sábado, fevereiro 25, 2006

Viagens


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Gosto de viagens. De amarrotar as camisolas na mala, de gravar CDs e mais CDs para ouvir no carro. Uma música para a mãe (Madalena Iglesias, Beatles, Elvis e Sinatra), outra para o pai (Pink Floyd e... Quim Barreiros, pois), e o resto para mim e para a minha irmã. Para cantarmos em plenos pulmões e inventar loucas coreografias sentadas.
Gosto de fazer caretas aos miúdos do carro do lado, e escrever coisas ao contrário para perceberem, de ver os cães aos saltos no banco de trás, e de inventar palavras com as letras das matrículas. Gosto do pão quentinho das estações de serviço em que paramos (antes paravamos sempre em Ponte-de-Sôr, para ir a um café em que faziam as melhores bifanas. Mas as autoestradas encurtaram as curvas em que eu enjoava sempre depois da bifana - especialmente quando tomava o comprimido para não vomitar, porque misturado em água e açúcar, para eu o conseguir engolir, era ainda mais enjoativo que as próprias curvas).
Gosto de ir mandando mensagens avisando que vou chegar, e outras a despedir-me porque estou a partir.
Gosto de ouvir músicas que foram um bocadinho dos momentos de outras viagens, e deleitar-me a relembrar cada instante, imaginando o que me espera.
Gosto de adormecer em Castelo Branco, para acordar sempre ao pé do Castelo do Sabugal e abanar a minha irmã para ela ver que estamos a chegar, enquanto a minha mãe recita: "Castelo de cinco quinas, só há um em Portugal..." Só me incomodam as histórias da minha irmã sobre os intervalos da escola, as narrativas inacabáveis sobre as amigas que faz à minha mãe. Imito-a e lançamo-nos em loucas trocas de estaladas, com os "tenham juízo e estejam quietas que o pai está a conduzir", da minha mãe (mas ele não liga, está entretido a reparar no novo modelo do clio ou do c3). Normalmente eu e ela rimo-nos no final. Quando éramos mais novas era mais agressivo, e deixavamos de nos falar por uma horita ou duas. Agora é só para matar as saudades.
Gosto de fazer cócegas à minha mãe quando está a dormir, e chatear o meu pai para pôr mais alto, para mudar o CD, para mudar da RCP que não vale nada, e ouvi-lo a dizer: "vê, vê, 140 já! É impressionante, um toquezinho e nem se sente como isto lhe pega! Fabuloso, já viste?". E quando ele se perde em discursos sobre a mecânica deste carro e daquele, lançamo-nos em discussões de tudo e mais alguma coisa. O Sócrates que aumentou os impostos, o Benfica que ganhou ao Liverpool (nem eu nem ele gostamos de futebol, mas acabamos sempre por comentar qualquer coisa), a gripe das aves que parece um gang que criminosos que anda a monte, o não-sei-quantos que ainda não lhe pagou, os meus professores baldas, os transportes que aumentaram dez cêntimos, as galhetas que a mãe trouxe para comer no caminho que não são como as do Gildo de Vilar Formoso e a ver se não nos esquecemos de ir lá e trazer queijos para este e aquele e cortar as silvas no terreno e ir à lenha e...
Três horas e meia depois (que isto agora é cada vez mais rápido), gosto mesmo de avistar a placa de Aldeia Velha e o desenho da povoação pela estrada depois da primeira casa, sacudir com violência a minha irmã, que dormia com a cabeça no vidro e boca aberta, que acorda com um torcicolo, os riscos do vidro na face e o cabelo num autêntico ninho, e começar "1, 2, 3, já cá estamos outra vez", nos ouvidos da minha mãe, que resmunga de novo que a música está alta, que o meu pai vai muito depressa, e que a ponte tem pouca água.

domingo, fevereiro 19, 2006

"Am I just a soldier on the road to nowhere?"

A espiritualidade parece ter-se perdido numa qualquer lugar do caminho infrutífero do nosso século. No meio de toda a tralha de que necessitamos ou criamos a necessidade de necessitar. Do nosso tempo-relógio, tempo-stress, tempo-dinheiro, tempo sem tempo para ter tempo. Mais um sofá, mais cinco minutos perdidos. A vida é muito mais do que aquilo que vivemos. Parecemos perdidos, num caminho com muitas setas em que não sabemos qual a direcção certa. E não está lá ninguém para nos ajudar. Estaremos verdadeiramente a perder a noção de nós?Substituímos o "eu" por um "outro", substituímos as sensações por máquinas que sentem por nós. Melhorámos a comunicação ou os meios que servem a essa comunicação, mas cada vez sabemos menos como comunicar. Porque estamos aflitivamente inquietos e não entendemos a raíz desse caule de preocupação. E a energia das coisas esvai-se no mundo das utilidades. E no fundo nada parece ter sentido. Nunca te sentes vazio? Nunca sentes que devias estar noutro lugar? Seremos apenas soldados num enorme batalhão, a lutar numa estrada que não leva a lado nenhum? Que será tudo isto?Este universo a que chamamos Terra, em que somos apenas pontos iludidos num pseudo domínio do Mundo. Nem sequer temos toatal domínio sobre nós mesmos. Seremos a personificação verdadeira da frase de Pessoa?Cada um de nós um "cadáver adiado que procria", cadáveres adiados, zombies, neste lugar estranho. Lugar que parece dizer tão pouco de nós. Gostava mesmo de conseguir assimilar e crer na ideia da alma que fica, permanece, se enriquece e energiza através das linhas do tempo. Isto que somos, este corpo, esta panóplia de células não pode ser o tudo. Este corpo que tanto vai partilhar, sentir, esta memória de sermos "eu", uno, verdadeiro, existência. De nos olharmos ao espelho e dizer "eu sou a marta", "eu sou o joão". Todos estes anos de repente serem um perene esquecimento, um nada. Morte?Será como quando adormecemos?nem sequer há vazio, porque não há consciência de vazio. Pontos apagados de repente pela grande borracha do universo.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

...E ao mesmo tempo que me faltas, não sei se me chega a ilusão da tua presença, a intermitência das tuas palavras. Não posso sentir-te, não posso ouvir-te. De que me vales? Resta-me o eco da tua voz, porque as sensações não se recordam. Vivem-se! As roupas já foram lavadas, e já não cheiro a ti (mas reconheço o teu cheiro em qualquer parte)...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Espontaneidade


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Era tudo tão espontâneo entre eles. Ele corrigia qualquer coisa que ela dissesse. Ela lançava-se em grandes discursos tentando explicar-se e ter razão. Ele fingia não ouvir a sua longa argumentação. Ela calava-se quando percebia que se tinha perdido nos loucos artifícios retóricos de uma desorientada defesa. E ficavam assim, num profundo e ininterrupto contacto visual, desejando-se a cada insulto trocado, admirando sem o dizer cada palavra lançada, como uma seta que atinge em cheio o seu alvo, e por sorte de principiante, porque eles começaram assim, como crianças, sem manhas, sem truques na manga, sem coelhos na cartola. Irritavam-se mutuamente, por pura parvoíce. E depois concordavam nas coisas mais estapafúrdias. E não queriam dizer o bem que isso sabia. Como crianças, só brincavam. Era como se se tivessem conhecido nos baloiços e um deles tivesse perguntado: "Como te chamas? Queres brincar comigo?". E não precisavam de falar sobre as profissões dos pais, dizer o nome todo, a escola em que andavam...limitavam-se a decidir se andavam no sobe-e-desce ou no escorrega, se destruiram mais uma construção de legos ou se decapitavam todas as barbies.
Eles não queriam ser como os adultos. Usar fatos, gravatas, ter uma pose séria e enfrentar toda a gente com um olhar recto, sem comentar as calinadas ou os duplos sentidos das suas palavras. Conter as gargalhadas, os meios sorrisos, pensar em ordenados, fazer as contas do IRS, comprar um carro a leasing para deduzir nos impostos... Mas eles tiveram deixar o baloiço durante as aulas e crescer. E agora ela tem medo de o ver de fato e gravata, mais alto e sóbrio, sem caretas e talvez com entradas no cabelo!!! Ela tem medo que ele agora só possa brincar ao dinheiro e às coisas sérias de pessoas de gravata. Tem medo que ele ganhe uma ruga no cimo da testa, e tenha uma voz grave, de comando, de robot, igual aos outros! Ainda se fosse o robocop... Mas não. Seria um robot como o pai dela quando está chateado e a chama pelo nome todo, que ecoa pelo corredor e a faz estremecer em cima da cama... Mas ela ainda acredita que ele vai brincar com ela se lhe mostrar o carrinho telecomandado antigo que guardou debaixo da cama, todo sujo da última vez que capotou ao comando dela (porque ela sempre foi maljeitosa para brincadeiras de meninos mas nunca desistiu de brincar com carrinhos). Porque ela quer que ele a corriga quando ela disser algo estranho de propósito, e que a ignore quando ela insistir que tem razão, por horas e horas...

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Alma: espírito ou fenómeno neurobiológico?


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"«Alguns aspectos dos processos da consciência podem ser relacionados com a operação de regiões e sistemas específicos do cérebro (...)», escreveu o neurocientista português [António Damásio]. (...)
Ora, se a consciência, histórica e misticamente designada por alma, resulta da biologia, e se esta é composta por reacções químicas que obedecem a leis físicas, então a matéria é o elemento exclusivo do universo e a espiritualidade é uma maravilhosa invenção da nossa mente, e ela não existe.
(...) as nossas decisões, que aparentam ser resultado do exercício do livre arbítrio, não passam de comportamentos predeterminados pela nossa máquina cerebral (...) o nosso funcionamento psíquico resulta de processos químicos e biológicos complexificados e fundados no comportamento das partículas atómicas e subatómicas (...)"

A Verdade da Guerra, José Rodrigues dos Santos


É, sem sombra de dúvida, difícil conceber a nossa mente como um conjunto de partículas e matéria orgânicas, que movem o pensamento por reacções químicas e torna a consciência uma experiência objectiva e causal. António Damásio estudou o sistema neurológico de modo a comprovar que há uma área cerebral para a personalidade e a consciência, desmistificando o mistério da racionalidade, do pensamento, o que nos distingue dos animais e sempre foi concebido como uma dádiva divina e uma faculdade que nos permitiria ser, em substância, imperecíveis. Segundo Platão, o corpo seria o cárcere da alma durante a existência terrena, e esta deveria procurar o aperfeiçoamento espiritual e renunciar às tentações do corpo, os prazeres, que perturbariam o seu caminho na purificação moral e na procura da verdade, a essência, o númeno. Uma vez terminada a vivência corporal, a alma seria liberta do corpo e sujeita a um julgamento, segundo a sua atitude perante a mundaneidade. Subiria à morada dos deuses se tivesse procurado "perfeição espiritual" e rejeitado os prazeres do corpo; desceria ao "Hades" se a sua conduta fosse reprovadora; voltaria a assumir um corpo se não tivesse terminado o seu projecto espiritual e merecesse terminá-lo, concluindo assim o seu "karma". Segundo Platão, as almas vagueiam entre corpos até alcançarem a perfeição - daí terá nascido a teoria da reencarnação.
A igreja adoptou as bases da filosofia platónica na sua teologia, e assim habituamo-nos à ideia de que devemos reger a nossa vida por uma conduta moral e espiritualmente irrepreensível, porque a existência que experimentamos enquanto corpo é apenas uma passagem para uma morada idílica. Hoje a maioria dessas ideias são rejeitadas e supomos ainda que a alma, eterno dilema epistemológico, não é mais que uma mera reacção neurobiológica, o que faz sentido se considerarmos que não há nada para além do AGORA, e que, em substância e matéria, iremos desaparecer. Assim, supondo que tudo se esfumará quando deixarmos de existir, serão dissipadas dúvidas como: "o meu corpo é decomposto, mas a minha alma fica a vaguear entre os humanos? E eu, sei que sou alma e ando pelo mundo assistindo eternamente à vida dos meus amigos e familiares? E quando eles morrerem juntam-se a mim e voamos todos por aí, indefinidamente?"
No entanto, não é estranho pensar que nem do nosso pensamento somos verdadeiramente DONOS? Há um grupo de moléculas a regular a nossa MENTE? Quer dizer que eu estou a escrever segundo as minhas "partículas atómicas e subatómicas", experimentando assim um fenómeno psíquico que afinal é mais químico que racional? Então eu que adoro química, gosto mesmo da ideia de me sentir um mero pedaço orgânico e determinístico...


(E hoje, precisamente HOJE, o LetraSoltas faz um ANO! Um ano entre tantas letras, soltas primeiro a medo por ainda desconhecer o mundo da blogosfera e recear a apreciação dos nossos textos, e depois como uma necessidade, um escape de questões existenciais, sentimentos, desabafos, que se foram realizando em auto-conhecimento e aperfeiçoamento pessoal e criativo. E como a realização humana, não atingimos (nem atingiremos) todas as respostas, todas as certezas, porque, como pessoas, somos incompletas, mas, como humanas, estamos constantemente insatisfeitas, e, por isso, continuaremos a nossa odisseia de letras. Obrigado a todos os que lêem e comentam, soltando letras connosco! À Ninfa, que espalha letras comigo, e a... Vânia, Nini, Ná, Erasmus boy, Anónimo da AV, Pato Suicida, neph, Master Inutile, Magia, Sunshine, Susana, Odnilro, Unattached, El Ramalho, Judite, Joana, Prometeu, Patu Estreladu, Raquel, Inês, Paty, Terreno, Patrice, CastorZangado, 6Litros...)

sábado, fevereiro 11, 2006

Felicidade

Qual é a definição correcta da palavra felicidade? Essa palavra que nos persegue, nos domina e nos aprsiona....Essas sílabas pelas quais seríamos capazes de morrer. Esse momento de embriaguez do mundo e de nós mesmos, que vem como um brilho fulgurante e ilumina tudo à sua volta.Dizemos que somos infelizes pelo simples facto de esse estado de desvelamento do belo ser provisório, precário, fugaz e a ele se suceder a melancolia, a tristeza e o desvelamento do feio. Mas não faz mal. Quer dizer, faz mal, mas faz-me dar valor ao bem que esse momento me faz. Ponho-me a ansiar que ele volte de novo, que o momento bom e feliz bata À minha porta ou docemente toque À minha campaínha ou espreite por trás de uma árvore quando eu passar. Que a felicidade me molhe, me pulverize, me inflame, me levite, me intensifique, me agarre, me aperte e me sustente no ar. Ar, terra, fogo, água. Brisa, chão, chama, lago. Vida. Mas não basta estar-se feliz, é preciso querer estar-se feliz. Abrir os olhos, bem abertos como dois berlindes prontos a ser jogados. Abri-los e dizer para dentro, para a fénix que mora no coração: “eu tenho, eu quero, eu preciso de estar feliz”. “Eu preciso de ser, de me fazer, de me refazer, de me buscar, de me encontrar, de me rir, de me gritar”. E ser sempre aluno e nunca professor da álgebra e do cálculo difícil do ser feliz. E aprendermos com os outros alunos do mundo a ver de maneira diferente. Ser feliz é ver de maneira diferente a infelicidade.É querer feri-la pela indiferença e entender as metáforas que dizem que o sol volta a brilhar, que amanhã é um novo dia. E dar valor a todos os conselhos e ouvir os provérbios. Um olho no burro e outro no cigano.Águas passadas não movem moínhos. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje. E amanhã talvez esteja sentada na soleira da porta (a escrever textos rebuscados e recambulescos e decadentes). Num florescimento de mágoas e tristezas. Talvez amanhã ou depois de amanhã. Gostava que fosse depois de depois de depois de amanhã. Mas a felicidade também tem de hibernar como certas criaturas do mundo animal, para voltar revigorada e poder ser exactamente o que é: felicidade. Êxtase. Alegria. Suspiro. Arrepio. Uma vírgula no meio de tantas frases sem ponto final. Para marcar a presença de nós a nós mesmos. A felicidade é virgula. Eu sou um ponto. Um mero ponto. Mas nunca um ponto final. Um ponto em cima da vírgual. Ponto e vírgula. E quando estou felícissima sou um ponto de exclamação. A infelicidade mais não é que um ponto de interrogação a que temos de dar resposta. Só não podemos desistir. È por isso que não gosto de pontos finais.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Sorte?

"The man who said «I'd rather be lucky than good», saw deeply into life. People are afraid to think that a good part of life depends on luck. It's scary to think that so much is out of one's control.
There are moments in a match when the ball hits the top of the net and for a slip second it can either go foward or foward back. With a little luck it goes foward and you win. Or maybe it doesn't, and you lose."

Macth Point, Woody Allen, 2005


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Por uma infinidade de laços e elos que entrecruzam pessoas e lugares, nascemos no seio de um grupo de pessoas então desconhecidas, que aprendemos a conhecer, imitando-as e seguindo-as. Linguagem, comportamento e valores vão-se acumulando pela existência de uma faculdade comum a todos os seres humanos, a razão, e a um fenómeno que se justifica por "nenhum homem ser uma ilha" - a aculturação. Adoptamos os seus costumes, hábitos, e vamo-nos relacionando com quem se cruza no nosso caminho, por simples acasos. Determinar-se-ão assim as relações humanas por uma questão de causualidade? E a maneira como tiramos proveito delas para o nosso próprio crescimento intelectual e pessoal, é também casual? É um lugar-comum. Não saberemos como seria ter nascido noutro lado, ter conhecido outras pessoas...e afinal situações e pessoas novas afloram constantemente. Talvez possamos minimizar os nossos condicionamentos, evitando a estagnação, a alienação, a apatia, o ócio, e estar aberto a novos horizontes e domínios epistemológicos, que nos propiciarão novos conhecimentos a nível pessoal e do saber. Estudar noutro país, viajar, tentar ler até aquele livro que nos parecia aborrecido, ver filmes, sair. Porque mesmo predeterminados à morte, mesmo condicionados ao meio em que nascemos, temos livre vontade até sermos silenciados.

domingo, fevereiro 05, 2006

Janelas ou portas

Schiu, não digas nada...
O tempo é de silêncio,
Schiu, não te movas...
Não vás assustar os pombos lá fora.
A janela aberta sobre a ponte...
Uma ponte que se ergue,
Mas schiu para que a ponte não caia...
Para que a janela não se feche de rompante
E a brisa irrompa em vendaval.
Lá fora os faróis,
Mais e mais faróis,
Na busca de um faroleiro,
Na busca de um algo.
Olho para as minhas mãos
E vejo só esta janela aberta sobre a ponte,
A ponte que leva ao arco íris...
Ao arco das mil e uma cores...
Mas shiu respira sem fazer barulho,
Para que ninguém dê conta
Do ar que respiramos.
A janela sobre a claridade das coisas,
Na escuridão de alguns sorrisos
Que mantemos por conveniência,
E no desabar dos sorrisos convenientes
O estardalhaço de um sorriso aberto sobre a ponte das mil cores...
Um shiu prolongado do dedo indicador sobre os lábios.
O som de travões e buzinas
Será o faroleiro?
E descalça busco o meu farol,
Percorrendo o espaço suspenso entre os sofrimentos
E o fervor intermitente da luz que escorre do ser.
E são uns olhos acordados e pasmados
Na janela aberta, que é porta escancarada na nossa ponte?

sábado, fevereiro 04, 2006

Just me and my music

Não sei bem que horas eram, era simplesmente a hora do pôr do sol. E ele está lá todos os dias, como dádiva para os olhos, e tantas vezes o tomamos por garantido ou como banal. E vi um pôr do sol, raiado de laranja, enquanto a música a ressoar nos meus ouvidos (pelos auscultadores), iluminava o sol dentro do sol e a luz que emanava dele. Ali estava eu, a passear à beira rio com a música a inundar-me, a encher-me da própria luz desse sol que tanto me fascina. E alegremente comecei a dançar,mesmo que alguns transeuntes parassem os carros para olhar, ou fizessem cara de escárnio, porventura porque tinham inveja. Por terem pena de não serem bafejados por essa aurática experiência, da luz singular a atravessar em mim. E mais uma vez olhei para trás enquanto o vento soprava nos meus cabelos, e fotografei com os olhos aquela imagem, de um éden que passamos a vida a buscar. E senti-me feliz. Com aquilo a que chamam alma completamente cheia, a abarrotar pelas costuras, quase a entornar o copo. E os pés sem conseguirem sair do lugar e o barulho da água do rio a misturar-se com a minha música. As coisas feias do mundo e os sentimentos feios voaram assim baixinho, como uma ave a imigrar para sul, para um local mais quente. E ali junto ao rio a boca abriu-se num sorriso tão grande que mal cabia nos lábios, e ouvi o coração soltar um ah! de espanto. Dancei, rodopiei, virei e tornei a virar num monólogo ao longo das notas das canções da rádio:
-Não é lindo este pôr do sol?Parece fogo a descer do céu, sangue a sair das nuvens, vida a sair da própria vida.
-Sim é - respondi a mim mesma.Tens uma imaginação muito fértil. Sangue a sair das nuvens?
- Ahahah, não me faças rir! Não posso rir mais senão depois dói-me a barriga.
-Como quando comias gomas demais em cachopa?
-Sim, isso.. ahaha estou a dialogar comigo mesma!
Fecho os olhos na minha cama e sinto ainda o pôr do sol rodopiar nos meus olhos e o meu monólogo interior a desenrolar-se continuadamente ao ritmo da minha valsa imaginária da vida.
- Sais-tu danser la valse de la vie?