Pétalas
Pétala a pétala se constrói a flor. E o poema. Que vem de dentro, como sangue a circular no caule esguio até chegar ao topo. O vento transporta o poema, pólen a revirar nas asas gentis da brisa do mundo. Pétala a pétala vamos morrendo enquanto o corpo se desfolha em cada madrugada da nossa existência. Pétala a pétala vamos construindo o amor. Bem me quer, malmequer, bem me quer. Só que o amor tem demasiadas pétalas e flores e acabamos perdidos no jardim. Pétala a pétala vamos seguindo o caminho, sem sabermos exactamente se é o correcto. Mas é disto que os sonhos são feitos, de pétalas a cheirar a almíscar e jasmim, de longes feitos perto, de orquídeas que nunca passaram de rosas cheias de espinhos. De pétalas de sangue, de pétalas de lágrimas. Cubro a cabeça com as mãos e choro pétalas de tristeza que se desprendem da flor do meu coração. Ninguém disse que a vida ia ser um mar de rosas. E se as rosas têm espinhos, eu quero um mar de pétalas para construir poemas. E quando a última se desprender e me disser que o meu lugar já não é aqui, partirei tranquila. Seguirei a viagem até ao outro lado do rio, onde o coração já não bate. Porque pétala a pétala também morre a flor.Alice no País das Maravilhas

"Na luminosa tarde de Verão mergulhados,
Vagarosamente deslizamos,
Nossos remos manobrados
Por bracitos inábeis
Enquanto frágeis mãos procuram, em vão
Guiar nosso caminho sem destino.
Ah, cruéis Três! Numa hora destas
E por um tempo de sonho assim
Implorar uma história a quem
Não tem fôlego para agitar sequer uma pequena folha!
Mas que pode o pobre solitário
Contra três imperiosas vozes?
A Primeira, ordena, implacável,
«Começa já!»
A Segunda, mais doce, pede:
«Tem de haver muita fantasia!»
E a Terceira interrompe-me
Não mais do que uma vez em cada minuto.
Logo, ao súbito silêncio submetidas,
Na fantasia seguiram
A criança dos seus sonhos, pelo País
Das maravilhas, fantásticas, diferentes,
Em conversa amena com pássaro e animal
Quase em tudo acreditando...
E, sempre que a história secava
As fontes da fantasia,
Eu, cansado, lhes pedia
Para pararmos:
«Fica para outra vez...»; «A outra vez é já!»
Ordenavam as alegres vozes.
Assim foi avançando a história do País das Maravilhas
E um a um, lentamente,
Se traçavam fantásticos sonhos.
Agora, a história está pronta...
E rumo a casa, tão felizes, vogávamos
Sob a intensa luz do poente...
Alice! Aceita esta ingénua história
E com a tua mão carinhosa
Entrega-a ao mundo de infância
Onde místicas memórias se entrelaçam
Como coroas de flores raras, que um peregrino
Colhesse em longínqua Terra Prometida!"
Lewis Carroll
Tempo
A minha pegada marcada na areia. O vento a fustigar-me a cara e a sensação de que estou viva. "Nunca me tinha sentido tão viva", murmuram os meus sentidos. O meu paladar envolve-se no sabor salgado do mar.No tacto, a areia escorre levemente pelas mãos e os pés envolvem-se com o mar. O meu olhar perde-se na imensidão das ondas e o aroma forte da maresia penetra-me no nariz. Visão e olfacto. O tempo passa mas o relógio permanece com os ponteiros parados. Deixei de dar corda aos meus relógios. Estou farta do rebuliço de mais um dia que não espera por mim. Puxo o tapete ao tempo mas ele não cai. Continua firme, a correr num passo apressado de quem não vai para lado nenhum e não tem ninguém. Só que a mim o tempo já não me ganha. Ele pode vestir-se de manhãs e das mais ricas noites e madrugadas mas não sabe amar. E com um amor como este que tenho pode desmoronar qualquer castelo de horas. A sensação de estar viva torna-se mais forte a transformar-se em riso, em gargalhada, em grito. O tempo ainda olha para trás, espantado porque não o estou a seguir, a contar ansiosa os minutos para nada e para não chegar a lado algum. Hoje só há o aqui e o agora e a praia onde descanso os meus medos, sentados numa duna. No mar reflecte-se a tua imagem, feita de rimas de saudade e asas de açúcar. Não estou com pressa, espero-te enquanto o tempo avança. Mais uma vez, para nenhum lugar em que eu queira estar. Estou farta que o tempo me diga o que fazer. Que são horas disto ou daquilo. Que é tarde demais para os meus sonhos. O mar arrepia-me a pele. A sensação de estar viva.Esta noite
Esta noite eu não quero dormir sozinha. Vou embrulhar-me num xaile feito de amor e da tua presença, agora feita ausência, que não me deixa dormir. Mas esta noite eu não quero sentir a falta que me faz o teu calor, ou por outras palavras, a forma perfeita como a minha cabeça repousa no teu peito. Esta noite vou imaginar que te materializaste num xaile bordado de cor amarelo-alaranjado-vermelho-arco-íris-amor-paixão. O xaile mais bonito da festa. Nesse xaile pintado de cores que o mundo não tem, eu vou sentir-te apertares-me o corpo contra o teu. Vou sentir a tua mão a conversar com os meus silêncios. Vou fazer um chá do teu aroma a príncipe-real. Vou pegar na chávena e no xaile e vencer a insónia do longe que estás. Porque quanto maior a tua ausência, mais a tua presença se torna forte. Porque é a tua não-presença que me faz perceber o quanto a tua presença me conforta e a tua ausência me dói. Hoje vou falar-te de uma dor que não tem nome e que se ergue sobre o meu olhar. A dor de não te ter e um xaile que vai caindo sobre os ombros com tecido de esperas. Esta noite eu não vou dormir sozinha, vou dormir abraçada aos pensamentos sobre ti e repousar a minha cabeça na minha almofada, como se fosse o teu peito. O xaile, o chá e a chuva lá fora. Mas mesmo que seja uma tempestade, a saudade, essa eu não vou deixar entrar para dentro de casa. Esta noite eu não durmo sozinha.Verso livre
Tentei escrever um poema que falasse de ti. Mas como poderia um poema falar de ti, se tu és mais que poema, mais que prosa, tu és um conto para ler irrepetidamente antes de adormecer. E cada vez que contar a história que li e que não é mais do que a nossa história, vou acrescentar um ponto nesse conto. Tu és um verso livre, um verso em branco que vou escrevendo. O teu verso eu já traduzi na língua que melhor sabemos falar. A minha língua e a tua no prelúdio de um beijo. Numa conversa infinita. E agora que não estás sobram-me as rimas, mas eu preferia um verso sem sentido e sem rumo, como os nossos passeios amenos. A tua mão silenciosa na minha face e o teu beijo pleno de perfeição. Porque cada verso-beijo que emana de ti é uma conjugação no mais-que-perfeito. Entre nós é tudo (in) condicional. E nenhum escritor poderia definir exactamente o que sinto por ti. Já não é amor, já não é paixão. Sem ti a poesia no mundo esvai-se num sopro. O azul torna-se cinzento. Sem ti o encontro é desencontro. Sem ti sou apenas um pássaro num dia de céu azul, voando em círculos sem destino. Um único pássaro, perdido do seu bando. Abrindo as asas no vazio, engolido pelo céu. Uma única folha, arrastada pela ventania. Um pintor sem musa que deambula pelos dias e pelas horas. Quero apenas dizer que me fazes falta, como se em ti morasse o sentido do amor. Agora que não estás, a poesia escondeu-se e deixou de me falar. A inspiração embriagou-se de saudade. Os teus lábios afiguram-se nos meus sonhos e esperam-te. Afinal, que esperam uns lábios senão outros?Uns lábios como os teus, lábios alma-gémea dos meus. Volta para o meu livro de poemas. Faz-me falta esse verso que és tu.Céu
Abrimos os lábios e banhámo-nos de céu envolto nas nuvens. Era uma suave tarde de início de Primavera e as tuas mãos, aves voando pelo meu rosto. A tua língua, tinta da china, pintando a brisa leve de um murmúrio de amor. A tua língua, aninhada no meu ouvido contando uma história. Numa mais, desde essa essa tarde de Março eu deixei de abraçar os poentes e saudar as madrugadas. Enredei-me nalgumas teias e labirintos e esperei. Ficou tão escuro, que me banhei de noite em vez de luz, remorso em vez de céu. Eu prometi que te contava mas a vergonha impediu-me de pintar estrelas. Ficou só o ceu, cada vez mais negro e eu a tiritar de frio. Os teus braços em brasa vão aparecer mais uma vez no fogo dos teus lábios e vou sussurrar baixinho de mim para mim: desculpa. O céu irá clarear num gerúndio com ar de canção. Irei olhar-te e sussurrar mais alto para que, então, me escutes. Amando. Porque eu amei, amo e amarei. As pombras brancas que se desprendem das tuas mãos hão-de acariciar o meu coração. E esquecerei que por momentos me esqueci que o céu era assim, tão mas tão azul.O éden dos amantes
E então a lua escondeu-se. “Não há nada para mim aqui”, pensou. Apenas uma figura inanimada destinada a proteger a humanidade, um archote no meio da escuridão. A lua escorregou silenciosamente, um baloiço prateado descendo os céus. O mundo inteiro, impávido, assistia à escuridão enquanto a lua descia e rodopiava pelo céu. As estrelas murchavam, o céu perdia a beleza. A lua rodava e rodava em redor de si mesma, para fugir para fora da galáxia. Porque o mundo era triste, porque os homens faziam actos capazes de gelar o coração. A lua era a luz dos amantes, mas a humanidade perdera o sentido do amor. A lua era a luz da esperança, mas os homens já não sabem cultivar esperança. Então, de repente, uma luz brilhante, maior que o mundo apareceu. Uma luz que ofuscou a lua na sua lenta viagem para fora do mundo. Era uma luz tão límpida como uma lágrima de amor. Era uma luz tão bela que transportava dentro de si todas as coisas boas que era possível sentir. A luz enchia tudo, e a lua procurou-a. A fonte de onde brotava. E viu um jardim. Um jardim enorme e frondoso que parecia esconder o segredo. A lua entrou, mantendo-se à distância elevada no céu. No jardim, viu a origem do brilho que lhe tinha acariciado a alma. Um casal jovem beijava-se no meio daquele espectáculo de flores, ávores e plantas. Era um beijo tão longo e silencioso, mas que dizia todas as palavras que nenhuma palavra poderia expressar. Pelo menos não assim, tão perfeitamente. Como um pintor, que guiado pela inspiração, completa o mais maravilhoso quadro já alguma vez feito. Naquele beijo de fome, desejo e ligações profundas a lua sentiu o amor. Descobriu que no cosmos ainda havia esperança. Era aquele beijo, o condensar de tantas esperanças. Era aquele toque, quando o jovem se afastou da amada e lhe tocou na face, nas têmporas, lhe beijou os cabelos. Estava nas lágrimas que a jovem chorava quando os amantes por fim se afastarem. E ela viu a jovem caminhando descalça no jardim, iluminada apenas pela luz daquele amor. Viu-lhe o sorriso que parecia querer saltar e inundar tudo. Era aquele sorriso. Apetecia morrer naquele sorriso, sonhar naquele olhar. Então a lua subiu ainda mais no céu, bem para cima. Iluminou ainda mais as faces coradas da jovem apaixonada. Tão apaixonada que parecia protegida por uma teia de amor. Em que nada, nada do mau do mundo parecia poder penetrar.Pétala
A Avenida cheirava a PrimaveraEra Outono.
O amor cheirava a castanhas assadas na brasa,
Sem pressas os corpos ardiam.
Os meus sentimentos cheiravam a neve.
Já era Verão.
Só o amor cheirava a gelo
Sem pressas os corpos congelavam.
O amor é uma sombra estranha.
E então era Primavera.
O amor cheirava a nada misturado com tormentas
Sem pressas os corpos procuravam-se.
Mas nunca se chegavam a encontrar.
O meu amor por ti percorre todas as estações do ano.
Quando cheira a neve
Gostava que ardesses como a castanha,
Quando me pareces uma sombra
Gostava que fosses uma flor da Primavera.
A desabrochar no meu corpo, na minha mão.
Eu sou a pétala arrastada no tempo e na vertigem,
Eu sou o nada transformado em tudo.
Eu sou a força que aparenta fraqueza.
Eu sou mulher, eu sou lágrima.
Uma pétala de uma túlipa desfolhada ao vento,
Pisada, magoada, amada, enlouquecida,
Eu sou o rubor do Verão.
Eu sou Outono na folha que cai,
Na lágrima que sobrevive no olhar.
Eu sou ponto de encontro entre mim e nós.
Eu sou o frio da nossa distância
Quando o amor é Inverno.
Eu sou o medo
Do não em vez do sim.
A meia lua
E quando a lua enche
Eu preciso de ti.
Porque eu sou só uma pétala
E só tu me podes tornar flor.
Grace
"there's the moon asking to staylong enough for the clouds to fly me away
well it's my time coming, i'm not afraid to die
my fading voice sings of love,
but she cries to the clicking of time
oh, time
wait in the fire...
and she weeps on my arm
walking to the bright lights in sorrow
oh drink a bit of wine we both might go tomorrow
oh my love
and the rain is falling and i believe
my time has come
it reminds me of the pain
i might leave
leave behind
wait in the fire...
and i feel them drown my name
so easy to know and forget with this kiss
i'm not afraid to go but it goes so slow "
Jeff Buckley
Bonjour Tristesse
“Vous vous faites de l’amour une idée un peu simpliste. Ce n’est pas une suite de sensations indépendantes les unes des autres…
Je pensai que toutes mes amours avaient été ainsi. Une émotion subite devant un visage, un geste, sous un baiser… Des instants épanouis, sans cohérence, c’était tout le souvenir que j’avais.
“C’est autre chose, disait Anne. Il y a la tendresse, le manque… Des choses que vous ne pouvez pas comprendre.”
Bonjour Tristesse, Françoise Sagan
Trapézio
Os olhos dela brilhavam na escuridão da vida e do tempo, ela dançava para afastar o medo porque as velas já tinham sido apagadas há muito tempo. Ela sempre foi perita em acender rastilhos mas nunca soube evitar que as coisas explodissem de repente. A tua mão é teimosa, uma vez mais, em agarrar-me quando mais ninguém o faz. Quando toda a gente me olha mas não me entende. Ninguém sabe quem sou. Pó de estrelas e sonhos espalhados por aí, sorrisos e danças num trapézio sem final. A vida ensinou-me que não se brinca com o fogo, mas por vezes deixo-me embrenhar nas chamas que consigo acender. Amei-te em cada salto na fogueira, em cada riso outonal da minha vida, em cada gargalhada a cheirar a verão da minha memória. O amor é essa memória de bocados de passado e presentes de futuro, é esse laço que nos une irremediavelmente ao outro, como se não houvesse alma própria. A minha alma está dentro da tua, ou a tua dentro da minha, por assim dizer. O amo-te é muito pouco para te dizer, meu amor, a forma como a tua mão no meu rosto ou a tua mão a escorregar silenciosamente pelo meu corpo, me faz sentir. a aragem morna da tua boca colada na minha, o teu corpo a queimar junto do meu e os risos perdidos na noite em que mais ninguém nos pode ouvir. Quando me amas explode a galáxia, explode o mundo e eu sou mais que muito. Sou vida na própria vida. Amar-te é cometer erros mas dar o melhor de mim. Amar-te é ser uma onda a rebentar incessantemente na areia do teu abraço meu amor enquanto o teu corpo baloiça no meu pela noite fora. O teu barco a navegar no meu mar e o cheiro a maresia e a mar de amar. Meu amor.Versailles
Fechei a porta e deitei-me na cama. Mas não consigo adormecer, não chega fechar os olhos, faltas tu. Tu na minha almofada, a despentear-me o cabelo, tu de olhos intensos, entrando-me pela alma, descobrindo segredos e acalmando os medos. Olha para os meus olhos. Não para os olhos, para dentro dos olhos. Estás dentro dos meus olhos. És os meus olhos. Menino dos meus olhos. Como em tão pouco tempo soubeste ser os meus olhos. Fazes-me ver arco-íris na tempestade e sorrir entre lágrimas. E sempre que o medo bate à porta, sei que estás do meu lado fazendo força para que ele não entre. De ombro forte contra a porta. Ombro a ombro com os meus medos, és tu o meu herói. E eu a teu lado, no nosso quarto infinito de jardins de perder a vista. É Versailles, Versailles só nossa. É tudo, tudo por viver e descobrir.
Fechas o nosso mundo à chave e atira-la fora. Ficamos nós, longe de tudo, longe dos outros, de todos. Eu e tu é um verbo que gosto de conjugar em nós. Gosto de ficar fechada em ti, gosto de sentir que escrevemos poesia em silêncio, no olhar do outro. O teu mundo é a música, o meu, as palavras. Juntos somos um mundo de versos e linhas e tanto tanto por escrever. Não me deixes a meio do texto.
Mundo manteiga
Estou cega. Estou cega ou estou num quarto escuro. Estou num quarto escuro sem paredes nem janelas nem porta nem cama onde me esconder por baixo como quando tinha cinco anos e me descobriam mais uma diabrura. Estou a sonhar, sim. É um pesadelo, pois. E é então que o mundo me foge, o chão fica escorregadio, o mundo é um tapete que me estão a puxar por baixo dos pés. A minha respiração sugada para dentro. Sobressalto, é assim que se chama. Quero fugir, quero fugir pelo pouco mundo que ainda me resta, quero encontrar um cantinho perdido que chegue para o meu corpo onde me possa abandonar. Um último bocadinho de mundo, um último cantinho onde possa ser. Quanto mais corro, mais me sinto a cair a escorregar neste resto de mundo-tapete-rolante-manteiga que se desfaz mais rápido que o desespero das minhas pequenas pernas. As minhas mãos, loucas, teimosas, resistem – não quero cair! –, agarram tudo em volta, mas tudo se desfaz, puxo tudo para o fim comigo, tudo se estilhaça a meus pés. Minhas certezas, porcelana estilhaçada. Estendo as mãos para as prateleiras, sorrisos, palmadinhas nas costas, elogios, o meu nome pelos escaparates. Amigos antigos que nunca me falharam. Tudo cai a meus pés, tudo perdeu a força que parecia imortal, tudo se cansou de esperar por mim, de esperar por mais. E sou puxada do vazio, vem a vertigem do chão, seduz-me desistir, seduz-me o fim. Olho para baixo, o mundo é um tapete colorido abstracto que braços sem corpo puxam, o tapete rasga-se em gargalhadas e cospe fotografias minhas que dançam e se riem à minha volta, fico de pés descalços, nus, frios no chão impiedoso. Os joelhos fracos de tudo acabam por ceder ao chão, abandono-me ao fim, o meu corpo relaxa, suspira, chega, pronto. Rendo-me ao mundo que entretanto me deu tréguas, parou. Silêncio. Agora levanta-te, vá. Ok, eu sei. Não queres.Dias e dias
Os dias passaram sempre um atrás do outro. De que outra forma poderia ser? O tom grisalho dos anos vai colorir todo o vale encantado de poesias da nossa vida. O tempo deixa apenas sobras e estilhaços do que somos ou quisemos ser. O tempo traz-nos a sabedoria de que o próprio tempo escasseia. E a amena certeza de que basta um poema e uma folha a cair da árvore,em surdina, para nos acordar para a mais inesperada felicidade. O calendário não perdoa, mesmo que arranquemos as páginas e fique na gaveta. Ninguém espera por nós, porque é que a vida tem de esperar? Nunca seremos tão novos como agora, como ontem, como há dois dias. O tempo certo para agir será sempre agora. O tempo certo para viver sempre será agora. Porque nunca se sabe quando o agora dará lugar a um tarde de mais. Tarde de mais para ser novo. Tarde de mais para esquecer as responsabilidades que nos vestiram desde cedo. Os dias passam uns atrás dos outros, em fila indiana. E nós que fizemos enquanto os dias passavam? Estaríamos numa fila indiana à espera do momento certo para viver?vazio
Em mim há só um vazio. Um longo, imenso, terrível vazio... e lágrimas. Algumas choradas e outras por chorar. Há em mim uma desilusão tão quente que arde em mim, vulcão a irromper na lava das minhas pequenas lágrimas. Há em mim uma criança abafada que soluça na noite. Que se cala, mas quem cala consente. E quem ama? Um amor que muda tudo o que existe, que nos enche a alma e que nos magoa. A mágoa é uma palavra muito triste. Quase tão triste como eu. Quase tão assustada como eu, no canto da sala para que ninguém me encontre e veja que estou de novo a chorar. Até que as lágrimas correm e correm e o rio seca. Depois fica só um silêncio doloroso de querer chorar e não poder e a raiva contida cá dentro e as mil e uma palavras que se queria dizer numa noite mas não se consegue. As explicações que se queria ouvir e as que se queria dar. E querer que a mágoa e a dor passassem leve no vento que vai e vem e volta e vira e voa. Mas a mágoa mantêm-se martelando, moendo a mente.Só um vazio e um era uma vez sem felizes para sempre. Afinal, hoje eu sinto-me por demais infeliz para essas histórias. "Oh mas onde está a princesa". A princesa esta noite morreu.Escrever
"Nesta obstinada profissão de fé, só muito tarde aprendi que escrever é cumprir uma promessa feita não se sabe a quem - nem porquê. E de que a fronteira entre dois mundos, o visível e o invisível, nasce do que imaginamos ser o que o não é.Mercador de simulações, inventei ruas, bairros e uma cidade, através dos quais, e das pessoas que lá coloco, procuro a música dos estribilhos que nos indique algum sinal de esperança. Tédios e perdas, desalentos e desventuras, módicas alegrias e suaves aspirações, eis sobre o que escrevo. Pequenas sagas de nada que nos enredam nas mãos do frágil e caprichoso tempo."
Baptista-Bastos in "A cara da gente"


