sábado, setembro 29, 2007

Agora

É agora. É agora que o tempo aperta, que o tempo dói, que o tempo asfixia e rouba as palavras, é agora que o tempo foge, é agora que o tempo se perde no que foi e não volta a ser, é agora que o tempo leva o teu sorriso e os teus olhos, a tua voz por cima da varanda, por cima da televisão, o teu ar pachorrento no sofá, a tua gargalhada no café, é agora que o tempo é tirano e carrega bigornas nos teus, é agora que a tua cadeira fica vazia, é agora que há menos um braço pra brindar, é agora que falta gente para a sueca, é agora que se entreolham os amigos, é agora que se vincam rugas de choro e se apertam de cachecóis que o frio da idade arrepia. É agora que te choramos sem te abraçar, é agora.
Porque é que tem de ser agora?

sexta-feira, setembro 28, 2007

mais e mais

Eu quero mais
Muito mais
O mundo num espelho em cilindro
A palma da mão aberta
Jamais vazia
Um prisma de aventuras
Um cone de alegrias
Mais e mais e mais
Do romance
Da esperança
Mais do mundo
Feito gelatina
A tremer no cubo
Que é o meu coração.

Conseguirás ouvi-lo bater?

quinta-feira, setembro 27, 2007

Eu era aquela que ria por qualquer razão ou chorava, sem querer, por um qualquer motivo. Aquela que se perdeu no primeiro dia de faculdade quando quase toda a gente seguia naturalmente o caminho para o portão. Eu sou aquela que não vê um palmo à frente do nariz e a quem toda a gente aponta com um sorriso "ali estás a ver". Aquela que cumprimenta toda a gente com um beijinho, a não ser que os ódios de estimação não o permitam. A que confunde o botão da luz com a campaínha e deixa sempre cair as coisas que traz na mão. Cabeça na lua sempre a fervilhar de tantas emoções. A que corre e tropeça sempre, invariavelmente, em qualquer coisa. Que fala alto e usa as mãos para gesticular as frases e as vive cada coisa no seu êxtase. Que fica feliz por ver a lua no alto do céu e que às vezes se comporta como uma criança de quatro anos. Que nunca faz nada certo mas que tem graça por fazer tudo errado. Todos os dias promete que hoje vai correr tudo bem mas tem sempre uma peripécia para contar no fim do dia. Mas agora não tem graça nenhuma. Não tem graça magoar ou irritar alguém com as suas criancices e esquecimentos. Com a sua vida vivida à velocidade da luz entre o contentamento e a incerteza. Ela é aquela que experimenta mil pares de óculos até achar um que lhe fique bem. Que não gosta de chocolate e fica possessa quando lhe fazem partidas que envolvam esconder coisas. Afinal, ela já perde tudo. Ela é aquela que faz a cama e no fim de ter tudo se depara com um lençol esquecido. A dos sonhos estranhos e dos dias de mulheres de mau humor, com vontade de esganar pessoas. Ela cresceu assim, na confusão das suas coisas e dos seus medos. Do embaraço que a descubram assim, imperfeita de forma infalível e mais que tudo: indefesa. E de tão nervosa irá concerteza ganhar bochechas encarnadas e olhos parados no chão. Se não tiver cuidado, irá gaguejar. Ela é aquela que bebe galões e capuccinos com prazer no olhar brilhante. E que nunca se fartará de galões mesmo que beba mil por dia. Aquecem-lhe a alma e os sonhos. Ela é aquela que pensa e repensa todas as coisas e tem as ideias mais absurdas e as prendas mais inesperadas. As atitudes mais parvas e os abraços mais apertados. Que ignora e grita. Que rabisca sonhos em folhas de papel. Aquela.

bruma

Resta a bruma
Nos despojos da tempestade
a bruma que penetra todos os espaços
Do vazio de mim
Tempestade de cabelos revoltos
E sonhos de cristal baço.

"Não tem importância",
alguém diz e vêm as aspas
A corroborar
Que não fui eu que achei
Que não tinha importância.

Tempestades e tempestades
Enroladas na garganta
No travo esfusiante de álcool
E de fantasias

Abraça-me
No meio dos cabelos despentados
Desculpa.
E os cabelos enevoados
No meio do furacão de palavras mal ditas
Mal entendidas
E um silêncio pesado a enevoar o mundo
A bruma...a bruma
Nos despojos da tempestade.

quarta-feira, setembro 26, 2007

O poema

Na palpitação dos teus dedos
A volúpia das minhas palavras,
Amanhecia um poema de amor
Ou um poente de desejo,

Construí nas janelas de todas as casas
O poema que li e reli
Nesses (nossos) encontros,
E mesmo quando se entreabriu a porta
Dos nossos medos
Restávamos nós e o poema
Que escrevi ou se escreveu em mim,
Batalha de sentidos,
Trégua de ilusões.

Não sou mais que um poema
Plantado à beira mar.
Desenho torto sem régua
Ou compasso,
Mesmo que seja de espera.
Sem ambição de alguma vez rimar
Com algo deste universo.

Verso branco e solto
No céu azul dos teus braços,
Cadentes de luz.

Assim é no meu poema.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Pensamento brilhante

Quando terá sido a última vez que leste as minhas emoções nas entrelinhas das minhas palavras?Eu, a entrelinha de tantos textos escritos em modo panela de pressão, deitando devagarinho o fumo de tantos quebra-cabeças. Devorei as horas na deliquência inocente das palavras, pousei os pés no soalho frio para me recordar que estou viva. Sentir o frio percorrer-me devagarinho e o contraste com o calor da tua boca no meu pescoço. Ao lançar mais um olhar pela varanda não vejo qualquer vulto. Permanece a inconstante invasão desses pensamentos que gostaria de poder evitar. Mas já me conformei que sou sempre assaltada, em dados momentos, por pensamentos negativos e que apenas atraiem o mais negativo de mim. Vou soltar um pensamento brilhante, forte e maior que eu para não arredar pé da minha varanda, para fincar o pé na minha mente, para cobrir os montes e os vales do meu palácio de âmbar. Um pensamento que seja íman, atraia o mundo e seja o mundo. Porque a cada pensamento sou eu que tenho o mundo na palma da minha mão. E se perderes um segundo na barafunda das minhas entrelinhas irás perceber, cada uma é mais uma pista para me conheceres. E quem sabe, para eu me conhecer também.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Das nove e meia às seis

As palavras saem-me todas erradas, misturadas do dicionário, apetece apagar tudo e dormir sobre a mesa. Como uma religião, o trabalho é bom de longe, como sonho. O verbo gostar fica à porta e entra o fazer, pesado sobre as horas, tanto que os ponteiros lutam por se mover. Esquece o que aprendeste, simplesmente escreve! Não penses nem romanceies, são três mil caracteres, nem mais, nem menos! Caracteres? Caracteres é nome de bicho. Letras, palavras. Trabalhos? Estórias, vidas, mundos. Traduzo pra mim as palavras feias, a minha língua brinca com a pastilha de fruta, framboesa a minha preferida, e os pés balançam o corpo na cadeira com rodinhas.
Não uso caracteres. As minhas letras são soltas.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Hoje

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Entardece cor-de-rosa sobre o Tejo, sou anjo mau para Jorge Palma no Cais do Sodré, troco desabafos surdos entre versos, vejo-me nos olhos que cantam comigo a canção de Lisboa (mesmo que ele não a tenha tocado). Por meia dúzia de músicas e um pôr-do-sol somos maiores que o fuso horário das amizades. E no final da noite, três pequenas grandes amigas encontram-se no segundo de uma mensagem, um acaso e um autocarro tardio.

Avenida da Liberdade

Pela minha janela se agita a bandeira de Portugal, ao centro da Avenida, acenando a quem passa, amarelos autocarros e velozes carros que vão colorindo a paisagem. Tenho estores entrecortados como os detectives, vejo o mundo às tiras, como um puzzle. Brincam pelos meus olhos as peças loucas, tão vivas, a imensa Avenida cabe no meu olhar como um quadro.
Daqui me vejo, tudo vejo, e ninguém me vê. Daqui crio sem saberem, inspiro-me naquela pequena madame de tailleur e mala do tamanho do telemóvel, movendo-se rápida e nervosamente, tantos passos por quantos a esperam, tantos passos por tanto que tem de fazer, e a criança que corre suja de poeira do futebol para o ralhete da mãe, mala a escorregar nos ombros, batendo impiedosamente nos joelhos. E o mendigo que toca melhor que o cantor do top de vendas.
Esqueço-me do copo na minha mão, plástico com espuma seca do café que ainda saboreia a minha boca e me delicia a cidade. Esquecido também o trabalho, tão difícil concentrar-me em mim quando há tanto pra ver.

O dia

Espreguicei-me sem pressas e abri os olhos. Era mais um dia como qualquer outro daqueles em que chove para fazer sol logo depois. Eu era assim, uma chuva seguida de sol ou uma tempestade a desabar na claridade. Uma mestiçagem impressionante de pinturas e cores diferentes. Não me consigo compreender e talvez seja por isso que muita gente não me compreende. Se disser que às vezes só me apetece fugir no carrossel que há dentro de mim, não estaria a mentir. Daqueles dias em que só apetece ficar sozinha e escrever uma banalidade qualquer. O estranho é estar feliz e sentir-se estranho depois do estar feliz. Uma ressaca emocional de sentidos, de sensações em catadupa que passaram tão depressa e cessaram. E vinte e um anos volvidos do meu primeiro encontro com este local esquisito, que é o mundo, continuo a sorver a vida tão intensamente, que às vezes parece não haver tempo para degustar, qual prato raro, servido com talheres de prata. Olho as fotos e não sei se estive lá ou imaginei que estava lá. Mas dizem-me que estive e eu acredito. Que passeámos pelos enormes jardins e demos as mãos em retratos que agora olho e são de sépia. Mas quando os vivemos eram bem coloridos. Agora são apenas memória. Oh como gostava de ter vivido esse dia com mais calma!Que não tivesse passado por mim a correr, como um ciclista desejoso de chegar à meta. E nesse dia a festejar o "eu ter nascido", houve sol e meio-luar na lua escondida, talvez a não querer ofuscar o brilho de uma aniversariante. Houve beijos e presentes, dentro e fora dos beijos. Houve luz e houve vida. E amizades dos que se recordaram do dia e acharam por bem recordar. Talvez porque gostem de mim, talvez porque sim.

terça-feira, setembro 18, 2007

Fim de tarde

Sorris a amarelo alaranjado, meu quente e sereno pôr-do-sol. Trazes o fim de tarde, morno e vagaroso, doce beijo antes de adormecer, raro segundo de olhos nos olhos entre tantos olhos a que somos invisíveis. Chegas entre mil rostos do metro, pequena e leve, oásis de vida para mim. Despertas-me pela modorra da tarde como se o dia começasse contigo. Antes de ti o tempo é uma cópia de todos os outros dias que nem parecem acontecer. Quando acordo sinto-me a viver o dia de ontem, porque nada muda até que te tenha.
De dia somos prisioneiros da desafogueada luta do mundo, sempre preferi a noite pelo silêncio de abandono e certeza de ser minha. Agora tenho também o pôr-do-sol. Tenho-te a ti.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Epifania

Tenho medo que me tenhas amargado. A nossa voraz e obsessiva paixão envelheceu-me quando os habituais pontos e vírgulas passaram a um assustador e fatal ponto final. Comecei a exigir mais de mim e dos outros, tentando recuperar em tudo o que uma só pessoa e sentimento me dava, tu.
Demorei a entender que por mais sociável, sucedida e amada que fosse, não tendo o teu silencioso sorriso e amor do outro lado, nada valeria assim tanto a pena.
Odiei-me por conseguir gostar mais de ti que de toda a gente que a cada minuto demonstra gostar mais de mim que tu.
Odiei-me por chorar no dia do lançamento do meu livro, por nem saberes que eu tinha, finalmente, alcançado o sonho da minha vida, o mais rapidamente possível para ainda arder em ti a frustração de não me ter.
Afastei finalmente a poeira que fomos dos meus olhos, sinto-me lúcida. Quero encontrar-me sem precisar de mostrar que posso ser maior que tu, sem ti. Muito do que me moveu a lutar foi a vontade de me sentires independente, madura, segura. Mas afinal o desespero de engolir a vida só me tornou mais nervosa e ansiosa, eu que outrora me destacava pela calma e sensatez.
Sinto-me maior que eu. Já posso ser maior que tu.

sexta-feira, setembro 14, 2007

running away from the sun

O sol está a perseguir-me. Disse ela em olhares-gargalhada. O sol parado na sua luz incandescente de fim de tarde. O movimento pelo movimento das coisas. Tornava ridículo aquele sorriso sobre uma perseguição policial com o sol como protagonista. Mas o sorriso dela não era ridículo. Era mergulhado de estrelas e hipóteses. A cada sorriso uma hipotética razão à escolha. Tinha um sorriso para quando estava feliz ou quando fingia estar feliz. Cada um peculiar para quem conhecesse os seus gestos e se desse ao trabalho de prescrutar o mais íntimo da sua alma. Na partilha atabalhoada de tantos sentidos. E o sol que continuava parado, veria a rapariga sorrir ainda mais uma e outravez enquanto fugia dele e de tantas outras coisas que não sei contar.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Sala de Espera

Como ver uma fotografia de um desconhecido, simples rosto sorrindo porque sim sou eu sem sentido e em silêncio. Chega, já são ésses a mais. Emudeci como se tivesse entrado numa sala de espera para um transplante de medula, uma sala tão cheia de rostos vazios e unhas roídas, olhos apagados de palavras. Ninguém fala, cada um ocupa completamente a sua cadeira direito e expectante, como pode haver vida se a morte está tão perto?
Deve ser isso. Entrei numa sala de espera e nada mais me resta que aguardar a vida, não vale a pena fingi-la enquanto não chega.

Espero que voltes antes do Inverno.

Sobre nada, paradoxo

Por dentro um abismo por fora uma muralha. Por dentro um mundo por fora o medo. Os meus olhos. Por dentro um turbilhão por fora um túmulo. A minha boca. Mais fortes que eu, por mais que a cabeça gire não há vida que se agite. Grita o génio por dentro e cala o medo por fora. "Nós não inventámos nada, está tudo descoberto" sentenciava Francisco desembaciando os óculos do fumo, palavras cambaleantes de vodka e voz arrastada pela madrugada, olhos-holofote do palco para mim.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Espelho

Há um espelho no mais fundo de mim que reflecte tudo o que fui ou quis ser, tudo o que sou e me esqueci de ser. Porque afinal, eu ainda sou aquele nascer do sol que ofusca a minha própria vista, o pôr do sol no cansaço dos dias de mim mesma, a dança que incomoda os outros no autocarro, um encontrão forte com alguém. O meu espelho em formato de quarto crescente cresce a cada nova aura de dia. Com aquilo que serei amnhã ou depois, ou até mais tarde. E o espelho iá reflectir difrenças e semelhanças entre mim e eu a cada recomeço, a cada sorriso e cada lágrima de cada paixão ou desventura. Só desejo que o meu espelho tenha sempre esse reflexo incandescente do teu olhar, mergulhado no mais fundo de tudo o que sou e serei.

quarta-feira, setembro 05, 2007

There she goes, there she goes again...

Autocarro, comboio, metro... Metro, comboio, autocarro. Arrasto-me adormecida mas logo as luzes e azáfama da urbe despertam e agitam a vida em mim, por pequenos mas rápidos passos vou ziguezagueando pelas ruas e tantos rostos iguais, o turbilhão da capital girando pelos meus olhos, montanha-russa. Infinito horizonte da minha janela, a Avenida da Liberdade.

Gosto. Sinto-me bem no meio de tudo, esqueço o resto, agora sou apenas eu e a cidade, ardendo louca e fugazmente como tabaco pela vida.

terça-feira, setembro 04, 2007

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

(Fernando Pessoa)

Marta?

"Chamava-se ela Marta
Ele Doutor Dom Gaspar
Ela pobre e gaiata
Ele rico e tutelar
Gaspar tinha por Marta uma paixão sem par
Mas Marta estava farta mais que farta de o aturar
- Casa comigo Marta
Que estou morto por casar
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo, deixa-me da mão
Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
Tenho talheres de prata
Que estão todos por lavar
Tenho um faisão no forno e não sei cozinhar
Camisas, camisolas, lenços, fatos por passar
- Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão
Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
Tenho uma cama larga
Num dos meus apartamentos
Tenho ouro na Suíça e padrinhos aos centos
Empresto e hipoteco e transacciono investimentos
- Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão
Casa comigo Marta
Tenho rédeas p´ra mandar
Tenho gente que trata
De me fazer respeitar
Tenho meios de sobra p´ra te nomear
Rainha dos pacóvios de aquém e além mar
- Casas comigo Marta
Que eu obrigo-te a casar
- Casar contigo, não maganão
Só me levas contigo dentro de um caixão"

Letra: Sérgio Godinho