domingo, dezembro 14, 2014

Vezes infinito

A história repete-se mais uma vez, ano passa e eu entro em depressão nos primeiros dias de dezembro. Não, não é o drama da passagem de ano, isso para mim não é nada, o meu drama é o dia anterior, de 30 para 31 a minha mãe dá-me os parabéns e lembra-se "há x anos roubaram o carro ao teu tio, ainda vivíamos todos no apartamento, vimos tudo a acontecer assim de repente, da varanda, ele ainda foi atrás do ladrão de pantufas, e então rebentaram-se-me as águas". Só me esperavam para a primeira semana de janeiro, mas a minha tia ganhou a aposta e eu ainda consegui nascer no ano do primeiro bebé proveta em Portugal, ganhei bilhete para entrar na escola com 5 anos e a garantia de ser sempre a mais nova, onde quer que fosse. Ninguém faz anos na passagem de ano! Pois não, mas eu faço. Eu e o meu primo-irmão - em Espanha diz-se primo-hermano, disse-me a minha amiga tradutora -, que nasceu oito anos antes de mim mas seu avô quis que nascesse a 1 de janeiro como ele, para celebrarem juntos num dia de festa lá da terra.
E então entro em depressão nos primeiros dias de dezembro, acordem-me quando chegarmos a janeiro e eu não souber responder que idade tenho, desde os 25 que deixei de contar e de perceber a diferença. Que mais dá se são 26, 27 ou 28, está tudo na mesma e nada muda - tudo menos o meu cabelo, que se rende todos os dias à genética e vai somando cabelos brancos, bem espetadinhos no alto da cabeça, comme il faut.
Já está, troco mensagens com a melhor amiga a dizer que faço 28 anos e ainda não fiz nada de jeito, o meu avô dizia "posso não valer nada mas a minha presença vale muito", e será que a minha vale alguma coisa? No escritório sei que não vale nada, ninguém é insubstituível. Somos todos números e o meu nome é pouco importante, mesmo que seja o mais sonante num edifício de oito andares - Casanova, pel'amor de deus, é o melhor apelido que existe.
E agora vou enterrar a cabeça na almofada e pensar que estou quase a passar a idade fatídica para a malta das artes, os 27. Vá. Ao menos isso.

Para que lado é o sonho?

Às vezes penso no que ela diria de mim, se me visse agora (ou se me estiver a ver). Será que ia dizer que não lutei o suficiente, que deixei que o peso do mundo me asfixiasse, ou que iria ler nos meus olhos a desilusão de quem se perdeu no caminho para o sonho? Será que ela ainda acreditaria em mim, quando já nem eu acredito? Não foi só o meu sonho que se perdeu, mas o dela também. Ela a quem lia as minhas histórias em voz alta, quando ainda não sabia ler. E ainda aprendeu. Com 60 anos, foi a melhor da turma. Aprendeu a ler e a escrever com os meus cadernos da primária, a minha letra feia, torta e trapalhona de quem quis aprender a dança da escrita da noite para o dia. Lia as minhas composições devagarinho, lutadora. E nós emocionados, felizes, a avó aprendeu a ler.
E eu agora, a chegar aos 30, presa a uma crise financeira que (ainda) não me deixou ser quem sou (será só culpa da crise?), mostrar tudo o que posso ser, fazer-me ouvir, levar as minhas palavras e o meu nome, pelo mundo. Ontem uma das tuas netinhas terminou o mestrado, vó. O meu pai perguntou-lhe 'não chega já de estudos?', 'para já sim, disse ela'. Mas riu-se: 'ainda sou capaz de pôr mais uma moedinha, dar outra uma volta...'.
Tudo é tão pouco comparado ao que tu fizeste, o exemplo que nos deixaste. Desculpa vó, se eu não souber ser quem te prometi. Prometo, sim, que não deixarei de tentar.

Ainda não, mas um dia

"(...) ainda não disse um milhão de vezes ao meu pai que o adoro, mas estou lá perto e bem vistas as coisas um milhão é pouco para algo infinito assim, ainda não abracei a minha mãe e lhe dei um beijo na desta até que os lábios secassem e os braços cansassem, pode ser agora mesmo, quando acabar este texto, ainda não escrevi a obra-prima e só tenho mais coisa menos coisa mais setecentos mil milhões de frases para o tentar, mais algumas, provavelmente, tenho a certeza que vou morrer de caneta na mão, ou de computador no colo, a última frase será qualquer coisa como "Desculpem qualquer coisinha, mas leiam, e sobretudo amem."
Pedro Chagas Freitas

sexta-feira, novembro 28, 2014

Despedidas

Nos funerais encontramos familiares dos quais não nos lembramos, primos e afilhados e tios que nunca se tinham sentado a conversar ao nosso lado. Mas agora estão aqui. Todos me dizem: «os meus sentimentos», mas realmente nunca nenhum me explicou que sentimentos eram realmente os seus. Beijaram-me as faces e afastaram-se enquanto eu continuei ali sentada a velar pelo teu sono, avó. Sei que nunca fomos amigas, nunca trocámos confidências e não me recordo se alguma vez disseste que me amavas. Mas, à minha maneira, eu amei-te. Vi-te na semana passada e soube que era uma questão de tempo. Chamei-te aos gritos mas acho que já não me reconheceste. «Avó sou eu, a Marta, a tua neta!». Olhaste-me bem fundo nos olhos mas não posso garantir que ainda soubesses quem eu era. Pedias-me rebuçados e bolos, e naquele dia não me disseste nada. Não sorriste e eu chorei. Chorei mais do que no dia em que me disseram que já tinhas partido. Chorei porque estavas ali mas ias definhando aos poucos. A tua garra, o teu feitio e o teu orgulho. Não restava nada da mulher que eu conheci. Foi o último dia em que te vi. Sobraram tantos rebuçados avó, queria dar-tos mas já não conseguias comer. Não sabia que ia ser uma despedida mas eu abracei-te, avó, e nunca mais te vou poder abraçar. Toda a gente me diz que «é a vida», como se essa fosse a resposta para todas as coisas. Regresso à capela fria onde continuo a velar o teu corpo imóvel. O teu corpo vazio e o teu rosto de olhos fechados. Desculpa, avó, mas não tive coragem de ver o teu rosto. Quero lembrar-me de ti de outra forma. O pai está muito quieto na cadeira e tento fazer conversa para passar o tempo. Ele perdeu a mãe. Eu perdi a minha avó. E apavora-me saber quantas mais pessoas irei perder ao longo desta dura jornada que é a vida. Abraço o meu pai e ele não diz nada. Ele sabe que já não pertencias aqui. Oh avó será que és mais feliz agora? Será que algum dia te vou voltar a ver? Gostava de te ter conhecido melhor mas sempre te fechaste em copas e talvez tenha herdado algumas coisas do teu feitio. Há personalidades fortes na família. Espero que haja algo depois disto, mais do que a última morada onde te deixei. Onde te deixaram num buraco, a apodrecer na terra. Terás concretizado os teus sonhos avó? Terás sido feliz? Vou sentir a tua falta. O pai vai sentir a tua falta. Até sempre, Avó.

segunda-feira, novembro 10, 2014

A casa

Se os sonhos são feitos dessa matéria doce a que sabe a infância, então os meus cheiram a terra molhada, a filhozes quentinhas e a caldo escoado.

Sempre que sonho com a terra dos meus pais, aquela pequena e velha aldeia do interior beirão, vejo-me ainda na casa dos meus avós, no tempo em que os animais faziam parar o trânsito e os sapadores não tinham campos para limpar. Achava curioso quando a minha mãe me contava que, quando sonhava com a aldeia, se via na casa dos pais antes das obras, um pequeno piso térreo que eu já conheci como uma grande vivenda de dois pisos. Há algum tempo que me acontece o mesmo, adormeço e estou na casa deles, a minha avó está na cozinha a alourar as batatas ao lume, o resto das batatas cozidas que sobraram do almoço, cheira também a chicharrão e a mílharas acabadas de fazer. Eu e os meus primos sentamo-nos na mesa mais pequena, "dos putos", e pedimos as batatas, mas não há nada para ninguém enquanto não comermos todos o caldo.

Sonho sempre com aquela sala cheia, essa que perdeu todos os cheiros que tinha, a comida da minha avó, os doces, amor, família. Depois da partida dos meus avós, quisemos fechar aquela casa no tempo, mudámos os almoços e jantares de família de cenário, não escrevemos mais histórias naquela mesa, sem os protagonistas daquelas paredes e cheiros.

As novas paredes já ganharam cheiros e recordações, mas não é a mesma coisa. Já ninguém faz filhozes na véspera de Natal, as mãos rugosas a benzer a massa, os enchidos ao fumeiro no curral. A comida que sobra vai para os cães e galinhas do meu tio, não vai para os porcos da minha avó, nem há burra a fazer barulho durante a noite. As batatas, cebolas, cenouras e couves da sopa não vêm lá de baixo do curral, onde a avó guardava o que tirava da terra, embora alguns tios já se tenham dedicado a recuperar alguns terrenos da família. Tudo mudou e nós continuamos os mesmos, embora incompletos para sempre. Como num livro de decalques, os meus avós foram roubados e levados para mais longe que debaixo da cama, para onde fogem as peças que faltam.

Quando adormeço em polvorosa, cabeça a girar em desatino, o dia que ainda não chegou a ameaçar pesadelos, acordo e sonhei com eles, estivemos juntos no passado congelado daquela sala cheia. Emoções para sempre guardadas numa infância feliz.


sábado, julho 19, 2014

Eu, Marta Santos

Um intenso mas doce desastre. Se me perguntassem seria assim que me definiria. Não que alguém precise de qualquer definição para perceber essa inegável verdade. Falar sobre mim pode soar egocêntrico mas ajuda-me a perceber melhor quem sou, no que me vou tornando.
Se eu existisse num filme ou num livro bem gostaria de ser uma personagem principal, mas a verdade é que eu sou aquela rapariga. Sim, aquela, a que cai lá atrás enquanto a cena se desenrola e toda a gente começa a rir. O meu cérebro está muito bem ligado à minha boca, mas a verdade é que eu falo pelos cotovelos e consigo dizer as coisas mais absurdas. Tropeço nas palavras como tropeço em escadas, calçada, ou qualquer outro obstáculo na minha frente. Sim, eu sou aquela rapariga. A que adora ler e já perdeu a conta a quantas vezes foi parar à estação errada, absorta em maravilhosas histórias. Aquela que adora cozinhar mas, por ser tão distraída, viu dois frascos iguais e o belo bolo de canela afinal...levou noz moscada. Eu sou a que acena a desconhecidos. A que faz esforços hercúleos para se conter quando está a falar de um assunto que a entusiasma. Os momentos mais embaraçosos também os possuo. Volto à universidade, a sala repleta de alunos e a Marta...a cair da cadeira em plena frequência de direito. Mas eu também tinha o...direito...de me enganar com aquelas cadeiras traiçoeiras! Eu era também a Marta dos Beijinhos, assim me chamavam, da alegria e dos sorrisos. Aquela rapariga que faria a Bridget Jones sentir-se menos...Bridget Jones! A Marta, que não se ajeita a jogar futebol, basquetebol, andebol...vários problemas com a terminação -bol. Tem medo de alturas, ratos, cobras, águas fundas.. e do que o futuro lhe pode trazer!  Salta de entusiasmo sozinha, com a música alta a ecoar nos ouvidos, enquanto vai a caminho do trabalho. Passa horas a ler no jardim. Procura uma perfeição que não existe. Odeia a monotonia e a mentira mas sabe que todos cometemos erros. Prefere o seu livro a uma noite na discoteca, gosta mais de NBA do que de futebol. Aquela rapariga, a quem o avô continua a chamar carinhosamente «Esparguete» pela sua estatura franzina. Chora em todas as comédias românticas, vê todos os filme da Disney. Já disse que ela chora? Com fotografias, livros, por palavras bonitas ou surpresas. As expetativas de uma surpresa causam-lhe borboletas na barriga. Ela comove-se com o mundo mas também se zanga com ele. Tem mau feitio, é teimosa e nem sempre quer dar o braço a torcer. Pede desculpa por tudo e por nada porque só quer agradar. Escreve bilhetes, faz bolos, e até andava quilómetros ao pé coxinho para fazer alguém rir. Só que ela é um desastre e constrói muitos muros em vez de pontes. Nem todos entendem os seus sorrisos quando quer esconder o que sente, ou os seus sonhos. Ah! Ela adora escrever, o refúgio das letras para uma rapariga tonta. Eu, Marta Santos.

sexta-feira, junho 27, 2014

Robôs, explosões e o meu sofá da sala

Às vezes sinto que levo a vida como um espectador do cinema de Michael Bay: sento-me a assistir ao artifício das explosões e lutas de robôs gigantes sem interesse nem sentido, nada que discutir quando me levanto do sofá. Esqueço-me de mim enquanto absorvo o fogo das cores brilhantes e rostos bonitos que distraem dos projetos e objetivos que já não sei se tenho ou se alguma vez tive. É o desemprego, são os estágios, as ofertas desinteressantes, os salários baixos, mil e uma desculpas, talvez, ou apenas inércia, apatia, preguiça. Não sei o que quero, mas a culpa é só minha. Muda de vida se não te sentes satisfeito, cantavam o Camané e a Manuela Azevedo. Sim, sim, mas há por aí tanta gente sem trabalho, sem dinheiro, quero eu também voltar a depositar nos outros o meu sustento, para seguir, egoísta, um sonho que sei irrealista?
E então deixo-me estar, o vinho ainda está fresco, o sofá é confortável. Estão a passar os Transformers outra vez na televisão.

quinta-feira, junho 19, 2014

Janela

Eu sou uma janela sobre o mar, muitos olham-me e limitam-se a apreciar a vista. Alguns têm medo do que possam descobrir e não se atrevem a dar uma espreitadela. Depois há os que imaginam os segredos que se escondem, para lá da rebentação das ondas, lá longe no horizonte. Esses que têm a certeza que há mais do que mar e marés. Abrem essa janela que eu sou e ficam ali como se o tempo tivesse, subitamente, parado. A brisa doce vai soprando ao longe como um sorriso e a janela torna-se indiscreta, os aromas do mar tornam-se paixão. É aí que se levanta um vendaval que sucede à brisa. Aí mostro outras janelas que existem em mim, que o vento abre de par em par. Com vista sobre o tempo infinito, os sonhos ou outra maravilha qualquer. Junto ao mar os sonhos não ganham raízes, vão-se transformando na areia molhada, naquela praia, a que se avista ainda desta minha pequena janela. Onde há sempre sol no horizonte. Mesmo em dias de chuva, quando as gotas molham a minha janela e sou obrigada a fechá-la com força. Tanta força e sem cerimónias. Assim é esta minha janela, com vista sobre o mar.

segunda-feira, junho 16, 2014

Como gosto de te ver correr

Tenho uma fotografia tua que é toda a minha infância. Nessa foto estás a correr à minha frente, por entre um beco que chamaste de teu esconderijo, pela calçada que conheço tão bem. Sabes, quando tiveres idade para isso, vou contar-te que esse também foi um dos meus esconderijos na aldeia. Vou contar-te que, quando tinha a tua idade, e ainda mais velha, adorava esgueirar-me pelas "quelhes" que para mim eram caminhos mágicos, especialmente aquela em que entrava perto da casa da minha avó, na avenida de Santa Cruz, e ia dar diretamente à igreja - especialmente boa para evitar os ralhetes da avó, que não gostava que chegasse atrasada à missa. Mais tarde, quando fores um bocadinho mais velha, vou contar-te que me juntava ali com os meus amigos, nas noites de baile, para beber uma ou outra cerveja às escondidas dos nossos pais. Vou contar-te também, se me prometeres segredo, os namoricos que começaram nesse teu esconderijo. Tu ainda não sabes, mas cada pedacinho de calçada tem a sua história, desde os tempos que nem tu ou eu imaginamos, até à minha época e do teu pai. Na calçada das tuas brincadeiras, passaram outros pés e outras vidas, com as suas histórias e recordações, que as pedras, confidentes, guardam para todo o sempre.
Sabes, quando te vejo correr consigo esquecer por um pouco a nostalgia de que sou feita, as saudades dos meus avós e tios-avós, aquela mania dos mais velhos de pensar que nunca será tão bom como era antigamente. Não, porque tu vieste e também te apaixonaste por aquela aldeia, porque sabes correr cada beco e decorar cada caminho, como eu e os meus primos fazíamos. Também foi lá que aprendeste a andar e a cair de bicicleta, a tomar banho de mangueira e a brincar ao boi. Vais descobrir e amar aquela aldeia como nós e não a vais deixar morrer, mesmo que só possas ir nas férias de Natal e de Verão. Serás feliz na aldeia, como nós fomos e somos.
E é por isso que, excepcionalmente nestes dias, troco os saltos altos pelos ténis e corro de mão dada contigo, pelas ruas e "quelhes" de Aldeia Velha.

quarta-feira, junho 04, 2014

Game over, os meus olhos perdiam o jogo e as letras do livro ficavam búzias, já estava quase em Alcântara quando me deixei adormecer no comboio. Em menos de cinco minutos comecei a sonhar, mas nada de absurdo e surreal como de costume, era um sonho antigo, daqueles cheios de pó da gaveta mais escondida em mim. O meu inconsciente, poderoso omnisciente com requintes de malvadez, levou-me de volta aos meus quinze anos, à minha mais antiga teimosia. 'E se tentasses novamente?', perguntava ele, perverso. E se tentasse novamente, perguntei-me eu, já num limbo entre o sonho e o comboio, olhos a estremecer do burburinho da chegada ao Cais do Sodré. E se? Se voltasse a estudar e começasse tudo de novo? Uma nova profissão, que lidasse com pessoas reais, em vez de cabeças de computador e pés apressados no corredor, corpos presentes em cadeiras azuis almofadadas. Quando cheguei ao elevador cumprimentei os meus 'colegas' com um bom dia, devolveram-me silêncios de telemóvel, apressados em ligar o wifi da empresa, abrir o email e começar a responder antes que chegassem as nove e um da manhã. Hora e meia volvida e continuo com essa ideia a fazer-me comichão na nuca. E se?...

domingo, maio 25, 2014

Cartas de amor

As pessoas já não sabem escrever cartas de amor. Bem sei que muitos poetas terão, certamente, dado a sua opinião sobre tão banal assunto. Mas é mesmo assim, sem ser preciso acrescentar mais nada. As pessoas já não sabem escrever cartas de amor. Daquelas que nos rasgam por dentro com as palavras que nunca tivemos coragem de dizer cara a cara. Palavras que podemos reler quando quisermos, num terraço ao pôr do sol ou simplesmente deitados na cama antes de adormecermos. Cartas de amor que nos ajudam nos momentos difíceis ou nos fazem sorrir ainda mais nos momentos de alegria. Por isso, hoje decidi escrever uma carta de amor. Não se destina a ninguém em especial. É um elogio ao amor profundo, à paixão que nos impele a usar da caneta e do papel, para aquecermos o coração daquele a quem a nossa afeição está destinada. Uma carta sem clichés, com o coração a nú. Em que podemos falar dos olhos da pessoa amada, ou do seu sorriso. Uma carta sobre saudade, ausência e até desilusão. Porque o amor é tão imperfeito como a própria vida. Porque caminhamos, caímos, erramos e voltamos a tentar mais uma vez. A vida é mais doce assim. E as cartas de amor permanecem mesmo depois dos amores que desabam, mesmo depois dos filhos e dos netos. Escrevo uma carta de amor que possa ser guardada nos baús e onde um dia poderemos ver, nitidamente, as marcas das lágrimas de quem a leu. Ficarão para sempre impressos sentimentos que, a dada altura das nossa vida, fizeram parte de nós. Não importa se o amor sobreviveu, naquele ali e agora... o nosso coração fervilhava. Há uma carta de amor em todos nós, há sentimentos que tivemos medo de revelar, sensações. Arrepios, pele de galinha, calor, falta de ar. As tuas mãos no meu cabelo. Os teus olhos a levantarem tempestades no meu coração. Os sorrisos fáceis cada vez que estamos juntos e a forma peculiar como me fazes rir mesmo quando me apetece chorar. Numa carta de amor, o que eu sinto transforma-se no que tantos de nós já sentiram. É também uma prece para que o amor não morra, para que a paixão nos continue a fazer olhar em frente, a encher tudo de luz e a dar-nos vontade de dançar. Amor de amigos, amor de amantes, amor... a abrir as portas as janelas. Na minha carta de amor despeço-me com um sorriso sincero e sento-me numa esquina a observar. Irão as pessoas aprender a escrever novamente cartas de amor?
 

quinta-feira, maio 22, 2014

Regresso a casa

Percorro o caminho de regresso a casa e cruzo-me com tantas caras desconhecidas, felizes e outras nem tanto, passeiam os cães, correm de fato-de-treino (como dita a nova moda do running pelo bairro), levam o lixo, fazem reciclagem. Resisto a um súbito ímpeto de parar o carro e 'olá, como se chama? vive aqui há muito tempo? o que faz?', ou de simplesmente abrir a janela do carro, sempre fechada, como o carro, nestes tempos de desconfiança de tudo e todos, e distribuir 'boas tardes' servidos com sorrisos a todos os que passam. A comichão que me faz por dentro de não conhecer os meus vizinhos, aqueles que todos os dias se deitam perto de mim, do outro lado da parede fazem sopa, vêm séries, têm discussões e tiram fotografias ao filho recém-nascido, estão desempregados ou acabam de ser promovidos, tantas estórias, tantas vidas que passam por mim como se não fosse nada, e desaparecem, como uma brisa do vento que dali a nada pouco importa. E são como fantasmas, caras e olhos desconhecidos cuja existência não me reconhecem nem eu a eles, porque dali a dois minutos são costas, são corpo se se afasta e que se perde na minha memória, são a sopa que vou fazer dali a nada e não me posso esquecer de pôr a roupa a lavar. Nasci aqui, há mais de 25 anos, há vizinhos que ainda se lembram de mim com cinquenta e nove centímetros, dois quilos e novecentas e, dizem, olhos enormes e vivos como os do meu pai. Depois, vivi mais de 20 anos numa rua em que todos se conheciam, lanchavam na casa uns dos outros. A minha vizinha desses tempos era uma velhota já confusa pela idade, que me perguntava se era sábado ou domingo. E quando agora visito essa casa, que é agora 'a casa dos meus pais', parece que não deu conta que saí, e diz-me "chegaste tão tarde do trabalho, filha". Quando nas férias parto para a terra dos meus pais, que teimosamente chamo também de minha, beijo toda a gente, ou todos os que se lembram de mim, conheço os seus filhos, netos, trocamos pedaços de estórias entre cervejas e batatas fritas, somos quase todos primos, amigos, família. É da ausência de estórias que me estranha agora esta nova casa, onde regresso todos os dias, onde vives tu e eu, felizes estranhos dos pés que correm pela escada do prédio e que ouvimos pela noite, do cão que os dias a chorar e o bebé que todos os dias é deixado em casa da avó. Um dia pensei em fazer uma tarte e levar a um vizinho, como nos filmes de Hollywood. O que pensariam de mim os meus vizinhos, nestes tempos de vozes caladas e desabafos nas redes sociais?

quarta-feira, maio 21, 2014

"Eu tenho ideias para romances e ela tem ideias para a vida...

... e eu já não sei o que é mais importante".
José era o poeta, o escritor, a alma de sonhos, de ideias, de vida a transbordar pelas mãos. Pilar era a alma forte, o calor e o abraço de quem nasceu para cuidar, e esperar, cada regresso a casa de José. Mas José não era homem que partisse sem hora de regresso - uma vez subiu à Montanha Blanca, tinha 70 anos, pensou "se caio daqui me mato, não escrevo mais livros". Nada tinha dito a Pilar. Quando chegou, ouviu, ouviu, as palavras magoadas, de quem ama mais, demais. Mas isso foi só uma vez. No amor de José e Pilar não existiam silêncios ou palavras caladas. O amor de José e Pilar era um no outro como um só, no pequeno-almoço, nas apresentações e na correspondência dos correios. "Como é que era mesmo Pilar?", "José, estás a falar português", "Oh, às vezes acontece-me". O amor de José e Pilar era a agenda de José que Pilar planeava e decorava, deixando José entregue aos seus devaneios; eram as convicções fortes de cada um em discussões brandas à mesa ("Pilar, tu não sabes nada da Hillary Clinton, ela não te representa, não a ti"); eram as viagens à pequena aldeia natal de Pilar, em Navarra, ou à de José, a ribatejana Azinhaga; os almoços com os quinze irmãos de Pilar, cujos nomes José tanto se esforçara para lembrar; eram os projetos que tinham em separado mas que sempre se encontravam: quando Saramago dizia que ia terminar um livro naquele dia às quatro horas, Pilar sabia que ia terminar o seu horas antes, horas depois. É desta matéria que é feito o amor, é uma bolha invisível e uma linguagem em comum, estrangeira para todos os outros.
No amor de José e Pilar, com mais vinte anos de diferença ("A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar"), havia dias de acordar e medir a tensão, havia passagens de ano no hospital, mas também havia planos de viagens, festas de aniversário de 84 e 85 anos ("Pilar, já me sinto um sobrevivente"), um amor que é vida e que dá vida: "A Pilar não me deixou morrer". Nos olhos de José e Pilar, o amor não é sacrifício, não é obrigação, como nos gostam de vender os amargos, os livres-presos-a-si-mesmos, amor próprio megalómano e egoísta. O amor não é sacrifício quando é amor, quando o que faço por ti não é por compromisso mas porque quero, porque desejo, porque te quero bem.
O amor de José e Pilar. Para sempre.

sábado, abril 19, 2014

Insónias do Coração

Sofro de insónias por causa do meu coração. Bate tão forte que não me deixa dormir, peço-lhe de forma incessante que se acalme mas o meu coração não me consegue ouvir.  As batidas são demasiado fortes, descompassadas, e temo que possam acordar os vizinhos. O meu coração quer viver e eu quero aprisioná-lo dentro de uma caixa para que me deixe ficar sossegada. Não quero ouvir a sua música infernal, com suspiros violentos e uma dor no peito de cada vez que tento sorver o ar. O meu coração está de tal forma em ritmo acelerado que me apetece saltar da cama e dançar descalça. Mas conseguirei acompanhar o seu ritmo irregular? Sempre fui muito conversadora, mas é o meu coração que agora não se cala e tapo os ouvidos para não o ouvir. No meio deste frenesim sem rei nem roque continua a haver espaço para uma imensa solidão. Refugio-me nas letras que me conseguem ler e me conhecem melhor que eu mesma. A noite é longa e os fantasmas estão à espreita e o meu coração continua a fazer-me ficar acordada. Mas, pelo menos, posso ficar descansada. Passei algum tempo sem notícias mas o meu coração está vivo e ainda tem a mesma morada, dentro do meu peito.

sexta-feira, março 07, 2014

Em casa

Ontem sonhei convosco outra vez. Um sonho bonito que me fez acordar a sorrir. Sonhei que estávamos outra vez todos juntos em vossa casa, em volta da enorme mesa da sala, com todos os lugares sentados, como dantes. Todos ríamos e comíamos com vontade, cantávamos enquanto o avô tocava acordeão. Como dantes, a música saía dos seus frenéticos dedos louca e feliz, envolvendo-nos a todos numa bolha indestrutível de segurança e amor. O mundo deixava de existir quando tocavas, avô. A tua música levava para longe as preocupações teimosas que escondíamos por trás dos sorrisos quando, silencioso, te levantavas de repente do sofá em que estavas sempre sentado e tocavas para nós pela noite fora. Sem nada dizer, apenas absorvido na tua música, o sangue que corria nas tuas veias. De olhos perdidos e misteriosos, por vezes mostravas o teu belo sorriso de olhos claros. Esse raro sorriso que guardei para sempre no baú mais precioso das minhas recordações.
Vocês não me disseram mas eu sabia que só tinham voltado por um dia, para matar saudades e lembrar-nos que, afinal, vocês nunca foram embora. Afinal, vocês estarão sempre connosco, de cada vez que nos sentarmos à volta da mesa. E ali, entre o caldo escoado e o arroz doce, a música dele e os nossos risos, na sala mais feliz da minha infância, eu soube mais uma vez que por mais que faça e aconteça, por mais que ganhe e gaste, são só aquelas pessoas que me fazem mais feliz, que me fazem sentir em casa.

quinta-feira, março 06, 2014

O meu poema

No meu poema vais ser exatamente quem eu quiser. Os teus olhos podem cheirar a castanhas e os beijos que não me deste terão exatamente o sabor que eu inventar. A tua boca vai saber a mar misturado com sangue, das nossas bocas a rasgarem o tempo. As nossas línguas entrelaçadas vão dizer coisas impossíveis de compreender. Depois vamos afastar-nos e vais olhar para mim sem entender porque não consegues respirar, o ar demasiado pesado para ti. Mas não te vou responder, vou beijar-te. Depois vou convidar-te a fazeres amor com o meu sorriso. Vais sorrir e dizer que isso é impossível. Vou explicar-te, como se fosses uma criança pequena, que nos meus poemas não há impossíveis e que na história que eu contar tu serás a personagem que eu desejo. O teu riso vai flutuar até mim e encher devagar os locais adormecidos do meu corpo. E depois vou beijar-te mais uma vez. Só porque sim. Porque não? Vou deixar-te pensar que estás a controlar mas depois vou virar o teu mundo de cabeça para o ar. Sem ar. Ar. Vais tentar lembrar-te de como respirar mas já não consegues pois não? Vou despir as tuas incertezas e sussurrar baixinho ao teu ouvido. Em resposta o teu coração vai bater. Rápido. Acelerado. Um comboio a alta velocidade prestes a descarrilar. Olha para mim. Ar. Inspirar, sentir. Mordo o lábio devagar e fazes amor com o meu sorriso. O meu riso. O resto da história será exatamente a que eu for escrevendo, enquanto a noite atravessa a cidade. Aqui só vejo luz, enquanto o meu corpo se vai tornando incandescente, a minha pele na tua pele. Tu, esta noite, a personagem que eu quiser inventar. A tua boca a saber a vida, no meu poema.

sábado, março 01, 2014

A minha avó

Todos nós temos histórias. Pergunto-me que histórias guardarão estes rostos envelhecidos pelo tempo, pelas lágrimas ou pelos sorrisos. Olho para a minha avó e imagino que histórias guardará de outras idades. Nunca soube quais foram os seus sonhos ou amores secretos. Quem seria antes de alguém a chamar simplesmente mãe ou avó. Agora a minha avó vive aqui, no meio deste jardim, numa casa de paredes brancas, com tantos outros rostos gastos pela vida. A minha avó olha-me mas não sei o que vê. A sua memória vai fugindo, umas vezes chora e outras ri. Olha-me com os olhos marejados de lágrimas e repete sem se cansar: «a minha neta, a minha querida neta». E quando pronuncio a minha avó, já não é a mesma palavra que pronuncio. Sinto pena misturada com amor. Pena que nunca tenhas sido uma verdadeira avó. Nunca me embalaste nos teus braços. Nunca me disseste que gostavas de mim. Eras sempre a outra, e não era pelo teu colo que chamava. Mas agora vejo os teus olhos cobertos de lágrimas e penso que te esqueceste. Ou talvez só agora te tenhas começado a lembrar. Dizes para eu ir devagar, desejas-me tudo o que uma avó pode desejar a uma neta. Gostava de gostar mais de ti, mas não sei se consigo. A palavra avó é demasiado pesada entre nós, uma noite infinita. Tantas coisas que ficaram por dizer na minha infância, enquanto fazias o jantar para a família e o avô, sentado à cabeceira da mesa, ria muito e eu tinha vontade de rir também. Porventura esqueceste-te, as memórias com teias de aranha e os teus olhos marejados de lágrimas. Gostava de te ter conhecido melhor. A palavra avó tem um travo amargo a ressentimento. A hora da visita acabou e prometo voltar. Olhas-me com ar suplicante e repetes: « a minha neta. A minha querida neta».

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Dias de tudo e de nada

"Há os dias que são feitos de tudo, de espontaneidade e conquistas, os dias em que a vida é cheia de sentido e invencibilidade. E depois há os outros, que são quase todos — os outros que não sendo iguais entre si acabam por se definir na dificuldade que temos em encontrar algo que nos desprenda de nós próprios. Algo que nos faça sentir mais seguros nas nossas escolhas, na nossa maneira de ser e na nossa forma de ver o mundo. Porque em última análise, a alienação constante a que nos entregamos é só isso mesmo, uma forma inconsciente de nos sentirmos menos sozinhos."

in P3

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Chaves

É normal fecharmos o que sentimos à chave. Como fechamos os bens mais preciosos. Assalta-me o pensamento de deitar a chave fora, abrir a caixa de pandora e gritar as verdades, deixar sair os demónios. Mas fechei os medos e os fracassos há tanto tempo. Mil cadeados e correntes rodeiam os meus pesadelos. É normal esquecermo-nos onde deixamos as chaves, está sempre a acontecer. Lembro-me da minha vila, a minha casa de portões azuis numa rua de portões azuis. Encaro os meus olhos grandes e, ali bem perto, a chave pousada numa mesa distante. Volto à mesma casa mas a chave já não mora ali. Os meus pensamentos mais secretos armazenados naquela pequena caixa imaginária. E como o sete será sempre um número cheio de significados e as caixas se fecham sempre a sete chaves, tive de arranjar mais seis. Espalhei-as aqui e acolá junto com os meus sonhos e sorrisos. Sigo em busca das chaves. No momento decisivo serei capaz de as deitar fora dizer tudo o que precisa ser dito? Afinal, é normal fechar o que sentimos à chave.
 

sábado, fevereiro 22, 2014

Fast food de emoções perdidas

Percorres veloz a área de restauração do centro comercial, olhas os semblantes em volta. Sem sorriso, olhares sem vida, devoram num hambúrguer emoções perdidas. A crise não levou apenas o nosso dinheiro, mas também a poesia nos nossos olhos. Quantos sonhos adiados, quantos braços rendidos ao trabalho sem amor, ao emprego sem vocação, ao expediente sem fim? Pedes mais uma sobremesa, as bolachas estão com desconto no continente, enrolas-te no sofá de casa com o filme de sábado à tarde e descobres a solidão no fundo de um balde de pipocas. Fazes zapping na TV e a Europa avisa: os teus governantes enganam-te, vem aí mais austeridade. Adormeces no sofá, a sonhar com aquele curso se guionismo que gostavas de fazer e aquela viagem a Londres que já adiaste tantas vezes. "Para o ano, talvez".

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

vida

A vida é apenas nascer e morrer e fazermos o nosso melhor no entretanto. Quando as doenças surgem é injusto e doloroso. Mas ninguém é poupado, mesmo que ache que se tenta portado bem. Ninguém é poupado porque ninguém é especial. Como eu gostava de envolver as minhas pessoas especiais numa capa super forte contra doenças, mas não posso. Por isso há dias como hoje, em que para afastar os maus pensamentos lembro-me do que disse o MEC: "A morte será assim tão importante que mereça dedicarmos-lhe grandes nacos da nossa vida?"

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Amigos assim-assim

Li hoje numa tira da Mafaldinha que "crescer é dizer adeus às coisas" e a frase ficou colada no fundinho da minha nuca. Sou muito ingénua, sabes? Ainda acredito em contos de fadas e os filmes da Disney são os meus preferidos. Talvez por isso não consiga deixar de ir aos jantares de aniversário de amigos "assim-assim", aqueles que me deixam na ponta da mesa e que na noite inteira falam duas vezes comigo: para dizer "olá, obrigada pela tua presença" e "adeus, espero que tenhas gostado". A verdade é que já fui dizendo adeus a alguns amigos nos últimos anos: da faculdade, do secundário... até de infância (esses doem mais, é como se te arrancassem o apêndice à força, sem uma anestesiazinha, nada). Por minha culpa, por culpa deles. Porque eu desisti de insistir que ficassem, porque eles deixaram de insistir em ficar. Não somos piores pessoas por isso: à medida que deixamos as barbies e depois os livros de estudo, mudamos de interesses, temos outras conversas, deixamos de gostar daquele café e daquele restaurante. Mas não deixa de doer, sobretudo quando percebemos que esses amigos "assim-assim" querem usar desse estatuto imenso que é a Amizade, mas só aparecem uma ou duas vezes por ano para perguntar se está tudo bem, se temos emprego, namorado, se os pais e a irmã estão bem.
Antes, dizia que tinha muitos amigos. Sentia-me orgulhosa por isso. Sentia-me bem rodeada, tinha sempre planos e programas. Mas logo que o tempo e o dinheiro apertam, para onde foram esses amigos?
Hoje orgulho-me dizer que tenho poucos amigos, daqueles que não fogem quando não dá, quando temos de adiar. Aqueles que sabem que algo não está bem quando não falamos. Aqueles que enviam uma mensagem só para dizer bom dia. São raros, esses amigos. São raros, e são meus.

sábado, fevereiro 08, 2014

Quem somos

Não podemos mudar quem somos. Podemos, tantas vezes, inverter o rumo ou andar em contramão. Mas como o velho carvalho preso às suas raízes, estamos presos a nós mesmos. Às raízes de sermos simplesmente nós.
Um dia todos voltamos a um lugar chamado casa. Porque a saudade é como todas as dores dos homens. A falta do que não se tem. E todos sentimos falta daquele canto em que podemos simplesmente abdicar dos nossos refúgios e lugares comuns. Mas sei que há um lugar extraordinário dentro de nós. E como num baú em que remexemos velhas lembranças, há sempre momentos para nos lembrarmos de quem somos. O bom e o mau, a luz e a escuridão.  Por muitas voltas que possas dar acabas por ir parar ao mesmo cruzamento contigo mesmo. Podes escolher a esquerda ou a direita mas não podes deixar de ser quem és. Tu mesmo, mesmo que não saibas exatamente o que isso quer dizer.

quarta-feira, janeiro 29, 2014

Acordo ortográfico

Não faço acordos. Nem sequer ortográficos. Coloco os c's que eu bem entender e os pontos nos i's. Com os pés bem assentes na terra distribuo acentos que acentuem a intensidade de tudo o que sou. Construo as minhas histórias abusando de vírgulas porque não pretendo deparar-me com os bandidos dos pontos finais, salteadores de alegrias nos caminhos das frases. Aqui e ali abro aspas, e vou bebendo de algumas experiências. Há dias em que apenas me apetece mudar de parágrafo mas noutras ocasiões altero tamanho e tipo de letra. Uso artigo indefinido porque em mim não há definição, e sou o sujeito e às vezes o complemento. Mas apraz-me ainda mais a magia do verbo. Sonhar, andar, pular. Se fosse um substantivo seria comum ou abstrato. Não sou de substantivos próprios, e em mim há sempre um quê de inapropriado. Gostaria de fechar a minha vida apenas com um ponto de exclamação mas, até lá, tenho pontos de interrogação para tudo. Não sou voz passiva. Em mim vivem metáforas e onomatopeias. Sou sujeito singular e prefiro os meus verbos no presente. Sou uma reticência. Já que a frase da minha vida ainda tem muito para contar.

terça-feira, janeiro 28, 2014

apenas isso

do alto da sapiência que só a longevidade de uma vintena de anos pode dar, tinha a arrogância de ser melhor que o mundo corporativo que desde cedo conheci. sentia-me apenas mais uma, perdida, entre a máquina de café e a maior televisão daquele piso. tantas vezes caras conhecidas e desconhecidas se detiveram para espreitar o que eu seguia na televisão, o meu trabalho, aquela caixinha mágica. faziam-me perguntas, falávamos de filmes, de séries. 'até amanhã', diziam, quando eu ficava até mais tarde, entretida com a minha caixinha mágica, formiguinha no inverno. agora sento-me ao lado da janela e em vez de uma televisão, tenho três televisões nas minhas costas e outra na minha secretária. ainda mais pequena me sinto, com todas as caras que irrompem daquele quadradinho e roubam todas as atenções, mais que o meu metro e meio de gente pode alguma vez despertar. mas hoje, já era tarde, e alguém com preocupações muito maiores que a minha pequena pessoa, parou e perguntou-me se estava tudo bem, porque é que eu estava ali àquela hora. e eu corei, olhei em volta, 'está a falar comigo!'. agradeci e disse que me ia embora dali a nada, que estava tudo bem. e senti-me um bocadinho maior, importante, naquele mundo que é um mar de cabeças e computadores, televisões e máquinas de café.

o resto é a sombra

segue o teu destino,
rega as tuas plantas,
ama as tuas rosas.
o resto é a sombra
de árvores alheias.

a realidade
é sempre mais ou menos
do que nós queremos
só nós somos sempre
iguais a nós-próprios.

Fernando Pessoa

Chuva violenta

Começa a chover violentamente. Chove nas ruas. Chove nas casas. Chove nos corações. Mas eu nunca tive medo de chuva e não são umas gotas idiotas que me vão derrubar. O som da chuva ressoa nos ouvidos e faz eco. Viagem entre o céu e o solo. Gotas de água vão caindo e morrendo no chão e vou pisando o solo molhado enquanto um vento gelado me atravessa a espinha. Ainda assim, sinto-me viva. Os sentidos finalmente despertos. Continuo sozinha e não lutao contra a chuva, que agora não passa de chuva molha-parvos ou chuva molha-sonhadores. Eu vou sonhando e andando mas o piso é escorregadio. Foi da chuva que alagou as ruas, as casas...e até os corações.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Palco


Nesta vida sem ensaios, vou estrear a cada dia a minha peça sem esperar aplausos. Assim é o teatro da vida. Estou no palco mas vejo-me na plateia. Sangro e já nem sei se sou eu. Lágrimas vão escorregando gentilmente. Mas quem chora agora? EU na plateia ou EU no palco? E se eu choro quem irá rir por último? Anseio que as luzes se apaguem e possa parar de fingir. Que sou uma super heroína. Que sou forte, gigante, maior. Sou apenas eu, sorriso pronto, olhos grandes, pequena, insignificante. E este palco parece ser demasiado grande para mim.
 

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Biblioteca

Regresso às origens. E então lá estou, de novo, sentada naquela mesa da biblioteca. Nas estantes, os livros que eu li observam-me. Pergunto-me se ainda guardam alguma memória de mim nas suas páginas. Eu mudei. Os livros também mudaram. Ganharam novos sentidos ao passarem por tantas mãos. Nas suas páginas fui-me tornando mulher. Os livros acompanharam as minhas primeiras paixões de adolescência e acalmaram, com os seus conselhos, a minha loucura. Vivi os romances dos livros como se fossem meus e chorei tantas vezes por finais (in) felizes. Aquela biblioteca acolheu-me e foi a minha segunda casa. Os livros, os meus fiéis companheiros. Os amigos que nunca te recriminam. No silêncio das suas palavras passei noites em claro e desbravei histórias como se fossem florestas. Conquistei mundos e fundos sem sequer sair do meu quarto. Mais do que isso, sonhei e imaginei como qualquer criança deve fazer. E hoje os livros continuam comigo, inspiram-me e eu sonho e imagino como qualquer mulher deve fazer. Quando o mundo parece desabar, só os livros ficam. Guardam os seus segredos para sempre e nunca morrem. Têm sempre uma palavra para dizer e uma história para contar. Ao contrário das pessoas.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Estranho pedido

Hoje vou só refugiar-me neste pensamento: cada dia é uma página em branco à espera de ser escrita. Mas poderão os rascunhos de hoje apagar os borrões de ontem? E, se assim for, fica mais uma pergunta. Conseguirei algum dia adivinhar o que devo escrever amanhã? Porque amanhã gostava de escrever uma história absurda e inédita, que me fizesse feliz. Gostava de saltar alguns muros, ou barreiras, e gritar para quem quisesse ouvir. E se puder apagar os borrões de ontem, poderia retirar todas as palavras injustas, negligentes. Poderia fazer esquecer todas -as imensas- vezes em que falei (de)mais, mais do que a conta, sílabas projetadas em excesso de velocidade. Porque falo como vivo, intensamente. Sempre tive o dom da palavra mas há dias na vida em que parece que não sai nada. E por mais que espremas ela parece não ter sumo. Que contos terei contado nesses dias? Não me seria permitido, só porque sim, rasgar algumas folhas, rasgar violentamente e voltar a escrever? Não posso apenas corrigir alguns erros, riscar e riscar com força até rasgar o papel? Só para depois voltar a dizer outra coisa qualquer?
E não, não quero que ninguém escreva a minha história por mim. Sou a autora de mim mesma, ainda que isso nem sempre signifique que fico com os melhores desfechos. Tropeço tantas e tantas vezes nas palavras e alguns olhares dizem-me, sem dizer, «não te compreendo». Insisto neste meu pedido e talvez seja a altura de pedir mais folhas. Porque há dias que merecem mais do que uma página.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Avesso

O meu mundo está de pernas para o ar. É assim que o imagino e gosto dele. Completamente do avesso. E na roda da vida acho que vou virá-lo mais uma vez. Vou fazer dele a minha montanha russa e girar até à infância. E voltar, ir, voltar. Porque essa parte de mim nunca morreu. Uma e outra vez acaba por adormecer, enroscada sobre si mesma, sem se aperceber. Alguns sonos são longos, outros nem tanto. Mas a minha infância vive dentro de mim, essa criança que nunca morre ou se cansa. Que descobre a cada cheiro e a cada gesto a maravilha de estar viva. Essa criança trago-a comigo para me lembrar de sentir. Tenho essa criança em mim para me lembrar que o meu mundo está de pernas para o ar. E posso mudá-lo de novo. Posso sair para a rua e apanhar chuva, gritar ou rir e não interessa o que me podem dizer. «Porque corres, porque choras, porque gritas, porque sorris?». E eu respondo matreira: «Não sou eu, sabes, é essa criança que me assalta de quando em vez». Chamo-lhe Loucura, mas contou-me, em certa ocasião, que afinal se chama Vida. Corre atrás de mim nas ruas e chama-me para correr atrás dela, mas nem sempre oiço o seu chamamento. «Sabes, é como o piano. Gosto tanto de o ouvir que às vezes me esqueço do resto da orquestra». Eu sou o piano, mas tenho em mim violinos e guitarras. Preciso de aprender a ouvir as suas notas. Preciso dessa criança rebelde a saltar-me no peito.  Mais do que tudo isso, preciso do meu mundo de pernas para o ar. A rodar no sentido inverso dos ponteiros do relógio. E que graça teria, no fim, se o meu mundo não fosse ao contrário?  Por favor deixa-o ficar do avesso. Deixa-me girar e girar até ficar tonta neste universo sem sentido. Tão parecido comigo na sua perfeita imperfeição. Completamente de pernas para o ar.

O sorriso (não um qualquer)

E o sorriso dela era tão grande e tão alto que se via mesmo dali, do outro lado da montanha. O sorriso dela era como música para os ouvidos de alguém. Descendo pelas ruas escuras de Lisboa era o sorriso dela que eu via nos acordes de uma guitarra perdida.
O sorriso dava a volta ao cinzento dos dias e coloria as minhas palavras. Os pés ecoavam no soalho e o sorriso dela na minha cabeça. Ao fundo a guitarra entrelaçada nas minhas tranças e no sorriso que se fundia na noite. Era apenas um sorriso que me ia esmagando, deixando tonta e perplexa. Porque tinham-me dito que era proibido sair à rua e sorrir assim. Que os tempos eram outros. Mas o sorriso transformava-se agora numa gargalhada, impossível de conter, enquanto os pés continuavam a martelar o chão e a música ia deixando de se ouvir.
Era esse o sorriso dela, o meu sorriso, feito de coisas de que só os sorrisos são feitos. Do tudo e do nada, do muito e do pouco, da alegria e da tristeza. Dos opostos que se vão atraindo, das bocas que se vão juntando. Dos mundos de outros que vamos tocando. O sorriso, que rompia os mistérios e deixava as próprias palavras sem saber o que dizer. Sonhos e poesia transformados assim, num sorriso maior que o mundo. Porquê? Ela, eu, ninguém sabe. Mas sabe mesmo bem sorrir assim.