domingo, setembro 18, 2011

Minha avó

Queria tanto que ainda estivesses aqui para me ouvir. Tenho saudades das noites em que a mãe me deixava ficar acordada até mais tarde, para ficar contigo na cozinha, a ajudar-te com os doces e bolos para alguma festa ou almoço do dia seguinte (em tua casa havia sempre alguém para vir almoçar ou jantar, e apesar de ser habitual, tu transformavas qualquer lanche numa festa). Eu ficava contigo de volta do arroz doce, das filhozes e das mílharas, como desculpa para te falar dos meus amigos da escola, das minhas dúvidas e problemas de menina de cinco ou dez anos - e tanta coisa que eu tinha para falar, meu Deus! Como é possível que em tão tenra idade se ache que a vida é difícil? Mas era mesmo assim. O recreio era uma fonte de questões e emoções que eu tinha de partilhar contigo, como se a minha vida dependesse disso. Enquanto despachavas doces e iguarias em barda, eu seguia-te como uma sombra, despejando histórias nas tuas costas, enquanto batias as claras em castelo, enquanto encavalitavas as sobremesas no frigorífico da sala, enquanto preparavas a mesa para o dia seguinte. Quando te sentavas, de rastos, no banquinho ao pé da lareira, a afastar as brasas para apagar o lume, como quem diz, temos que ir dormir, eu sentava-me à tua frente, como quem exige a tua atenção, e pedia-te só mais cinco minutos. Tu sorrias, cansada, aprendias o nome dos meus amigos e davas-me opiniões como se tivesses a minha idade, como se compreendesses exactamente o que eu estava a viver. O que eu mais gostava, avó, é que tu nunca me interrompias. Deixavas-me falar sempre, até ao fim, à minha maneira, sem te fartares ou começar com clichés de quem não está interessado na conversa e só se quer livrar o mais rapidamente possível para ir à sua vida e ainda pensar que é um bom amigo. Nunca te ouvi dizer tem calma, isso é normal, isso passa, não te preocupes com isso, ou outra expressão de algibeira que serve de ponto final parágrafo, agora deixa-me falar de mim. Às vezes quase adormecias para dentro do lume, enquanto eu falava como se não houvesse amanhã, e eu tinha de te segurar e acordar e pedir "só mais um bocadinho e já vamos dormir". E tu sorrias, eternamente paciente, no teu papel de segunda mãe, e contava-te toda a vida que se passava comigo enquanto tu não estavas. Enquanto vivias na tua casinha florida de aldeia, e eu na minha vivenda amarelada de cidade. Aquelas conversas eram, para mim, criança desassossegada na sua vida difícil de primária, uma terapia sem igual. Agora que a tua casinha de aldeia está vazia, e o lume para sempre apagado, percebo a falta que aquelas conversas me fazem. Sinto falta de quem me olhe nos olhos enquanto falo, que se preocupe e interesse genuinamente pelo que digo, sem desviar o olhar para o copo de cerveja nem procurar o telemóvel na mala. Tu sabias olhar para dentro de mim, acariciar-me a alma e deixar-me em paz. Sinto tanta falta de ter alguém como tu. Sinto falta de ti.