengo tantas cosas que contar.
Ven, vuélvete a dormir,
vuelve a descubrir todo aquello junto a mí.
Que de dudas te serví,
que de cosas me perdí,
que de veces me has hecho reír.
Cuánto tiempo sin llorar,
sin sentir, sin escuchar,
sin tener algo de que hablar.

Tú sentado frente a mí
miro y sólo veo en ti
todo lo que queda por vivir.
Vi en tus ojos sin querer
tantas ganas de querer
que sólo quiero verlos otra vez.
Has venido a despertar
mi alegría y felicidad,
tengo tantas cosas que contar.
Ven, vuélvete a dormir,
vuelve a descubrir todo aquello junto a mí.
Has venido a despertar
mi alegría y felicidad,
tengo tantas cosas que contar.
Ven, vuélvete a dormir,
vuelve a descubrir todo aquello junto a mí."

Tantas cosas que contar, La Oreja de Van Gogh

domingo, julho 23, 2006

Consomes-te furiosamente


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Escorregas torpe e fraca, entre o balançar confuso do teu corpo, desiquilibrado, ao ritmo do teu cantar embriagado. Os teus braços brincam na desarmonia de ti, palpando no ar um colo ou um olhar que te ampare. Balbuceias uma cacofonia linguística incompreensível, ris-te estupidamente sob os sobrolhos carregados de condenação e desprezo. "Eu estou bem, eu estou bem..." "Não, não estás!" Se calhar eles têm razão. Empanturras-te de prazer ilícito no teu transe psicotrópico. Ingeres compulsivamente chocolate e bolachas e molhas o chá de lágrimas. Tentas encher o que os teus complexos não te deixam tirar do mundo. A ridícula revolta do que és. A raiva das mãos amarradas por cordas invisíveis que confias a tudo menos aos outros para te libertar. Tens de parar. Tens de parar. TENS DE PARAR! Rompeste outra vez a tua almofada azul com o peso do teu pensar. O algodão solta-se à tua volta. Sopras o vento da teimosia mas o algodão cai-te no nariz e faz-te espirrar. Envolve-te insolentemente e ilumina-se com imagens desorganizadas de cada vez que disseste que estavas bem e mentias. A tua força hercúlea só brilha nos outros. Em ti és apenas o morder nervoso das peles das unhas, o mastigar furioso de pastilhas atrás de pastilhas, o pentear inútil do rebuliço do teu ondulado cabelo. E os teus risinhos nervosos. Estás sempre feliz. Sempre a sorrir. Anestesiada pelo incenso dos teus sonhos, ardentes de desejo mas desaparecendo em cinzas. Ilusões queimadas. Até do teclado desististe, e tocavas tão bem. Hoje tentaste tocar mas magoaste os dedos. Porque as notas estão zangadas contigo. Quiseste arranhar as teclas e pontepear as pernas, como se das tuas se tratassem. As tuas pernas disformes de pequenos pés e pequeno corpo em que apoias as pequenas quimeras de ti. Fechas os olhos e escreves com a violência de quem tem pressa de amar. E cantas baixinho serenando os soluços "let go, 'cause there's beauty in the breakdown"... Sacias-te de música e desamarras-te da cadeira e da despensa, porque lá fora pensa-se melhor. A lua ilumina-te melhor que a televisão.

"Drink up baby down
Hmm, are you in or are you out
Leave your things behind
'Cause it's all going off without you

Excuse me too busy
Writing your tragedy

These mishaps you bubble-wrap
When you've no idea what you're like

So let go
So let go
Jump in
Oh well what you waiting for
It's alright
'Cause there's beauty in the breakdown.
(...)"

Let Go, Frou Frou (BSO do filme Garden State)

quinta-feira, julho 20, 2006

Desafiámos a noite e o relógio


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Era uma casa sem pessoas Grandes e cheia de crepes com nutella e gelado. Era uma noite fresca de luar e as luzes do repuxo do Casino, divertidos jactos de água que se cruzavam e saltavam a brincar. Era um jardim de relva fresquinha e a dois passos o areal de espuma, conchinhas e sal. Era uma esplanada à beira-mar. Eram quatro amigos que há muito não estavam juntos e tinham muitas coisas para contar. E interrompiam-se a cada gargalhada e desabafo. Dois deles sempre a discutir e a fazer as pazes. Porque gostavam de implicar. E os outros dois a encolher os ombros, divertidos. Chocolate quente e uma bebida cheia de gelo. Refrescante, tropical, brasileira. "Podiamos ir à discoteca...", disse uma voz entre o chegar e partir confuso do mar. "Oh, está tão fresquinho aqui!", disse outra espreguiçando-se na cadeira, abrindo os braços e respirando a maresia. "Também acho, ficamos aqui e depois vamos dar uma volta!", disse um olhar sorridente de Verão. E de repente todos se levantaram e correram para a praia, entre rodas e cambalhotas, risadas pelos casais de intimidade perturbada, areia nos sapatos, flashes precisos, fotografias alucinadas de momentos fugidios. Música de anos 90 abanada por um volante dançante, torpe de adrenalina. Quase sem álcool. Porque iamos falar. Oasis, Robbie Williams, Despe e Siga, Vaya Con Dios, e vozes desafinadas. Desafiar o medo na vila sinistra de Sintra, entre castelos e mansões tenebrosas. Estórias de espíritos entre os amores e desamores de cada um. "Vamos ver o nascer do Sol na Baía de Cascais daqui a umas horas!", disse um sorriso saltitante. "Estás louca!", responderam. E as três e quatro voltas às rotundas continuaram, afinal, até ao nascer do sol. Cascais acordou connosco, quatro gatos pingados mas espirituosos a cantar Stand by Me na baía, com o som do primeiro comboio e a sola das gravatas apressadas. O dia para eles tinha começado...mas nós éramos maiores que a noite e o dia. Nós mostrámos a língua ao relógio e à distância. E foi como se tivessemos saído para o intervalo depois de Português ou História.

domingo, julho 16, 2006

Don't speak


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Fazes contas pequeninas de somar (onde é que eu já ouvi isto?), e dás uma volta pelos teus amigos como quem procura um livro ou um CD que adoravas e há tempos que não ouves. Versos sem melodia surgem sem pauta, e misturas personagens em datas e férias, porque pensas a tua vida como uma série: em 2000 tinha aquela roupa, em 2001 conheci aquele, em 2002 chateei-me com o outro. Os amigos dos teus amigos que entram em tua casa por acaso e ficam a tarde toda como as participações especiais se apaixonam de repente pelos protagonistas, os acidentes que os afastam e os cortes de cabelo que mudam os genéricos das várias épocas. Mas a tua vida não vai sair em DVD, por isso não tens como gravar aquele passeio em que descobriste que na adolescência eras viciada no mesmo jogo que o outro ou que tiveram o mesmo casaco. As conversas e descobertas não são organizadas como os registos de MSN.

A cada cara pensas: quando foi aquilo, quem estava lá, será que foi com ele aquela tarde? Acertas o ambiente com as músicas que afinal servem sempre (aquele CD perdido e finalmente encontrado) e brincas com as pastas imensas de momentos e lugares em que se desenham as tuas pegadas como um mapa sem a cruz vermelha e o trilho certo (o teu mapa está cheio de curvas, como aqueles dos piratas que não queriam que encontrassem o seu tesouro - é melhor sonhá-lo que usá-lo e gastar-lhe a cor). As imagens digitais cansam-te. Tão parecidas e maquilhadas que parecem revistas de socialite.

Entretanto encontras o teu álbum de fotografias antigas e reparas nas roupas largas, nas calças de ganga de cintura subida e agarradinhas à perna com estampados do Mickey para esconder os rasgões, nos sorrisos bochechudos e os cabelos despenteados. Naquela tarde tirámos fotos porque era o último dia do ano. Agora tiramos fotos todos os dias com as pessoas diferentes que se vão cruzando connosco por acidente (para pensar que temos tudo e todos), inventamos poses de barrigas encolhidas e caras treinadas no espelho e na máquina que agora apaga os sorrisos que ficam mal e os olhos vermelhos. E aquelas pessoas que vês abraçadas a ti e mal penteadas são como as mil histórias de romances que vais perdendo e esquecendo, confundindo e misturando com outras. Como se chamava afinal? Era de onde? Será que ainda tenho o número dele? Mas não vale a pena. As pessoas não ficam porque moram perto ou estudam no mesmo sítio. Ficam quando mesmo que não hajam novidades tenham vontade de falar sem parar. Há pessoas que têm som nas fotografias ou que se repetem a cada página, e outras que se tornam apenas uma cara numa fotografia de grupo. Há pessoas que te hipnotizam e que te dão vontade de mergulhar na espiral dos seus olhos porque te parecem imitar em filmes e sítios preferidos. E ainda outras que se apaixonam por ti e te querem seguir para todo o lado. Mas preferes sempre os olhos-espiral e nervosos aos populares e amigos de todos. E preferes sempre quem não é tão fácil de gostar, quem esconde em si contradições e esquisitices. Os mistérios e os teimosos são especiais. E os arrebatamentos também, mesmo que acabem com ritmo cardíaco monótono. Aqueles que se afastam para se esquecerem que se querem beijar. Acabou e as nossas piadas já não têm graça. Então guardamos os cacos do cristal afinal tão frágil que nos envolvia. Ele mostrou-me que posso ser rabujenta se estou de mau humor, que posso dizer o que sinto e outras vezes nada porque os No Doubt disseram tudo ("Don't speak, I know just what you're saying, so please stop explaining, don't tell me cause it hurts..."). Empurrámo-nos a pouco e pouco e não precisámos de dizer nada. Aprendemos os dois que um "Gosto de ti" não é mão dada para sempre, e que as pessoas se cansam de nós como nós nos podemos cansar delas. Mas não deixo de sorrir quando me lembro que me disseste "Tu tens tanto...". Porque aconteceu e é verdade mesmo que os teus lábios se tenham cozido na banalidade da rotina e que um dia a paixão tenha virado bom dia. (Porque estamos unidos no silêncio, e na quietude da memória um dia pode explodir a loucura da saudade.)

quinta-feira, julho 13, 2006

Utopias...


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... para colorir a cinzenta rotina.

segunda-feira, julho 10, 2006

Voz desafinada


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Pensas que me podes anular à banalidade da minha data de nascimento. Será que um dia compreenderás que sorvo cada bocadinho de poesia? E que gosto de saltar ao pé coxinho entre uma pauta melancólica...sozinha? Sou a vertigem do precipício, no alto esperando a queda. Gosto de ouvir o silvo do vento nos meus ouvidos e abrir os braços enquanto mergulho no mais fundo de mim, seja no deslumbramento de um novo verso ou na angústia de uma lágrima flamejante. Tu reduzes tudo à comodidade, ao errar dos teus clones, social e moralmente correcto, macaco-de-imitação dos teus pais. Dizes que és um Homem e comportas-te como uma pessoa Grande, com os teus cafés da tarde e da noite. E não há um dia em que não me olhes contrafeito, porque prefiro a minha almofada azul e os meus bonecos-palavra aos caminhos que corres de testa alta com os teus planos de gravatas. Apetece-me embrulhar-me em mim e escrever; não entendes? Mesmo que seja sobre nada. O teu CD preferido que não ouvi, um livro que não leste, um bar a que não fui e um filme que não te intriga. O nada que me desprende de ti, o tudo que insistes em mim. Teimoso, irritas-me! Pintas-me com a ruga na testa, o sobrolho carregado, as respostas tortas, entre os "sim, tá bem, não, não me apetece" em sussurros que me arrancas à força. E desenhas-te a teu lado, sorridente, bon-vivant, boémio! Empurras, emproado, os meus argumentos como a ignorância de uma criança de seis anos. E sobes ao teu palco de eloquência, com os teus ensaios sobre maturidade e "coisas que pessoas da nossa idade fazem". Não tens ouvido para a minha música. Eu gosto de desafinar, e tu atropelas-me o raciocínio, baixas-me o volume, cortas-me o pio, puxas e enrolas as cordas do meu eu-viola como se eu fosse apenas um parafuso a precisar de um aperto, um carro que ronca e precisa de gasolina. Eu não sou mais um dos teus brinquedos. Não tenho telecomando nem botões. Não me podes guiar como o teu carro ou o avião de brincar, desligar o som das teclas, mudar o toque. Nem reescrever-me como uma mensagem. Eu sou só uma voz desafinada. E mesmo que não cante na televisão nem chegue ao top nacional, gosto de soar assim.

sábado, julho 08, 2006

Mar

O mar era enorme e engolia tudo. As crianças a casa e o vento. O mar era espuma, e no fundo do mar escondiam-se tesouros que o Homem não conhecia. Um jardim aquático estendia-se em quilómetros de águas salgadas. Peixes multicores povoavam os risos melodiosos da água. E a poesia brotava das rochas e das guelras dos peixes. E erguiam-se mitos com formas de sereias e nereidas. A poesia tomava forma nas palavras e falava do mar. E o mar povoava-me por dentro. Dentro do mais dentro que há em mim. Enchia-me de mundos de paz e vida. Os Homens continuavam a procurar o ouro e a fazer dele riqueza. Depois quiseram matar os peixes. Quiseram matar a poesia. O mar sem fim à vista. Azul tão azul. Lembro-me tão bem daquele mar tão azul. As ondas dançantes e o mistério. Quantas lágrimas teriam sido choradas para fazer um mar assim tão grande e imponente? E que fizeste tu mar para que te queiram a tanto custo matar?Que fizeram essas criaturas que te habitam para as quererem fazer desaparecer? Sophia canta-te nos versos. Também eu gostava de voltar àquela praia, e morrer a olhar-te. E adormecer na areia de fadas onde construí castelos. A tua água purifica-me, brinco nas tuas ondas ainda. Virão outros que em ti se banharão. A lavar medos, a soltar suspiros. Ès meu e no entanto não és de ninguém. Possuo-te neste momento em que os meus olhos se tornam olhos-mar. E tenho o mar nos olhos.

sexta-feira, julho 07, 2006

Rímel e sabonete


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180º graus na máquina de lavar. Zum zum musical e blabla confuso de vozes sem cara, cores e bolsos vazios das mãos e recordações que os preencheram. Nas voltas e reviravoltas que damos, esfregamos as manchas dos trambolhões com sabão azul e branco, ou aquele da televisão que faz bolhinhas amarelo-azul-vermelho-verde-magenta, limpamos o sal e tapamos as olheiras de choro com base, tudo muito rapidamente, como se fossemos tão renováveis como um casaco preto. Somos cíclicos e previsíveis, mas laváveis. Caímos e mandamos a roupa para lavar. Mandamos momentos para a máquina de lavar, quando estão tão malcheirosos e enodados que nem os podemos ver. Às vezes esquecemo-nos deles, e quando os vamos buscar estão pequeninos, descolorados, inodoros...estranhos. Falta-lhes A essência. O perfume. O ser que os habitava. E já estamos vestidos de momentos mais frescos, cheirosos, vivos! Molhamos a bolacha no chá, molhamos a cara de chuva salgada, molho a camisola que te respirou e dou-lhe uma vida nova. Tudo é afinal tão fácil como borrar o rosto com a artificialidade de uma base, um rímel, um baton e um blush. Como tirar tudo do armário, espalhar em cima da cama, separar o que vai para os pobres, para a irmã e para as primas, e abrir espaço para as calças e t-shirts que vamos comprar. Ainda não fomos às lojas, não sabemos se vamos gostar, querer experimentar, servir e comprar, mas temos a certeza que vamos encher o roupeiro de novo.
Porque o chá perde o gosto se ficar frio, mas posso fazer mais. Porque uma piada perde a graça se for contada muitas vezes, mas podemos inventar mais.
Há sempre lojas e lojas de adrenalina e emoção em que ainda não entrámos!

domingo, julho 02, 2006

Trampolim


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Sempre foste tão prepotente! Insistes em interromper o meu silêncio! O mar, os bancos, as pedras, os riscos azuis do mármore, as juras de amor a corrector... tudo grita o teu nome. Maldito este mundo sempre meu que foi nosso e hoje é um paralelo vazio. Por segundos brinco ao faz-de-conta. A fingir que é de manhãzinha e te espero. Estás apenas atrasado. O grilinho falante abana-me por dentro e sussurra: "Que tola, quem está sempre atrasada és tu!" Desperto do meu transe para a data que o relógio impõe, maior déspota de todos os tempos. Parece que o presente é um passado sem um futuro de ti como um filme non-sense. (Entendes? Eu sou eu antes de ti outra vez!)

O nosso banco ainda está lá. Mas tu és invisível. Não me quero sentar. Seria como dormir sem almofada. Preciso do teu peito forte e da tua mão sobre os meus cabelos. Respiro a maresia, entorpecida. Deixo-me arrastar pelo vento, entre o chegar e partir das ondas, pés enterrados na areia, olhos fechados. Caminho sobre a corda bamba, sabendo que vou cair. O chão está perto, cada vez mais perto... e tu, trampolim, não estás para me amparar e me fazer voar de novo.

Há dias aSsim!


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Sorridentes. Solarengos. Simpáticos. Simples. Sentidos... Deliciosos, como um gelado! E é bom misturar aqueles sabores com nomes italianos tão fresquinhos entre gargalhadas, deixar o olhar franzido e a expressão embezerrada no quarto, e abrir o sorriso ao Sol radioso. Olhos brilhantes em dias brilhantes.

A vida sabe bem... as long as there's ice cream!