terça-feira, dezembro 06, 2011

«sejam bem-vindos»

Sejam bem-vindos, esta é a minha casa. O meu coração aberto de par em par para quem quiser entrar. Eu, uma alma de mil almas consumadas em chama. Sou o que quiseres que seja, o que pensares que sou e, ainda assim,muito menos do que aquilo que poderei vir a ser. Sou um caminho feito de váriosdesvios. Uma personalidade fragmentada em momentos. Hoje é só o momento-poesia.Cada palavra aqui escrita é uma parte de mim, uma tentativa de explicar algoque nunca poderá ser contado. Eu própria. Sejam bem-vindos, já disse. A estapeça de teatro em que sou apenas uma personagem secundária à procura do seupapel principal. Uma verdade que se assemelha a tantas mentiras. Uma músicaperdida do solfejo, que vai chorando e sorrindo notas à deriva, que derivam apenasde mim. Mim? Três letras tão difíceis de entender. Sou o que penso. Sou o quedigo. Sou o que tu dizes e pensas de mim. Quantas almas me habitam? Sou euhoje, outro eu amanhã, sempre almas novas e passageiras, sorrisos breves epaixões sentidas. Um caminho sempre de regresso ao lar do meu coração, já que aminha alma é uma estrangeira perdida no meu pequeno e proscrito… labirinto de Fauno.

domingo, outubro 23, 2011

Meia-Noite em Paris

E de repente, enquanto descia as escadas daquele prédio suburbano, tão igual a todos os outros daquela rua e daquela cidade, teve saudades de um tempo em que não viveu. Do tempo de la bohème e romance à beira-Sena, de Hemingway e Fitzgerald e um copo de vinho, de Paris iluminada pelos maiores génios da pintura e da poesia, de um tempo de brilho nos olhos e passeios à chuva. Teve saudades de uma cidade que nunca viveu, Paris e a sua cor de vida e emoções. Desejou que a auto-estrada se transformasse nos imensos campos elisíos, mas acabou do outro lado da periferia, no cinzento dos tempos de agora. E tudo se perdeu em duas horas de ilusões, nas palavras de Woody Allen.

domingo, setembro 18, 2011

Minha avó

Queria tanto que ainda estivesses aqui para me ouvir. Tenho saudades das noites em que a mãe me deixava ficar acordada até mais tarde, para ficar contigo na cozinha, a ajudar-te com os doces e bolos para alguma festa ou almoço do dia seguinte (em tua casa havia sempre alguém para vir almoçar ou jantar, e apesar de ser habitual, tu transformavas qualquer lanche numa festa). Eu ficava contigo de volta do arroz doce, das filhozes e das mílharas, como desculpa para te falar dos meus amigos da escola, das minhas dúvidas e problemas de menina de cinco ou dez anos - e tanta coisa que eu tinha para falar, meu Deus! Como é possível que em tão tenra idade se ache que a vida é difícil? Mas era mesmo assim. O recreio era uma fonte de questões e emoções que eu tinha de partilhar contigo, como se a minha vida dependesse disso. Enquanto despachavas doces e iguarias em barda, eu seguia-te como uma sombra, despejando histórias nas tuas costas, enquanto batias as claras em castelo, enquanto encavalitavas as sobremesas no frigorífico da sala, enquanto preparavas a mesa para o dia seguinte. Quando te sentavas, de rastos, no banquinho ao pé da lareira, a afastar as brasas para apagar o lume, como quem diz, temos que ir dormir, eu sentava-me à tua frente, como quem exige a tua atenção, e pedia-te só mais cinco minutos. Tu sorrias, cansada, aprendias o nome dos meus amigos e davas-me opiniões como se tivesses a minha idade, como se compreendesses exactamente o que eu estava a viver. O que eu mais gostava, avó, é que tu nunca me interrompias. Deixavas-me falar sempre, até ao fim, à minha maneira, sem te fartares ou começar com clichés de quem não está interessado na conversa e só se quer livrar o mais rapidamente possível para ir à sua vida e ainda pensar que é um bom amigo. Nunca te ouvi dizer tem calma, isso é normal, isso passa, não te preocupes com isso, ou outra expressão de algibeira que serve de ponto final parágrafo, agora deixa-me falar de mim. Às vezes quase adormecias para dentro do lume, enquanto eu falava como se não houvesse amanhã, e eu tinha de te segurar e acordar e pedir "só mais um bocadinho e já vamos dormir". E tu sorrias, eternamente paciente, no teu papel de segunda mãe, e contava-te toda a vida que se passava comigo enquanto tu não estavas. Enquanto vivias na tua casinha florida de aldeia, e eu na minha vivenda amarelada de cidade. Aquelas conversas eram, para mim, criança desassossegada na sua vida difícil de primária, uma terapia sem igual. Agora que a tua casinha de aldeia está vazia, e o lume para sempre apagado, percebo a falta que aquelas conversas me fazem. Sinto falta de quem me olhe nos olhos enquanto falo, que se preocupe e interesse genuinamente pelo que digo, sem desviar o olhar para o copo de cerveja nem procurar o telemóvel na mala. Tu sabias olhar para dentro de mim, acariciar-me a alma e deixar-me em paz. Sinto tanta falta de ter alguém como tu. Sinto falta de ti.

terça-feira, junho 28, 2011

Ainda não sei escrever

Gostava que escrever fosse como andar de bicicleta, aprendes uma vez e pronto, não custa mais. Mas escrever não é brincadeira de criança, é mais do que aprender o abcd e o aeiou, mais que intercalar consoantes com vogais, mais que juntar predicado ao sujeito. Escrever é sempre como aquela primeira vez de bicicleta, quando o teu pai te empurra sem estares à espera, aguentas-te como podes e acabas por cair. Porque as palavras são matreiras, e a cada dia, a cada texto, tens de as moldar como plasticina, tens de brincar com elas até que te apareçam no ecrã como por magia, tens de lhes dedicar todo o teu tempo, toda a tua paciência, toda a tua vida, até que lhes possas chamar tuas. E é por isso que por mais que o tempo passe, por mais que escreva, quando começo um texto e vejo o cursor a piscar sozinho, sinto que ainda não sei escrever.

quinta-feira, maio 19, 2011

Losing my religion

A verdade é que estamos sozinhos, mesmo tendo alguém que nos aqueça os pés à noite, mesmo que ao fim do dia haja café à beira mar, a verdade é que o dia começa e estamos sozinhos. Estamos sozinhos quando não atendes, quando são 4h da manhã e estás a dormir, apesar daquela frase que se costumava escrever no MSN e nas frases nicola, que um amigo atende o telemóvel às 4h da tarde e às 4h da manhã. A verdade é que tens de te desenrascar, que mesmo que todos os teus amigos digam que tens força e vais conseguir, as palavras não chegam, e há dias em que ao final do dia todos os sorrisos de todos os teus amigos também não chegam.
Estamos sozinhos, essa é a verdade.

domingo, maio 01, 2011

«Prometo». Não costumo falhar às promessas que te faço, e ponho toda a verdade em cada palavra, sílaba, ditongo e frase que te digo. Prometi-te que voltava a pegar na escrita e a fazer dela minha. Como se as palavras tivessem dono, assim como os corações. São apenas fragmentos que vamos segurando nos dedos, peças que nunca completam verdadeiramente um puzzle mas que insisto em tentar juntar. Se estou a falar do meu coração ou das palavras? Talvez dos dois. Possivelmente de mim. Sou um puzzle sem sentido, mas tu és a peça chave para me completar. O amor é como o vinho sabes? Quanto mais velho melhor. O nosso tem amadurecido como uma boa garrafa de vinho tinto. Mas os corações, meu querido, nunca terão dono. São almas mordazes e dífíceis, que batem ao ritmo de uma canção. A música do meu coração está sempre a mudar, ora rápida, ora lenta, ora feliz, ora triste. Ta na na na na. Ti ri ri ri. Tantas canções, todas elas ao ritmo da mesma letra do nosso amor. Mas o coração é complicado e invejoso. Há dias que sei que te amo mas o coração desencanta-se. Há dias que me apetece gritar e dizer adeus, esbraçejar e partir rumo a lado nenhum sem saber porquê. Dias de raiva e dias sem palavras. Parece que jogo uma partida em que te posso perder um dia. De encontros e desencontros tornados acaso. Sou uma alma estranha, que se entranha no amor e na paixão. Mas eu «prometo». Prometo que te amo e eu não falho às minhas promessas. Se te disser «vou amar-te para sempre», então já sabes. Para sempre é o tempo que te resta para ouvires as muitas melodias do meu coração, que tal como as palavras, terás sempre de conquistar e nunca serão tuas. Peço as letras emprestadas ocasionalmente e faço delas o meu acaso feliz. Sem elas e sem ti, sou só um fragmento, uma peça num tabuleiro de xadrez, sem nunca poder fazer xeque-mate ao rei.

um balão cheio de ti

a minha vida é um balão cheio de ti. percorro as minhas fotografias mais recentes, há anos que estás sempre presente, se não fores o olho por trás da objectiva, és o sorriso que trago na fotografia. é por ti que sorrio assim, dia após dia, quando chego a casa e a cabeça rodopia de cansaço, me sento na cama e espero a tua chamada. sou um corpo cheio de recordações de ti, de beijos, de toques, de emoções. e as roupas... percorro o armário e vejo o teu nome por toda a parte. aquele é o vestido que usei nas nossas primeiras férias, aquelas são as calças que comprei contigo, aquele é o top que adoras.
na minha escrivaninha repousa um ramo de rosas que me deste na semana passada. não há fotografias tuas no meu quarto, mas as flores não param de falar de ti, do momento bonito em que puxaste do ramo de trás das costas, e disseste "vais embora por alguns dias".
há sempre qualquer coisa, por mais banal que seja, que tem o teu nome gravado e não me deixa esquecer que existes em mim, em toda a parte. por vezes tenho medo, sabes. imagino-me nua, a olhar para todas as roupas em que deixaste o teu cheiro sem vontade de as usar, porque partiste. tenho medo que partas, um dia, e me deixes vazia. que esse balão imenso de ti que bate dentro de mim se torne pequenino e enlouqueça sem a tua presença, tu que com esse sorriso enches a sala, que no meio da multidão não deixas que me sinta sozinha.
que será de mim se não suportar o teu nome escrito por toda a parte, como diria o manel cruz numa música dos ornatos? espero que fiques, agora que deixaste a tua marca em tudo o que eu sou, seria muito pouco sem ti (e isso assusta-me... tanto).

quarta-feira, abril 20, 2011

"o meu amor abraça-me onde a solidão termina..."



obrigado à AR por me lembrar desta música incrível.

"o meu amor tem 30 mil cavalos a galopar no peito e um sorriso só dela..."

terça-feira, abril 05, 2011

o meu amor

o meu amor é esperar até à meia-noite quando chegas das aulas para te falar ensonada, para te mandar beijinhos pelo telefone e ouvir-te até adormecer, é acordar pela madrugada se adormeci sem teres chegado, é acordar à espera de uma mensagem tua, é viver toda a semana à espera de sexta-feira. o meu amor é esperar, o meu amor é o relógio, o meu amor é o calendário, é contar os dias e abraçar o fim-de-semana para que não se vá embora. é prender-te em minha casa ao domingo só mais um bocadinho, até que ficas rabugento e dizes que tens de dormir, é beijar-te mais uma vez ainda à porta e segurar-te na mão pela janela do carro, é esperar até ver o carro desaparecer naquela esquina que te engole e te leva para longe de mim (esquina malvada). o meu amor é só mais um minuto, só mais uma hora, só mais um pouco. o meu amor é saudade. todos, todos os dias, sempre saudade sempre amor.

domingo, abril 03, 2011

Stand up!

"Stand up
You've got to manage
I won't sympathize
Anymore.


And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me


You're alright
There's nothing wrong
Self-sufficience please!
And get to work.


And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
Army of me


You're on your own now
We won't save you
Your rescue-squad
Is to exhausted


And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
Army of me"

Army of me, Bjork

On repeat. Till my soul memorizes it...

cobarde

cobarde. deitado na mesinha-de-cabeceira ele espera por ti, empoeirado, esquecido, as palavras interrompidas e a verdade calada. cobarde! interrompeste a tua vida como um livro difícil de ler, baixas as armas, enrolas-te na cama, silencias os sonhos e passas pelos dias de bicos de pés. cobarde! grita, faz barulho, bate com a porta, sai para não voltar. tens medo da ressaca dessa anestesia, de adiar o amanhã de mudar e fazer mais, tens medo de voltar à primeira página e ter de escrever tudo de novo. aproveita agora que o texto está a lápis, a caneta custa mais a escrever por cima.

quinta-feira, março 31, 2011

runaway train, II

lembro-me que quando parti naquele comboio percebi que não tinha amado, que não sabia o que era amor. ele tinha descido as escadas da estação sem sequer esperar que o comboio partisse, sem correr atrás, como fazia sempre. lembro-me de como amaldiçoei todos os encontros, todos os telefonemas, todas as mensagens e todo o tempo que perdi em algo que, afinal, nem valia uma despedida na estação digna de filme. nem um típico nunca te esquecerei entre lágrimas ou um beijo arrebatador, final, dramático. nada que arrancasse um par de lágrimas à espectadora mais lamechas. durante anos fugi de qualquer coisa que pudesse virar outra decepcionante despedida, tão pouco fílmica. porque amar é cinema. é apaixonar-se num segundo, é todo o mundo seres tu, é ter a vida nos teus beijos e viver só para rir contigo. amar não é descer as escadas da estação e esperar pelo próximo autocarro, é correr atrás e ficar até o comboio partir. ou então não é amor.

I'm not there

recomeça, tudo de novo, o dia de ontem em repeat, as vozes de toda a semana, o tic tac de todo o ano. recomeça, e eu não estou aqui, os meus olhos voam para trás do horizonte, procuram-te mas não estás lá, onde estás? vida, sonho, o mundo na boca e a boca no mundo. onde estás? quem te roubou o arco-íris dos olhos e te deixou a chover, pequena no teu canto? tenho saudades de sonhar. e de acreditar nos meus sonhos.

segunda-feira, março 28, 2011

Io Sono L'amore

"Feliz? Feliz é uma palavra que não se diz, porque nos deixa tristes"

in Io Sono L'amore

domingo, março 27, 2011

eu e ela

somos tão diferentes. ela e o seu olhar perfeito e decidido, o seu sorriso certinho e direito sem dentes, como quem sabe exactamente o que quer. e eu, os meus olhos perdidos e distraídos, o sorriso grande de ingenuidade e inocência. eu sou uma miúda, o meu carro chia e faço um dia de cada vez, ela tem um topo de gama e sabe onde vai estar daqui a cinco anos. eu desprezo a política e as matemáticas e ela faz deles o seu dia-a-dia, eu sonho com o cinema todos os dias e para ela isso é coisa de fim-de-semana. ela conta as calorias que come e eu peço uma mousse no fim do jantar, ela gosta de ir à praia e eu prefiro o inverno porque me posso esconder nas pesadas camisolas de lã de todos os dias. não sei como ele me escolheu, sabes. e imagino como eles se devem perguntar sobre isso. os pais e os amigos. como enumeram as diferenças e me imaginam como um intervalo divertido de uma vida a sério, que ainda pode ter - com ela. eu sou a gargalhada, as férias, as noites no cinema e no quarto a ver séries. ela assina cheques e compra casas. ela está noutro mundo agora, e ele está no meu. ri-se e vive no meu desenho animado. mas quando cair o pano e o filme terminar, fica escuro e são horas de fazer coisas importantes. e os desenhos animados não existem no mundo dos crescidos.

deixei-me cair

o despertador chamava por mim mas eu não respondi. ouviam-se passos no corredor, o meu nome arrastava-se pelos pés e o cheiro do café entrava suavemente no quarto. o dia acontecia, eu deixava-me ficar. tinha o plano perfeito. enrolei os lençóis ao estrado da cama e dei nós que nem o mais hábil escuteiro conseguiria desatar. enrolei-me toda na manta mais pesada da cama, qual crepe chinês eu era só camadas e camadas de lã fofa e aconchegante. e deixei só o meu nariz de fora, uns fios de cabelo mais rebeldes que resistiram ao meu bunker, e deixei-me estar, até que se esquecessem, que desistissem de mim. quando tinha cinco anos gostava de brincar aos submarinos e mergulhava na cama a fingir que era o mar e contemplava as mais incríveis espécies de peixes entre os lençóis. gostava de me afundar na cama até ficar tão quentinho que o mundo lá fora parecesse impossível. e de ficar tão escondida que a minha mãe procurava por mim e me descobria à força das cócegas.
mas naquele dia não havia mar nem nem calor nem cócegas que me trouxessem à superfície. naquele dia deixei-me ficar enrolada nos lençóis e nas mantas até que a casa esvaziasse e se esquecessem de mim. até que o silêncio absorvesse a casa e engolisse a minha ausência. naquele dia eu era pijama e cama e estou doente e não vou trabalhar. naquele dia eu era uma criança de 5 anos que põe o termómetro no copo de chá para fingir que tem febre. naquele dia eu não aguentava mais o peso do mundo. naquele dia eu desisti.

e enchi outra vez a impressora de papel e voltei ao meu computador.

terça-feira, março 22, 2011

Perdida

Às vezes sinto que estou perdida dentro de mim mesma. Tal e qual um labirinto abismal de perguntas sem resposta e de palavras contidas por dizer. Perdida dentro de caminhos que ousei trilhar e de escadarias que não ouso subir. Oiço dizerem-me baixinho que sou capaz de saltar cada lanço e obstáculo dessas pequenas escadas. Oiço o meu coração bater mais depressa que um furacão, como se falasse comigo e me dissesse: «avança». Só o meu corpo, languidamente, desobedece aos meus quereres. Fica ali, uma pedra para sempre adormecida. Quero fazer ricochete dessa pedra e encontrar a coragem que perdi em algum lugar. Fazer inversão de marcha naquela rua de sentido único em que me tenho refugiado. Gritar, a plenos pulmões, o verdadeiro grito da liberdade. Sem deixar que as palavras sejam engolidas à pressa e se colem no fundo da garganta. Sem deixar que o medo me ultrapasse em alguma esquina e o embaraço me faça parar. Que fazer quando mordes a língua e as palavras não te saem?Quando te fechas na concha do silêncio em vez de arrastares as ondas ao teu redor? Quando vais começar a lutar? Quando vais deixar de te perder nas rotas de ti mesma e vais perguntar a alguém o caminho de volta? De volta ao que mereces e não ao que aos outros esperam de ti. Ainda não é tarde para encontrares o caminho de volta.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Isto não é um poema

Isto não é um poema. É uma coisa qualquer. É um tempo sem regras obscuras e sinais do passado. É uma mancha solitária na prateleira das letras, um pássaro devorando a liberdade num voo de asas abertas. Não se cansa porque a liberdade não dorme, mas vacila no alto do céu. Isto não é um poema, são mais que palavras, são letras que se juntam para procurar o sentido da própria vida. Para entender porque ansiamos tanto ganhar e porque é que há tanto em jogo quando estamos a perder. Tudo isto só posso dizer porque porque não falo na língua da poesia, mas na língua universal dos homens. Palavras com travo a sal de um povo de marinheiro encurralados entre as ondas. Procuram a saída mas só há mar e mar e amor neste rio de emoção dos homens, que tentamos decifrar com palavras, meras junções ocas e opacas de letras, sons agudos, graves, esdrúxulos. Vogais e consoantes. Não escrevo um poema, junto letras e letras na tentativa desesperada de me reencontrar com o passado e de buscar o futuro. Alimento-me de ilsusões desiludidas, afogo-me em palavras que flutuam nas bocas dos outros e a que me agarro. Mas o barco das acções já zarpou. Restaram bóias de coisas ditas que nunca se sentiram. Uma enxurrada de fraudes e de letras juntas às cegas por aí. Não escrevo um poema mas um apelo às palavras ditas sem razão. Na língua universal dos homens, a língua do amor e do coração. Amor tenho eu de sobra. E que dizer das palavras?Tenho-as aos molhos, prontos para empacotar.