terça-feira, dezembro 26, 2006

Estranho viajante

- De onde vens estranho viajante?
Na varanda coberta de flores, contas-me a tua história aquecida pelo chá adocicado com mel. Ès um foragido do Mundo, um foragido de ti. Viajaste por onde quiseste, desenlaçaste qualquer laço que te pudesse prender. Agora já não és capaz de atar os sapatos e voltaste. Nada te dá satisfação, e tu que pensavas que não tinhas de dar satisfações a ninguém. Esqueceste-te de ti quando te fugiste.Pareces pálido e envelhecido dos teus medos. Cansado de fugir, disseste-me. E eu?Oh eu nunca tive mais que esta varanda e que os passeios nas tardes de Outono. Queres vir passear comigo estranho viajante? Conhecer a música da harpa de fantasias que toco ao sabor de mim mesma?Velejar pelo soalho da minha varanda? Sento-me repentinamente no baloiço da varanda. Empurra-me viajante, devagarinho para não te cansares. E se tiveres frio acendemos uma fogueira que abrase a alma. Ainda tens alma, ali está ela. A empurrar o meu baloiço num sopro de sonho. Estou tão viva na tua presença. Retiras o capuz. Danço no teu olhar infinito. E passeamos, passeamos com o sublime pensamento que o amor não é uma mera passeata ou uma viagem em que não deixamos raízes. O amor é um passeio que queremos prolongar indefinidamente. A melodia de uma harpa que não queremos deixar esmorecer. O amor é um passeio que não se sabe bem como começa. Este começou nesta varanda coberta de flores, orquídeas, túlipas, magnólias. Um passeio que nos torna tão tão leves. Foi por isso que voltaste misterioso homem, e encontraste-me. Não tenhas receio, eu seguro-te na mão quando sairmos lá para fora. A minha mão dir-te-á “gosto de ti” sem eu pronunciar nenhuma palavra. E a tua mão responderá “sim eu também”, nesse momento as duas irão fundir-se e encontrar-se. Não importa que não acredites nas histórias de amor que correm por aí. Eu também já deixei de acreditar muitas vezes. Tantas vezes que deixei de acreditar em tanto coisa. Só tenho uma fé impertubável na minha alma dançante, a minha alma borboleta que nãosabe viver sem ser assim. Procurando outra alma borboleta, outra alma dançante. Não se dança sem ter par. Estou farta de dançar sozinha. Busco a metade da laranja, a metade da lua, a metade do sol. A metade do todo. A meia dúzia da dúzia. A moral da história, da minha pequena fábula.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Máquina do tempo

A máquina do tempo arrancou devagarinho pelo vórtice do Mundo. Senti os ouvidos zumbir e a velocidade aumentou, acelerou a máquina que me levava de volta sítios e momentos onde nunca mais estarei. Eu era espectadora de mim mesma, regressando às primeiras faixas de um qualquer álbum da minha vida. Os meses recuaram e quando pus um pé fora da máquina do tempo, pouco parecia ter mudado.Vi-me de ténis, num dia de chuva amistosa, já que saltava para dentro das poças sem o mínimo sinal de preocupação. Embora as gotas se fundissem amorosamente com o soalho frio, um sol enternecido com a beleza do Mundo espreitava por entre as nuvens, em raios elegantes e sonhadores. Como sempre, eu cantava, até aí nada de novo. Nada de novo até tu chegares e irromperes na minha vida sem pedir licença. Como se no amor tivesse de haver licença. Como se o amor fosse uma aula em que pudéssemos pedir licença para sair. Não se sai nem se entra do amor. O amor entra e sai de nós. Espreita por entre as frestas que deixamos abertas, assim como acontecia com o sol que ludubriava as nuvens distraídas. Distraída sou eu, tropecei em ti numas escadas muito compridas, das quais julguei que nunca ia sair. Na máquina do tempo revi aquele dia em que tropeçámos nos lábios um do outro. A máquina do tempo avança e retrocede, estou zonza de tantos lugares que já visitei. Quem é aquela ali sozinha? Sou eu, outravez, de ténis e camisola quente de lã à espera do comboio. É outro inverno, outra faixa do álbum que recordo. Está tanto frio que posso escrever na janela. Escrevo o meu nome mas esqueci-me do teu. Resta o meu nome escrito na janela.De certeza que se o amor pudesse teria pedido licença para se retirar, para esquecer o nome que lhe gravaram a ferro e fogo. Esquecido do coração, da alma e da janela. Um comboio que avança nas entrelinhas da minha sofreguidão de viver. Que se compadece com o meu eu-bicho-carpinteiro ou o meu eu-desassossego-aperto no estômago. A máquina do tempo continua a serpentear pelas entranhas do tempo pelos momentos que nada me fará esquecer. Só que o teu nome eu já o esqueci, fugi de mim e de ti com os ténis molhados de chapinhar em poças. E só agora nesta máquina te recordo, ou recordo aquilo que construí sobre o teu nome e a tua pessoa, o que inventei para ti e os significados que dei ao dicionário do teu olhar. O teu olhar sem nome. O teu olhar sem abrigo que costumava descansar nos meus olhos. Volto ao dia de hoje, com o meu casaco quente em mais um dia-como-todos-os-outros. Um dia sem penas. Porque não há passaros. Um dia sem poças. Porque não há mais lágrimas.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Montanha-russa do coração e toda eu às voltas, voltas, voltas. Será que voltas? As minhas unhas arranham as pupilas que piscam o teu rosto e desfaço-te do meu sonhar como a um puzzle. SAI! Sai e leva o teu sorriso crivado nos meus olhos como uma espinha na garganta. J'ai les yeux en flame. Passion en flambé de douleur. Os olhos inflamados de te esfregar de mim. E no nevoeiro de te perder. O lume de ti que ardia em mim apagou-se. O meu quarto está cheio de fumo. Ficaram as cinzas espalhadas ao pé dos cachecóis e o mais avermelhado cheira às manhãs-relâmpago que passei contigo. Podes levá-lo, também. Leva-te de mim. Leva os teus restos, por favor.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Vivo a minha teimosa quimera na tua amnésia de querer.

sábado, dezembro 16, 2006

Bolhas de sabão no turbilhão do coração


Nem a morfina apaziguaria o teu turbilhão interior. Refugias-te num tempo só teu, estilhaçado em segundos que parecem horas. Escondes-te num canto da tua cama, com as pernas dobradas e a cabeça sobre os joelhos. Lágrimas chovem na neblina dos teus pensamentos. Por companhia o pequeno urso de peluche que arrancaste às memórias da infância, sorris-lhe como se ele te pudesse sorrir de volta.Nada acontece. O urso permanece de peluche, de textura igual ao roupão do banho e aroma a sabonete de amora-morango. Ergue-se a noite pintada a aguarelas de negro e de estrelas apagadas por um bafo de tristeza. Desilude-se a inspiração, traçada em linhas tão tortas e em palavras tão banais. Néscias e inócuas palavras. Comovidas palavras. Saiem uma a uma de uma cítara desafinada. Perdida no labirinto da tua própria cama. Hoje não te resta esperar nada. Porque absolutamente nada ocorrerá. Está frio, tens as mãos geladas e aperta-las com a força que ainda não te abandonou. Hoje nada te aquecerá as mãos. Ninguém estará lá para fechar a torneira das tuas lágrimas. Nenhuma caneta fluorescente te desenhará estrelas. Falas sozinha esgrimindo contigo mesma, num diálogo entoado em voz aguda e emocionada. Perguntas sem resposta ou respostas sem pergunta.Não, não podes fugir de ti, de quem és. A porta é uma miragem, trancada a chave e cadeado e o ar asfixia-te. Queres fugir e ironicamente foste tu que fechaste a porta. Queres sair mas não sabes como. Queres amar mas não sabes como. Fechas os olhos l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. E as sílabas do sono juntam-se, perfeitamente encaixadas, paradoxalmente aos teus pensamentos. Desarrumados na secretária, nas fotos dos álbuns. Desarrumados, sozinhos, mal interpretados e (des)acompanhados. Inventados, reinventados, escritos, apagados. O turbilhão do coração é cada vez mais acutilante e desabafas com a branquidão da parede enquanto as últimas sílabas do sono se fundem. Sonharás contigo mesma, num enorme jardim de éden, com um daqueles apetrechos tradicionais, a soprar alegremente bolhas de sabão pelo ar. Um céu muito muito azul e um sol-vermelho-bolha a sair do teu omnipotente sopro.Cai-te da mão o peluche. Mergulhaste nas sílabas. Já dormes.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Sopro do Coração

As pedras caíram e as folhas espalharam-se pelo chão. Os arbustros e as árvores de mais finos e leves troncos respiravam de alívio e pediam baixinho aos animais da floresta desculpa pelos chicotes a que o vento os levou a todas as criaturas que por eles passavam. A tempestade acabara mais cedo para todos. Fora um forte mas curto tornado. Talvez o vento estivesse atrasado para dançar noutro coração, sussurraram os esquilos para os pássaros, e estes para as corujas violentamente acordadas a meio do dia, e estas para os unicórnios e centauros numa silenciosa corrente. E entre os estremunhados animais que despertavam confusos do furacão, jazia uma menina, de vestido e avental azul, nas grossas raízes de uma centenária árvore, de sapatos de verniz empoeirados e rasgões por toda a roupa, sangrando da boca e do nariz, que mesmo assim dormia a sono solto, tranquila de meio sorriso. E os pequenos animais olharam-se entre si, um por um, novamente na harmonia da sua corrente muda, cumplicidade sem palavras. O vento tinha vindo por ela, revolteara-a e sugara-lhe o último sopro do coração, que lhe prendia o viver, que lhe sufocava o respirar. E o sopro foi pelo vento, por isso é que ele agora uiva e serpenteia nas árvores como se gemesse, dói-lhe o amor que a menina tinha.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Carrinha mágica

A carrinha dava muitos solavancos, era velha e estava empoeirada, fazia barulhos estranhos enquanto andava na estrada de terra batida. Eu não era uma condutora muito experiente mas estava decidida a chegar ao meu destino. Lá atrás pessoas com rostos familiares conversavam em voz alta, que nem o som do rádio abafava. Risos que me lembravam a infância, palavras que me reconfortavam mais que uma chávena de chá maçã-canela a escaldar. Pessoas que não eram simplesmente pessoas. Não daqueles vultos que passam por nós e nem sequer reparamos. Ouvia-se o barulho da palhinha quando sorviam as bebidas que tínhamos numa geladeira pequena. Havia chocolates e chupas devorados em cantorias e assobios. Eu não sabia assobiar e trauteava. Quer dizer, tu tentaste-me ensinar mas acho que ainda não consegui dominar a técnica e fico-me pelos turururu. Ainda tentei pesquisar num dicionário palavras muito difíceis para contornarem os caminhos deste texto. Mas a estrada naquele momento era em recta e o dicionário muito chato e aborrecido. Lá estava eu ao volante da "velhinha", cheia de blusões e com um gorro. Bem, os meus amigos lá do banco de trás iriam logo dizer "garruço" à bela moda da sua terra. A terra dos meus amigos tem um cheiro peculiar, tem casas de pedra e ruas de pedra. Só não tem corações de pedra. Na aldeia dos meus amigos há verde a perder de vista, há sonhos e perder de vista e há mundos para descobrir. Sinto-me sempre uma pirata na pequena aldeia dos meus pequenos companheiros. O perímetro não é muito grande, mas parece-me haver sempre muito para descobrir. Tudo me parece tão dimensionalmente diferente. Não, não me devia estar a distrair da condução em perplexas memórias e asserções. A estrada começou a ser mais estreita e os carros agora são muito poucos, todos se cumprimentam num aceno afável e cúmplice. Eu sei que não sou de lá. Só que nesse "lá" a tantos quilómetros da terrinha que me viu nascer sinto-me em casa. E nunca me sinto só. Porque lá tenho uma família que me espera, que me enlaça e me atropela de palavras e de sensações. Imaginei-me a correr perto daquela deliciosa ponte. Com a rapariga do cabelo indomável, o rapaz do sorriso bonito, a rapariga alta e bonita, a menina doce, a das piadas e frases disconexas e das bochechas, os rapazes que parecem os meninos perdidos que não querem crescer. Cada um deles ocupa na imensidão da minha alma um fragmento. De luz e de aconchego. Espero que a carrinha chegue lá com todos a são a salvo. E mais os outros que não referi, porque todos sem excepção moram na casinha de guloseimas do meu peito. Todos, sem excepção são a supresa do kinder surpresa que é a nossa vida.Mesmo que eu não goste de chocolates.E que não saiba conduzir assim tão bem.Esta carrinha é mágica, semelhante à daqueles desenhos animados que adorava em miúda. Eu ainda sou uma miúda. E todos eles meninos perdidos na terra do Peter Pan.Aquela aldeia não é mais que a terra do Peter Pan. Por um bocadinho não é preciso crescer, por alguns dias podemos ser índios de uma tribo só nossa. A tribo dos maiores. Só vocês sabem. E eu agora também sei.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Eu comigo, por Alberto Caeiro

"(...)
Não tenho ambições nem desejos,
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho."

sábado, dezembro 02, 2006

Tudo e Nada

Ajeitei as almofadas, e olhei para o relógio da mesinha-de-cabeceira. Eram 14:44. Tinha acabado de fazer a cama, apenas por teimosia da mãe, e ainda estava de pijama. Eu não posso dormir muito. Sinto-me ainda mais cansada do que quando durmo só quatro ou cinco horas, como se o corpo tivesse gostado tanto daquele intervalo de rebuliço que não mais quisesse despertar da onda em que vogava com tranquilidade. Naquela manhã nada nem ninguém me zumbiu aos ouvidos que não havia tempo nem sentimentos atrasados para ter de acordar de repente e como nos jogos repôr de repente a minha energia, o tubozinho verde suspenso e invisível no cimo da cabeça, quase sempre cheio, de verde vivo como a vontade de viver. Naquela noite tinha desligado o telemóvel, o computador, o despertador, fechei a porta à chave e dormi com a colcha por cima da cabeça, só com uma frestazinha para poder respirar. Precisava de me esconder. De tudo. De me proteger e de me sentir a mim mesma. Passei o resto da manhã quase muda, esquecida do mundo, com o ar condicionado no mais quente possível, e tão apática como os murchos olhos permitiam. Sabia que se ligasse o telemóvel teria uma ou duas mensagens dele, apaixonado, ansioso pela minha chegada, afinal tinha prometido vê-lo no dia seguinte... Mas não queria nem pensar nisso. Claro que o queria ver, mas... Que era esta necessidade toda de o abraçar? Tinha estado muito tempo sem ninguém, já me tinha desabituado. E porque sofria daquele desejo todo assim tão de repente? Seria carência? Se fosse, já a tinha saciado por outros corpos. Não, não é carência. Gosto mesmo dele. E isso é que me preocupa. Na mesma caixa de mensagens, caixa de saudades e vontades, estão as palavras loucas do outro, que cortando de repente todo o silêncio, tinha decidido recordar-me como se não houvesse mais ninguém, como se aqueles dois anos não tivessem passado sem termos sabido quase nada um do outro a não ser trivialidades, o estudo e o trabalho que sim, vão bem, e os teus pais, a minha irmã também, obrigado. Que queres tu agora? Estou bem sem ti, descobri um sabor novo que não existe nos iogurtes, nos gelados e nas bolachas, é diferente e é meu. Como tu há muitos pacotes, és chocolate clássico, amargo e tão normal que ninguém usa a não ser para os bolos. Ninguém te provaria com curiosidade. Até a tua cara é vulgar, na beleza dos teus vinte e um anos pareces um modelo que eu sempre disse que já tinha visto em qualquer lado, lembras-te? Ele não é parecido com mais ninguém.
Mas quero ver até onde consegues ir. Dizes que me queres ver agora, que és capaz de vir cá de propósito. Uma viagem, um dia inteiro longe de casa, entre o sotaque que sempre odiaste e a cidade que nunca compreendeste. Será que consegues? Será que após dois anos me vais tentar abraçar outra vez da mesma maneira? Foste o primeiro, no carinho, na emoção, no sorriso pelas palavras que nunca tinha ouvido, dirigidas a mim! Mas eram tão simples que não tinham o meu nome, juraste-as como quem canta uma música que soa bem, não custa repetir o amor quando se sabe a melodia que derrete os corações mais inocentes. Quem diz sempre e nunca com facilidade não ama, não tem medo. Tu viraste-me o rosto e repetiste a mesma música a outros olhos. Por isso não penses que agora viras a história ao contrário e começas do fim para o princípio como se eu não desse conta. Já li tantas histórias! E nenhuma pode começar do fim ou de palavras repetidas, eu não te vou ler. Já te sei de cor. Até demais!
E foi assim que às 15:55 estava vestida e pronta para sair, para o ver, um dia mais cedo, sem medos. Ele é o tudo e tu és o nada. Não vou deixar tudo por nada.