Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012

Vermelho-papoila

O jardim agora está mais bonito. Apressa-se o passo passeando pelo passeio. O jardim vestido numa míriade de tons avermelhados, vermelho-papoila, vermelho-o-meu-vestido. Vermelho-amor. Ou o vermelho dos beijos que são como as cerejas, que como sem me importar de repetir. Uma e outra vez. Atrás das orquídeas que florescem e do cheiro a rosmaninho do meu jardim encantado. O vestido rodopia sem se cansar, dança no crepúsculo de mais um dia. O teu olhar dança no meu e os teus olhos lembram-me cidades que nunca visitei. Mas agora sinto que conheço o mundo inteiro no meu pequeno jardim. O Outono está a chegar e em breve as folhas vão-se desprender das árvores. É esse o aroma dos teus olhos, as folhas, as árvores e,claro, as cidades pinceladas de tons sépia. No teu olhar há um labirinto. No meu jardim um canteiro. Onde se esconde o que não queremos que mais ninguém saiba. Mas ensinaste-me como percorrer o labirinto dos olhos cor-de-sonho e plantaste flores no meu canteiro. Agora já não podemos fugir porque partilhámos um lanche de segredos neste meu jardim vermelho-paixão, a condizer com o vestido e os sapatos e a chama nos teus olhos a lembrar cidades. Agora acho que consigo ver Paris, a cidade da paixão. Mas está tudo tão vermelho. É o meu jardim, Paris, a paixão. Tudo junto num lugar maior-grande-gigante-mais-que-enorme e que não se inventa nem se dá à toa. Muito prazer, chamo-me coração. Com letra pequena e tamanho desconhecido.

Fruta da época

Hoje apeteces-me. Não sei se é de mim, este egoísmo de não te querer esquecer e de não parar de te lembrar. Apeteces-me como fruta da época, para te comer em pedaços. Para te provar uma e outra vez sem me cansar do teu sabor. Ainda me sabes a mar, amor, vida e desejo. Mesmo que te tenhas esquecido de outros tempos e de outras palavras. Eu não me esqueci de nada e continuo a trazer-te em mim, uma pérola preciosa que roubei ao mundo e não quero mostrar a mais ninguém. Quero-te só para mim. E hoje apetece-me olhar-te e mostrar-te quem és, quem somos. Para relembrares os anos que vêm dançando à frente dos nosssos olhos. Mas somos iguais a antes, ainda te beijo e sinto os pés fugirem do chão e o meu coração querer saltar do peito. Querer saltar e correr para outras margens, ser mais que coração, ser rio, ser verão, ser primavera. Nada mudou e no entanto nada está igual. Quero voltar ao tempo dos segredos. Agora conto-te eu. Agora contas tu. Crianças apaixonadas num mundo de adultos. Eu cá não quero crescer. Sou um dos miúdos perdidos do Peter Pan. Neste mundo quem somos sem as nossas ilusões? Apenas muros e paredes que apetece esmurrar até sangrar. Porque a realidade dói. Deixa-me ficar a viver este sonho que tem telhados, janelas para arejar e flores para pendurar na varanda. Hoje apeteces-me como se tivesse uma fome (in) controlável. Não consigo parar de te escrever, és a vírgula das minhas frases, o meu ponto de exclamação e espero que entre nós não haja um único ponto final. E se houver, que não tenha parágrafos, para te conseguir trazer de volta. És o acento que acentua tudo na minha vida. Há quem ponha alguns pontos de interrogação a um amor assim. Eu dou-lhes as reticências e um único hífen. Aquele com que se escreve amo-te.

Meteorologia

Chovia a conta-gotas como se cada gota estivesse precisamente destinada a cair assim, numa perfeita simetria de água sem palavras. O tempo passa rápido, dizem os especialistas. A meteorologia da vida. Nada como esta chuva sem pressas. O céu chora devagar e toca com as suas lágrimas em cada pequeno mortal, que passeia por este mundo de luas cheias e vazias. Enquanto o céu chora lentamente, as nossas vidas vão avançando ao ritmo de uma valsa, rápida e engenhosa. No fim da dança, parece que ainda estávamos no início. A valsa não é eterna. Os rostos vão acumulando o tempo e as imperfeições. Só o céu continua a chorar uma perfeição que magoa. Uma perfeição que faz inventar novas metáforas, um choro que se transforma em riso quando as pequenas gotas fazem comichão no nariz e na pele. Quando os arrepios de viver nos fazem correr, nos fazem sonhar. Eu sou um sonho transformado em realidade. Um único momento entre o aqui e agora. Somos uma pequena gota que um dia terá de secar. Mas agora, só agora, a meteorologia prevê chuva a conta-gotas e sol no coração. Talvez seja um bom dia para passeares dentro de mim e eu dentro de ti. Porque lá fora o céu continua a chorar baixinho sem fazer alarido. E o tempo passa rápido, não te esqueças nunca. É o que dizem os especialistas. Saberão eles que entre a chuva passou o amor? E não foi a conta-gotas. Foi a contra-relógio, contra a corrente, contra os muros, até desaguar em nós. O amor passa rápido, dizem também esses especialistas. Mas o que sabem eles?Ainda ontem diziam que hoje ia estar sol e nem trouxe guarda-chuva. Agora encharquei o meu casaco favorito e corro pela rua. Pelo menos está sol no meu coração. Só falta darmos aquele pequeno passeio.

Terça-feira, Dezembro 06, 2011

«sejam bem-vindos»

Sejam bem-vindos, esta é a minha casa. O meu coração aberto de par em par para quem quiser entrar. Eu, uma alma de mil almas consumadas em chama. Sou o que quiseres que seja, o que pensares que sou e, ainda assim,muito menos do que aquilo que poderei vir a ser. Sou um caminho feito de váriosdesvios. Uma personalidade fragmentada em momentos. Hoje é só o momento-poesia.Cada palavra aqui escrita é uma parte de mim, uma tentativa de explicar algoque nunca poderá ser contado. Eu própria. Sejam bem-vindos, já disse. A estapeça de teatro em que sou apenas uma personagem secundária à procura do seupapel principal. Uma verdade que se assemelha a tantas mentiras. Uma músicaperdida do solfejo, que vai chorando e sorrindo notas à deriva, que derivam apenasde mim. Mim? Três letras tão difíceis de entender. Sou o que penso. Sou o quedigo. Sou o que tu dizes e pensas de mim. Quantas almas me habitam? Sou euhoje, outro eu amanhã, sempre almas novas e passageiras, sorrisos breves epaixões sentidas. Um caminho sempre de regresso ao lar do meu coração, já que aminha alma é uma estrangeira perdida no meu pequeno e proscrito… labirinto de Fauno.

Domingo, Outubro 23, 2011

Meia-Noite em Paris

E de repente, enquanto descia as escadas daquele prédio suburbano, tão igual a todos os outros daquela rua e daquela cidade, teve saudades de um tempo em que não viveu. Do tempo de la bohème e romance à beira-Sena, de Hemingway e Fitzgerald e um copo de vinho, de Paris iluminada pelos maiores génios da pintura e da poesia, de um tempo de brilho nos olhos e passeios à chuva. Teve saudades de uma cidade que nunca viveu, Paris e a sua cor de vida e emoções. Desejou que a auto-estrada se transformasse nos imensos campos elisíos, mas acabou do outro lado da periferia, no cinzento dos tempos de agora. E tudo se perdeu em duas horas de ilusões, nas palavras de Woody Allen.

Domingo, Setembro 18, 2011

Minha avó

Queria tanto que ainda estivesses aqui para me ouvir. Tenho saudades das noites em que a mãe me deixava ficar acordada até mais tarde, para ficar contigo na cozinha, a ajudar-te com os doces e bolos para alguma festa ou almoço do dia seguinte (em tua casa havia sempre alguém para vir almoçar ou jantar, e apesar de ser habitual, tu transformavas qualquer lanche numa festa). Eu ficava contigo de volta do arroz doce, das filhozes e das mílharas, como desculpa para te falar dos meus amigos da escola, das minhas dúvidas e problemas de menina de cinco ou dez anos - e tanta coisa que eu tinha para falar, meu Deus! Como é possível que em tão tenra idade se ache que a vida é difícil? Mas era mesmo assim. O recreio era uma fonte de questões e emoções que eu tinha de partilhar contigo, como se a minha vida dependesse disso. Enquanto despachavas doces e iguarias em barda, eu seguia-te como uma sombra, despejando histórias nas tuas costas, enquanto batias as claras em castelo, enquanto encavalitavas as sobremesas no frigorífico da sala, enquanto preparavas a mesa para o dia seguinte. Quando te sentavas, de rastos, no banquinho ao pé da lareira, a afastar as brasas para apagar o lume, como quem diz, temos que ir dormir, eu sentava-me à tua frente, como quem exige a tua atenção, e pedia-te só mais cinco minutos. Tu sorrias, cansada, aprendias o nome dos meus amigos e davas-me opiniões como se tivesses a minha idade, como se compreendesses exactamente o que eu estava a viver. O que eu mais gostava, avó, é que tu nunca me interrompias. Deixavas-me falar sempre, até ao fim, à minha maneira, sem te fartares ou começar com clichés de quem não está interessado na conversa e só se quer livrar o mais rapidamente possível para ir à sua vida e ainda pensar que é um bom amigo. Nunca te ouvi dizer tem calma, isso é normal, isso passa, não te preocupes com isso, ou outra expressão de algibeira que serve de ponto final parágrafo, agora deixa-me falar de mim. Às vezes quase adormecias para dentro do lume, enquanto eu falava como se não houvesse amanhã, e eu tinha de te segurar e acordar e pedir "só mais um bocadinho e já vamos dormir". E tu sorrias, eternamente paciente, no teu papel de segunda mãe, e contava-te toda a vida que se passava comigo enquanto tu não estavas. Enquanto vivias na tua casinha florida de aldeia, e eu na minha vivenda amarelada de cidade. Aquelas conversas eram, para mim, criança desassossegada na sua vida difícil de primária, uma terapia sem igual. Agora que a tua casinha de aldeia está vazia, e o lume para sempre apagado, percebo a falta que aquelas conversas me fazem. Sinto falta de quem me olhe nos olhos enquanto falo, que se preocupe e interesse genuinamente pelo que digo, sem desviar o olhar para o copo de cerveja nem procurar o telemóvel na mala. Tu sabias olhar para dentro de mim, acariciar-me a alma e deixar-me em paz. Sinto tanta falta de ter alguém como tu. Sinto falta de ti.

Terça-feira, Junho 28, 2011

Ainda não sei escrever

Gostava que escrever fosse como andar de bicicleta, aprendes uma vez e pronto, não custa mais. Mas escrever não é brincadeira de criança, é mais do que aprender o abcd e o aeiou, mais que intercalar consoantes com vogais, mais que juntar predicado ao sujeito. Escrever é sempre como aquela primeira vez de bicicleta, quando o teu pai te empurra sem estares à espera, aguentas-te como podes e acabas por cair. Porque as palavras são matreiras, e a cada dia, a cada texto, tens de as moldar como plasticina, tens de brincar com elas até que te apareçam no ecrã como por magia, tens de lhes dedicar todo o teu tempo, toda a tua paciência, toda a tua vida, até que lhes possas chamar tuas. E é por isso que por mais que o tempo passe, por mais que escreva, quando começo um texto e vejo o cursor a piscar sozinho, sinto que ainda não sei escrever.

Segunda-feira, Junho 13, 2011

Don't you let me go Tonight

watch my back so i'll make sure
you're right behind me as before
yesterday the night before tomorrow

dry my eyes so you won't know
dry my eyes so i won't show
i know you're right behind me

and don't you let me go, let me go tonight
don't you let me go, let me go tonight
don't you let me go, let me go tonight

don't you let me go, let me go tonight
don't you let me go, let me go tonight
don't you let me go, let me go tonight

you walk the surface of this town
the high heels above the ground
and high horses that we know
keep us safe until the night

you know them all, i know it all
stay put and play along
'cause i'm looking for my friend
now i got you, got you

don't you let me go, let me go tonight

Quinta-feira, Maio 19, 2011

Losing my religion

A verdade é que estamos sozinhos, mesmo tendo alguém que nos aqueça os pés à noite, mesmo que ao fim do dia haja café à beira mar, a verdade é que o dia começa e estamos sozinhos. Estamos sozinhos quando não atendes, quando são 4h da manhã e estás a dormir, apesar daquela frase que se costumava escrever no MSN e nas frases nicola, que um amigo atende o telemóvel às 4h da tarde e às 4h da manhã. A verdade é que tens de te desenrascar, que mesmo que todos os teus amigos digam que tens força e vais conseguir, as palavras não chegam, e há dias em que ao final do dia todos os sorrisos de todos os teus amigos também não chegam.
Estamos sozinhos, essa é a verdade.

Domingo, Maio 01, 2011

«Prometo». Não costumo falhar às promessas que te faço, e ponho toda a verdade em cada palavra, sílaba, ditongo e frase que te digo. Prometi-te que voltava a pegar na escrita e a fazer dela minha. Como se as palavras tivessem dono, assim como os corações. São apenas fragmentos que vamos segurando nos dedos, peças que nunca completam verdadeiramente um puzzle mas que insisto em tentar juntar. Se estou a falar do meu coração ou das palavras? Talvez dos dois. Possivelmente de mim. Sou um puzzle sem sentido, mas tu és a peça chave para me completar. O amor é como o vinho sabes? Quanto mais velho melhor. O nosso tem amadurecido como uma boa garrafa de vinho tinto. Mas os corações, meu querido, nunca terão dono. São almas mordazes e dífíceis, que batem ao ritmo de uma canção. A música do meu coração está sempre a mudar, ora rápida, ora lenta, ora feliz, ora triste. Ta na na na na. Ti ri ri ri. Tantas canções, todas elas ao ritmo da mesma letra do nosso amor. Mas o coração é complicado e invejoso. Há dias que sei que te amo mas o coração desencanta-se. Há dias que me apetece gritar e dizer adeus, esbraçejar e partir rumo a lado nenhum sem saber porquê. Dias de raiva e dias sem palavras. Parece que jogo uma partida em que te posso perder um dia. De encontros e desencontros tornados acaso. Sou uma alma estranha, que se entranha no amor e na paixão. Mas eu «prometo». Prometo que te amo e eu não falho às minhas promessas. Se te disser «vou amar-te para sempre», então já sabes. Para sempre é o tempo que te resta para ouvires as muitas melodias do meu coração, que tal como as palavras, terás sempre de conquistar e nunca serão tuas. Peço as letras emprestadas ocasionalmente e faço delas o meu acaso feliz. Sem elas e sem ti, sou só um fragmento, uma peça num tabuleiro de xadrez, sem nunca poder fazer xeque-mate ao rei.

um balão cheio de ti

a minha vida é um balão cheio de ti. percorro as minhas fotografias mais recentes, há anos que estás sempre presente, se não fores o olho por trás da objectiva, és o sorriso que trago na fotografia. é por ti que sorrio assim, dia após dia, quando chego a casa e a cabeça rodopia de cansaço, me sento na cama e espero a tua chamada. sou um corpo cheio de recordações de ti, de beijos, de toques, de emoções. e as roupas... percorro o armário e vejo o teu nome por toda a parte. aquele é o vestido que usei nas nossas primeiras férias, aquelas são as calças que comprei contigo, aquele é o top que adoras.
na minha escrivaninha repousa um ramo de rosas que me deste na semana passada. não há fotografias tuas no meu quarto, mas as flores não param de falar de ti, do momento bonito em que puxaste do ramo de trás das costas, e disseste "vais embora por alguns dias".
há sempre qualquer coisa, por mais banal que seja, que tem o teu nome gravado e não me deixa esquecer que existes em mim, em toda a parte. por vezes tenho medo, sabes. imagino-me nua, a olhar para todas as roupas em que deixaste o teu cheiro sem vontade de as usar, porque partiste. tenho medo que partas, um dia, e me deixes vazia. que esse balão imenso de ti que bate dentro de mim se torne pequenino e enlouqueça sem a tua presença, tu que com esse sorriso enches a sala, que no meio da multidão não deixas que me sinta sozinha.
que será de mim se não suportar o teu nome escrito por toda a parte, como diria o manel cruz numa música dos ornatos? espero que fiques, agora que deixaste a tua marca em tudo o que eu sou, seria muito pouco sem ti (e isso assusta-me... tanto).

Quarta-feira, Abril 20, 2011

"o meu amor abraça-me onde a solidão termina..."



obrigado à AR por me lembrar desta música incrível.

"o meu amor tem 30 mil cavalos a galopar no peito e um sorriso só dela..."

Terça-feira, Abril 05, 2011

o meu amor

o meu amor é esperar até à meia-noite quando chegas das aulas para te falar ensonada, para te mandar beijinhos pelo telefone e ouvir-te até adormecer, é acordar pela madrugada se adormeci sem teres chegado, é acordar à espera de uma mensagem tua, é viver toda a semana à espera de sexta-feira. o meu amor é esperar, o meu amor é o relógio, o meu amor é o calendário, é contar os dias e abraçar o fim-de-semana para que não se vá embora. é prender-te em minha casa ao domingo só mais um bocadinho, até que ficas rabugento e dizes que tens de dormir, é beijar-te mais uma vez ainda à porta e segurar-te na mão pela janela do carro, é esperar até ver o carro desaparecer naquela esquina que te engole e te leva para longe de mim (esquina malvada). o meu amor é só mais um minuto, só mais uma hora, só mais um pouco. o meu amor é saudade. todos, todos os dias, sempre saudade sempre amor.

Domingo, Abril 03, 2011

Stand up!

"Stand up
You've got to manage
I won't sympathize
Anymore.


And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me


You're alright
There's nothing wrong
Self-sufficience please!
And get to work.


And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
Army of me


You're on your own now
We won't save you
Your rescue-squad
Is to exhausted


And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
And if you complain once more
You'll meet an army of me
Army of me"

Army of me, Bjork

On repeat. Till my soul memorizes it...

cobarde

cobarde. deitado na mesinha-de-cabeceira ele espera por ti, empoeirado, esquecido, as palavras interrompidas e a verdade calada. cobarde! interrompeste a tua vida como um livro difícil de ler, baixas as armas, enrolas-te na cama, silencias os sonhos e passas pelos dias de bicos de pés. cobarde! grita, faz barulho, bate com a porta, sai para não voltar. tens medo da ressaca dessa anestesia, de adiar o amanhã de mudar e fazer mais, tens medo de voltar à primeira página e ter de escrever tudo de novo. aproveita agora que o texto está a lápis, a caneta custa mais a escrever por cima.

Quinta-feira, Março 31, 2011

runaway train, II

lembro-me que quando parti naquele comboio percebi que não tinha amado, que não sabia o que era amor. ele tinha descido as escadas da estação sem sequer esperar que o comboio partisse, sem correr atrás, como fazia sempre. lembro-me de como amaldiçoei todos os encontros, todos os telefonemas, todas as mensagens e todo o tempo que perdi em algo que, afinal, nem valia uma despedida na estação digna de filme. nem um típico nunca te esquecerei entre lágrimas ou um beijo arrebatador, final, dramático. nada que arrancasse um par de lágrimas à espectadora mais lamechas. durante anos fugi de qualquer coisa que pudesse virar outra decepcionante despedida, tão pouco fílmica. porque amar é cinema. é apaixonar-se num segundo, é todo o mundo seres tu, é ter a vida nos teus beijos e viver só para rir contigo. amar não é descer as escadas da estação e esperar pelo próximo autocarro, é correr atrás e ficar até o comboio partir. ou então não é amor.

I'm not there

recomeça, tudo de novo, o dia de ontem em repeat, as vozes de toda a semana, o tic tac de todo o ano. recomeça, e eu não estou aqui, os meus olhos voam para trás do horizonte, procuram-te mas não estás lá, onde estás? vida, sonho, o mundo na boca e a boca no mundo. onde estás? quem te roubou o arco-íris dos olhos e te deixou a chover, pequena no teu canto? tenho saudades de sonhar. e de acreditar nos meus sonhos.

Segunda-feira, Março 28, 2011

Io Sono L'amore

"Feliz? Feliz é uma palavra que não se diz, porque nos deixa tristes"

in Io Sono L'amore

Domingo, Março 27, 2011

eu e ela

somos tão diferentes. ela e o seu olhar perfeito e decidido, o seu sorriso certinho e direito sem dentes, como quem sabe exactamente o que quer. e eu, os meus olhos perdidos e distraídos, o sorriso grande de ingenuidade e inocência. eu sou uma miúda, o meu carro chia e faço um dia de cada vez, ela tem um topo de gama e sabe onde vai estar daqui a cinco anos. eu desprezo a política e as matemáticas e ela faz deles o seu dia-a-dia, eu sonho com o cinema todos os dias e para ela isso é coisa de fim-de-semana. ela conta as calorias que come e eu peço uma mousse no fim do jantar, ela gosta de ir à praia e eu prefiro o inverno porque me posso esconder nas pesadas camisolas de lã de todos os dias. não sei como ele me escolheu, sabes. e imagino como eles se devem perguntar sobre isso. os pais e os amigos. como enumeram as diferenças e me imaginam como um intervalo divertido de uma vida a sério, que ainda pode ter - com ela. eu sou a gargalhada, as férias, as noites no cinema e no quarto a ver séries. ela assina cheques e compra casas. ela está noutro mundo agora, e ele está no meu. ri-se e vive no meu desenho animado. mas quando cair o pano e o filme terminar, fica escuro e são horas de fazer coisas importantes. e os desenhos animados não existem no mundo dos crescidos.

deixei-me cair

o despertador chamava por mim mas eu não respondi. ouviam-se passos no corredor, o meu nome arrastava-se pelos pés e o cheiro do café entrava suavemente no quarto. o dia acontecia, eu deixava-me ficar. tinha o plano perfeito. enrolei os lençóis ao estrado da cama e dei nós que nem o mais hábil escuteiro conseguiria desatar. enrolei-me toda na manta mais pesada da cama, qual crepe chinês eu era só camadas e camadas de lã fofa e aconchegante. e deixei só o meu nariz de fora, uns fios de cabelo mais rebeldes que resistiram ao meu bunker, e deixei-me estar, até que se esquecessem, que desistissem de mim. quando tinha cinco anos gostava de brincar aos submarinos e mergulhava na cama a fingir que era o mar e contemplava as mais incríveis espécies de peixes entre os lençóis. gostava de me afundar na cama até ficar tão quentinho que o mundo lá fora parecesse impossível. e de ficar tão escondida que a minha mãe procurava por mim e me descobria à força das cócegas.
mas naquele dia não havia mar nem nem calor nem cócegas que me trouxessem à superfície. naquele dia deixei-me ficar enrolada nos lençóis e nas mantas até que a casa esvaziasse e se esquecessem de mim. até que o silêncio absorvesse a casa e engolisse a minha ausência. naquele dia eu era pijama e cama e estou doente e não vou trabalhar. naquele dia eu era uma criança de 5 anos que põe o termómetro no copo de chá para fingir que tem febre. naquele dia eu não aguentava mais o peso do mundo. naquele dia eu desisti.

e enchi outra vez a impressora de papel e voltei ao meu computador.

Terça-feira, Março 22, 2011

Perdida

Às vezes sinto que estou perdida dentro de mim mesma. Tal e qual um labirinto abismal de perguntas sem resposta e de palavras contidas por dizer. Perdida dentro de caminhos que ousei trilhar e de escadarias que não ouso subir. Oiço dizerem-me baixinho que sou capaz de saltar cada lanço e obstáculo dessas pequenas escadas. Oiço o meu coração bater mais depressa que um furacão, como se falasse comigo e me dissesse: «avança». Só o meu corpo, languidamente, desobedece aos meus quereres. Fica ali, uma pedra para sempre adormecida. Quero fazer ricochete dessa pedra e encontrar a coragem que perdi em algum lugar. Fazer inversão de marcha naquela rua de sentido único em que me tenho refugiado. Gritar, a plenos pulmões, o verdadeiro grito da liberdade. Sem deixar que as palavras sejam engolidas à pressa e se colem no fundo da garganta. Sem deixar que o medo me ultrapasse em alguma esquina e o embaraço me faça parar. Que fazer quando mordes a língua e as palavras não te saem?Quando te fechas na concha do silêncio em vez de arrastares as ondas ao teu redor? Quando vais começar a lutar? Quando vais deixar de te perder nas rotas de ti mesma e vais perguntar a alguém o caminho de volta? De volta ao que mereces e não ao que aos outros esperam de ti. Ainda não é tarde para encontrares o caminho de volta.

Terça-feira, Janeiro 11, 2011

Isto não é um poema

Isto não é um poema. É uma coisa qualquer. É um tempo sem regras obscuras e sinais do passado. É uma mancha solitária na prateleira das letras, um pássaro devorando a liberdade num voo de asas abertas. Não se cansa porque a liberdade não dorme, mas vacila no alto do céu. Isto não é um poema, são mais que palavras, são letras que se juntam para procurar o sentido da própria vida. Para entender porque ansiamos tanto ganhar e porque é que há tanto em jogo quando estamos a perder. Tudo isto só posso dizer porque porque não falo na língua da poesia, mas na língua universal dos homens. Palavras com travo a sal de um povo de marinheiro encurralados entre as ondas. Procuram a saída mas só há mar e mar e amor neste rio de emoção dos homens, que tentamos decifrar com palavras, meras junções ocas e opacas de letras, sons agudos, graves, esdrúxulos. Vogais e consoantes. Não escrevo um poema, junto letras e letras na tentativa desesperada de me reencontrar com o passado e de buscar o futuro. Alimento-me de ilsusões desiludidas, afogo-me em palavras que flutuam nas bocas dos outros e a que me agarro. Mas o barco das acções já zarpou. Restaram bóias de coisas ditas que nunca se sentiram. Uma enxurrada de fraudes e de letras juntas às cegas por aí. Não escrevo um poema mas um apelo às palavras ditas sem razão. Na língua universal dos homens, a língua do amor e do coração. Amor tenho eu de sobra. E que dizer das palavras?Tenho-as aos molhos, prontos para empacotar.

Sexta-feira, Dezembro 17, 2010

Como eu escrevo

"Como não escrevo. Não escrevo sem lavar os dentes, as palavras ganham sarro e devem sair frescas da boca para a ponta dos dedos. Não escrevo sem pensar que são quê, cinco da manhã, voltaste a acordar antes do sol e é bom que tenhas algo a dizer na confusão do mundo. Não escrevo de barriga cheia ou com vestígios de ressaca. Reduz o horário de escrita do ano, mas nada a fazer. Se começas a ficar tonto, come as palavras que estão a mais, há sempre muitas. Quando não aguentares o jejum, se a própria fome te engorda a frase, vai ao frigorífico e repõe o açúcar e o sal no sangue.



Não escrevo sem pensar nas possibilidades do ridículo de escrever, que nunca acabam. Não escrevo sem pensar que posso ser mais uma pessoa que devia fazer outra coisa na vida. Não escrevo sem perceber que então ia fazer o quê?


Agora como escrevo, se conseguir. Escrevo contra a maldade e a ignorância que estão dentro de mim. Escrevo também a favor delas, são adversários magníficos a quem foram dados muitos anos de avanço.


Escrevo a pensar nas formas impossíveis do amor, se for preciso inventa-se mais uma verdadeira.


Escrevo contra a escravatura das religiões, a obrigatoriedade da fé que tanto mal faz às crianças da Terra. Tenho respeito por Deus, mas se existe é má pessoa. Eu mudava de atitude, com tantos poderes.


Escrevo a combater as conspirações da realidade, a meio desta frase lá está ela a conspirar, algures. Apesar de tudo, acredito que a vida triunfa, não escrevam Fim antes de acabar a história. Sou um optimista mas não percebo porquê. E se isto fosse fácil era para os outros, como dizem os marines e disse uma pessoa que amei. Escrevo porque me pediram para escrever e porque me pediram para não escrever e foram todos bons conselhos de gente formidável. Escrevo porque tenho muitos amigos e amigas e alguns deles são um pouco malucos. E tenho filhos e pais e irmãs.


Escrevo porque viajei e vi injustiça e sofrimento. Não serve de nada escrever sobre desgraças, ou quase nada, mas algum nada temos de fazer. Muito do sofrimento que vi é meu e português e mundial. Também faz rir, mas acredito que o humor é aprofundar, não aligeirar.


Escrevo contra as pessoas parvas.


Escrevo porque as mulheres são bonitas e cheiram bem. E pelos vivos e pelos mortos, as pessoas vivem e de repente morrem-nos. E o mar tem peixes e os bosques pássaros e o esgotos ratos. Escrevo porque é uma profissão interessante, há de certeza melhores, mas não me calharam nem podia ser."

Rui Cardoso Martins, em Time Out Lisboa. Autor de Deixem Passar o Homem Invisível, de 2009

Como mudar para um país diferente

Um dia ele olhou para mim, e fez-me feliz. Ele, com o seu olhar maroto mas tímido, misterioso como só ele. Abriu-me uma janela para o seu mundo, mas eu queria entrar pela porta. De tapete vermelho estendido, triunfante, qual Napoleão, queria conquistar o mundo dele e declará-lo meu. Para mim parecia tão simples como entrar numa loja e comprar qualquer coisa. E dizer que era minha. Para mim era óbvio que se eu gostava dele, ele tinha de gostar de mim. Mas percebi, para desespero da minha arrogância e temperamento impestuoso, que não era bem assim. Que amar alguém é como mudar de país. Tudo acontece aos poucos e a seu tempo. Primeiro temos autorização para nos mudarmos, deixam-nos entrar. Arrendamos uma casa só com portas e janelas. Compramos uma cama e decoramos a nossa nova morada, o número de telefone. Mas ainda não sabemos falar a língua. Aprendemos a dizer bom dia, boa tarde, bom almoço, mas ainda é tão pouco. Depois descobrimos que eles não servem pequenos-almoços depois do meio-dia. Acordamos mais cedo, mudamos rotinas. Descobrimos que ali o tempo é demasiado quente, renovamos o armário. E aos poucos a cidade que pintávamos todos os dias, de ruas e caras novas, a cidade em que volta e meia nos perdíamos e que nos frustrava porque pensávamos que já tínhamos decorado o caminho para casa, torna-se familiar. As ruas tornam-se amigas e já não nos confundem, o caminho é automático e simples, tudo se torna mais fácil e habitual.


Amar alguém é assim. Amar não é entrar de rompante e já saber o que ele costuma guardar em cada gaveta. Amar é descobrir, todos os dias, como se fosse o primeiro, é entrar em casa de bicos dos pés para não o acordar, até um dia deitar no sofá dele quando ele não está. Amar é assim. Um país, uma cidade, uma vida nova, que aprendemos a viver todos os dias.

Quinta-feira, Dezembro 16, 2010

herói ou vilão

O meu avô é como um herói dos livros. Nunca o conheci bem e, no entanto, sempre ouvi falar dele. Quando nasci, ele já não estava em condições para me contar as suas aventuras do passado. Um avô tem sempre histórias para contar. Mas o meu tinha mais. E por isso tenho pena de ter sempre ouvido na terceira pessoa as suas aventuras e desventuras pelo mundo dos homens. Quando me contavam quem tinha sido o meu avô, eu olhava para ele, de olhos arregalados, aquele velhinho que se fazia pequenino e frágil no sofá da marquise, encolhido em si e de mãos cruzadas no peito, de olhar fixo num ponto invisível. Dizia ele que era um menino pequenino, que não sabia nada da vida, e que queria fugir. Estas eram das poucas coisas que ele dizia. Um dia, depois de muitas histórias que me contaram sobre ele, percebi.
O meu avô foi de pequenino trabalhar para uma casa de uma família rica da aldeia, onde aprendeu a ler e a escrever, a escutar às portas dos meninos ricos que aprendiam em casa. Também aprendeu a tocar acordeão, piano, guitarra e flauta - tudo sozinho. Os meninos tocavam e ele imitava. A música corria-lhe pelas veias. Foi também naquela casa que aprendeu o ofício de barbeiro, que naquele tempo envolvia não só aparar barbas e cortar cabelos, como curar feridas e agrafar cabeças partidas. O barbeiro era uma espécie de enfermeiro naquelas aldeias a dias de distância dos hospitais.
Quando a idade lhe permitiu, abriu uma barbearia e inventou um novo ofício: o de taberneiro. Na taberna no meu avô, tanto se serviam copos como se faziam barbas e se agrafava a cabeça do miúdo que caiu a andar de burro. Nos serões da taberna do meu avô, ainda se liam cartas de familiares emigrados e se resolviam burocracias: afinal o meu avô era dos poucos que sabia ler naquela aldeia. Era para o meu avô que todos se viravam, na alegria e na tristeza, para um copo de vinho ou uma guitarrada, ou para ler a carta do filho que estava em França.
Mas o meu avô cansou-se cedo da vida de taberneiro e barbeiro. Os livros alimentaram-lhe ambições, e trocou a taberna por um contacto em França. Partiu, contra a vontade da minha avó, a minha mãe e os meus tios, que se tinham habituado aos serões da taberna, em que ele os sentava no balcão e acompanhavam com a voz o meu avô à guitarra. Quando ele partiu para França, foi também quando a minha mãe e os meus tios, que devido ao negócio do meu avô tinham conseguido ir todos para a escola, começaram a ver o seu futuro mais enevoado. A minha mãe sonhava ser professora de português e francês, e já estava no 5º ano, num colégio na Guarda, quando a minha avó percebeu que não dava mais e teve de tirar os filhos da escola. Eram seis crianças, todas com livros e quartos no colégio para pagar, que na aldeia não havia mais que a escola primária.
Entretanto, o meu avô tinha aprendido a falar e a escrever francês, devido à facilidade que tinha em aprender, e arranjara um trabalho na fábrica da Vichy. Mas só trabalhou até ganhar dinheiro para comprar uma bicicleta e atravessar França, Suíça e Alemanha em duas rodas. Viveu durante vinte anos como um bon vivant em França, de peito e sorriso embriagados pela liberdade.
Às vezes penso em como gostava de fazer o mesmo que ele, deixar tudo e partir, começar de novo e largar as amarras. Mas depois lembro-me como a minha mãe não pode ser professora de português como sempre sonhou, e o meu tio Eusébio veio para Lisboa carregar mercearias desde o Terreiro do Paço ao Castelo de S. Jorge. Não consigo decidir se o meu avô foi um herói ou um vilão. As suas histórias fazem-me vibrar de curiosidade, e tento inventar a vida que levou em França - dizem que se deixou enamorar no Molin Rouge... Mas ao mesmo tempo penso na minha avó, que envelheceu a trabalhar de sol a sol no campo, e a minha mãe, que tanto queria ensinar, e não quero saber mais histórias sobre ele.
Gostava de ter conseguido falar com ele, saber se valeu a pena. Gostava de saber se valeu a pena voltar para o amor-ódio dos filhos e da mulher, para se abandonar num sofá de uma marquise. Gostava mesmo de o ter conhecido.

deixem-me

Deixem-me só seguir por aquela estrada lá ao fundo. Não sei onde leva mas sempre é um desvio deste trilho onde fiquei, sem mais opções do que seguir em frente. Por vezes penso em ir pela esquerda mas não me deixam. Eu quero aquela outra estrada, aquela que não se sabe onde termina, aquela onde pode haver outro mundo para mim. Porque este já não sei o que é.Apenas uma sucessão de pressas para lado nenhum, de esforços que se traduzem na mais estonteante fumaça já vista. Estou cansada do mundo. Este não foi o final para a história que escrevi, para o argumento da minha própria vida. Não posso ficar por aqui, tenho de achar outros finais antes que o mundo me mate de ressentimentos e pesadelos. Parece que parei de viver e vivo em função de um sonho que o deixou de ser. Nunca voltar atrás. Digo a mim mesma. Mas o que é que tu fazes quando te apercebes que os teus sonhos nunca passaram de miragens e que a realidade é tão difícil?Será que atas os sapatos e corres, será que te acostumas a viver numa espécie de filme de suspense até que te tirem a respiração no final? O que é que fazes quando te apercebes que queres mudar mas não consegues? Atei os sapatos, estou pronta para a maratona da vida mas a vida prefere obrigar-me a correr. O mundo continua a girar a uma velocidade que não consigo acompanhar. Tens de ser luz, som, para andar assim tão rápido. Apagaram-me a luz e cortaram-me a voz e as asas. Só me restou o teu amor para me lembrar que ainda há sonhos doces no planeta. Continuo a ver a tal estrada ao fundo mas ainda não consegui lá chegar. Quero desviar-me do trilho, quero ir po ali!Aquela estrada. Deixem-me sair daqui. Sufoco, morro, intoxico-me. O tempo passa por mim a fugir e escapa-me entre os dedos como areia. Só o teu amor. Ainda. E as incertezas onde outrora floriram rosas de uma nação. Rosas, dizia o poeta. Porque é que uma flor tão bela teria de ter espinhos? E porque é que alguns caminhos ficam tão longe uns dos outros?