quinta-feira, janeiro 24, 2013

Tenho uma incrível capacidade de ficar profundamente triste de um momento para o outro. O pensamento mais fugaz e disparatado transforma-se rapidamente num mantra de auto-comiseração que não me abandona um dia, uma semana, um mês inteiro. Sempre fui assim. Olho para as minhas fotografias com cinco anos e admiro-me com o meu profundo e triste olhar. Naqueles olhos tão grandes, aquela criança parecia guardar a tristeza de todo o mundo. Por isso é que tudo o que escrevo é triste. Parece que só na tristeza é que chego ao mais fundo de mim, aquele Deus interior de que fala o hinduísmo. Dizem que esse Deus é de alegria, de paz, mas quando penso Nele não vejo nada de feliz. Estou sempre dez anos à minha frente, a tentar prever o futuro. É a minha missão aqui que me preocupa, pois parece-me muito estúpido que se exista só para pôr pão na mesa. Para hoje, amanhã ou depois. Que objectivo existe em comer, comer até morrer? Não me digam que não tenho uma missão, um propósito qualquer que justifique a minha vinda. Estou farta disto, dia após dia, a viver pelo 'pão nosso de cada dia'.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Afinal não sou só eu

"Depois, de repente, aparece um texto que não é tão mau e uma pessoa fica contente, conta. "Lembro-me de que quando era novo tentava fazer: merda, merda, merda, e um [texto] bom. Mas era muito optimista. Agora era merda, merda, merda 19 vezes e depois um bom! Que sorte!"

Miguel Esteves Cardoso em entrevista ao Público

quarta-feira, janeiro 16, 2013

"C’est l’histoire d’un homme qui tombe d’un immeuble de cinquante étages. Le mec au fur et à mesure de sa chute, il se répète sans cesse pour se rassurer : “jusqu’ici tout va bien, jusqu’ici tout va bien, jusqu’ici tout va bien”. Mais l’important c’est pas la chute, c’est l’atterrissage."

in La Haine

Nos carris

Leva-me para longe dos meus pés, encontra-me num lugar perdido que já conheci e um dia esqueci. Não me leves pelo caminho de todos os dias, não, não é por aí, vida em loop sempre igual a ontem. Que dia é hoje? Quarta-feira. Encosta a cabeça na janela, fecha os olhos, sexta-feira ainda está longe.

terça-feira, janeiro 15, 2013

"and she left behind small traces of her time on earth, visible only to those who know where to look."

in El laberinto del fauno

além de mim

os dias vão passando sem darmos conta, luta perdida no meio do caos. quem sou eu e de quem é esta vida? a oeste, nada de novo. uma urgência de fugir impõe-se como uma dor imensa no peito, um egoísmo crescente numa existência ausente. não fujas, pedes-me. mas eu já não sei onde estou. não sei onde quero estar. já dizia o antónio variações, "não consigo compreender, este estado de ansiedade, sempre esta sensação, que estou a perder". afinal, porque é que os dias se arrastam sem sentido? porque é que a cada segundo me sinto apenas uma minúscula imitação de mim? sou sempre, estou sempre, além de mim.

à espera no centeio

"há coisas que deviam ficar como são. devíamos poder enfiá-las numa dessas grandes armações de vidro e deixá-las lá ficar. bem sei que isso é impossível, mas é mesmo pena. mas enfim, não parei de pensar nisso o caminho todo."
JD Salinger

nada

quanto é nada vezes nada? quem te disse que de nada podias ser tudo mentiu-te e a mentira é feia. é feia e tem perna curta. até para ser nada é preciso arte, escrever nas entrelinhas e ser feliz a fingir. voaste alto muito cedo, muito rápido. acreditaste no que nunca ninguém te disse, na felicidade que inventaste para ti. mas era cedo, oh, se era. há anos, onde sonhavas que estarias hoje? é triste olhar para trás. dói, mais fácil é viver o presente como um tolinho, dorme come faz ginástica come outra vez e compra, compra, compra, compra, compra. esquece. dorme outra vez. e assim como pões um ponto final neste texto, vai dormir, esquece, amanhã compra, come, come outra vez e esquece, pois pensar assim é nada, e nada dói muito.