sábado, outubro 28, 2006

Encontra-te comigo no meu sonho

Frio.Frio.Frio.Estava tanto frio, que só as mantas quentes aqueciam a alma e o corpo. A cara tapada, para esconder do mundo, a cara ardente debaixo das mantas quentinhas a cheirar a roupa lavada. A almofada já não cheira a ti. Estás longe há já algum tempo. O meu corpo é um conjunto solitário. A memória das tuas mãos esvanece-se. Hoje precisava de ti. Só que não estás, resta a cama que não recorda os teus traços nem o teu aroma, aroma do amor em sim mesmo. Fechei as persianas e recordo-te. A alma ainda te chama baixinho, o coração ainda bate acelerado. Só que tu não estás. Nem vais chegar nos próximos minutos. O bicho da esperança corrói. A lágrima nasce, como a fruta madura que cai da árvore. Cai a lágrima. E sim, tu não estás. Hoje que preciso de ti. O telefone calou-se. Os sussurros e gemidos calaram-se. Os risos voaram nas asas de uma andorinha tonta. Os meus amigos diziam sempre: "se fosses um animal eras uma andorinhas. Sua despassarada sem juízo! Sua tonta". Despassarada, sem asas de pássaro para voar daqui hoje. E nem é tristeza aquilo que me suga até ao tutano. É uma réstia de esperança tecida a fios de saudade.Só que tu não estás. Lá me estou a repetir. As estrelas desapareceram, fustigadas por um vento vindo de não sei de onde. Gélido e caprichoso. Permaneço na cama com os cabelos revoltos na almofada e os lábios ansiando um beijo daqueles. Que levanta o pé, qual actriz de filmes antigos de Hollywood. Encontra-te comigo nos meus sonhos. Ao pé do senhor dos gelados, naquela praia onde um dia te vi. Nos meus sonhos sabes?Eu estava de azul e tu de calções encarnados, arrepiado pelo frio da água. Um dia desses em que te pedi para ires ter comigo no meu sonho e não falhaste. Só hoje não apareceste. És tão distraído!Deves ter deixado o relógio em casa. Oh mas tu nem usas relógio. Apetece-me adormecer de novo. Para sonhar contigo. Pode ser que nalgum dos sonhos compareças à minha chamada. Apetece-me imaginar-te e imaginar-nos. Assim poderei ver-te e deixar de ter frio. No meio de lençóis emaranhados. De memórias e memórias de outros dias. Penso e sussurro baixinho: vem ter comigo. Salta a lágrima teimosa numa maratona pelo rosto. Suspiro e tento adormecer. Estarás no meu sonho?

quinta-feira, outubro 26, 2006

As if they were still lovers

Corria de parapeito em parapeito. O vento e a chuva tinham escolhido o momento perfeito para brincar com ela. Sabiam como se ria sozinha quando passava pela vitrine dos cafés e entre um senhor careca de fato e uma delicada senhora de permanente, se reflectia de cabelo desalinhado e encaracolado, despenteada no espírito e gargalhada de aspecto ridículo. Só assim se via como era, um alvoroço estupidamente feliz. Sabia que não estava bonita, mas não se importava. Nunca o fora, mas o sorriso servia para alguma coisa. E esse sabia usar melhor que a preferida t-shirt azul-clara às riscas.
As nuvens continuavam a chicotear de lágrimas as costas e a esborratar a pintura dos olhos. Entrou de repente para uma loja, não aguentava mais, de qualquer maneira já ia a meio da aula e não lhe apeteciam monólogos com antipatia e desprezo. Enfiou os dedos por entre os nós do cabelo para não parecer tão de outro mundo. Fazia caretas enquanto as mãos desafiavam as ondas teimosas. Desistiu. Cirandou pela loja como se lhe interessasse mesmo alguma coisa. Era de informática. Bonito serviço. Os computadores não se experimentam, não são roupas, não tinha nada que fazer ali... (E que pensamento tão idiota.)
- Posso ajudar? - um sotaque diferente e uma voz quente arrepiou-a e estremeceu as costas enchardas. Virou-se. Não podia ser...
- Pilhas... Está a chover e... precisava... - de olhos baixos, meteu atabalhoadamente as mãos nos bolsos. Será que ele a reconhecia? Não tinha passado assim tanto tempo, mas...
- És mesmo tu! Mas não te queria telefonar, tinha medo que não acreditasses e ficasses chateada... - respondeu-lhe um sorriso louco e familiar, abraçando-lhe os ombros molhados e os braços inertes de choque. Era mesmo ela, despenteadíssima como sempre, mas com aquele olhar perdido que o tinha apaixonado.
- Mas, que fazes aqui? - perguntou para o pescoço deitado no seu ombro direito.
Levantou a cabeça e muito depressa contou que tinha escolhido fazer um estágio em Lisboa, era mais uma daquelas decisões loucas que gostava de tomar.
- Tu nunca gostaste da cidade!! - exclamou, incrédula de coração a bombear de nervos. Queria fugir. Estava chateada sim, depois de tanto tempo sem falarem resolveu trabalhar a passos da sua faculdade!
- Oh, a verdade é que acabei o curso com uma média baixa e só arranjei qualquer coisa aqui... Esta loja está a abrir agora, e precisavam de pessoal. - admitiu, desarrumando umas caixas de impressoras. Estava envergonhado com a confissão, afinal ela sempre fizera tudo bem, era a sua heroína das mil histórias e tantas coisas de que sabia falar. E queria tanto beijá-la, tinha de se entreter com alguma coisa e resistir. Não podia ser assim, os seus olhos ainda lhe respondiam muito magoados.
- Ah... Então tens de ir a Espinho todos os fins-de-semana... - lançou de repente, à espera que lhe respondesse que tinha de ir ver alguma namorada.
- Oh, sim... O meu pai não gosta muito da ideia de estar longe. - ele tinha percebido. Mas isso denotava que ainda tinha interesse...
Ela não podia fingir que não tinha gostado da ideia, mesmo que ele pudesse estar a omitir alguma aventura, mas naquele momento só lhe apetecia sair para a chuva e encharcar-se a sério. O temporal estava cada vez mais intenso, como se partilhasse aquela revolta confusa de um encontro inesperado e ele tão confiante. Ainda por cima ele não tinha mudado nada, tinha a mesma cara redondinha e o sorriso sedutor. Parecia que ainda ontem tinha almoçado em casa dele, a lasanha que ele tinha preparado, sem descuidar do cabelo com gel, as faces miúdas sem marcas de barba, e a roupa que lhe ficava melhor, a t-shirt que ela lhe tinha dado nos anos e as jardineiras que lhe davam ainda mais ar de garoto. Agora estava de camisa da empresa e calças finas, mas mesmo assim parecia muito novo para aquele fato... E isso só o tornava mais atraente.
- Tenho aula agora... - disse, depois de ficar quase um minuto a olhar para as janelas (não o podia olhar fixamente, ele ganhava-a se o fizesse), ele perdido no medo de que o rosto dela falava. Ela parecia mais velha e mais cansada, sem vontade de lhe dizer que sim, que tinha saudades, como ele tanto queria ouvir. Ela sempre fora tão frágil e transparente, e agora parecia ter tomado as rédeas de si. (Mal ele sabia que ela era um espírito cada vez mais inquieto.)
- Podias passar cá quando saísses... pequenina. - tentou, falando devagarinho, como ela gostava... o sotaque mais forte a cada sílaba.
Corou... Ao sotaque não resistia...
- Sim... talvez. - saiu para a rua, sem o cumprimentar. Dois beijinhos? Nunca o tinham praticado, meras formalidades. Eles eram mais que isso. No olhar ficou tudo. Saiu, e sorriu-lhe de olhos brilhantes. Ele devolveu-lhe a emoção com o gerente a gritar o seu nome.

"(...)
And so Louise
Waved from the bus
And as she left
She gave that smile
As if they were still lovers

It's not always true that time heals all wounds
There are wounds that you don't wanna heal
The memories of something really good
Something truly real, that you never found again
(...)"

Louise, Robbie Williams

segunda-feira, outubro 23, 2006

Hoje

Batatas fritas. que dividíamos nos beijos. "Roubaste-me a batata toda". E eu era uma ladra mesmo. Uma criminosa de beijos e batatas fritas. O nosso riso era enorme e abafava o som de pessoas a comer e comida a ser feita. Já era noite quando nos encontrámos. Era outro dia depois do dia das lágrimas. Os meus olhos ainda brilhavam na réstia do choro. O teu beijo sabia-me ao mesmo de sempre. Ao sabor para o qual inventei o nome. Por ser nosso. Esse beijão-balão ou botão de teletransporte. Não te posso perder. Pensei baixinho com a minha camisola (não tinha botões reparei de repente).Mas as tuas mãos às vezes deixavam-me escorregar. Hoje apertaste a minha mão magrinha e o meu pulso fininho com firmeza. Os teus olhso não perderam os meus em rua nenhuma deste mundo escuro e nocturno. De cheiro a inverno. Fomos de mãos dadas em brincadeiras nossas. E os meus olhos tristes a querem sorrir através dos lábios. Perco-me tantas vezes nos labirintos deste amor. Magoas-me. Amas-me. Alegras-me. Sê o meu príncipe, por favor. Eu dar-te-ei a lua no nosso próximo jantar. ao lado do café. E das batatas fritas que tanto gostas.

domingo, outubro 22, 2006

Conto: O nosso (des)encontro

Olhou o espelho. Pôs os pózinhos mágicos da gente grande para ficar mais bonita. Só para ele. E ele estava lá com ela no pensamento, a menina até era capaz de o ver reflectido no espelho em que demoradamente se preparava. Ela, que nunca costumava precisar de muitos minutos para estar pronta. Vestiu aquela roupa que ele gostava tanto e há muito não saía do armário. E, claro, envergou o seu melhor sorriso, aquele que o menino preferia, que o derretia por dentro. O seu relógio louco e meio avariado passou muito rápido os ponteiros. Talvez por isso se tivesse atrasado. O rapaz desesperava da espera, queria saber quando ela chegava.Ai, quem dera que não houvesse um quando chegar, que simplesmente já lá estivesse. Impaciente, o rapaz ligou-lhe e ela ficou surpreendida de já ser tão tarde e de tanta impaciência. Até ficou meio irritada, mas tinha vestido o seu melhor sorriso e tinha tantas saudades. Imaginava a reacção dele quando a visse, hoje que ela se tinha esmerado para o agradar. Preferia até que não lhe endereçasse nenhum elogio e apenas sorrisse, enquanto ela o agarraria pelo pescoço com muito força. O dia não estava como ela, vestia-se de cinzento. Ecoava uma chuva e molhavam os relâmpagos (sim, eu sei que a chuva é que molha, mas os textos servem para inverter a realidade).

A passo rápido, já na estação, apanhou o comboio, e no quentinho do seu interior via a chuva pela vidraça. Adorava ver a beleza da chuva lá fora, caindo em lágrimas que molhavam o mundo . Sem se molhar ou ficar constipada. Se estivesse doente como iria ao encontro que tinha marcado? O comboio lá foi dimuindo cada vez mais a distância entre ela e ele. Que diria ele quando a visse?De certeza que a ia achar bonita. Ele acha sempre, como ela o acha a ele. È da paixão. Mas ele é verdadeiramente bonito. Saiu do comboio e foi andando sonhadora até ao local onde o esperaria. Ele ainda não tinha chegado, foi olhando para um lado e para o outro, como quem atravessa a rua na passadeira, que parecem riscas de zebra. Só que ela preferia as girafas. Ele tinha predilecção pelos tigres. Ajeitou a saia, mexia nervosamente no colar.

E lá estava ele, os olhos dela brilhando de paixão. Ele a túlipa no meio de um mundo de rosas. E só ela sabia como amava as túlipas e a sua forma perfeita. Ele era a sua forma mais que perfeita. Olharam-se mas ele não sorriu, não a elogiou e nem sequer a beijou. Ela sabia que ele gostava dela. Mas quando ele a beijou e lhe deu a mão já era tarde. Já a água polvilhava as palavras da rapariga. Saía dos olhos. Eram lágrimas como na chuva. Seguiram de mãos dadas mas o sorriso que tinha vestido com tanta delicadeza tinha-se rasgado. As músicas que lhe tinha escrito tinham desaparecido da cabeça. As que ele ouviu e ela pediu desculpa. Da vergonha em mostrar algo tão seu. Olhava-o e ele sabia. Da tristeza que mergulhava nos seus olhos castanhos. Do choro, que tinha tentado aguentar em tantas outras ocasiões, e agora parecia nem ter fim. Um frio na barriga invadia-a e substituía as borboletas e formigas, que antes lá passeavam. Naquele momento não restava mais nada para partilhar. Ele não entendia. Mesmo que ela explicasse. A cabeça dela era tonta,dizia-lhe. E isso magoava ainda mais. Ele não entendia.Mesmo que ela chorasse. Essa rapariga era eu. Ela e ele. Eu e tu.

All the heroes are dead

"Foi então que o rapaz compreendeu que as feridas do seu herói residiam num lugar mais sombrio. O seu coração, outrora capaz de inspirar os outros de forma tão completa, não conseguia inspirar-se a si mesmo. Batia meramente por hábito. Batia só, porque conseguia bater."

WonderBoys, realizado por Curtis Hanson, 2000



Hoje desprezo-te porque não tenho sorriso para te mostrar. Não te consigo abraçar e dizer que continuo a mesma, e se me beijasses de novo calava tudo o que se passou e não ias gostar de saber. Sempre me admiraste, sempre disseste que um dia ia escrever o nosso romance... Hoje a chuva parece chorar a minha cobardia, a chamada que fica por fazer, a vontade de contar tudo que fica presa na garganta... A próxima a jogar sou eu, o teu peão está lá à frente, o dado está parado e o meu peão na partida. Mas prefiro ser heroína de ontem que comum mortal de hoje, prefiro apagar o que fui e ser ainda a tela brilhante que pintaste de mim! Não te quero beijar na mentira. Esquece, porque eu esqueci. Fomos felizes para sempre naquele momento, e chega.

"If I go crazy then will you still
Call me Superman?
If I’m alive and well, will you be
There a-holding my hand
?"

Kryptonite, 3 Doors Down.

Espontaneidade rima com Amizade


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Sentadas em cadeiras de verga à beira da lareira, o fogo acendia os olhos e queimava as faces. O silêncio acontecia entre mãos que se tocavam escolhendo chocolates pequeninos da caixa. Pralinés... Nome francês que como os quadradinhos castanho-escuros se derretiam na boca. E os teus dedos pequeninos, que apetecia apertar! "Olha! Tens mãos de brincar!" E disparou uma máquina de gatilho atento. A tua mão sobrava na minha, grande de precisar da tua! Na noite anterior olhei-te de soslaio quando pediste para não estragar tudo, para não voltar para ele. Quando me viste chegar de madrugada, de expressão cansada, mais velha, e olhar preso nos passos de me obrigava a dar, nada perguntaste. Sabias que na minha teimosia não te ia contar nada, nem admitir que tinhas razão. Abraçaste com os teus braços pequeninos a minha grande fraqueza. Aquela fotografia ainda parece ter sido tirada ontem.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Nós


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Remexo o chá depois de fecharem a porta. Foi uma tarde especial, estivemos todos cá em casa em volta da mesa outra vez, entre bebidas que aquecem a alma e bolinhos que a adoçam. Ninguém notou quando fiquei calada por momentos, saboreando o arroz doce, sorrindo para mim e misturando aos bocadinhos fotografias de momentos que hoje são os armários cheios do corredor, os albúns dessarrumados de folhas fracas por sentimentos tão fortes! Nós entre os peluches, carinhas rechonchudas e miudinhas, confundidos entre as bonecas. Nós na serra da Estrela, "mãe a neve é tão fria, dá-me um boneco para brincar em cima dela, faz mal às mãos!". Nós em casa da avó, as mãos sujas dos troncos que metíamos na lareira, "não é preciso tanto", dizia ela, mas todos queríamos ver o fogo a encher os olhos, a queimar as faces e a crescer até ser maior que nós, todos queríamos ajudar a carregar os tocos tão pesados ou as giestas que arrumávamos com cuidadinho entre os buraquinhos sem lenha. E daquela vez que viemos todos para minha casa em Lisboa, ainda éramos cinco, lembram-se? Os primos mais velhos, nem imaginávamos que ainda viriam tantos mais, e que tivessemos a sorte de nos termos sentado à mesa das melhores consoadas e aniversários que a nossa família alguma vez terá. Corríamos entre os cabides e os mostradores, escondiamo-nos entre as calças e as camisas, assustávamos as nossas mães e quem passava saltando de repente como lobos! Para dois deles era novidade aquele mundo de cor e brilho, sempre tinham vivido no campo entre a ponte verde e fresca e o mini-mercado sem cabides nem pessoas sem nome. Outros dois falavam entre si uma língua esquisita que nós os três não entendíamos, e devagarinho tentavam palavras que ficavam para o fim do dia na altura da escola, o falar diferente que os envolviam mal passassem a fronteira no Verão. O que choraram vocês quando sem querer corri para umas escadas que me empurraram para baixo, o que gritaram o meu nome e o das nossas mães, eu não conseguia subir e vocês lá em cima, a chorar e eu com medo de tantas cabeças estranhas que se acumulavam lá em baixo. "Mãe, ela entrou naquela coisa e..." "...elle n'arrive pas a monter, elle n'arrive pas a monter!" As nossas três mães soltaram a gargalhada mais maldosa de que alguma vez temos memória, como se podiam rir se eu estava cada vez mais longe e por mais degraus que subisse continuava a ir para baixo? Fizeram-vos entrar naquele monstro que nos empurrava para longe e vocês tinham medo, não queriam chorar como eu, aquelas escadas que mandavam nas pessoas, não, não! Palavras ao ouvido e eu que já invento mais um bocadinho do que aconteceu todos desceram para perto de mim, a berrar junto às escadas daquele antigo e grande armazém de roupa (ainda se lembram da "Printemps"?). Abraçaram-me todos e a mais velha disse que estava tudo bem, e alguém mostrou a língua às escadas rolantes. E largámos a correr para a sala de jogos, os rapazes queriam andar nas motas e nos carros, as raparigas queriam ir para a casa cheia de bolinhas de plástico em que mergulhavamos como o tio Patinhas no dinheiro. Mas depois espreitavamos os jogos dos rapazes também, acabávamos por jogar e riamo-nos como se não se pudesse, "jogos de meninos são só para os meninos, depois ainda nos chamam marias-rapazes!". E ficava só entre nós, um segredo-reguila como nós, prometido com olhos grandes e expressão grave. No dia seguinte lá iamos todos para a praia, "que coisas horríveis aquelas verdes, devem ser bichos!", dizia eu, e um dos rapazes enchia-se de algas e dizia que era uma sereia. Ríamo-nos das pernas-lixívia de um dos nossos tios, com os braços muito queimados de todo o ano de trabalho no campo. E do meu pai que nunca soube mergulhar, mandava-se para a água e depois saía com a barriga muito vermelha, a chapa que tinha feito tinha molhado a minha tia que não queria estragar o cabelo. No final do dia todos comíamos um gelado e íamos só de fato-de-banho e toalha a dormir nos carros, cansados dos castelos e de fugir da água, "que onda tão graaaaande, vai-nos engolir"! Passávamos as noites a ver filmes de desenhos-animados, em concursos no velhinho e cinzento tetris, a jogar ao quarto-escuro, aos pulos na cama... Uma vez um de nós partiu uma cama e todos jurámos não contar nada a ninguém... Até que a minha mãe se sentou nela, ia caíndo e todos baixámos a cabeça de vergonha. Passando Julho e os primeiros dias de Agosto, chegava a altura de irmos todos para a terra, e como uma excursão enchíamos os carros de brinquedos e íamos jogar ao boi para o curral da avó todas as tardes, fazíamos touradas com a cabrita (e uma vez ela ia-me acertando no estômago, que matreira que era aquela Beca!), passávamos tardes montados na burra à vez, lutávamos porque todos queríamos conduzir a carroça de caminho para os terrenos que a avó todo o ano plantava para no final do mês distribuir batatas e maçãs por todos os seis filhos... À noite depois do caldo quentinho, do arroz doce e das mílharas, ajudávamos as mães e a avó a fazer as filhozes, dormíamos todos juntos e cedinho para acordar de manhãzinha para ir ao encerro e à tarde, amontoados na carrinha de caixa aberta do tio e de vento na cara e bonés a fugir, lá íamos nós para a tourada, encafuados entre gritos e suores a comer farturas e a beber coca-cola enquanto lá em baixo crescíamos com a emoção de um povo. No último dia chorávamos como se não nos vissemos mais, a avó abraçava-nos e dizia "que grandes que estão a ficar, agora portem-se bem e rezem todas as noites ao anjinho da guarda". Nos primeiros dias de aulas nas composições enchiamos as folhas das nossas tolices e diziamos o nome da nossa terra bem alto como se fosse uma ofensa alguém não a conhecer. À noite agarravamos no telefone e pedíamos à mãe para ligar ora a um, ora a outro, e à avó. Sempre que voltávamos apitávamos ao passar na casa dos tios e todos saíam a correr, estacionávamos em casa da avó e já lá estava tudo, a mesa cheia de queijo, pão espanhol, as filhozes, "que boas ficaram as deste ano", e os enchidos "tenho de levar uns destes depois". Hoje quando chegamos apitamos perto da casa do tio mas às vezes não há ninguém em casa, passamos em casa da avó mas está vazia, vamos para nossa casa e não tem o lume aceso nem nada para comer. Andamos ocupados e cansados, há menos pessoas nas fotografias, e já não temos medo das escadas rolantes nem das algas mas carregamos muitas lágrimas. Às vezes aperta-se-me a garganta e não consigo deixar de ser a mesma mariquinhas (como me chamavam os rapazes quando dizia que não ia à serra porque haviam lobos e bois fugidos), quando nos vejo à beira da giesta, árvore de natal improvisada, a abrir as prendas com a avó a cirandar de avental a pôr a mesa de tantos lugares e o avó caladinho a tocar acordeão... Mas consigo sorrir se de repente a campanhia toca e são vocês, chega de preocupações por hoje, tenho tantas saudades! Já não vamos a casa da avó, já não nos confundimos no sótão cheio de brinquedos, mas somos maiores em coração e o tempo não apagou o que prometemos em pequeninos: não somos só primos, somos irmãos.

sábado, outubro 14, 2006

A guitarra: acorde de mi sem mim


Guitarra no sétimo andar de um prédio abandonado. Cordas estragadas, em cima de uma velha cadeira de baloiço. Dedilhada apenas solta um grito desafinado com sabor de teias de aranha. Mas há algum tempo que ninguém lhe pega. Não há elevador. O sétimo andar é muito longe, tão longe como voar a um país distante. Não há ninguém para dedilhar a guitarra. Entorpecida, gasta, sem brilho ou a beleza de outrora. A guitarra já não sabe onde fica o caminho da melodia. Esqueceu-o. Pelo menos hoje. Lá fora pela janela partida,alguém chora em soluços abafados. Como uma melodia triste que parece não ter fim. O choro da guitarra seria uma melodia triste, leve, solta num momento. Só que esta guitarra já nem chora. Só a vizinha do sexto andar se consome em lágrimas e gasta lenços de papel em catadupa. Até parece que esteve a ver filmes daqueles de drama, cheios de tragédias e repletos de morte. Parece chorar a morte de todos os actores e actrizes do mundo. As suas lágrimas molham as vidraças da janela do sexto andar. A guitarra permanece quieta.Sem forças. Banida, escorraçada. Eu sou a mulher do sexto andar. Eu sou a guitarra. No quinto andar há sorrisos coloridos e abafados, só que hoje eu sou a vizinha do sexto andar, que ninguém ouve ou compreende porque calçou pantufas que deslizam sem dar sinal. Eu sou a guitarra esquecida. O meu grito desafinado. Sem dó, ré ou mi. Apenas mim. Eu. Sem fá e claro, sem sol. Baloiçando num quarto minguante de lua, distante e apagada na negritude da madrugada.

?


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Copos na mão, mangas e calças a roçar-se no mesmo querer, mãos dadas na instantânea gargalhada de quando estamos juntos. Nós, os amigos-desde-sempre. Entrámos e finquei as unhas com força num braço. Não importa de quem era, todos os dez-desde-sempre sabem tudo-desde-sempre. E também viram os teus olhos a brilhar por entre o néon, e o olhar hipnotizado de mim, os passos empurrados pelo íman das nossas bocas. Puxaste-me sem nada dizer, e num segundo estavamos no meio da pista mas desta vez não combinávamos as coreografias que aprendemos os dois, as voltas a que toda a gente dá o nosso nome. Tu agarravas-me pelos braços e giravas comigo pela pista, e eu tão pequenina que nem tocava com os pés no chão. E sorrias embriagado do meu corpo a pulsar contra o teu, e a respiração a seduzir-te no pescoço, a tua a arrepiar-me nos ouvidos. Até que alguém passou e sem me olhar sussurrou-te qualquer coisa e te arrancou como fita-cola o sorriso da cara, desapareceu a curvinha do lábio de cima e quando me olhaste tinhas as pupilas inflamadas de vermelho-fogo, alguém tinha estalado os dedos e quebrado o meu feitiço e os meus olhos eram só paisagem dos teus. Lançaste-me para o canto da pista para me ferir também, ferir os olhos-tentação com um circo de pessoas-ficção, verdes-vermelhas-amarelas-azuis-cinzentas, sim, todas as pessoas tinham cores que não eram as suas, e riam descontroladamente, orgásmicas, enquanto se debruçavam umas para as outras num transe carnal. Um teatro de gestos e cores fingidas. Uma voz revoltou-se nos lençóis e ecoou no meu quarto murmurando: "estou a sonhar, só posso estar a sonhar", e consegui nos interstícios de um sub-sonho dar-lhes a cara de conhecidos da rua e da paragem do autocarro sóbrios e respeitosos de malas e olheiras para o trabalho. Em dois segundos pensei nisto e em dois segundos senti-me e voar e de repente a cair sentada num canto subitamente vazio. Ao longe pela janela um carro embaciado deixava adivinhar o contorno de dois corpos na cegueira do final da noite. Uma das feições parecia-me familiar... mas não consegui ver bem, o néon apagou-se. Olhei em volta. Não havia mais ninguém na discoteca. Ninguém! Paralisei com os nervos de ter perdido a boleia, de estar longe de casa, de estranhar a discoteca que sempre soube de cor. Como é que o dj tinha saído e não tinha passado por mim? Estava há segundos à minha frente... E o pessoal do bar tinha feito as contas e saído ainda com toda a gente cá dentro? E os sempre-amigos teriam saído e pensado que eu ia com ele? Mas... ao mesmo tempo que TODA a gente? De olhar preso e a expressão esquecida, quedei-me a olhar para o fundo da parede do outro lado, até que o cenário mudou e vi a coluna de pedra antiga transformada em bancos de cinza, de panos azuis aos quadradinhos... estava no comboio. As letras vermelhas ao fundo diziam "Destino: Lisboa". "Não! Enganaram-se! Não é aí a minha casa! Aí são só os dias de acordar cedo..." Abandonei-me no banco, resignada, ainda a cheirar a noite. À minha frente uma rapariga loira muito maquilhada e arranjada lia um livro, e de súbito tive um relance da capa. "Everblue" e a fotografia de Florbela Espanca.
- Desculpe, eu conheço uma pessoa que usa esse nome! - saíram-me as palavras em choque, atropelando-se (palavras chocando em cadeia).
- Só há uma. Este é o seu primeiro grande romance!
- Mas ela não escreve... - disse baixinho, percorrendo as nossas mais recentes conversas.
- Que saberás tu!? - lançou-me, arrogante, penteando os cabelos com as mãos e desviando o olhar.
"Sei muita coisa, sei muita coisa, sei muita coisa", insisti noutro daqueles momentos entre-consciências, para repetir àquela convencida. Tarde demais. O despertador tocava. E eu acordei com um ponto de interrogação na testa. Com medo de absorver os outros com os meus sonhos, de ser entusiasmo eléctrico e êxtase secretamente frustrado se alguém tenta o mesmo que eu.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Palavras Cruzadas

Uma rua polvilhada de álamos. Gostei da palavra, enquanto tentava fazer as palavras cruzadas. Palavra com seis letras para choupo. Deixei a actividade a meio (como quase sempre). Acho que nunca tive muita paciencia para letras nos quadradinhos. Ou por outra, rapidamente me enfastio. Ficou a imagem dos álamos. E do pão doce com duas letras. Ló. Lá ali. Sentada ao pé do rio Tejo. A minha musica a abafar o ruído dos automóveis e das conversas. Pus-me a pensar numa palavra de duas letras para saudade. Não havia, nem sequer com quatro, seis ou até dez. Saudade acorrentada ao sentimento da falta, qual barco atracado ao cais. Entrecruzo-me agora eu no cruzamento dos rostos e dos olhares. Desleixo-me do vazio cruzamento das letras. Regressam os álamos, numa fotografia pintada a carvão.
- Mas isso não é um quadro?
- Não
Pintei a carvão na mente criadora, fotografei na feliz contemplação do olhar. À minha frente, uma emigrante loira, pele queimada e boina cinzenta pintava com lápis de cor a paisagem da beira rio. Tal como eu, alheia ao mundo, descobrindo sóis, onde os outros julgavam existir apenas sombras. Desenha-me a alegria, por favor. Para visitá-la sempre que quiser, pintada de salpicos de cor de burro quando foge. Eu pinto-te nas aguarelas das palavras, estes minutos, acercando-me do Tejo, as palavras cruzadas num regaço. Pinto também a minha alma, com rabiscos incompreensíveis. Porque a alma é só minha. Este momento só meu. Só a saudade é tua.

quarta-feira, outubro 11, 2006

"A Lua não está à venda"


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Parecia ter caído entre palavras sombrias que sabiam a olhos inchados e ardentes de choro. Uma mão invisível tinha posto a tocar o pesadelo num disco que não parava de girar com a lancinante cacofonia de gritos tremidos de medo. E o corpo abandonado embatia degrau a degrau nas escadas escorregadias de pedra geladas e bicudas que ecoavam a censura a cada lance. Na vertigem da queda, o desespero dos braços lançados para a transparência de rostos que serpenteando fugiam para o passado trespassavam-na como fantasmas, quando quase tinha a certeza que tinham voltado para lhe pentear os cabelos na almofada e dar um beijo na testa antes de dormir... Mas eram só espectros, sorrisos apagados das fotografias gastas por quem olha e passa distraída e esquecida do brilho pelo hábito.
O amor era agora negro e pulsava fel. O sonho sabia a passou-bem-negócio-fechado, está borrado de tinta permamente e sebento pelo dinheiro suado de ganância. O sonho já não era dela. Já não o queria. E hoje sobrava o frio das entrelinhas no silêncio. Alguém tinha assinado um cheque com as suas asas, e agora tinha aterrado sem quimeras no meio de papéis e mãos de unhas como facas, pontiagudas que a feriam como o veneno de um sonho cuspido como leite de repente azedo, como um segredo confiado e quebrado.
E não queria despentear a tristeza entre os cabelos e as lágrimas revoltosas, o acreditar em alvoroço, desfeito como uma bolacha no chá e o monstro da ansiedade enraivecido. Não queria ser concha e esconder-se nos lençóis quentes de aconchego. Não queria pôr os saltos e os músculos de esponja falsos. Só queria dizer que sim, que tinha querido acelerar o sonho e não era hora de adormecer, que tinha apertado a mão sem pensar e agora tinha sido puxada na violência de um querer que não tinha escolhido. Não! Não queria servir um prato recheado de palavras com perfume de magia a quem não as sabe saborear. Podia ter pouco mas o que escrevia era seu, não era barriga satisfeita de um colete apertado e de um sorriso afectado. Não! Se soubesse, tinha escondido a sua imaginação no maior baú do seu quarto pequenino de luas e sóis pintadas nas paredes, e desenhado o amor num céu só seu, que mais ninguém visse. Porque como alguém disse, "a lua não está à venda".

quinta-feira, outubro 05, 2006

Por aí à procura de ser

Parou o carro. Ainda anestesiada pela música, saiu e atordoada olhou em volta. Não sabia o que a tinha conduzido para tão longe. Parecia ter despertado de um sono maquinal de mudanças e rotundas, ou que alguém a tinha soprado devagarinho e girado as rodas do automóvel. Ela que conduzia com o zelo do primeiro abraçar do volante, as unhas pontiagudas fincadas nos estofos, o respirar nervoso como o arranque, os olhos muito abertos e a voz irritante do instrutor sibilando aos ouvidos. Não que não gostasse de conduzir, mas uma máquina em seu poder era tão ou mais assustadora que o seu fulgurante espírito, que não sabia controlar. Sentia que naquele adormecimento devia ter deixado alguma coisa para trás, devia ter perdido a mala. Mas não, enrolada em si jazia a bolsa castanha de borboletas silenciada por ela nas peripécias das suas odisseias. E o esconderijo de si não tinha esquecido nem abandonado nada. O telemóvel-sempre-mudo, o livro que esquecia nas adormecidas viagens de comboio, o filme de olhos intrigados do bibliotecário, perscrutando as pessoas pelos filmes que escolhiam, os bilhetes de semanas e semanas de metros e autocarros, sujos dos sacos de maçãs dos intervalos e do plástico dos caprichos de chocolate, e as chaves de casa brincando e tilintando entre o rebuliço como convém em dias de chuva e as matreiras não se deixam encontrar. O caderno de pontas reviradas de ideias manchadas de café, a escova das ondas de cabelo mais teimosas que ela, os óculos de sol e pó com que não sabia ser. Por sorte tinha tudo. Não estivesse entre portas e janelas, alguém repararia naquele olhar de pupila apagada. E Sintra? Que faria em pleno centro da vila misturada entre sotaques, flashes e castelos? Talvez quisesse entrar em estórias de filmes e intrigas romanceadas, perder-se no caminho das suas palavras, e esquecer-se que tinha tanto de igual para fazer, que nada sabia a azul.

“…I need to change the sounds that shape my life.” Robbie Williams, Please don’t die

segunda-feira, outubro 02, 2006

Sonho-Incenso

Talvez ainda não tenhas entendido. Tu és um pedaço de papel velho, mal escrito e amachucado, de poema inacabado. Já não rimo contigo, e não sei inventar palavras de amor se nem mas cantaste. Quando cuspi a pastilha de ti (sem sabor) sem querer lembrei-te o que silenciei. Escorreguei na nostalgia mas não voltei a escrever no papel velho. Ando só a ganhar coragem para o queimar, como o sonho-incenso (ou será insonso?) de ti.