sábado, agosto 13, 2016

Cartas ao meu tio - VIII

Passou um ano, querido tio. Passou um ano agora, do malogrado 8 de agosto de 2015, esse sábado quente de agosto em que acordei para celebrar contigo e o resto da família o regresso da tia Betty, que acabava de chegar de França, quando o telemóvel tocou e destruiu os planos todos, era a maldita chamada que me anunciava que não, aquele Verão não seria de reencontros, mergulhos felizes no mar, brindes intermináveis nas festas de Aldeia Velha, não, aquele Verão seria de tristeza, saudade, olhos perdidos e roupas pretas numa aldeia em festa, onde nós éramos a única família que não ria, não brindava - faltava um braço de copo ao alto, um copo cheio de risos e vinho fresco, o teu.
Passou um ano e faltam-me as palavras. Encontrei-me num texto de alguém que, como eu, se encontra nos braços dos tios, dos primos, à mesa com a família. Alguém que, como eu, perde o chão quando desaparece um dos seus. "Eu achava que a vida trazia GPS incorporado mas não traz. E quando desaparece, assim, uma referência que sempre lá esteve, eu perco-me e dificilmente me volto a achar, até posso voltar ao caminho mas o caminho nunca mais é o mesmo e fico perdida de qualquer maneira. Morrem-me pessoas e eu morro sempre um bocadinho com elas, as pessoas para quem eu sou a Liana, a miúda, as pessoas para quem eu posso ser só eu. A vida não tem satélites que ajudem a recalcular o percurso mais rápido, mais fácil, onde se pagam menos portagens ou onde cheguemos mais rápido ao nosso destino. A vida não tem sequer mapas ou bússolas e às vezes temos que nos resignar a prosseguir pelos caminhos confiando na fé e nas estrelas. Talvez seja por isso que acredito naquilo que disse à Ana: "O tio foi para o céu e mora agora numa estrelinha". Que a sua estrela, como a do meu avô e da minha avó, me guie sempre que me perca já que tenho a certeza que a vida não vem com GPS incorporado." (Da Pólo Norte, no seu Quadripolaridades)

Saudades, meu tio. Tantas saudades, para sempre.

quinta-feira, julho 21, 2016

Coisas

 Coisas simples para fazer alguém feliz.  O som de uma música que torna os nossos pés efervescentes, com vida própria, a viajarem dentro de si mesmos na descoberta da alegria. O som dos pássaros e o sol a adormecer lá longe, no horizonte. A areia da praia a escorrer nos dedos e os pés dentro do mar quando o calor se faz sentir. Coisas felizes para abençoar a alma. Um livro para devorar, para nos manter acordados pela madrugada fora, um riso fácil a preencher os  nossos silêncios, um caminho difícil que no fim valeu a pena.  A beleza de cada manhã, cheia de novidades e promessas para encontrar e descobrir, em ziguezague. Porque a vida nunca poderia ser em linha reta pois não? Discutir mas fazer depois as pazes. Rir por algo que nem sabemos bem o que é. Coisas que nos aquecem o coração. Uma chávena de chá e uma lareira acesa. O ronronar do gato e o cheiro a pão acabado de fazer. Uma nova história. Coisas que não são apenas coisas. São a nossa identidade quando nos sentimos prestes a perder o chão. Como se o mundo nos quisesse engolir. O mundo é o bicho papão e quer-nos devorar. Vou-me agarrar às coisas, pequenas, ínfimas, partes de mim para não esquecer quem fui, quem sou. Para construir  e reconstruir a alegria sempre que ela me quiser fugir. 

terça-feira, junho 14, 2016

As ruas da minh'aldeia

Percorro as ruas de calçada da minha aldeia, sentindo a cada passo a energia de cada beco, quelhe ou travessa, as histórias que os caminhos guardam, beijos roubados, garotos nas suas correrias, velhotes curvados a conduzir carroças, mulheres de xaile na cabeça e vestidas de preto, encerros e bailes pela madrugada adentro. Nós vamos partindo e outros pés percorrerão a nossa calçada, que testemunha em silêncio o ir e vir das gerações de Aldeia Velha.
Dou volta à aldeia e vou encontrando alguém que se queixa dos joelhos ou da saudade - longe vai o tempo em que tinha de ziguezaguear entre burros, vacas e carroças para passar pelas largas ruas da minha aldeia. Chego à porta da eterna casa da avó, apesar de ser agora do Tio Gustavo. Entro pelo curral vazio, percorro o chão empedrado e lembro-me de quando era de terra e estava coberto de palha, quando as galinhas se passeavam livremente e todo o curral era um gigantesco ninho de ovos. A loje dos animais está vazia: já não é preciso burra para lavrar os campos nem de porcos para o Natal. Estranho o silêncio de uma casa que sempre foi barulho e vida. Entro pela garagem e percebo que tem o mesmo cheiro, talvez devido aos anos e anos em que a avó ali guardou as cebolas e batatas que cultivava no "tchão", o prado Ana Ramos (ou como diz lá, Prad'naramos). Descubro aí reminiscências de um tempo que não volta mais: a albarda da burra, a chave grande e ferrugenta do portão antigo, a cadeira de plástico do avô, a cesta das batatas, a tenaz velha do lume. Estas pequenas recordações levam-me de volta à altura em que os meus avós eram vivos e eu pensava que assim seria para sempre, a casa da avó na aldeia era um paraíso só meu do que me fazia mais feliz: brincar ao boi com os meus primos, levar a burra ao Prad'naramos com a avó e o Tio Gustavo, a chegada da família de França e os grandes banquetes da avó, os dias quentes de capeia e de festa no mês de Agosto.
Sigo para casa do Tio Eusébio, que hoje faz 59 anos. Estamos quase todos presentes: uns vieram de Lisboa, outros do Porto, fazemos quilómetros com gosto porque sabemos quão valiosos são estes momentos, quão importante se torna cada vez mais celebrar a vida dos nossos tios. Sentamo-nos à mesa e trocamos sorrisos contidos, ninguém diz nada mas toda a gente sente a ausência do Tio Gil. Ocorre-me o curral da avó e nas ruas quase vazias da aldeia. Respiro fundo e encho o copo de sangria. Brindamos ao meu tio. A bebida fresca enebria o medo do tempo que há-de vir e a saudade do que já foi, prendendo-me finalmente ao presente. Rio, brinco com os meus primos mais pequenos e delicio-me com as sobremesas da minha mãe e da minha tia. Afinal, a aldeia ainda é o paraíso do que me faz mais feliz, mas agora compreendo que, mais que um lugar, é por eles que regresso sempre. Pelos sorrisos e a felicidade dos meus.

terça-feira, abril 05, 2016

Cartas ao meu tio - VII

Tio, amanhã farias anos. Hoje apenas quero dizer-te: "Nós só morremos quando ninguém se lembra de nós" (António Lobo Antunes).

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Quase uma da manhã. Ela não dorme. Com uma caneca de chá na mão, contempla a chuva que cai lá fora, distraindo o turbilhão de pensamentos com o mau humor que vem dos céus. Será só isto, afinal? "Passamos a maior parte da nossa vida frente a um computador", disse-lhe uma colega hoje, naquilo a que chamam emprego. Passam os dias sem novidades para contar à noite, fazem-se horas extra de olhar vazio, o ano passa, os ordenados chegam, as contas pagam-se. E de repente, os amigos aparecem na televisão, na capa da revista, compram casas e têm bebés. Ela não sabe se já quer brincar aos adultos. Uma vida de gente grande, a correr da creche para o trabalho e daí para o quarto do bebé. Não sabe o que quer. É o problema desta geração de meninos mimados, diriam os tios dela. Têm razão, claro. Antigamente iam todos trabalhar e pronto, não havia tempo para choraminguices. Mas falta qualquer coisa, essa paixão dos tempos de faculdade, a inspiração dos 18 anos, a vida a vibrar nos dedos.
Ela deita a cabeça na almofada do sofá, e as mãos, outrora loucas de ideias e projetos, jazem encolhidas na barriga - a sala está gelada. "Gelada como a minha alma", pensa ela, melodramática. Quanto vale o pijama quentinho, o robe polar, o chá a escaldar. Ela fecha os olhos e tenta sonhar. Vai. Os 18 anos não estão assim tão longe. Foram só há mais de dez anos...

sábado, janeiro 09, 2016

Ontem a minha mãe disse-o. De repente, fugiu-lhe dos lábios o que há seis meses evitamos dizer. Soou-me a algo errado, surreal, soou-me até a um erro de gramática, como se o sujeito e predicado não jogassem um com o outro. Quando ouvi, percebi: ainda não caiu em mim. O tio Gil morreu. Foi isso que ela disse, num de repente, vírgula isto e aquilo da conversa que estávamos a ter. O tio Gil morreu, por isso, tal e tal. Mas antes da vírgula está tudo errado, risca e volta a escrever por favor. E saiu-me, eu tenho o cérebro colado à boca: que estranho isso que tu disseste. A mãe limpou os olhos e eu pensei: pronto, já fiz asneira, podia ter deixado passar, mas não, ainda pisei mais na ferida. E continuo sem conseguir deixar de escrever sobre isso. Desde aquele quente sábado de agosto, véspera do tão aguardado encontro de família, que não compreendo a que realidade fui parar. Parece que entrei para uma nova dimensão, essa de ter primas sem pai, a minha mãe sem irmão, os meus tios cinco quando sempre foram seis, quando o tio Gil partiu, mesmo ao jeito dele, de súbito e sem avisar, porque ele nunca gostava de incomodar.
Ontem a minha mãe disse-o e eu agora escrevi-o. Mas continua a parecer mentira.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Cartas ao meu tio - VI

Sabes tio, às vezes não sei se ter recordações é bom ou mau. Enquanto andamos no corropio da rotina, o stress do emprego e o que vai ser o jantar, ou se chegamos a tempo àquele encontro de amigos porque a segunda circular está um terror e ainda por cima chove, não nos lembramos muito. Nesses dias, na nossa cabeça só há espaço para o cesto da roupa suja a abarrotar, as calças por passar a ferro e a ração do gato a terminar. Esses dias, que parecem nunca mais terminar, são afinal mais fáceis que os outros: aqueles em que paramos para escrever a lista de Natal e percebemos que há menos uma pessoa a quem oferecer prenda, menos um lugar à mesa, mais um acordeão abandonado no canto da sala. Já não bastava o do avô, agora também o teu jaz mudo e calado, para nos lembrar que a música abandonou a nossa mesa.
Sabes tio, o Zé ligou-me de Aldeia Velha e disse que amanhã, faça chuva ou faça Sol, vão todos à lenha. Vão limpar o prad'AnaRamos, o terreno da família - o nosso "tchão". Só agora percebo porque chamam "tchões" aos terrenos, por aqueles lados. Aquela aldeia, aquelas pessoas, são o chão das nossas poucas certezas. Foi desses "tchões" que brotou a nossa vida, a sopa que com tanto amor a avó nos fazia, com os legumes que cultivava de mãos calejadas e secas do Sol. Essa vida, a dos "tchões" da nossa aldeia, continua, mesmo sem ti. É injusto, eu sempre disse que podias passar a reforma na aldeia, a fazer crescer os legumes e batatas que traríamos para a cidade, para fazer inveja aos amigos que pagam dois euros por cada quilo de qualquer coisa num mercado biológico. Mas já te queixavas das costas, das pernas, não podias cumprir esse teu (meu?) desejo. Enquanto penso nisto, percebo porque tanto choramos quem nos deixa. São as saudades, é a tua voz longínqua, é o calor do abraço que foge, mas é também, e sobretudo, o não ter feito, o não ter dito e redito. Arrependo-me de não te ter ligado mais vezes, de não saber de ti durante semanas, julgando que obviamente estarias bem, arrependo-me de não te ter perguntado porquê, porquê?, porque é que não te preocupavas contigo e não deixavas o que te fazia mal. Nunca entendi, mas sabia que não devia falar contigo sobre isso. Não tivemos essa conversa, mas podia ter-te convidado cá a casa, esta onde também viveste, há trinta e tal anos, e que eu renovei há um ano. Choramos por aqueles que nos deixam porque não fizemos tudo o que devíamos, e a culpa dói tanto ou mais que a saudade. Por isso é que quando penso em ti, para fazer as pazes comigo mesma, lembro mais os tempos em que me ensinaste a tocar órgão e menos os últimos anos. Dos últimos tempos, agradeço ter passado os aniversários contigo, por ter insistido em fazer a tua festa de 60 anos, mesmo quando disseste que não querias e nem ias aparecer - odiavas ser o centro das atenções, até quando te pedíamos para tocar um pouco de acordeão ou guitarra.
Parece demasiado cliché dizer que devo aprender algo com a tua súbita partida, mas sei que é o que devo fazer. Às vezes apareces-me em sonhos e dizes que estás bem. Quero acreditar nisso, e ficar em paz também. Esse dia chegará, espero.

sexta-feira, novembro 27, 2015

O meu tio Gustavo

Na véspera do dia do meu nascimento, roubaram o carro ao meu tio Gustavo. Ele e o meu tio Gil também viviam lá em casa, e todos assistiram à cena, de camarote na varanda. Quando o seu querido Datsun se afastava, com mãos que não eram as suas ao volante, o tio Gustavo largou a correr pela rua, de pantufas, atrás do ladrão. Foi quando rebentaram às águas à minha mãe, enervada com o roubo. A história, que se conta quase todos os anos por altura do meu aniversário, lembra-me sempre como a minha vida ficou para sempre ligada à do meu tio Gustavo, um dos mais novos dos meus tios. O meu tio Gustavo, irmão mais novo da minha mãe, é como um irmão mais velho para mim e um irmão mais novo para o meu pai. Trabalha com ele e durante muitos anos, almoçava connosco lá em casa, e para mim era como se ainda ali vivesse. Na verdade, ele nunca deixou de ser lá de casa, tal como o resto dos irmãos da minha mãe nunca deixam de ser de casa por mais que se casem, se divorciem ou vão viver para a Austrália. Mas a verdade é que o tio Gustavo, por estar sempre por perto, teve o trabalho mais ingrato de ser tio, a parte mais aborrecida: quando o meu pai não me podia levar à escola, ia o meu tio; quando não me podia levar ao médico, ia o meu tio; quando o meu pai estava na aldeia e o meu carro avariou no meio de uma rotunda, foi o meu tio que me foi acudir. A verdade é que sempre esteve e está implícito que o tio Gustavo pode quando o meu pai não pode, como se o tio não tivesse nada melhor que fazer. Usamos e abusamos da boa vontade do tio Gustavo, e ele nunca nos diz que não.
O tio Gustavo é solteiro, nunca casou mas tem dez filhos: os sobrinhos, de quem ele sabe todas as datas de aniversário, o ano em que terminámos a faculdade (talvez porque tenha sido dos poucos a aturar a bênção das fitas toda até ao fim, essa cerimónia que nem os nossos pais aguentam), e o ano em que o primeiro sobrinho-neto nasceu. Ele não precisa do facebook nem de uma agenda para se lembrar. Felizmente, e apesar de ser uma sobrinha abusadora, também não preciso do Facebook para me lembrar que o meu tio Gustavo faz anos hoje, 28 de Novembro, quando o tempo e os centros comerciais se preparam para o Natal. Hoje é dia do tio Gustavo. Hoje é dia do tio Gustavo porque ele foi ao lançamento do meu livro, quando quase toda a família teve de ficar a trabalhar. Hoje é o dia do tio Gustavo porque ele ficou triste por não o ter convidado para a defesa da minha tese, por ser demasiado entediante, e ouvir como resposta "mas eu ia à mesma". Hoje é dia do tio Gustavo porque ele foi ao lançamento do projeto da minha prima mais velha, e até esteve atento aos pormenores mais aborrecidos, enquanto eu pensava no calor que estava nesse dia. Hoje é dia do tio Gustavo porque ele sorri de forma tão feliz quando nos tira uma foto ou grava vídeos a soprar as velas no aniversário (é sempre ele o único que se lembra de pegar no telemóvel e tirar fotos nestes momentos). Hoje é o dia do tio Gustavo porque ele faz-me rir quando diz que as festas da aldeia são todas iguais e não valem nada. Hoje é o dia do tio Gustavo porque todos os dias para ele são dias dos sobrinhos. Um tio assim tem de ter direito a um dia, pelo menos. Feliz dia, tio Gustavo. Gostamos muito de ti! Bem haja por seres o mano mais velho e o segundo pai dos sobrinhos que te dão (alguns) cabelos brancos.

domingo, outubro 25, 2015

Cartas ao meu tio - V

Olá, tio. Tu que não tinhas pressa de viver, como podes ter partido tão cedo? Passo à porta da tua casa, espero que as tuas filhas desçam as escadas, e imagino-te na cozinha, a comer de pé como tantas vezes te vi, já reformado mas ainda com o prato equilibrado nas mãos, como se ainda fosses sair para o turno da noite. Imagino que ainda lá estás e isso conforta-me, sinto a tua falta nos almoços de família e penso que estás apenas atrasado, como sempre, ou a fazer dois turnos para acumular folgas. Sabes, tio, tenho receio que este golpe tenha sido demasiado forte para a minha mãe. Continua a vestir-se de preto, e voltou a tristeza que lhe marcou o olhar durante anos, depois de os avós terem partido. Voltou e escureceu-lhe os olhos verdeados, agora quase sempre castanhos de mel. É o olhar de quem nunca se consegue esquecer que, afinal, a morte está sempre ao virar da esquina. Nas veias da minha mãe não pulsa o sangue, mas toda a vida dos seus irmãos e pais. Toda ela é feita de memórias e histórias eternas, que só ela sabe contar. Sabe de cor o nome de todos os cinquenta e seis primos que vocês tinham, onde moravam e o que lhes aconteceu. Tem os seus números de telefone e, ao fim de semana, muitos telefonavam e deixavam nos seus ombros as suas dores e males de espírito. Lembro-me de me contar como o meu tio avô António lhe ligava com queixas da mulher, e logo a seguir, a tia lhe ligar com queixas do marido. É assim a minha mãe, a eterna confidente de uma família de infinitos primos direitos e afastados, o fio de crochet que liga a manta de retalhos que nós somos. Agora o telefone lá de casa toca menos. Eras tu, a prima Leonor, a tia Florinda, os tios António e Ines, e mais, são os xailes pretos que a minha mãe carrega todos os dias. São as saudades que as partidas prematuras lhe deixaram. E ela suspira e pega no telemóvel, lembra-se da sua responsabilidade de matriarca da família e liga à prima que está grávida, pergunta como está, quer ver a ecografia e saber o sexo do bebé. Volta a sorrir e a família, como o sonho, pula e avança. Espero que nunca deixe de sorrir assim, animada pelo toque do telemóvel ou da campainha de casa. Mas é certo que o sorriso que guardava para ti, ela não dará a mais ninguém, tio.

terça-feira, outubro 13, 2015

O peso dos sonhos


Qual é o peso dos sonhos?
Serão tão leves como as folhas de outono que se agitam ao vento e se desprendem das árvores sem qualquer dificuldade? Ou serão pesados como paredes, das que abanam mas nunca vão cair?
Ou será que o peso dos sonhos depende de como os alimentamos?
Se assim for, os meus sonhos pesam toneladas, porque todos os dias eu trago comigo mais um pequeno sonho e um objetivo. Todos juntos deviam ser impossíveis de transportar. No entanto, sei que estão comigo a todas as horas do meu dia. Por vezes, são pequenas coisas. Tão pequenas que nem parecem ser sonhadas. Algumas acontecem e aí faz-se magia. Outras, são apenas sussurros, como se falasse debaixo de água. Sinto que é demasiado sonhá-las. Há sonhos tão preciosos que tenho medo
que fujam de mim. Os mais pesados e os mais leves. Enquanto eu trouxer estes sonhos junto do coração, nunca vou morrer verdadeiramente. Vou estar sempre bem viva, bem acordada, com a vida a mover-se aos meus pés. Terei sempre um novo caminho, um novo sorriso. As tempestades não me vão perseguir e o medo não me vai vergar. A chuva não me vai aquecer e o sol não me vai molhar. E não me digam que é ao contrário. Afinal, quem manda nos meus sonhos sou eu. E já custa imenso não os deixar cair. 

segunda-feira, setembro 07, 2015

Cartas ao meu tio - IV

Um mês. Passou lento e doloroso o primeiro mês da tua partida, o teu nome e a tua foto ainda nos nossos contactos de telemóvel e facebook - é tão estranho, mas ainda assim apaziguador, como se ainda cá estivesses. Ainda não acredito que partiste, que nos trouxeste de súbito a dor que quis adiar por muitos mais anos.
Passou um mês e compreendo melhor agora aqueles clichés sobre passar tempo com a família, telefonar, enviar uma mensagem com um beijinho... Quando partiste, amaldiçoei-me porque a última vez que falei contigo foi há quase dois meses, quando te encontrei em Vila Franca. O trabalho novo, o tempo a voar, e não falámos mais. Sabia que ia estar contigo durante as férias, que te irias sentar connosco à mesa a todas as refeições do mês de Agosto. Mas agora não servem de nada estas palavras vãs, que tu partiste sem que te dissesse o quão importante foste para mim, para todos. Disse-te algumas vezes que admirava a tua inteligência, o teu génio musical. Insisti muitas vezes contigo para que passasses a reforma a dar aulas de música, ideia que rejeitavas com uma gargalhada - "Só tu, Fátima". Atormenta-me pensar como eras humilde, simples, como nunca reconhecias o teu talento. A tocar acordeão, baixavas o olhar, tímido e inseguro - o avô fazia o mesmo, nos seus últimos tempos.  Nós víamos como as mãos já te tremiam e que isso te enervava, mas nem te dizíamos nada. Ficou muito por dizer, e é talvez por isso que agora nos custa tanto - de formas diretas ou indiretas, tentámos mostrar-te que estávamos preocupados contigo, mas que direito tínhamos nós de questionar o teu modo de vida, o que escolheste para ti? Tento serenar o turbilhão de pensamentos e emoções que me ocorrem quando penso em ti, o que fiz e disse e podia ter feito, mas tenho a certeza que, se voltasse atrás, seria tudo igual. Cada um é como cada qual e tu eras o nosso Tio Gil. E amamos-te profundamente tal como eras, tal como escolheste viver.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Cartas ao meu tio - III - O que foi não volta a ser

Esta semana vi uma foto da casa da avó no facebook. Já não é a mesma casa da avó: a varanda está despida dos mil e um vasos de flores bonitas que ela cuidava, e a porta está fechada. A porta de casa da avó nunca estava fechada, só à noite. Durante o dia, a porta ficava escancarada, convidando quem quisesse a espreitar a marquise com o sofá onde o avô se deitava, e a entrar a qualquer hora.
Quando a avó e o avô partiram, passei muitos anos sem conseguir lá entrar. Não era a mesma casa: a avó não me viria receber à porta e o avô não chamaria passarito à minha irmã. No início, fechava os olhos quando chegávamos à aldeia, pois a primeira imagem que vemos é aquela frondosa vivenda a abrir os braços à nossa chegada, agora vazia dos braços que nos recebiam. Os meus pais já tinham uma casa nova em Aldeia Velha, o que nos deu o distanciamento necessário para continuar a visitar a aldeia e, aos poucos, deixar de sofrer tanto com a partida dos avós. Habituámos-nos, também, a pensar que agora era "a casa do Ti Gus e do Ti Gil", a porta de onde vos víamos sair, sempre bem arranjados e cheirosos (seguindo o legado do avô, todos os meus tios são aprumados, mas o mais vaidoso eras tu, tio, que nunca saias de casa sem pentear muito bem o cabelo e engraxar os sapatos).
No dia da cerimónia das tuas cinzas voltei lá a casa. A cozinha está igual, a lareira onde eu e a avó adormecíamos à conversa pela madrugada, o fogão onde ela fazia os melhores petiscos e sobremesas, e na bancada o rádio onde ela ouvia o terço, todos os dias às 19h. Tio, tu continuaste passar ali as tuas férias, a sentir a presença dos avós em cada quarto. De certeza que percorreste muitas vezes aquele corredor pensando nos Natais que ali passámos todos juntos, eu e as tuas filhas a pendurar meias à lareira. O futuro parece-me tão triste sem isto, os cheiros da casa da avó, a música do teu acordeão, as tuas bochechas rosadas à mesa (mesmo sem teres bebido nada, eu sei!! A tua Marília é igual). Tenho medo de sermos menos, tenho medo que os meus filhos já não saibam o que é isso de ter uma família com muitos tios e primos à mesa. Fico tão triste quando penso que já só te irão ver a tocar num vídeo ou em fotografia... não é justo, simplesmente não é! Tanta gente má que Deus podia tirar da minha vida, e escolheu-te a ti, tio, que tanto gostavas de mim... se me faltam os meus tios ou os meus pais, falta-me o meu berço, o meu refúgio, o meu chão. Não sei o que sou sem quem me conhece e me faz feliz.
Mas como diria a música "o que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira" ... Deixa só que te possamos recordar, dia após dia, aniversário após aniversário. Deixa que te veja nas tuas filhas, tão parecidas contigo. Deixa-me ter para sempre a recordação do teu sorriso verdadeiro e sereno, que me ajuda também a acalmar.
Tenho tantas saudades!!!!

sábado, agosto 29, 2015

Cartas ao meu tio - II

Estou deitada na minha cama em Aldeia Velha, aquele leito aconchegador e onde me sinto melhor, o berço da minha vida. Passou o último dia de festas e de baile, amanhã regressa o silêncio e a vagarosa rotina da aldeia. Passaram as primeiras festas sem ti, tio; sentámo-nos à mesa com uma das cadeiras vazias, para sempre tua.
Na passada sexta-feira cheguei à aldeia de madrugada, ainda decorria o baile. Pela primeira vez não tive vontade de correr para perto da maltinha, pedir uma bebida e desatar a dançar com eles. Respirei o ar da aldeia, senti as paredes de pedra com as mãos e pensei em ti. São estas paredes, a calçada e as ruas estreitinhas que guardam as melhores recordações de família: o dia em que os meus tios me ensinaram a andar de bicicleta, as correrias pela aldeia com os primos, os passeios em família nos dias de festa, a procissão no dia 24 de agosto e a capeia no dia 25. Este ano, passámos pelos dias de festa vestidos de preto, sorrindo sem alegria, procurando vagamente a felicidade que sentíamos quando todos chegavam de França, de Lisboa ou do Porto, e nos reuníamos em casa da minha mãe. Aos poucos, dia após dia, íamos encontrando na nossa união a força que nos fará seguir em frente. Custou muito quando chegaram as tuas filhas e tu não vinhas atrás delas, vigilante e sorridente, a abraçar cada um de nós, deixando-nos o teu carinho como um carimbo de amor. Mas é tão bom saber que as tuas filhas contam connosco, que gostam de nós e que vão continuar a visitar a aldeia, a sentar-se ao nosso lado nos dias de festa, sorrindo com as bochechas vermelhinhas que herdaram de ti.
Dói muito saber que não iremos mais conversar sobre música ou escrita, mas gravo para sempre a tua voz e os teus ensinamentos. Tenho de aprender a tocar acordeão, como prometi.
Até sempre, tio.

domingo, agosto 16, 2015

Cartas ao meu tio - I

Passaram catorze anos desde que a avó nos deixou. Catorze. Quase tantos como a idade do neto mais novo, dezasseis. Ele talvez não se lembre bem dela, mas o seu carinho mora no coração dele. Naqueles Verões quentes do final dos anos 90, a avó ainda pode provar as suas bochechas gordas de bebé e pentear os loiros caracóis dele. "Anda por aí um anjinho", dizia o avô, contemplando aquele pequeno e trôpego bebé com ar de querubim.
Passaram catorze anos desde que descobrimos a mais profunda dor, pela qual nunca ninguém devia passar: a de perder a avó do mimo, das conversas ao lume, do caldo escoado às duas da manhã, das doces filhozes no Natal e as milharas nas festas de Aldeia Velha. Desde então que sonhei em criar uma bolha invisível, onde pudesse guardar toda a minha família, uma mesa de onde nunca ninguém se pudesse levantar e onde nada de mal podia acontecer. Passaram anos e descobri que a minha bolha tinha defeito - por vezes tivemos novamente à beira de sentir a mesma tristeza que no dia da partida da avó, mas logo nos juntávamos à mesa de jantar, e os medos feios que nos ameaçavam deixavam os meus mais importantes em paz outra vez.
Sabes tio, às vezes tinha pesadelos sobre essa tristeza, o medo de perder um dos meus tios, os teus manos ou cunhados, mas reconfortava-me pensar que são novos e que ainda teríamos muitos Verões juntos. Até que, a oito de agosto deste ano, quando já todos tínhamos começado a contar os dias até às festas da aldeia, o meu telemóvel toca com a notícia que nunca podia esperar. Tu, tio Gil, tinhas partido. A avó e o avô vieram buscar-te para perto deles. A notícia veio abrir em mim novamente a ferida deixada pela partida dos avós.
Passou agora uma semana e ainda me sinto como um zombie, a pairar nesta realidade alternativa que é a tua ausência, como se alguém me tivesse obrigado a atravessar um portal para um mundo feio e escuro onde não quero viver. Sinto que ainda não acordei deste pesadelo, quero que me digam que é tudo mentira e que no dia 24 de agosto estaremos todos à mesa nos nossos melhores fatos e vestidos. Nós não nos reunimos a quatro ou a cinco como as famílias dos nossos tempos, mas a vinte ou a trinta de cada vez, e cada cadeira vazia tem para nós o peso de uma saudade imensa. Quando um de nós não pode ir a um almoço ou jantar, ou às festas da aldeia, sentimos a sua falta e não nos sentimos completos. Quando os avós partiram, tivemos de nos habituar a sermos "só nós", mas "só nós" eram os tios e os primos todos à mesa.
Sabes tio, ontem à noite comecei a sentir uma forte dor no peito, já não conseguia chorar mas doía-me qualquer coisa por dentro. Percebi que é aquela fase do luto em que o choque vai passando e dá lugar à saudade eterna da tua presença.
Aproximam-se as festas da aldeia e, fortes como somos, vamos reunirmo-nos todos e pensar em ti. Vontade de beber e brindar ninguém tem, mas precisamos de  estar juntos e prometer em silêncio que serás sempre lembrado. Em silêncio, porque este ano não nos vais tocar acordeão. Ainda é cedo, mas a tua música voltará. Eu acredito.

sábado, agosto 08, 2015

Ao meu tio Gil



Olá, meu querido tio. Tio de sorriso fácil no rosto, marca de família, de bochechinhas vermelhas e olhar bondoso. Somos todos baixinhos, mas tu eras o mais pequeno. Desde criança que sempre foste o mais sensível, contaram-me que tiveste muitas otites e que, por isso, ainda agora ficavas muito feliz quando te oferecíamos um cachechol, que seguravas acima das orelhas para tapar os ouvidos - especialmente naquelas noites frias de Aldeia Velha...
Eras a imagem da serenidade, o mais calmo entre a loucura toda da família, e estava sempre tudo bem para ti. Foste polícia, e metíamo-nos a toda a hora contigo para que nos contasses histórias de perseguições e crimes, mas nunca te fizeste de herói. Ser chefe de esquadra não era muito importante para ti. O melhor que te podiam dar no trabalho era uma licença para tirar os dias todos da festa de Aldeia Velha, fugindo aos turnos malucos que sempre tiveste que fazer. Eras feliz à mesa connosco, sempre caladinho mas sorridente, ao lado das duas filhas lindas que tiveste e que só te deram motivos de orgulho. Foste um pequeno génio, acabaste o 12º ano com óptimas notas e brilhavas nas aulas de música, pois tocavas de ouvido. Conta-se que, ainda não tinhas cinco anos, e já o avô te punha o acordeão no colo, para que tocasses o "Vira" com os teus dedos pequeninos, a animar a malta toda da taberna dele. Um pequeno prodígio que todos adoravam e seguiam. Animavas as festas de família com a tua música e não havia encontro ou sardinhada da malta da aldeia para onde não se levasse o acordeão, para te pedir que tocasses. Como eras tímido, tínhamos que pedir com muito jeitinho. Mas mal te vias com o acordeão no colo, era festa para toda a noite. Sabes tio, vou tentar seguir esse legado. Cheguei expressar-te esse desejo, e combinámos arranjar tempo para que me ensinasses a tocar. Mas não arranjámos, tio... o trabalho e todas as coisas fúteis em que nos envolvemos roubaram-nos o tempo que não tivemos. Ensinaste-me a tocar piano, com muita paciência, depois de teres percebido que eu, como tu e o avô, conseguia tocar de ouvido. As tardes divertidas que passámos, os dois, a descobrir músicas sozinhos, com o livro de música sempre, sempre fechado. Ler notas? Nós nunca precisámos disso, tio. Quem me vai agora ensinar a tocar acordeão, tio? Além de professor de música, eras também leitor e corrector ávido dos meus textos. Agora, quem me fará correcções gramaticais, quem irá brincar com a minha mania de abusar nas vírgulas? Lembras-te de teres corrigido o discurso da capeia do Cédric? Lembras-te de toda a gente ter chorado quando ele o leu? Bem hajas, tio. Sei que este texto terá vírgulas a mais e não é tão poético como tu mereces... ainda não consigo escrever nada de jeito. Mas precisava tanto de escrever para ti, tio. Onde estiveres, espero que saibas o quanto te admirava e adorava. Sei que te transmiti isso. Mas não te esqueças.
Agora voltaste ao colo da avó, o nosso lugar preferido. Dá-lhe por nós um abraço daqueles, forte, dos que deixavam o cheirinho das filhozes e arroz doce no corpo. Bem haja por seres sido o meu tio Gil.

domingo, dezembro 14, 2014

Vezes infinito

A história repete-se mais uma vez, ano passa e eu entro em depressão nos primeiros dias de dezembro. Não, não é o drama da passagem de ano, isso para mim não é nada, o meu drama é o dia anterior, de 30 para 31 a minha mãe dá-me os parabéns e lembra-se "há x anos roubaram o carro ao teu tio, ainda vivíamos todos no apartamento, vimos tudo a acontecer assim de repente, da varanda, ele ainda foi atrás do ladrão de pantufas, e então rebentaram-se-me as águas". Só me esperavam para a primeira semana de janeiro, mas a minha tia ganhou a aposta e eu ainda consegui nascer no ano do primeiro bebé proveta em Portugal, ganhei bilhete para entrar na escola com 5 anos e a garantia de ser sempre a mais nova, onde quer que fosse. Ninguém faz anos na passagem de ano! Pois não, mas eu faço. Eu e o meu primo-irmão - em Espanha diz-se primo-hermano, disse-me a minha amiga tradutora -, que nasceu oito anos antes de mim mas seu avô quis que nascesse a 1 de janeiro como ele, para celebrarem juntos num dia de festa lá da terra.
E então entro em depressão nos primeiros dias de dezembro, acordem-me quando chegarmos a janeiro e eu não souber responder que idade tenho, desde os 25 que deixei de contar e de perceber a diferença. Que mais dá se são 26, 27 ou 28, está tudo na mesma e nada muda - tudo menos o meu cabelo, que se rende todos os dias à genética e vai somando cabelos brancos, bem espetadinhos no alto da cabeça, comme il faut.
Já está, troco mensagens com a melhor amiga a dizer que faço 28 anos e ainda não fiz nada de jeito, o meu avô dizia "posso não valer nada mas a minha presença vale muito", e será que a minha vale alguma coisa? No escritório sei que não vale nada, ninguém é insubstituível. Somos todos números e o meu nome é pouco importante, mesmo que seja o mais sonante num edifício de oito andares - Casanova, pel'amor de deus, é o melhor apelido que existe.
E agora vou enterrar a cabeça na almofada e pensar que estou quase a passar a idade fatídica para a malta das artes, os 27. Vá. Ao menos isso.

Para que lado é o sonho?

Às vezes penso no que ela diria de mim, se me visse agora (ou se me estiver a ver). Será que ia dizer que não lutei o suficiente, que deixei que o peso do mundo me asfixiasse, ou que iria ler nos meus olhos a desilusão de quem se perdeu no caminho para o sonho? Será que ela ainda acreditaria em mim, quando já nem eu acredito? Não foi só o meu sonho que se perdeu, mas o dela também. Ela a quem lia as minhas histórias em voz alta, quando ainda não sabia ler. E ainda aprendeu. Com 60 anos, foi a melhor da turma. Aprendeu a ler e a escrever com os meus cadernos da primária, a minha letra feia, torta e trapalhona de quem quis aprender a dança da escrita da noite para o dia. Lia as minhas composições devagarinho, lutadora. E nós emocionados, felizes, a avó aprendeu a ler.
E eu agora, a chegar aos 30, presa a uma crise financeira que (ainda) não me deixou ser quem sou (será só culpa da crise?), mostrar tudo o que posso ser, fazer-me ouvir, levar as minhas palavras e o meu nome, pelo mundo. Ontem uma das tuas netinhas terminou o mestrado, vó. O meu pai perguntou-lhe 'não chega já de estudos?', 'para já sim, disse ela'. Mas riu-se: 'ainda sou capaz de pôr mais uma moedinha, dar outra uma volta...'.
Tudo é tão pouco comparado ao que tu fizeste, o exemplo que nos deixaste. Desculpa vó, se eu não souber ser quem te prometi. Prometo, sim, que não deixarei de tentar.

Ainda não, mas um dia

"(...) ainda não disse um milhão de vezes ao meu pai que o adoro, mas estou lá perto e bem vistas as coisas um milhão é pouco para algo infinito assim, ainda não abracei a minha mãe e lhe dei um beijo na desta até que os lábios secassem e os braços cansassem, pode ser agora mesmo, quando acabar este texto, ainda não escrevi a obra-prima e só tenho mais coisa menos coisa mais setecentos mil milhões de frases para o tentar, mais algumas, provavelmente, tenho a certeza que vou morrer de caneta na mão, ou de computador no colo, a última frase será qualquer coisa como "Desculpem qualquer coisinha, mas leiam, e sobretudo amem."
Pedro Chagas Freitas

sexta-feira, novembro 28, 2014

Despedidas

Nos funerais encontramos familiares dos quais não nos lembramos, primos e afilhados e tios que nunca se tinham sentado a conversar ao nosso lado. Mas agora estão aqui. Todos me dizem: «os meus sentimentos», mas realmente nunca nenhum me explicou que sentimentos eram realmente os seus. Beijaram-me as faces e afastaram-se enquanto eu continuei ali sentada a velar pelo teu sono, avó. Sei que nunca fomos amigas, nunca trocámos confidências e não me recordo se alguma vez disseste que me amavas. Mas, à minha maneira, eu amei-te. Vi-te na semana passada e soube que era uma questão de tempo. Chamei-te aos gritos mas acho que já não me reconheceste. «Avó sou eu, a Marta, a tua neta!». Olhaste-me bem fundo nos olhos mas não posso garantir que ainda soubesses quem eu era. Pedias-me rebuçados e bolos, e naquele dia não me disseste nada. Não sorriste e eu chorei. Chorei mais do que no dia em que me disseram que já tinhas partido. Chorei porque estavas ali mas ias definhando aos poucos. A tua garra, o teu feitio e o teu orgulho. Não restava nada da mulher que eu conheci. Foi o último dia em que te vi. Sobraram tantos rebuçados avó, queria dar-tos mas já não conseguias comer. Não sabia que ia ser uma despedida mas eu abracei-te, avó, e nunca mais te vou poder abraçar. Toda a gente me diz que «é a vida», como se essa fosse a resposta para todas as coisas. Regresso à capela fria onde continuo a velar o teu corpo imóvel. O teu corpo vazio e o teu rosto de olhos fechados. Desculpa, avó, mas não tive coragem de ver o teu rosto. Quero lembrar-me de ti de outra forma. O pai está muito quieto na cadeira e tento fazer conversa para passar o tempo. Ele perdeu a mãe. Eu perdi a minha avó. E apavora-me saber quantas mais pessoas irei perder ao longo desta dura jornada que é a vida. Abraço o meu pai e ele não diz nada. Ele sabe que já não pertencias aqui. Oh avó será que és mais feliz agora? Será que algum dia te vou voltar a ver? Gostava de te ter conhecido melhor mas sempre te fechaste em copas e talvez tenha herdado algumas coisas do teu feitio. Há personalidades fortes na família. Espero que haja algo depois disto, mais do que a última morada onde te deixei. Onde te deixaram num buraco, a apodrecer na terra. Terás concretizado os teus sonhos avó? Terás sido feliz? Vou sentir a tua falta. O pai vai sentir a tua falta. Até sempre, Avó.

segunda-feira, novembro 10, 2014

A casa

Se os sonhos são feitos dessa matéria doce a que sabe a infância, então os meus cheiram a terra molhada, a filhozes quentinhas e a caldo escoado.

Sempre que sonho com a terra dos meus pais, aquela pequena e velha aldeia do interior beirão, vejo-me ainda na casa dos meus avós, no tempo em que os animais faziam parar o trânsito e os sapadores não tinham campos para limpar. Achava curioso quando a minha mãe me contava que, quando sonhava com a aldeia, se via na casa dos pais antes das obras, um pequeno piso térreo que eu já conheci como uma grande vivenda de dois pisos. Há algum tempo que me acontece o mesmo, adormeço e estou na casa deles, a minha avó está na cozinha a alourar as batatas ao lume, o resto das batatas cozidas que sobraram do almoço, cheira também a chicharrão e a mílharas acabadas de fazer. Eu e os meus primos sentamo-nos na mesa mais pequena, "dos putos", e pedimos as batatas, mas não há nada para ninguém enquanto não comermos todos o caldo.

Sonho sempre com aquela sala cheia, essa que perdeu todos os cheiros que tinha, a comida da minha avó, os doces, amor, família. Depois da partida dos meus avós, quisemos fechar aquela casa no tempo, mudámos os almoços e jantares de família de cenário, não escrevemos mais histórias naquela mesa, sem os protagonistas daquelas paredes e cheiros.

As novas paredes já ganharam cheiros e recordações, mas não é a mesma coisa. Já ninguém faz filhozes na véspera de Natal, as mãos rugosas a benzer a massa, os enchidos ao fumeiro no curral. A comida que sobra vai para os cães e galinhas do meu tio, não vai para os porcos da minha avó, nem há burra a fazer barulho durante a noite. As batatas, cebolas, cenouras e couves da sopa não vêm lá de baixo do curral, onde a avó guardava o que tirava da terra, embora alguns tios já se tenham dedicado a recuperar alguns terrenos da família. Tudo mudou e nós continuamos os mesmos, embora incompletos para sempre. Como num livro de decalques, os meus avós foram roubados e levados para mais longe que debaixo da cama, para onde fogem as peças que faltam.

Quando adormeço em polvorosa, cabeça a girar em desatino, o dia que ainda não chegou a ameaçar pesadelos, acordo e sonhei com eles, estivemos juntos no passado congelado daquela sala cheia. Emoções para sempre guardadas numa infância feliz.


sábado, julho 19, 2014

Eu, Marta Santos

Um intenso mas doce desastre. Se me perguntassem seria assim que me definiria. Não que alguém precise de qualquer definição para perceber essa inegável verdade. Falar sobre mim pode soar egocêntrico mas ajuda-me a perceber melhor quem sou, no que me vou tornando.
Se eu existisse num filme ou num livro bem gostaria de ser uma personagem principal, mas a verdade é que eu sou aquela rapariga. Sim, aquela, a que cai lá atrás enquanto a cena se desenrola e toda a gente começa a rir. O meu cérebro está muito bem ligado à minha boca, mas a verdade é que eu falo pelos cotovelos e consigo dizer as coisas mais absurdas. Tropeço nas palavras como tropeço em escadas, calçada, ou qualquer outro obstáculo na minha frente. Sim, eu sou aquela rapariga. A que adora ler e já perdeu a conta a quantas vezes foi parar à estação errada, absorta em maravilhosas histórias. Aquela que adora cozinhar mas, por ser tão distraída, viu dois frascos iguais e o belo bolo de canela afinal...levou noz moscada. Eu sou a que acena a desconhecidos. A que faz esforços hercúleos para se conter quando está a falar de um assunto que a entusiasma. Os momentos mais embaraçosos também os possuo. Volto à universidade, a sala repleta de alunos e a Marta...a cair da cadeira em plena frequência de direito. Mas eu também tinha o...direito...de me enganar com aquelas cadeiras traiçoeiras! Eu era também a Marta dos Beijinhos, assim me chamavam, da alegria e dos sorrisos. Aquela rapariga que faria a Bridget Jones sentir-se menos...Bridget Jones! A Marta, que não se ajeita a jogar futebol, basquetebol, andebol...vários problemas com a terminação -bol. Tem medo de alturas, ratos, cobras, águas fundas.. e do que o futuro lhe pode trazer!  Salta de entusiasmo sozinha, com a música alta a ecoar nos ouvidos, enquanto vai a caminho do trabalho. Passa horas a ler no jardim. Procura uma perfeição que não existe. Odeia a monotonia e a mentira mas sabe que todos cometemos erros. Prefere o seu livro a uma noite na discoteca, gosta mais de NBA do que de futebol. Aquela rapariga, a quem o avô continua a chamar carinhosamente «Esparguete» pela sua estatura franzina. Chora em todas as comédias românticas, vê todos os filme da Disney. Já disse que ela chora? Com fotografias, livros, por palavras bonitas ou surpresas. As expetativas de uma surpresa causam-lhe borboletas na barriga. Ela comove-se com o mundo mas também se zanga com ele. Tem mau feitio, é teimosa e nem sempre quer dar o braço a torcer. Pede desculpa por tudo e por nada porque só quer agradar. Escreve bilhetes, faz bolos, e até andava quilómetros ao pé coxinho para fazer alguém rir. Só que ela é um desastre e constrói muitos muros em vez de pontes. Nem todos entendem os seus sorrisos quando quer esconder o que sente, ou os seus sonhos. Ah! Ela adora escrever, o refúgio das letras para uma rapariga tonta. Eu, Marta Santos.

sexta-feira, junho 27, 2014

Robôs, explosões e o meu sofá da sala

Às vezes sinto que levo a vida como um espectador do cinema de Michael Bay: sento-me a assistir ao artifício das explosões e lutas de robôs gigantes sem interesse nem sentido, nada que discutir quando me levanto do sofá. Esqueço-me de mim enquanto absorvo o fogo das cores brilhantes e rostos bonitos que distraem dos projetos e objetivos que já não sei se tenho ou se alguma vez tive. É o desemprego, são os estágios, as ofertas desinteressantes, os salários baixos, mil e uma desculpas, talvez, ou apenas inércia, apatia, preguiça. Não sei o que quero, mas a culpa é só minha. Muda de vida se não te sentes satisfeito, cantavam o Camané e a Manuela Azevedo. Sim, sim, mas há por aí tanta gente sem trabalho, sem dinheiro, quero eu também voltar a depositar nos outros o meu sustento, para seguir, egoísta, um sonho que sei irrealista?
E então deixo-me estar, o vinho ainda está fresco, o sofá é confortável. Estão a passar os Transformers outra vez na televisão.

quinta-feira, junho 19, 2014

Janela

Eu sou uma janela sobre o mar, muitos olham-me e limitam-se a apreciar a vista. Alguns têm medo do que possam descobrir e não se atrevem a dar uma espreitadela. Depois há os que imaginam os segredos que se escondem, para lá da rebentação das ondas, lá longe no horizonte. Esses que têm a certeza que há mais do que mar e marés. Abrem essa janela que eu sou e ficam ali como se o tempo tivesse, subitamente, parado. A brisa doce vai soprando ao longe como um sorriso e a janela torna-se indiscreta, os aromas do mar tornam-se paixão. É aí que se levanta um vendaval que sucede à brisa. Aí mostro outras janelas que existem em mim, que o vento abre de par em par. Com vista sobre o tempo infinito, os sonhos ou outra maravilha qualquer. Junto ao mar os sonhos não ganham raízes, vão-se transformando na areia molhada, naquela praia, a que se avista ainda desta minha pequena janela. Onde há sempre sol no horizonte. Mesmo em dias de chuva, quando as gotas molham a minha janela e sou obrigada a fechá-la com força. Tanta força e sem cerimónias. Assim é esta minha janela, com vista sobre o mar.

segunda-feira, junho 16, 2014

Como gosto de te ver correr

Tenho uma fotografia tua que é toda a minha infância. Nessa foto estás a correr à minha frente, por entre um beco que chamaste de teu esconderijo, pela calçada que conheço tão bem. Sabes, quando tiveres idade para isso, vou contar-te que esse também foi um dos meus esconderijos na aldeia. Vou contar-te que, quando tinha a tua idade, e ainda mais velha, adorava esgueirar-me pelas "quelhes" que para mim eram caminhos mágicos, especialmente aquela em que entrava perto da casa da minha avó, na avenida de Santa Cruz, e ia dar diretamente à igreja - especialmente boa para evitar os ralhetes da avó, que não gostava que chegasse atrasada à missa. Mais tarde, quando fores um bocadinho mais velha, vou contar-te que me juntava ali com os meus amigos, nas noites de baile, para beber uma ou outra cerveja às escondidas dos nossos pais. Vou contar-te também, se me prometeres segredo, os namoricos que começaram nesse teu esconderijo. Tu ainda não sabes, mas cada pedacinho de calçada tem a sua história, desde os tempos que nem tu ou eu imaginamos, até à minha época e do teu pai. Na calçada das tuas brincadeiras, passaram outros pés e outras vidas, com as suas histórias e recordações, que as pedras, confidentes, guardam para todo o sempre.
Sabes, quando te vejo correr consigo esquecer por um pouco a nostalgia de que sou feita, as saudades dos meus avós e tios-avós, aquela mania dos mais velhos de pensar que nunca será tão bom como era antigamente. Não, porque tu vieste e também te apaixonaste por aquela aldeia, porque sabes correr cada beco e decorar cada caminho, como eu e os meus primos fazíamos. Também foi lá que aprendeste a andar e a cair de bicicleta, a tomar banho de mangueira e a brincar ao boi. Vais descobrir e amar aquela aldeia como nós e não a vais deixar morrer, mesmo que só possas ir nas férias de Natal e de Verão. Serás feliz na aldeia, como nós fomos e somos.
E é por isso que, excepcionalmente nestes dias, troco os saltos altos pelos ténis e corro de mão dada contigo, pelas ruas e "quelhes" de Aldeia Velha.