terça-feira, novembro 28, 2006

Cobertura do lançamento

Vítor Alvito, nosso grande amigo e locutor quase profissional presente no lançamento, teve o bonito gesto de criar uma notícia áudio sobre o evento. Eis a voz que deu vida ao nosso sonho...



(Para encomendar o livro online clicar aqui)

O iogurte

Aquele iogurte tinha um sabor diferente do habitual. Sabia a morango-malagueta ou banana-canela. Subitamente a rapariga começou a ter o sabor da língua dele, língua que dançou com ela até de madrugada. Numa guerra sem espadas e sem tréguas. Picava na língua o iogurte de sabores exóticos e o seu beijo-afrodisíaco, cheio das especiarias que lhe acordavam as papilas gustativas e a fazim tremer da cabeça aos pés, da cabeça aos braços, ao pescoço. O seu corpo era água para refrescar o corpo-malagueta dela. Fechou a porta, calçou os sapatos de dança e rodopiou no tango. Dançou o tango no corpo dele e inscreveu palavras que nem sussurradas foram, porque o tecto poderia contar a alguém. Alguém que depois deles habitasse nesse quarto e num dia sem-ideias olhasse o tecto e falasse sozinho com ele, que responderia eventualmente:"alguns dançaram o tango da junção dos corpos aqui". Enquanto isto, mal sabiam eles, eu espreitava pela fechadura da porta, assombrada perante o espectáculo que aí se desenrolava. Contou-me mais tarde a rapariga que assim era há já muito tempo. Que só ele accionava o seu mecanismo de corda, aumentava a temperatura do seu termómetro. Só ele a desidratava, inflamava, chamava daquela forma. Os seus olhares-fogo, olhar-prazer, olhar-paixão, olhar-suspiro condensavam tudo o que aquele ambiente significava. Emanava paixão. As paredes vermelhas, o vestido vermelho dela, as cortinas vermelhas, o céu raiado de vermelho. Os lábios continuavan mergulhados um no outro. A rapariga pronunciou qualquer coisa baixo e o rapaz sorriu. Desligaram a luz e deixei de conseguir ver. De fundo, apenas a música, desta vez um bolero quente e selvagem enquanto na escuridão uma valsa de mãos de desenrolava. Um bolero de beijos salpicados de luxúria aquecendo a atmosfera. E tudo começou com um iogurte que sabia a malagueta.

Amor, eufemismo para doença

Entre o sono e as ideias a serpentear loucas pela almofada, o medo acaba por zumbir mais alto que o meu sorriso por ti ao adormecer. Tudo me faz sonhar, mas nada me faz viver. Escrever não é tão bom como parece. Continuo aqui. Entre os lençóis e as saudades. E tu aí. De certeza a dormir, não me lembro de te deitares muito tarde. Ou tanto como eu, olhos mais ansiosos que os miúdos que não querem ir cedo para a cama. "Não, mãe, deixa-me acabar de ver este filme." (Não, não quero adormecer, pode ser que ainda mandes outra mensagem.) O teu nome não me traz senão um eco do teu falar atrapalhado e esse olhar tímido mas tão curioso que o lembro tanto como os teus beijos. És o meu desafio, és a minha vontade, o meu desejo, bocadinhos de mistério e loucura que quero descobrir, decorar, devorar! Estas letras são tão inúteis que nem saberás que é para ti que escrevo. Não podem fazer nada por mim, nem por nós. Afinal, até palavra amor é um eufemismo para doença.
E não, eu ainda não estou doente. O amor é a febre que mais temo.

(Mas já começas a arder em mim...)

segunda-feira, novembro 27, 2006

Conhecimentos


Há uma rua em Lisboa que se chama Rua da Saudade.Essa palavra que significa a falta, os sentimentos produzidos por essa falta, de objectos, pessoas lugares, sensações...
Reflicto na saudade que teria se por mero acaso ou por um conjunto de ocorrências te perdesse. Ou se pura e simplesmentre pegasse nas malas e fugisse para outro sítio, numa vida sem ti.

Recordo então o que me recordaria de ti. Julgo que o riso-asmático que salpica muitas frases minhas. O teu apreço pelo carro e as conversas automobilísticas nos caminhos que quotidianamente fazemos. O facto de ficares sempre com a colher de café na boca depois de o beberes. Ou o pauzinho do chupa. E os beijos lambuzados desse chupa. Ou rebuçados de ananás, morango...!

O reconhecimento dos teus gostos: ice tea e mousse de manga, chocolates Buonti, arroz de marisco, arroz de pato ou pato à pequim. Minis e imperiais. Camisolas em tons laranja ou azul. Mesmo que tornes o teu roupeiro monocromático demais. Preferência: tons claros. Queijo da vaca que ri. Tostas em minha casa. Devorar os pastéis de Belém com um riso maroto no rosto. Ou trocar tudo porque sim, porque simplesmente, embora adores Carte Dor de morango hoje apetece-te Vienetta ou rejeitares a tua marca de chocolate favorito.

Sim, conheço-te um pouco. A tua forma de enrugar a testa em diversas situações, de me dares beijos que fazem o meu ouvido zumbir. O teu ar de pai quando me mandas calar no cinema. Eu, miúda irrequieta que fala pelos cotovelos e vive a vida como um baloiço. E não é giro quando andamos de baloiço?
E embriagado? As declarações de amor engraçadas, as piadas tolas.

Pegas-me ao colo e rodopias-me, sorrio só de pensar. Recordo, claro, o teu ar quando ficas nervoso ou envergonhado, corado e a gaguejar. Com gel ou sem gel? (perguntas tu e respondo eu: quero-te aqui, já....). Acho graça à tua "dança" com os braços , o teu andar "gingão" quando brincas e a tua forma de trautear músicas. Na mente desenrolam-se flashes de ti que são o que resta quando não estás. Como é o caso das tuas imitações (fracas) da forma como abro muito os olhos e também das asneiras proferidas em momentos de exasperação, engarrafamentos, jogos de futebol, ou à vista de automobilistas que parecem ter tirado a carta na farinha amparo ou que andam a "mangar com a tropa" (como se diz por aí).

E se o telemóvel tocar, sobressaltar-me-ei na esperança que sejas tu, mais uma vez, para dizer um disparate qualquer que sabe tão bem. Acordas sempre calmamente, até que não tens mau dormir, mas sempre com um ar que diz "dormia mais um pouquinho".

Gostas de Hip-Hop, futebol, música que tenha qualidade. Aprecias futebol e gostas de jogos electrónicos como as crianças pequenas...lamento mas ainda és uma criança pequena). Quando eras bem pequeno andavas sempre com um pé descalço e um pé calçado. Tens uma caligrafia pequena e arrumada. Percebes daquelas coisas que fazem os textos sair do computador em papel e de informática em geral. Nunca comes a parte verde do prato (não costumas tocar na alface). Gostas de praia e das tuas ambições particulares. De passear e fotografar paisagens. Fascina-te o pôr do sol. De receber presentes. Detestas mentiras e coisas mal explicadas. Mas nunca ficas muito tempo zangado. Adoras séries com mistérios complicados para resolver e filmes. Ser livre. Seres tu mesmo. Acreditas no amor. Ah! e ris-te sempre que alguém cai. Tanto mais haveria para contar. Se o texto não estivesse já extenso demais. Por agora fico-me por aqui. Na rua da saudade, desta vez na minha pequena casa, de porta azul sempre aberta para ti.


Dedicado a umas das maiores inspirações da minha escrita nos últimos tempos. Ele saberá reconhecer-se neste texto.

insónia

A luz da mesa de cabeceira continuava acesa. Ainda não a tinha desligado porque o corpo teimava em não ceder ao sono, os olhos-papão que ansiavam devorar o mundo todos os dias, inflamados de sensações, permaneciam abertos. Janela aberta. Não queria apagar a luz. Receava o escuro que a faria embrenhar-se numa hera de pensamentos. O bater do coração e o tic tac meticuloso do relógio eram os únicos sons audíveis. O livro estava pousado sobre a mesa, aberto na última página, um final prestes a saborear. Não, não agora. Levantou-se da cama, finalmente.O soalho estava frio e a cabeça ardia de pensamentos.Quem dera pousar o pensamento num daqueles objectos que servem para pousar o telemóvel e não sentir o estômago comprimido, qual camisola encolhida na máquina de lavar.Tocou no nariz, a campaínha.Costumava assim dizer quando,nas horas vagas, tomava conta de miúdos:"Plim, estou a tocar à campaínha".
O leite escaldava-lhe a garganta, rio de lava a entrar no organismo. O cérebro mostrava-lhe imagens e frases entrecortadas. Pegou numa folha e numa caneta, tentou escrever. Amachucou folhas e folhas, como vira tantas vezes os escritores fazerem nos filmes. Viu as palavras surgirem na folha, reli-as e as palavras não eram ela. Nem a sua emoção. Já era madrugada. Mas as palavras não eram ela. Falavam de lugares onde jamais tinha estado, palavras que jamais lhe tinham dito mas que imaginava na perfeição. Filme mental. Ela sabia o que queria. Era isso que escrevia ao som de uma música que trauteava baixinho "cinderela das histórias, lá lá lá" (usava o lá lá para passar a perna ao facto de nunca decorar convenientemente as letras).

Lá fora a chuva multiplicava-se em gotas e o vento fustigava árvores e roubava os chapéus de chuva das mãos dos mais incautos. Mas ela, cinderela do seu reino, a mais bela do seu quarto, bailava nas letras, numa serenata de si ara si. Nesse lugar ninguém a julgava e podia pensar o que quisesse, ser o mistério complexo da sua própria existência. De novo na cama, com algum alívio interno, apagou a luz. A vela, para ser mais precisa, já que o temporal tinha deitado a baixo um poste de electricidade. Soprou a vela e sorrateiramente o sono desprendeu-se do tecto sussurrando-lhe "fecha os olhos" (que obedeceram mecanicamente).Fechou-se a janela.Terá sonhado?Mais não soube e mais não vi.

sábado, novembro 25, 2006

Avó


Posted by Picasa Fotografia de Inês Fernandes, Modelo Gonçalo Sanches

A avó mexia distraída a caneca, chá-príncipe do seu quintal. Tinha acabado de fazer o arroz doce, e a canela envolvia a casa num aroma fresco e acolhedor que era só por si o sorriso ameninado daquela avó.
"Eles devem estar quase a chegar", pensava ela com a caneca de chá a escaldar nas mãos, truque dos intensos dias de frio que a neta iria imitar sem pensar. Mexeu na lareira, o lume tinha de ser o maior para a sua chegada, para incendiar os olhos e aquecer os ossos presos, arrepiados da viagem.
Era quase meia-noite, e a pequenina avó que morava à entrada da aldeia espreitava as frestas das janelas, fechadas de frio e pelos travessos bichinhos do campo, que se enfiavam em qualquer buraquinho. As luzes do carro esperado não deviam tardar a iluminar as paredes brancas da sua vivenda. Mas cada vez que os faróis de um automóvel acendiam a sua cozinha pelas fendas da janela e lhe ofuscavam os olhos, era sempre mais uma família que passava, e não a sua. O carro pesava de malas e rostos cansados e empacientes, até ao vislumbre da placa da aldeia, que subitamente os despertava. Acordavam do sonho de tantos meses de sorriso apagado, saudosos e viciados na rotina que lhes carregava o sobrolho.
Ansiosa, olhava a sopa quente no fogão, tanta quanto a fome de uma viagem, e o voraz desejo de um sabor perdido. Arrastava as pantufas e o xaile sempre aos ombros pela casa, e o avô calado na varanda de semblante ausente e olhar tremido pela doença, secretamente ansiava pelas gargalhadas a irromper pela marquise, eu a correr para brincar com o lume e para abraçar, ou esmagar, a avó saltando-lhe para o colo, e a minha vozinha aguda a serpentear nos ouvidos do avô: "quando tocas uma musiquinha para nós?", e ele a enxotar-me com a mão, até que nos supreendia na sala, de acordeão nos braços. Eu dançava pela casa, visitava cada pormenor, sempre igual, depois de tanto tempo longe. Naquelas correrias ia quase fazendo tropeçar o meu pai, carregado de malas e malinhas, poisando a roupa e as prendas que traziamos sempre no estreito quarto cheio de fotografias nossas. Mais que a casa em que viviamos todo o ano, aquele era o nosso quarto. O meu pai tinha o rosto inchado pelas horas de estradas e paisagens que lhe corriam pelos olhos, desejando a cada quilómetro o caldo quentinho com migas de pão que só a sogra fazia como gostava. E a minha mãe molhava o sorriso enorme de lágrimas ao ver a minha avó. Eu achava muito estranho, estar feliz e chorar, mas não me importava. Enquanto a minha mãe chorava eu podia brincar sem ela ver com a tenaz no lume. Debruçava-me tanto na cadeirinha de palha que quase caía, e depois espreitava envergonhada com medo que alguém tivesse visto. A minha mãe chorava sempre ao chegar. Era sempre assim, ela chorava à chegada e eu chorava à partida. Agora, tantos anos depois, ainda choro. Aquela aldeia é especial a cada partida, por cada abraço apertado de amizades maiores que a vida. Mas já não me despeço de uma casa a cheirar a arroz doce, nem de um lume grande que me queima as bochechas e escalda as calças de ganga. Porque o queijo já não nasce das mãos dela, nem o doce de abóbora do pequeno-almoço, ou a morcela do cozido. Hoje é diferente, a casa quando chego está fria, ainda cheira a tinta, não há pão espanhol do dia, nem caldo de cores criadas no prado que eu todo o ano via a crescer. Nada é igual. As sensações fogem mesmo que as tentemos prender como força, como eu abraçava a minha avó. As sensações fogem... mas as emoções ficam. Os cheiros, o toque e a saudade. E o cheiro a canela será sempre o teu doce sorriso, vó.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Um sonho maior que eu

Não quero despir o sorriso de que os meus olhos se vestiram hoje. Cheguei, louca, de coração-tambor quase a rebentar, sem vontade de limpar a cara, mudar de camisola, tirar o colar. Na sala grande e branca a poesia voou e foi melodia sem orquestra entre os quadros de reis e princesas de outros tempos. Imaginei um piscar de olhos no sereno semblante da Majestade à minha esquerda, como se fossemos a sua especial corte de arte e fantasia. Como se estivessemos no século XIII e Miguel Ângelo fosse dali a quinze minutos pintar um fresco naquelas imaculadas paredes, como se os nossos nomes contassem na lista de convidados para um baile de D. Pedro I, como se fossemos passar um serão com Eça de Queirós, excêntricos amigos da mesma geração. Que emoção e que ansiedade. O meu cabelo esvoaçava cada vez que me mexia, que roía as unhas, que sorria sem querer, que baloiçava os pés. A cadeira era perfeita, tão alta que pude baloiçar o meu nervosismo. Os meus pés ainda são tão infantis. E as minhas pernas são pequeninas e gostam de brincar, de dançar de lá pra cá debaixo da mesa mesmo que toda a gente consiga ver. Afinal eu ando sempre a saltitar, bolinha de ping-pong que rompe a gravidade. Sou tão pequenina para um mundo tão grande! Mas o acreditar de tantas vozes foi maior que o medo, e hoje as minhas palavras podem voar até onde o meu sorriso não chega. Eu quero reinventar o mundo pelas minhas fantasias. E é bom não o fazer sozinha. Quero fazê-lo com todos os leitores da minha vida.

Post-Scriptum: Estas letras são dedicadas aos sorrisos que hoje brilharam no lançamento do nosso livro. Um grande ABRAÇO a todos!

quinta-feira, novembro 16, 2006

Definição


Amor:
s. m viva afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos;
inclinação da alma e do coração;
objecto da nossa afeição;
paixão;
afecto;
inclinação exclusiva;
(in dicionário da língua portuguesa)

Esa é a definição do dicionário. O meu amor por ti? É do tamanho de tudo o que fica para além do fim do Mundo, é mais que vulcão, tempestade, mar, céu, planície, é mais que infinito, mais que perfeito, forte, inebriante. Faz tremer mais que chuva e dias gleados de inverno. Aquece mais que lareiras e galões quentinhos. È mais alto que o Abominável Homem das neves, maior que o medo, maior que o Papão. Maior que a velocidade do som, da luz, que as galáxias. Mais bizarro que uma nave espacial cheia de criaturas verdes. Mais brilhante que uma chuva de estrelas cadentes. Mais feroz que Leão. Mais lutador que um lutador de boxe num ringue. Mais aromático que o cheiro do café acabado de fazer. Mais belo que uma túlipa branca no meio do deserto. Maior que as milhentas páginas da bíblia, mais arrebatador que um tsunami. mais refrescante que enfiar a cabeça no congelador. O meu amor por ti não dá tréguas, não tem barreiras, não faz férias em Paris ou no Algarve para depois voltar. O meu amor por ti é fome devastadora da tua pele, do teu cheiro, da tua língua, da tua boca e de tudo o que tu és. De cada átomo de ti, de cada célula que te povoa. para sentir cada batida do teu coração. Cada inspiração-expiração. O meu amor por ti é enorme, aumenta de dia para dia mais que qualquer lupa. O meu amor é um amor Sherlock Holmes, descobre-te cada dia mais. Conhece-te. quer-te, precisa. O meu amor, eu que carrego este amor. Este amor que ultrapassa qualquer medida de qualquer fita métrica, qualquer fronteira de qualquer país. Mera palavra de duas sílabas com tanto por dizer.

quarta-feira, novembro 15, 2006

I'm a little girl in a big big world

Não aguento mais. Murmuro por entre a cascata de lágrimas que se lança à pressa pela pele, pelo rosto. Esse rosto macio de cremes com aromas que inventei. A noite é muito grande, a lua muito grande, o mundo muito grande. Eu sou pequena demais para um Mundo tão grande. Falta-me o quente da lareira dos teus braços, as tuas palavras meigas e gentis. Hoje só há um vazio mais frio que qualquer noite de inverno. Fugiste-me, como as escadas rolantes que me ganham sempre. Ainda há pouco dizias que não te prestava atenção. Ainda há pouco. O batimento cardíaco não afrouxa. As lágrimas desenrolam-se agora no interior. Silêncio. Tu não devias saber. Ponho agora uma música que não dá vontade de dançar.Resta a música que não dá vontade de dançar. Os olhos sem brilho, o relógio que já bate a meia noite. A cinderela desaparece logo a seguir à meia noite. Já posso ser o monstro. Da História da Bela e do Monstro. Choro agora, infinitamente só neste segundo, neste espasmo de tempo entre o reconhecimento da dor e a reação a ela. As tuas palavras ardem-me novamente nos ouvidos. Irrompe-me a tua ausência com tanta força, rajada que atropela. Abano-te ferozmente, com insistência, sacudo-te, como se buscasse as moedas de ouro num daqueles sacos vermelhos de veludo. Fantasio-te num beijo irreal subjugado às forças da ausência. Sozinha e carregando um rol de sentimentos por te contar, um rastilho prestes a explodir. Achas-me falta, mas também tu estás ausente. Onde? Onde te escondeste? Onde se escondeu o teu dominó de palavras?Eu estou aqui. Sem fazer barulho para não te desmanchar o sorriso que custou tanto a cozer. Costurado com retalhos de estrelas e nuvens. Noite após noite, dia após dia, e noite após noite e dia após dia e dia após noite e noite após dia. O meu coração ficou nas entrelinhas destas palavras, suspenso entre consoantes e vogais. A B C D E. Agora. Busco. Conforto. Desenlace . Esperança.

terça-feira, novembro 14, 2006

Chocolate em mim

Devias ter tanta personalidade quanto o teu nome. Quando o pronuncias soas forte, inabalável, pareces ser a originalidade e a diferença. Mas deixas voar a asa do teu sorriso como se as tuas bochechas tivessem molas. E flutuas. Caminhas superior à gravidade, ao sabor de tudo o que ele te murmurou entre beijos e era mesmo o que querias ouvir sem saber. Nele encontraste a tua terra do nunca, já não precisas de crescer, e pelo seu riso deixas-te voar. Mas do teu sono profundo despertas como Adamastor e de repente esmoreces de novo, por tudo e nada, porque o teu espírito vive mais que tu! Já estás às voltas na almofada e ainda nem começaste a sonhar a sério. Só queres acordar com medo de cair da cama quando o embalo da ilusão te levar louca e intempestiva no impulso de ti, tanta energia que te move e queres libertar! Mas respira... Ainda não precisas de dizer sempre e nunca, brinca com as cores da paixão, tens tempo!

Onde são os travões das emoções...?

Tu és efeito chocolate em mim, não consigo resistir.

Vivo?

Apetece-me embarcar na ilusão e perder-me no sonho do que não existe, errar por entre noites de luar, dias de arco-íris, de cores fortes, que enchem o horizonte de um olhar cinzento, esse olhar que é meu e de tantos rostos que não conheço mas reconheço, no vazio de sorrisos abertos e tristes, grandes e aparentes... mortos. Apetece-me voar sem rumo, esquecer onde vivo, quem sou, quem fui, quem pensei em ser. Quero apagar as memórias de um passado que já não é meu, de um presente que já não vivo, de um futuro que não quero viver. Afinal, eu vivo? Será que alguma vez VIVI? Será que quero viver? Não sei, não sei, não sei... Não me sei, não me quero saber... Quero errar por aí, voar por aí...esquecer por aí...recriar-me por aí...pintar uma nova tela, desenhar novos caminhos, tornar-me bola de plasticina para me moldar de novo, ou esboço a carvão, para ser apagada ou amachucada... Mas tenho medo de ser plasticina, de ser moldada com força e de ficar com as marcas das unhas de quem me tenta mudar, ou prender como uma mão que aperta a outra egoísta e cega. Tenho medo de ser carvão, posso ser apagada; tenho medo de ser papel, posso ser amachucada de novo, perdida num qualquer cesto de papéis cinzentos, esboços de vida, romances por escrever, guiões por realizar... Não sei se sei viver, não sei se sei SER...(Será que alguma vez SOUBE? E será que algum dia vou SABER?)


Recuperado, de 3 de Julho de 2005

segunda-feira, novembro 13, 2006

Lançamento do Livro


Posted by Picasa

É oficial!! O LetraSoltas vai ser lançado dia 22 de Novembro, pelas 17horas, no Centro Cultural da Casa Pia em Belém, Lisboa! A obra vai ser apresentada pelo professor de escrita criativa, João Louro, e pelo locutor de rádio e professor Vítor Nobre. As autoras convidam todos os assíduos leitores do blog a comparecerem! Serão bem-vindos, pois sem vocês nada teria sido possível... As letras pintaram-se de arco-íris e hoje são um sonho.
Um grande bem haja a todos!


Nota: O livro estará disponível na Livraria Sá da Costa, no Chiado, mais ou menos depois da data de lançamento, e em Dezembro na Fnac...

terça-feira, novembro 07, 2006

Febre de ti

Fechei os estoros dos meus olhos, que febre de pensar. Arrepiada de frio de pijama e robe sentia a testa quente... Ardia da saudade do calor dos teus beijos. A cabeça cansada do rodopio dos teus flashs em mim, pendia para baixo, obrigando o corpo a serenar... Rendi-me. Encolhi-me nos lençóis e cobertores para me abraçar, para me cuidar já que tu não estás aqui. Mas não conseguia dormir. As pálpebras decididas apagavam os olhos, e eles teimavam em abrir como molas. És trovoada em mim, caíste como uma chuva de estrelas no brilho apagado dos meus olhos. E ainda não somos nada, mas a fraqueza do meu corpo já chama por ti. Não digas a ninguém, eu sei que eles têm mais medo que eu, mas apeteces-me. Beija-me outra vez...

domingo, novembro 05, 2006

Tear drop

A minha alma chora, a minha alma ri. A minha alma voa, a minha alma aterra e fica dorida. A minha alma desperta, a minha alma adormece. A minha alma toca, a minha alma acontece.
–Menina das lágrimas, não chores mais. Olha este rio de choro, cheio de pétalas de flores que aí se vão amontoando, viajando nesse teu pranto. Não chores menina das lágrimas. Deixa o choro para outro dia.
A minha alma é tutti frutti, é canela e baunilha. Orégãos e açafrão. Pequena e reluzente. A minha alma é menina das lágrimas e coro de risos.
-Menina das lágrimas porque choras?- porque o mundo me comove. Sou sensível, sabias?
-A que sabem as lágrimas menina?- Sabem a alívio, molham a face e lembram a água do mar. São salgadas, portanto.
-Ai menina estás-me a dar vontade de chorar. Olha estou a ficar com o rosto húmido.
Vem chorar comigo, a insatisfação constante da vida. Vem chorar comigo o (des)esperar de tantos momentos. Que fomos amontoando em caixas de guardar coisas. Abro a caixinha e lá estão inúmeras coisas que não posso contar. Pareceria ridícula sabes? Diriam que estou constantemente a fazer tempestades em copos de água. Rebentou-se o meu copo de água. Por isso as lágrimas transbordam e formam esse rio de águas claras que agora observas.
- Já estou a chorar contigo também. Que te apetecia agora?
Apetecia-me voar. A minha alma tem essa capacidade. Tem asas, que em certos momentos de êxtase da felicidade se abrem de par em par como janelas e a elevam. Aí, minha alma é leve, leve, leve. Sem precisar de cordas que a prendam para não cair. Os trapezistas precisam de cordas e colchões para aterrar depois. A minha alma voa à velocidade da luz num espaço galáctico só meu.Aterrar dói. Só que apenas assim vivemos na sinceridade plena. Eu não tenho asas. As da minha alma nem sempre funcionam. Apetecia-me voar agora.
- Oh... ainda estás a chorar....
- Deixa... eu sou uma fonte. Fonte imensa de onde brotam lugares maravilhosos ou até, lágrimas, contidas durante o que parecem ser séculos ardentes no peito.

quarta-feira, novembro 01, 2006

O olhar. Firme e recto. De quem viver é suor e olheiras, pernas pesadas e cabeça a latejar. O semblante pesado e cansado de quem não chora. As palavras cortantes sem sentimentos, talvez deixados numa esquina escura que o amor teve medo de passar, onde o interesse e a ganância jogam à apanhada.

Porque escolheste ser figurante na minha peça? Porque não és personagem principal comigo?

Deixaste de acreditar e agora és só mais um para mim, em vez de um comigo.
"Quem sabe se quer o que pensa, o que deseja? Quem sabe o que é para si mesmo? Quantas cousas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos, que não foram nunca!"

Fernando Pessoa

Passam noites e músicas, noites de músicas, e fica cada vez mais longe o romance que me fez viver. Fica cada vez mais ridícula a vontade que de o escrever. Hoje sou o que a fantasia me deixa ser. Mais que folhas de diário, sou folhas de sonho que escrevo com saudades de amar.

Lágrimas

Lágrimas. Lágrimas que caem sem cessar, como cascatas selvagens, imparáveis. Lágrimas que gritam o sofrimento de um coração que chora a tua saudade. Lágrimas de uns olhos que procuram os teus. Lágrimas a quem peço outro amor, e “não”, soluçam elas na sua louca torrente. Dizem que não e choram, gritam, sofrem. Querem-te de novo, mesmo que tenham que correr uma outra e outra vez. E caem, caem. Sem parar, sem parar… de uns olhos apaixonados por outros que não sabem amar.