segunda-feira, março 26, 2007

sei lá eu o que quero dizer...

A vida rebenta-me os tímpanos, na volúpia dos sons, na luxúria dos ambientes. No coração baila uma alegria orquestral. A pauta da vida não tem pausa. Rebenta-te os tímpanos. As cordas vocais desprendidas do seu sentido.Se o mundo for vogal deixa-me ser consoante. serei o m de mim, o t de tu, o s de si. O v e o d de vida. Vida vaidosa vive na velha vivenda sem varanda. Rebentando os tímpano na intensidade surda de mim

quinta-feira, março 22, 2007

Noite

Pálpebras saltam como molas e os olhos ansiosos percorrem as paredes difusas no breu, o universo infinito que é o meu quarto de luz apagada. Fiel, vigio cada minuto cúmplice da noite, como se só a mim fosse capaz de revelar um grande mistério. Distraída passo a madrugada sem o peso de sentir. Sou apenas eu e as fantasias que desenho e apago. Não é angústia nem fantásticos sentimentos poéticos ou existenciais. O mundo deslumbra-me e em mim discutem vozes diferentes e curiosas. Fico a escutar a sua animada conversa. E a noite desvanece-se aos poucos, o compromisso com a rotina do Sol não a deixa ficar mais tempo comigo. É hora dos corpos apressados ligarem o seu autómato e o Sol é quem faz soar os despertadores. Até mais logo, minha querida noite.

domingo, março 18, 2007

Prepotência médica

"Mas tens de me ajudar", reforçou do outro lado da mesa uma mulher de meia-idade, de olhos vazios por baixo dos óculos garrafais e embaciados. Os médicos vêem-nos como compostos químicos a ponto de explosão e tudo o que fazem é lançar drogas para tornar o produto apenas um líquido igual aos outros das prateleiras. Que é como quem diz mais um rosto na multidão.
- Sim - respondeu ela, olhando de soslaio para a mãe, que a tinha obrigado a uma consulta de psiquiatria. "Não lhes digas que estou a mentir", avisou-a franzindo o sobrolho.
Aquele sim era o mesmo que a filha lhe lançava quando insistia para que comesse, o mesmo sim que se seguia ao "não voltes tarde". Olhou-a. Nos seus dezoito anos era perfeita aos olhos dos outros, de sorriso largo parecia conseguir tudo o que quisesse. "Beautiful smile hides a troubled soul"... Mas passava os dias em casa errando de pijama estranhamente absorta em nada, de caneta suspensa no caderno ou de comando na mão, esquecida do filme que continuava sem ligar à sua distracção. Noites haviam que passava de olhos muito abertos tentando não chorar, entre bálsamos psicotrópicos que esqueciam a dor. Outras tantas noites passava cismando como que num transe apenas quebrado pelo bom dia chocado do pai, ao contemplar a cama feita e a filha com olhos raiados de sangue. Quando lhe apetecia saía de casa e só voltava na madrugada seguinte. Dançava loucamente e fingia estar tão feliz a ponto de rebentar, mas bebia demais e acabava a noite fechada numa casa-de-banho regorgitando e chorando.
Aos amigos sempre tinha parecido diferente, como se o que a movia ninguém pudesse alcançar. Há uns meses que desaparecia da faculdade depois das aulas que assistia semana sim, semana não; deixara de praticar atletismo e de tocar com a banda, ninguém sabia exactamente o que de repente a levava para longe de tudo e o que a fazia voltar como se nada fosse. A perguntas entre a espada e a parede respondia com evasivas e atirava que o seu mundo só a si lhe pertencia, e que a amizade é também respeitar o silêncio. À sua volta continuavam a girar pessoas e pessoas como satélites daquele grande Sol que os dominava com uma força que nem ela entendia.
Mas se até os pais e os amigos conseguia despistar, o que levava aquela mulher de bata branca pensar que a podia ajudar a reencontrar a serenidade - demagogias ridículas para quem nunca quis mudar -, com meia dúzia de palavras decoradas de grandes calhamaços que nunca conheceram o misterioso fenómeno que ela era?
"Não é necessário saíres de casa. Fica à mesa e escuta. Não escutes sequer, espera. Não esperes sequer, fica completamente quieto e só. O mundo oferecer-se-á para que o desmascares, não lhe resta outra coisa. Arrebatado, contorcer-se-á perante ti."

Kafka

Poema de um homem só

"Sós
Irremediavelmente sós,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
E ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam
Todos se desconhecem.
Os astros não explicam:
Arrefecem.

Nesta envolvente solidão compacta,
Quer se grite ou não se grite,
Nenhum dar-se de dentro se refracta,
Nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
Sou só eu, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
Sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
Sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços,
Dão-se os olhos, dão-se os dedos,
Bocetas de mil segredos,
Dão-se em pasmados compassos;
Dão-se noites, dão-se os dias,
Dão-se aflitivas esmolas,
Abrem-se e dão-se as corolas
Breves das carnes macias;
Dão-se os nervos, dá-se a vida,
Dá-se o o sangue gota a gota,
Como uma braçada rota
Dá-se tudo e nada fica.

Mas neste íntimo secreto
Que no silêncio concentro,
Este oferecer-se de dentro
Num esgotamento completo
Este ser-se sem disfarce,
Virgem de mal e de bem,
Este dar-se, este entregar-se,
Descobrir-se e desflorar-se
É nosso, e de mais ninguém."

António Gedeão

segunda-feira, março 12, 2007

Pressa de sentir

"Falhei em muita coisa clamorosamente,
sobretudo no que não cheguei a dizer
e todavia nunca minguou em mim a pressa
de dizê-lo. Igualo-me, nessa pressa,
à loucura circular dos pilotos no poço da morte,
com uma diferença: eles param quando o tempo
acaba; eu continuo sempre porque
não quero que o tempo acabe. Como dizer?
Há uma cegueira persistente nestes olhos
que temem a luz, amando a luz. Contradigo-me,
eu sei. (...)"

José Jorge Letria

E continua...


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O Letras sai este mês na Fnac, em princípio por todo o país.

We're lost

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"Não vamos voltar mais aqui, porque nunca será tão divertido."
Lost in Translation, Sofia Coppola

Tudo o que pudessemos ser agora, seria muito pouco do que fomos. Não nos sei fingir. Não sei fingir contigo.

sábado, março 10, 2007

Hit the road

De mãos no volante sinto-me no mundo. Acelero a emoção e travo só antes de colidir. Como na minha vida. Deixo-me levar até cair. Hoje enquanto serpenteava entre rotundas e ruas estreitas, aproximando-me desafiante dos outros carros, imaginei que tinha um botão para lançar os outros borda fora, e seguir sem mais vozes a tentar dirigir a viagem. Adeus a quem me obriga a ser eu, vou para lado nenhum.
Talvez, um dia...

Gonna hit the road, and I won't come back no more, no more, no more, no more.

avó.eternidade

Ziguezague Perturbante. Filas de mármore.Flores e incrições perdidas algures pelo tempo. A camuflar corpos inertes, escondidos nas entranhas da terra.Um silêncio imperturbável percorre os muros, as árvores e as pedras caladas da eternidade.É isto a eternidade, esta distância de tempo que nos separa. Entre a vida e a morte. Entre o teu cadeirão vazio e o tempo dos sorrisos. Longe o calor das nossas canções e da melodia dos nossos versos. Resta a tinta da tua caneta nos postais de natal. Tentei recordar hoje o som da tua voz, avó. Já não sei se consigo. Não sei como esquecer-te.E tenho medo de já não saber como lembrar-te. Eternidade. O que já lá vai. Momentos irreversíveis. Eu, já crescida, na protecção do teu regaço. Depois há a última imagem que guardo de ti: os teus braços magros e doentes num abraço cansado. E eu que me revoltei contigo por ires embora. "Não tinhas o direito de morrer, eu preciso de ti". Só que tu tinhas de morrer para que do adubo de ti floresça vida. Estarás em algum lugar ou não-lugar a olhar por mim?Perdoas-me por te ter esquecido tantas vezes ao longo destes cinco anos?Tu estás em mim, serei uma parte de ti em cada verso que escrever, afinal foste tu que me ensinaste.Recordo o meu riso em pequena à volta das tuas saias: "vamos embora avó", sempre impaciente. Dizias que tinha bicho carpinteiro e acho que tinhas razão. Guardei-te, escondi-te porque lembrar-me de ti magoa.Amar-te magoa. Porque só posso amar a tua ausência.Amar-te e odiar a tua ausência. E no vai-vem do baloiço dos dias poderás pensar que te esqueci. Eu não te esqueci. Poderás pensar depois de morta?Avó. Neta.

sexta-feira, março 09, 2007

Viagem

Sentia-se a adormecer de cabeça encostada à janela do comboio, o tremor nervoso da máquina balançando os pés, poesia de páginas abertas e versos por ler na mão, e a fantasia nos ouvidos, a música que a embalava e que até a dormir escutava ao longe. Viajava para longe dele. Todos os dias viajava mais um bocadinho. E mais não sei porque o telemóvel escorregou-lhe dos dedos quando entre uma onda e outra brilhantes de sol na janela, adormeceu.

Metamorfose



Gritam em mim as mais brutais metamorfoses. Respiro a fúria que torna sensibilidade em cepticismo e simpatia em ironia. Desejo em desprezo. Ou menosprezo. Quero lá saber se não sou o máximo nas pautas dos outros. Destruo-me e recrio-me, experimento os extremos de mim. Brinco aos antónimos como na escola. Como se tivesse uma gémea má. Euforia, disforia, euforia, disforia. Histeria chocante, choro sufocante. Querer e desistir. Beijar e esquecer. E o clássico amar e odiar. "Tenho duas almas em guerra e sei que nenhuma vai ganhar (...) Tenho as chaves do céu e do Inferno, e deixo o tempo decidir".

Jorge Palma,

quarta-feira, março 07, 2007

Cadernos de pó debaixo da cama

O filme acabou. Ela estava cansada de um dia de assinaturas e reuniões que trocistas espreitavam de cada vez que se tentava afastar para um café: antes da porta a deixar fugir o telefone tocava. Mas sorveu cada minuto do filme, aguentou, a curiosidade abria com mais força os olhos que o sono que os fechava. Ele sabia que ela estava cansada, e, teimosa, aguentava o ritual das sextas-feiras à noite do filme que ele escolhia em vez de dormir como cada músculo pedia, por remorso ao sonho do cinema que tinha abandonado, e que ele, obstinado, satisfazia precariamente pela crítica. Vivia na corda bamba da televisão, das notícias de hoje para ontem, dos almoços mal acabados, dos jantares esquecidos. Apenas por ele sentia que estava a viver bem. Ainda comentava as estreias e ia sabendo nomes de actores e realizadores em voga, tanto as caras bonitas da Première, e dos Óscares, como os mais carismáticos e conflituosos que se escondiam das cores fortes da fama.
E quando a tela trocou a emoção pelo negro de letras brancas, agarrou-o e tomou-o como sua almofada, sussurrou que tinha gostado e que amanhã falariam melhor do filme. Ele tentou levá-la para a cama. Ela resistiu, "Sabes que gosto de adormecer no sofá depois de um bom filme. É como sexo." Ele riu-se. Sempre a tinha conhecido assim, bruta em toda a fúria de sentir e falar. Apesar das bofetadas da mãe.
Pouco depois já estava a dormir e ele beijou-lhe os lábios inertes. Tudo para ela era rápido e eficiente, tanto adormecer como escrever, pensar ou publicar. Não havia tempo para cismar. De longos pensamentos tinha feito a juventude. Agora já não tinha vida para isso.
Ele levantou-a, peso-pluma, e levou-a para o quarto, tirou-lhe as calças de ganga e deixou-lhe a larga camisola de algodão, sabendo que no dia seguinte a ouviria refilar por não ter acordado onde tinha adormecido, mas ele não sabia adormecer no sofá, nem sem ela. E assim se aconchegou por baixo dos cobertores, respirando a pele quente dela. Sem saber que há alguns anos atrás, num argumento inacabado ela tinha escrito algo assim. Sobre uma cumplicidade simples e muda. Mas ele nunca conheceria esse lado menos duro dela. Pouco conveniente, fora escondido, nos cadernos de fantasias fechados a pó e cadeado, esquecidos debaixo da cama.

Texto esquecido no bloco (escrito no natal)

Restavam as cinzas do fogo que crepitava dentro dela. OS restos da ceia de natal e o papel de embrulho espalhado pelo chão da sala. Daquele momento em qeu vorazmente havia aberto uma por uma as surpresas. Demasiado rápido, pensava. Mas ela queria tnato saber o que escondiam as caixinhas cor de âmbar , cor de céu estrelado, cor de sonhos. Supõe-se que terá aberto a caixa de pandora na violência de espremer a supresa e torná-la facto. Pandora escondia medos aos trambolhões numa caixa enorme em qeu caí sufocando. Agora só restavam as cinzas da noite da consoada. As cinzas de ti no fogo apagado de mim.

terça-feira, março 06, 2007

Seco

"Pela primeira vez, compreende como se sentirá quando for velho, cansado até aos ossos, sem esperança, sem desejos, indiferente em relação ao futuro. Afundado numa cadeira de plástico por entre os odores a penas de galinha e maçãs apodrecidas, sente o seu interesse pela vida a escoar-se gota a gota. Pode demorar semanas, pode demorar meses até ficar completamente seco, mas está a sangrar. Quando este processo terminar, será como a carcaça de uma mosca numa teia aranha, quebradiço ao toque, mais leve do que farelo, pronto a flutuar e desaparecer".

Desgraça, J. M. Coetzee

Serei trovoada em ti?

"Tudo em ti é milagre Senhora da energia,
Quando tu chegas a terra treme e dançam divindades,
batem sílabas da noite e tudo é uma alquimia,
ao som do nome que só Deus sabe, Senhora das Tempestades."

Manuel Alegre

segunda-feira, março 05, 2007

mulherzinha

Giras e giras e tornas a girar nestes cem metros quadrados de pura luxúria. Conheces a rota das ilusões como a palma da tua mão e a textura do teu próprio cabelo. Unhas vermelho-sangue, tamborilando na mesa da espera. Fumas a liberdade apressadamente no cachimbo de outro corpo. Corrompido o mistério largas aquele corpo e substituis por um copo, vagarosamente. Devias fumar como bebes. Lentidão. Degustar cada segundo, como o fazes em honra de Baco.E se em vez de fumar pudesses amar? Apenas te entregas por meia dúzia de prazeres explícitos que pouco deixam em ti. As tuas relações são sempre como os teus vícios: começas umas para acabar outras sem qualquer luto. Quem morre és tu, o teu coração-prostituto despedaçado. Fútil, irremediavelmene fútil e traidora. Afinal, és casada (e porra tens uma boa vida e ordenado chorudo). Sempre tiveste a mania das grandezas mas não és grande coisa. A saia vermelha abana quando cirandas pelos dias e ao longe ouve-se o tilintar das pulseiras de ouro que ostentas de maneira vulgar. Todos te desejam mas apenas por uma noite. E tu própria não sabes amar. Fartas-te depressa da roupa, do calçado, dos homens e até da vida. Que para ti vale tanto como uma moeda de dois cêntimos. Mulherzinha de aroma adocicado com travo de arsénico. Mulher-veneno. Mulher torre-de-babel invertida (não chegas ao céu, a tua torre cresce em sentido contrário para as catacumbas do mundo). Ciradando e ciradando, agora em cento e cinquenta metros de luxúria, porque o quarto é outro.

Cara de Anjo Mau



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Até a mim me seduzo”, pensa, afastando o cabelo do sorriso simples em sensualidade. Como uma mola esticam-se de repente os lábios carnudos numa janela de si de onde se ri maliciosa a certeza de ser o que quer na sua admirada beleza. Os olhos pequeninos fecham-se numa fresta de negro vivo e misterioso. Sem maquilhagem sente o rosto de pele suave e dedica-lhe Jorge Palma. “Teus olhos são cor de pólvora e o cabelo é o rastilho”.
Sai de rompante de casa, leva uma pequena mala e a música de mp3 no bolso, a harmonia que a completa.
Primeiro café do dia. O empregado, um jovem moreno, sorri galanteador enquanto a serve. “Ela tem poder e nem parece notar”, pensa enquanto lhe serve o combustível dos seus dias, cafeína.
Caminha para o comboio com a boca amarga da bebida sem açúcar, mania já com anos de gostos fortes. E ri-se da ironia do seu mp3. Toca “Cara de Anjo Mau” quando o monstro do transporte arranca uivando veloz e forte. E troca um sorriso cúmplice com a voz de Jorge Palma, quando o cantor a avisa: “Teu modo de andar é uma forma eficaz de atrair sarilho”…

pequeno desabafo

O tic tac infernal do relógio penetra nos lençóis. Os olhos abrem-se com laivos de estranheza (parece que ainda agora se acabaram de fechar). O inconsciente buzina com insistência ao ouvido "devias ter-te deitado mais cedo". Afastados os zunidos das advertências do espírito, abrem-se as cortinas. São 6 horas da manhã e naõ se vê um palmo à frente do nariz. Está escuro como breu. Negritude instalada na vila-bela-adormecida, em que alguns sentem agora o nariz gelado à espera do comboio na estação. Sempre o tic tac permanente dos relógios, os dias contra-relógio cronometrados nas obrigações obrigatórias a que nos obrigamos. E oh que alívio profano quando rasgo a obrigação, espezinho com força, e lanço na sarjeta. Nos dias em que se põe a língua de fora ao ter-de-fazer e se fica pelo faço-o-que-quiser. E enquanto se vislumbram agora as primeiras gotas de sol, sem um único raio de chuva, já eu vou andando em passos pequeninos que hoje não fizeram gazeta, sentar-me na última fila da última sala do último andar para a obrigação-obrigatoriedade mas espontaneamente-interessante. A preguiça, maldisposta pela minha afincada recusa em ser, por agora, uma alma sonolenta, vira-me as costas e encolhe os ombros, suspirando. Sorrio pelo meio dos cansaços madrugadores. Valeu a pena não ter desligado o despertador, mas continuo a achar: os relógios às vezes deviam ser só para enfeitar. Naqueles momentos que deeriam ser prólogo sem epílogo. Espontaneamente-maravilhosos. Mas se a esmola é demais, não se diz que o Santo desconfia?

Rotina

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Dois extremos. O bater furioso das teclas do quarto do fundo ecoa pela casa, martela as vozes intrusas que irrompem por uma tela vibrante de cor que inflama os olhos pesados no sofá com crimes sangrentos. Anestesia de ficção porque a vida está no intervalo. No último quarto da casa, olheiras, café, cabelos despenteados, banho adiado, pijama, azáfama, ansiedade, deadline que bombeia o coração de adrenalina, e do outro lado, chá, chocolate, olhos que se tapam de pálpebras e cobertores desligando distraídos da televisão e o filme que continua sem se importar. Olhos abandonados na almofada viajam por estórias irreais enquanto deixam adormecer a sua.
E de repente os olhos esquecidos do sofá acordam num estranho silêncio. Espreitam o quarto do fundo e encontram o stress adormecido: os dedos cansaram-se de jogar às letras e descansam a testa despenteada e quente de pensar sobre a escrivaninha. Mais que palavras e metáforas são duas pessoas desencontradas na mesma casa. Ela leva-o para a cama, aninhando-se a seu lado. Arrastam o dia até ao momento em que partilham um cobertor. Adormecem de braços e pernas entrelaçadas num sussurro de amor, depois de um dia cego, surdo e mudo.
Assim se alimenta um habitante invisível daquela casa, a rotina, a louca suga-emoções.

domingo, março 04, 2007

Ausência

"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São essas as formas
do amor; podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói."

Nuno Júdice

amor-sorriso

A minha alma bate palmas quando estou contigo. O meu estômago cheio de formigas que se mexem sem cessar. O meu corpo que ondula no mesmo ritmo do teu nos passeios que fazemos. A tua mão irrequieta no meu rosto e o meu cabelo (que acaricias casionalmente), viajando ao ritmo do vento. O rio Tejo defronte e uma paisagem de beijos cobrindo a tarde farrusca. Nem chove nem molha, lá diz o ditado. Umas gotinhas apenas enquanto um sol tímido espreita pelo horizonte. Os nossos beijos ultrapassam o horizonte. Qualquer linha ou meridiano. Nesta tarde de cara feia, em que o vento sopra de má fé, a meteorologia imprevisível do amor apresenta sol limpo, com possibilidades de gargalhadas sonoras, olhares indiscretos e rodopios em jardins históricos. Sorvo cada bocadinho destes momentos irrepetíveis. Bebo tudo até à última gota. Faço, por fim, barulho com a palhinha e sorrio brincalhona. Este batido imaginário, repleto de aventuras com ténis lamacentos percorrendo os caminhos nas tardes de domingo. Nutrindo o espírio em conversas labirínticas. E ao voltar a casa, soube a pouco. Apenas umas horas numa semana agitada, num domingo de voltas e voltinhas nos carrosséis da paixão.

sexta-feira, março 02, 2007

Conditio sine qua non

A pergunta filosófica emerge na sua singularidade. O que é importante? De cada coisa que fazemos, de cada gesto ou palavra no seu tempo e no seu contexto? Os pensamentos que conjugamos na perversidade das mentes, (in) confessáveis, quando as artérias ameaçam estourar, e os neurónios espalharem-se pela estrada, afinal fomos atropelados por pensamentos. Quero uma receita para não pensar, afundar a cabeça na almofada, fechar os olhos e as janelas do cérebro, anestesiada de mim sem sonhar contigo (sim, tu, o medo) ou com este mundo excomungado de si mesmo. Esquecido da condição essencial da vida: a alma mater de cada coisa. O brilho escondido, trunfo das nossas vivências. Bato com os pés como se executasse um sapateado enquanto se escutam gargalhadas, nos outros prédios que lentamente apagam as luzes do prédio para dormir. Só eu permaneço inquientamente acordada na escuridão. Pensando sem fazer barulho para não acordar as inseguranças, que teimam em apertar-me a mão com força até quase ficar roxa. Em voo picado lanço-me para a cama, viro-me de um lado para o outro, ora mariposa, ora bruços, nadando na minha cama numa piscina de pensamentos entos entos entos entos entos entos. Alucinação, sono, queda, sonho, fim.

quinta-feira, março 01, 2007

pueril

Ela gostava tanto de brincar com as crianças, mesmo que já fosse crescida, ia ter com as pequenas e lá jogavam infindáveis horas. As crianças sempre tinham sentido um certo carinho pela sua personalidade desvairada. E faziam cavalinho cavalinho. Ela brincava às barbies e sorria (como era difícil agora que era crescida) e elas tinham tanta imginação. Faziam-na sorrir, as crianças. Um sorriso que hoje deixou escapar por entre os dedos, tal e qual água, escapulindo-se pelas mãos. O sorriso talvez estivesse escondido atrás da televisão ou dos sonhos que a acompanhavam para qualquer lado, livro de bolso da sua vida. Ai, como ela gostava de voltar à infância cada vez que se encontrava com aquelas suas amigas crianças. E na altura já tinha os seus 18 ou 19 anos. E elas ensinavam-lhe tantas coisas. contavam-lhe a verdaade sem medo de a criticar. Abraçavam-na e por vezes reclamavam a sua companhia. Ela gostava tanto de lhes contar histórias para dormir, embalando-as devagarinho dentro da sua doçura. Beijando o nariz como os esquimós, jogando e montando peças que a completavam a si mesma. Foi há tão pouco tempo e parece tudo tão eternamente longe. Agora fazia-lhe falta esse riso de crianças e esse abraço de mãos pequeninas. Ela está tão triste, sem ninguém a quem contar da sua tristeza, ou sem saber como a mostrar. Ela gostava tanto dessas crianças. Ela gosta tanto de estar com elas no seu reino. Ainda há muitas crianças lá em casa pedindo para fazer desenhos. Mas aquelas meninas e o brilho nos seus olhos ela jamais irá esquecer. Foi para elas como alguém de família e sente saudades.