sábado, março 26, 2005

Tantas vezes...

Tantas vezes tive vontade de te abraçar, mas os braços estavam acorrentados, amarrados a cordas que mais ninguém, a não ser eu, vislumbrava. Tantas vezes tive vontade de te beijar, mas a minha boca a milímetros da tua afastava-se repentinamente, como se ao beijar-te todas as tempestades do mundo se levantassem, como se ao beijar-te despoletasse a fúria de todos os Deuses, de cada um dos elementos, como se o consumar deste beijo e deste amor fosse o apocalipse e o mundo findasse naquele segundo.
Outras tantas vezes me apeteceu dormir a teu lado, ou singelamente ver-te dormir com a cabeça por cima do braço, respirando angelicalmente, em paz, sem receios. Até me apeteceu abrir a janela do meu quarto e alardear, gritar, berrar que tu existes, que todas as coisas do mundo tinham ganho significado no momento certo,na hora exacta em que foste dado à luz, ou pelo contrário, em que te deram nas trevas para que formasses luz. Exageros de uma louca apaixonada, diriam os outros, mas apaixonada não sou . Amo-te mas não me apaixonas, intensificas-me mas não me abrasas. Confundes-me mas não me dominas.
E tantas vezes tive vontade de te dizer que tudo iria correr bem, de te contar histórias que os adultos, como nós, já não ouvem nem contam, porque se perderam no interior de fantasias “desfantasiadas”. Contar-te ao ouvido todas as coisas em que já não acreditamos e recriá-las para nós. Até já me apeteceu ficar sozinha contigo na Terra, ou noutro planeta qualquer, mas tive medo de te acordar, porque ainda dormias naquele minuto, pelo menos no meu relógio do outro lado do mundo, em que me encontro, longe, longe, longe, tão longe de ti.
E nos momentos em que estive perto, perto, perto de ti, uma vontade voraz de estar longe de ti consumiu-me. Entendes-me? Claro que não, ninguém me entende, panteísta pagã num Mundo desnorteado sem bússolas que nos guiem. Tantas vezes tive vontade de ter um barco e levar-te comigo, amar-te mais e ficar contigo para sempre concretizando as mirabolantes aventuras que li nos livros pueris da infância rasgada em mil bocados, como as folhas dessas mesmas obras em que me escondi do mundo real.
Tantas, foram tantas as vezes, incomensuráveis vezes em que quis mas não fiz, será que quis mesmo? Será que não me iludi, não fingi a mim mesma que quis querer-te? Tantas vezes, tantas vezes amor, que te amei sem te amar, ou que te amei amando. Só a ti amor....

quarta-feira, março 23, 2005

Sol...Brilha!

Toco-te com suavidade
Percorro delicadamente cada ponto teu…
Murmúrio nos meus ouvidos
A tua respiração entranha-se em mim
Prenúncio de sonhos escondidos
Gemidos…
Olho-te fixamente
Como me olho no espelho pela manhã
Beleza…a tua reflectida em mim
As nuvens escuras ao longe, dissipadas
Pareço vislumbrar o sol…
Mais brilhante agora que outrora
Fico ali…
O meu Eu chama-te
A minha alma canta-te
Vem para perto de mim!
Até ao fim…

segunda-feira, março 21, 2005

Abandono

Abandono...
Não consigo pensar,
Esvazias-me o cérebro
À velocidade da luz
A cabeça a girar,
Aproximas-te,
Tocas-me...
Não sei onde estamos
Não sei que horas são
A tua boca diz-me as respostas
Das perguntas que ainda não foram feitas,
As tuas mão dizem-me tudo
Sobre o iníco do mundo
E as minhas revelam-te
Quem sou e o que faço aqui
E como me perdi em buscas inúteis
Até te achar,
Exploradora do mundo,
Agora mera exploradora do teu corpo,
Chamas-me mas eu não te oiço,
A pele inflamada...
Febre, febre, febre
A minha pele a gritar o teu nome
Não consigo respirar
Enredo-me em ti
Nesta teia onde nos enlaçamos
Suspiros, suspiros, suspiros
Quem sou?
Não sei...
Eu sou tu
Tu és eu
Quando nos fundimos
Numa chama
Que ainda não tinha ardido
Enquanto sublimamos a existência
Levitamos sem sair do chão
Intensidade...
Abandono....
Abandono-me em ti
A pele a escaldar
Parece possível tocar o céu
Sustenho a respiração
Digo-te palavras que não conhecia
Que só fazem sentido ditas ao teu ouvido
Gemidos na noite escura
Lábios , a tua boca a minha boca
Uma na outra
Fruto que trocamos
Até ao amanhecer
Suspiro alto, profundamente
Adormeço...abandonada em ti

quinta-feira, março 17, 2005

Já não és...

Peço-te água...
Mas já não és rio,
Peço-te força...
Mas já não és rocha,
Às vezes, ainda inocentemente,
Peço-te céu...
Mas já não és estrela,
Cheira a névoa na manhã clara
Onde já não és sol,
Catástrofe (anti)natural na minha vida
Clamo por piedade mas nunca foste Deus...
Resta-me pedir-te mágoa
Porque permaneces dor,
Anestesiada, adormecida
Nas concavidades do corpo,
Onde te encontro ainda
Ao olhar-me ao espelho,
Procuro as forças que me roubaste,
Os sonhos que em ti depositei,
E te esqueceste (ter-te-ás alguma vez lembrado?)
De devolver...
Que importa?
Se te peço amor
Mas já não és fonte?

domingo, março 13, 2005

Cabelos molhados...

A chuva cai miudinha no quintal,
Pudera eu ser chuva
Inócua, a cair por cair,
A molhar a terra,
Danças de chuva,
Ritmos de vertigem,
Vidros baços,
Chocolate quente
A escaldar a garganta,
Lágrimas de sal,
Quem me dera ser como a chuva
Cair do céu no teu rosto
Em vez de lágrima
Lágrima a saber ao sal da madrugada,
Num adeus em que recomeçámos,
A chuva é linda:
Murmuro a mim mesma,
Ponho a mão na janela
Deixo-a escorregar no vidro
Está frio....
E é boa a sensação,
A mão a escorregar pelo vidro sem mais nada
O frio na mão que escorrega no vidro
O tempo a passar nas linhas oblíquas de chuva,
Pensamentos rectos,
Nas linhas oblíquas da chuva,
A vida lá fora
A pedir para ser vivida,
Gotas de chuva
A possuírem a terra,
A vida a germinar
E eu a abrir a porta,
Cabelos molhados...
Liberdade...
A chuva a cair miudinha no quintal.
O pavimento molhado,
Pessoas a fugir para as suas casas
E os meus cabelos molhados...

sábado, março 12, 2005

Viagem de Carrossel


 Posted by Hello
Perdida, errando por entre gritos de sentimentos sem ecos, percorro o caminho da angústia numa floresta de sensações que desprezam o meu nome. Deambulo por entre clareiras escuras, obscuras e sento-me à sombra de uma árvore despida pelo outono da minha vida. O Sol queima os olhos habituados ao breu de um arrastar por entre ecos e ecos recusados, e tento aconchegar-me nas folhas amareladas do apodrecer de uma alma vazia. Aninho-me em volta das raízes de uma vida que teve o mapa da luz mas que o perdeu quando arriscou atalhos e entrou em estreitos e afinal caminhos sem saída onde soavam canções que falavam de harmonia e plenitude com notas de mentira e ilusão. E quando me abandono e deixo o mundo de sorrisos e olhares emprestados e nunca devolvidos, contemplo a tua chegada… cortas o céu com elegância e suavidade, e eu, tento não perder cada segundo da tua graciosidade, num desespero absurdo… Voas até mim soltando a cada singelo bater das suas resplandecentes asas o brilho de um coração puro. Iluminas-me com um sorriso que cintila palavras de harmonia, e, abraçando o meu renascido sorriso, dás-me a mão e levas-me a conhecer o teu mundo de arco-íris e carrosséis que soltam melodias de beijos roubados e momentos acariciados por mãos que conduzem a vida alegre e despreocupadamente, como um carrossel... Mãos como as tuas, que puxam as minhas para um rodopiar de carrossel louco e feliz, que não mais quero deixar…

sexta-feira, março 11, 2005

Espera...

Estou à espera de mim,
Num lugar que já não sou
Onde as letras angustiadas
Estáticas, imóveis na folha,
Personificam uma dor que já não é minha
Num filtro onde despejo a raiva no papel
Hoje odeio-me
Ou talvez simplesmente tenha vontade
De ser outrém que não eu
Gostava de parar o tempo
Amassá-lo, retorcê-lo
Voltar atrás, saltar para a frente
Prólogo de mim mesma
Onde nada se iniciou,
O medo assalta-me
Rouba-me a lucidez
Quero fugir
Queria tanto fugir
Mas as pernas fraquejam quando tento correr
Os pés colam-se às lágriams do passeio
Tenho tanto para dizer
Como se nas jorradas de palavras
Me desculpasse a mim mesma,
Um frio gélido percorre o corpo
Alastra-se num arrepio
A cabeça a abarrotar de culpas
Culpas que eu esfarrapo em desculpas
Imperfeição porque a culpa existe
Dos actos que cometi sem/com intenção
Afasto-me num pulo
Dou dois passos para trás
Anseio pintar a parede de branco
Onde inscrevi também letras de fúria
Nas entrelinhas todos me lêm a mim
Fingindo-me ridiculamente forte
Proferindo disconexas frases
Cujo único sentido é a falta de razão
Razão perdida em mim...
Estou À espera de mim...
Encontrar-me-ei??
A que horas estarei eu
No ponto de encontro de mim?
Para me encontrar comigo mesma?
Estará atrasada a minha alma?
Estou à espera...

quinta-feira, março 10, 2005

Para alguém que sabe quem é......

Preciso escrever-te uma carta
Sem palavras esdrúxulas
Ou outras que me comprometam,
Preciso dizer que te amo,
Mas que este amor é impossível,
Como se o mar fosse céu
E o céu metamorfose em Terra,
E já sei o que me responderias,
Se por mero acaso,
Ou coincidência premeditada,
Eu estivesse aí contigo,
Na tua (in)sensata razão
Dirias que nada é impossível:
Que o amor é um milagre,
Em qualquer lugar do tempo,
Em qualquer rumor da vida,
Beijar-me-ias as pálpebras,
Os olhos devagar,
E ternamente dirias,
Impossível é voltar depois de morrer
Impossível é tentar viver
Quando o não-viver nos persegue
E amo-te mais ainda quando me olhas,
Mas a multidão abafa-nos
Com os seus olhos podres
Perseguem-nos
Quando aos abutres lhes dá o cheiro
Cheiro de felicidade
Que nos completa
Quando me beijas e me tocas com o teu fogo,
Fogo que é luz , fogo que ilumina
Luz que me queima
E suspiro profundamente
E peço-te – fica comigo
Só um minuto
Na vida inteira
Entrego-me a ti
Nesse minuto de horas em que nos amamos
Mas o nosso amor é impossível,
E amanhã será cinza
A fusão que os corpos ontem tiveram
Não tenhas medo,
Toca-me ainda,
Para que as tuas mãos fiquem gravadas no meu corpo
Quando outros homens por mim passarem,
Amar-te-ei quando amar cada um deles,
Estarei contigo em cada grito e riso da nossa vida,
Procurarei neles o teu ser jovial,
O teu olhar que é candeia acesa em mim
Mas o nosso amor é impossível,
Talvez eu tenha medo de te amar
De te amar tanto que já não te possa perder
De ter tantas maleitas de amor
Que me apeteça enfrentar o mundo por ti,
Então entrego-te o meu corpo hoje,
A minha alma empresto-te,
Como o livro que vais devolver amanhã,
Antes que amanheça,
Esgoto-me em ti,
Até o primeiro raio de sol,
Amanhã não seremos nada,
A alma que me devolverás,
Divagará à sorte,
Já não é minha,
Mas também não pode ser tua,
Desculpa mas o nosso amor é impossível.
A não ser que amanhã a brisa mude
E sem dar conta esteja aí ...junto a ti

sábado, março 05, 2005

A porta

Fecha a porta,
Deixa os teus dedos-chuva
Escorregarem neste asfalto-corpo,
Fiquemos neste cubículo,
Quatro paredes,
Mas fecha a porta,
Deixa os fantasmas baterem as cabeças nas paredes,
Deixa o medo escapulir-se pelas frestas
Ama-me como se o amanhã não chegasse,
Bate as portas da inocência perdida
Congreguemo-nos à volta da pureza de ser,
Nus de mentiras,
Na luz cruel com que nos tentaram inventar
Pisemos as mágoas,
Como se pisam trapos velhos
De que nos serve o passado?
Remoer hipocrisias,
Chorar lágrimas contidas,
Despejar os sapos que engolimos,
Fecha a porta,
Fica comigo,
Consegues......?

quinta-feira, março 03, 2005

Sonhar

No cimo daquela montanha encontro-me só. Olhando o sol radiante em plena primavera…medito…imóvel contemplando toda a beleza natural que me rodeia. Como gostaria que tudo à minha volta fosse como aquela paisagem rochosa, harmoniosa e bela. Quando me encontrava ali, sem lembrar o ontem, nem pensar o amanha, era somente eu, eu na minha mais pura essência, vivendo o hoje. Porém, não é o brilho daquele sol, nem a luminosidade daquelas flores que brotam por entre caminhos, nem mesmo a beleza natural e harmónica daqueles imponentes rochedos, que compõem a minha vida. Cedo-me ali, deitado naquela paisagem floreste…apetece-me sonhar! Gostava que o meu caminho parasse naquele instante, ali deitado em linha recta pensava então em como a minha vida estaria repleta de curvas e contra-curvas que me cansam a alma e inquietam o ser. Na desventura que por vezes me assalta, pensava eu, sou um afortunado, continuava horizontalmente exposto ao sol que me iluminava a alma, e sonhava, era essa a minha fortuna, pois o meu mundo de sonho era uma linha recta com fim… no infinito!