sábado, novembro 02, 2013

Regresso II

Regresso como se nunca tivesse saído daqui. As palavras agitam-se naquele lugar mais profundo de mim, que pensava já não existir. Sempre o imaginei como um lago escuro numa noite sem estrelas. Respiro e lentamente há poesia em vez de ar. O lago começa agora a refletir algumas estrelas e, eu, inspiro com mais força o ar das palavras. Senti a tua falta Inspiração. Lentamente arrastas-te, os teus passos penosos no asfalto. A minha alma acorda devagar, sem se aperceber do que se passa. A Inspiração continua a caminhar, vejo-a vestida de branco a estender-me a mão delicada. Enquanto olho a Inspiração nos olhos é como se mergulhasse dentro de mim, das minhas conquistas e dos meus medos. Porque nos revisitamos na escrita, como se voltássemos a uma antiga casa onde já fomos felizes. Ou talvez não. A escrita varre as minhas emoções para debaixo do tapete. Sinto a minha dor, e o peso dos meus segredos, mas não sinto vergonha de nada. Escrevo e volto a inventar histórias diferentes para os meus amores ou para a minha dor, e quando leio sinto-me em mim. E os outros, já dizia o poeta, sentem-se em mim. Na tua boca os versos transformam-se em rosas. Na minha boca os versos transformam-se numa música que já nem me lembrava de ouvir. Regresso como se nunca tivesse partido, porque a poesia nunca me deixou partir. Apenas me permitiu afastar-me do lugar mais secreto de mim por algum tempo. Ninguém é feliz se viver permanentemente afastado do seu próprio centro de gravidade. Este é o meu centro, e volto para o reclamar. Deixo de ser mera espetadora e sou a personagem da história que quiser contar. A Inspiração sorri e afasta-se. Sei que desta vez não irá para muito longe. O lago tem agora milhares de estrelas e - toda a gente sabe- as estrelas são como as palavras. Podem brilhar mesmo depois de mortas.
 

Regresso


A vida é feita daqueles que amámos, daqueles que amamos e daqueles que iremos encontrar no nosso caminho de busca pelo amor. Nada a dizer das coisas irrelevantes, entediantes, enervantes, e outras também antes, ou depois. Os anos passam tão depressa, como um comboio a alta velocidade. Lembro-me de dizer que os relógios não comandavam a minha vida mas agora olho para mim e vejo que estou sempre a correr e a tropeçar. Olho à minha volta e sei que o que fica é o amor. E não o quero perder. Tenho medo da morte, que a sua sombra afugente os meus amores, as minhas alegrias e o meu mundo cor-de-rosa. Tenho medo de envelhecer. Quero prender o tempo, mas não há linha que chegue, nunca há. Tento viver os momentos intensamente mas há outros momentos dentro dos momentos e distraio-me. Quero ser eu mas sou eu e tudo o mais. E o mundo é uma avalanche de medos, ansiedades e sonhos sonhados numa secretária. Onde estão os momentos que eu vivi? Onde estão os anos que passaram?Cada dia mais um dia. Mas quando chego a casa estás lá e o teu sorriso aquece-me por dentro. Um raio de luz enche-me a garganta e os meus braços correm para os teus braços sem que o meu cérebro possa ter algo a dizer no assunto. Nada mais importa no mundo se tu me amares assim, esse amor que me faz sentir viva. Essas mãos que me beijam enquanto os teus olhos me abraçam e as tuas palavras me sorriem.  O teu regaço meigo e a minha cabeça no teu peito. Tu sabes quem sou, tu amas-me apesar do que sou e do que serei. Essa é a melhor certeza da minha vida e espero que ela nunca te arraste para longe. A vida é feita de ti, dentro de mim.