segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Telas de sonho

Sacudida e empurrada do teu mundo, sacudo-me, sacudo-te. Acordo, e já não és a simples almofada em que repousei e acalmei o meu turbulento e constante pensar. Abandonei-me em ti e roubaste-me, toda, no correr delicioso de momentos que só contigo partilho. Agora contemplo-me em ti, procuro-me em ti, mas hoje decidiste ser um espelho brincalhão que me desfoca e joga com os meus olhos, difusos, confusos… peço-te que pares e que sejas livro, que deixes deslizar, suavemente, palavras em que vivem os segundos que te sussurrei, porque és o baú sem fundo que guarda e esconde todos os pedacinhos do que sou eu, protegendo-os no silêncio iluminado por um luar envolvente, que cala os meus medos e angústias mais profundas.

Agora que a lua nos abandonou e levou consigo restos de um divagar alucinante de emoções que só a ti deixo brincar, torna-te livro, e solta os bocadinhos de mim, tu, que, transformando-te em tela, revelaste com cores ora suaves, ora quentes e fortes, momentos de uma vida noutra que só entre nós existe, a nossa vida, os nossos momentos – os nossos segredos. E escreve, escreve, solta na magia das palavras o que deixei num macio leito que embala em cores e toques suaves as frustrações e as desilusões de dias loucos, que fogem de mim. Dias que não me deixam fazê-los meus, escapando-me por entre os dedos como areias teimosas, deixando-se levar pelo veloz vento do tempo sem que eu consiga libertar todas as cores do arco-íris de paixões, ódios, e emoções que sou eu. Deixa-me beber a minha vida no suor de um rosto que deixei em ti quando corria por entre horas, minutos, segundos de recordações como caminhos minados de encruzilhadas em que me fui perdendo. Deixa-me perceber tudo o que deixei fluir esta noite, tudo o que libertei para ti, pedaço fofo de penas, coberto de flanela, e decorado de nuvens que navegam num azul-mar, em que mergulho e me envolvo, sempre que a lua sobe no céu no meu olhar… e me deixo amparar por ti.

E tu agora és tela de cinema, e passas um filme em que eu tenho o papel principal. Já não és espelho, já não és tela, já não és livro. És um fugir de imagens velozes e estonteantes, de cores e formas que se confundem, e fundem…teimosas, como as areias que se escapam por entre dedos, em que vive uma alma que tenta, em vão, dar vida a todos os seus suspiros. Imagens teimosas, demasiado velozes para se deixarem compreender. Como a minha vida, um filme que passa a uma velocidade vertiginosa um sem-número de cheiros, cores e sabores de dias de momentos perdidos, que navegam nas ondas de encantar, no mar de fantasias que és tu.

domingo, fevereiro 27, 2005

O meu pensamento é teu

Deito-me na minha cama, sem conseguir dormir…penso em ti. Poderia até pensar no teu rasgado sorriso… que soltas numa felicidade contagiante quando estás alegre, ou então, reflectir sobre a beleza desses teus grandes, e luminosos olhos, ou ainda, sorrir apenas, ao saber quão belo é esse teu rosto de menina, sonhadora e linda. Que importância tem isso?
Revolvo-me na cama, gostava de poder dormir, mas as tuas lembranças não me deixam, viro-me de um lado para o outro, sinto suores frios no meu corpo, mas não estou doente…não, apenas penso em ti…
Penso na tua pureza de espírito, no teu olhar doce, terno, suave, meigo… penso na bondade que espalhas pelo mundo, esse mundo belo e transcendente, que é o teu.
É bonito, é bonito o teu rumo, o teu sonho, o teu desejo…alegra-me saber que fazes da vida uma passagem gloriosa que queres marcar em letras de ouro …ouro… questiono-me: Será o ouro tão valioso quanto tu? Ora, o ouro sente, ama e ri? Não! Ouro és tu que me fazes sorrir quando me lembro de ti. Queria dormir, mas o meu relógio parou, naquele instante em que o meu eu se mistura em ti, agradecendo sem cessar, todos os momentos que contigo vivi. Foi então que repousei, e adormeci.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Pedra e mármore

O teu rosto...
Pedra e mármore
Que um dia esculpi com os meus dedos
Ontem,
Um qualquer ontem
Amontoado com outros tantos “ontem”
Da minha vida
Hoje há dedos, há mármore
Não há escultor
És pedra
Dura, fria
Não te conheço..
Amnésia do tempo
Tempo do que já não é
O calor da tua voz
A sussurrar-me ao ouvido
E o som cada vez mais longe
Ecos distantes
Cada vez mais fracos
Amor ontem
Esperança ainda
Tu pedra
Eu vida!

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Quem sois?

Quem sois vós?
Sois pedra, luz, caminho?
Sois terrenos, sois humanos
Pequenino…

Mas, porque todos vos perguntam quem vós sois?
Sois um ser, imperfeito…endividado
Sois a busca do perdão, do pecado
Sois carne podre em combustão

Procure saber quem sois vós
Procure ouvir sua voz
Procure o belo de todos nós

Revele-se a todos nós
E vislumbrará belos sóis!

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Dedicado à minha doce Ísis...

Corríamos pela rua
Descalças do fardo,
Fardo que nos puseram nos pés
Nesse dia em que a génese brotou em nós,
Fardo igual a fado
Com que nos marcam
Carrasco que nos persegue
Morte na sofreguidão da vida
Mas tu e eu caminhamos descalças
Tu olhas-me
E o teu olhar condensa uma frase:
“Vai correr tudo bem”
E no doce enleio destes momentos
Há histórias
Que me embalam num baloiço fantasioso
Tu empurras o meu baloiço
Amparas-me, para jamais cair
E enquanto caminhamos pela rua
As mãos que não são dadas
Enlaçam-se sem cessar
E o fulgor da nossa amizade
Expande-se qual bola de luz
Brincamos com essa bola
Crianças destemidas
Falta coragem,
No círculo vicioso da vida
Ou talvez só falte mais gente como tu
Ser despretensioso
Que passeia comigo descalça na rua

domingo, fevereiro 20, 2005

Gostava de poder voar

Era ele um ser embrionário, acabado de nascer… um rebento pronto para viver. Seus olhos irradiavam luz… era razão de muitos sonhos… passados e presentes, era a esperança num futuro cheio de rosas, risos… alegria.
Mas quando a desventura bate à porta, há sonhos que morrem, espinhos que nascem, desesperos que florescem. Brotam cabeças loucas de raiva…como se o mundo acabasse e a vida não tivesse o mesmo sentido. Ele não trouxe muita coisa que os outros queriam que ele tivesse trazido! Era quase imóvel, quase inapto…mas sentia o que os outros não sentiam, amava como os outros não amavam e vivia o que os outros não viviam. Vida amargada pelo divino… cheia de sonhos pequeninos, de uma grandeza inexorável… Voava, baixinho ao sabor do vento que passa, pregado a uma bola que rebola sem parar e dá a volta ao mundo, ao seu mundo de sonho, único e cristalino. Ele não queria ser grande, ser génio, ou conhecido…era apenas mais um, que veio ao mundo pequenino, para cumprir um grande fado.
Mas quem é ele, ou eu…mais um ser sonhador, deambulando pela dor, pois não viveu o que queria, mas amava…qualquer um o saberia?

sábado, fevereiro 19, 2005

Abstracto

Abstraio-me na abstracção deste ser abstracto que sou.Quem me conhece? Ninguém! Eu própria não me sei definir, qual pássaro perdido dentro do seu ninho. Mistifico-me pelas palavras, complexifico-me pelas histórias que construo sobre mim mesma. Desnudo as emoções ainda, quando o pensamento não me deixa correr livre, qual rio que corre indubitavelmente para o mar. As emoções arranham, incomodam, assolapam o organismo, o coração frenético a bater descompassadamente. Na febre dos dias o ódio misturado com sangue. O amor a entranhar-se neles e a curar as feridas. E disserto. Mas mais uma vez não acho respostas, eu peça de puzzle incompleta de mim. Gosto de me ver como um nada enigmático e cheio de luz à espera de outros tantos nada amontoados na febre, na cólera dos dias. Apetece sussurar baixinho para dentro de mim. Mas o mim é oco e não responde. As paredes do eu , não gritam ecos, não me imitam ou respondem... como penso hoje, não será o meu agir amanhã. Eu ser das trevas, lado lunar na luz. Hoje assim.Amanhã assado. E o tempo a correr atrasado para a sonolência da morte, sempre dois ou três passos à minha frente. A intensidade. Almejo-a. A intensidade, o fervilhar na cólera do tempo, seja eu quem for.
E olho-me ao espelho ainda, qual madrasta malévola de um conto de fadas perdido nos risos da infância. O meu rosto no espelho, um eu que não sou eu, para além dos olhos a fonte, a essência, do eu que o tempo oxidará.
Transcorre nos dedos do tempo o sangue das feridas abertas da vida e eu quero alardear ainda a intensidade. Ser intensa dia após dia, espremer o sumo dos minutos, dos segundos. Para esquecer e perder para voltar a encontrar.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Poço sem fundo


 Posted by Hello
Quero encontrar o meu sorriso, prendê-lo em mim, devolvê-lo ao meu coração, que desespera a sua distância. Porque ele ficou preso nos teus olhos, onde pensava ter encontrado o seu mundo. Mas, afinal, os teus olhos, saltimbancos da minha alma, roubaram todo o brilho do meu sorriso e não o quiseram acender de novo.

Quero roubar-to e segurá-lo junto a mim, para não mais entregá-lo a quem o chama com os seus olhos faiscantes de desejo e as suas palavras loucas de paixão. Porque eu pensava que não havia mais ninguém, mais ninguém como tu, tu que para mim eras tudo e não eras nada, tu que eras realidade mas eras sonho, a quem eu o quisesse entregar como te entreguei um dia.

Porque tu possuíste a minha alma com uma loucura vertiginosa, despertando-a com sensações surrealmente intensas. E, com a mesma facilidade com que acordaste uma alma errante, empurraste todos os sentimentos que dela brotaste para os confins de um vazio espiritual, qual poço sem fundo, frio e tenebroso, de onde a tinhas ressuscitado. Deste-lhe tudo e tiraste-lhe ainda mais. Sem mais palavras. Sem mais olhares. Sem mais nada. Só sendo. Só sendo a pessoa que és e só agora descubro. Mas agora sou eu que empurro as memórias uma história frustrada contigo para esse poço sem fundo, para não mais as poder recuperar, e esqueço. Esqueço-te. Estou pronta. Estou pronta para arrancarem de mim todos os restos de ti. Com a mesma violência com que dilaceraste um coração que sangrou o teu nome quando lhe devolveste o seu bater com ingratidão. Arranquem-me de ti, violenta e agressivamente – não me importo. Desde que morras em mim, para que eu possa renascer, e assim criar em plenitude, um poderoso eu, e depois atirar-te sorriso confiante, triunfal. O sorriso do triunfo de uma alma afinal completa – sem qualquer pedaço desprezível de ti a destruir tudo o que sou ou posso ser.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

O milagre da vida

Entrado naquele quarto fechei a porta, olhei ao fundo onde repousava aquela criatura doce. Remexia-se em espasmos e espreguiçadeiras num sono profundo, como se quisesse compartilhar algo, reproduzia suspiros suaves, em deliciosa acalmia.
Dei por mim, inerte, contemplando aquele espírito imaculado que dormia em seu leito, enclausurado ali comigo, naquele quarto que outrora me parecia tão simplório e sem vida, paredes baças e sem alegria, eu achava horrível, subitamente as paredes daquele quarto ficaram mais belas, decerto consequência do sol que começara a reflectir os seus raios para o interior, fazendo com que a mesma se tornasse mais luminosa aos meus olhos, não sei. A criatura continuava dormindo e pouco a pouco, era tomado por uma letargia que fazia com que ficasse imóvel a olhar aquele ser, que os meus olhos não se cansavam de observar. Parecia que o tempo, já não era tempo, dentro daquele quarto imaginava uma linha contínua da minha vida, que percorria toda a beleza do que via naquela cama, e que continuava reflectida nos meus olhos.
Minha mente começara então a fazer como que um quadro abstracto de todo aquele cenário que para mim parecia maravilhoso. Dava vontade de pegar um pincel, fechar os olhos, e desenhar os singelos contornos do que via, bastaria certamente uma tela a preto e branco, pois a pureza daquele bebé indefeso, fazia parecer tudo muito transparente.
Ele continuava a dormir no seu mundo de sonho, eu reagia, abandonava o quarto e agradecia. O milagre da vida.

Ficção

Forjaste uma identidade para ti. Enfiaste o corpo em carapaças para que ninguém te magoasse, à espera talvez que todos te amassem. Ficcionaste-te, tornaste-te um eu-história, eu-mentira que nunca foste. Tornaste-te vazio de ti, poço sem fundo da identidade perdida, mentira-verdade que agora nem tu sabes escrutinar.
Mas eu enredei-me nesse eu-fingimento que não eras tu, mas que tão veemente afirmavas ser, à cálida luz das sombras ficcionaste o amor, tornaste-o um objecto para absorver a luz, essa luz que indistintamente emanava de mim.Queres saber? Sugaste-me!Absorveste-me, inspiraste-me, porventura para tentar acabar com esse vazio em ti.
Contudo o vazio cresceu à medida que aumentaram as mentiras, nessa existência surrreal, e eu cada vez mais fraca e perdida a querer sair das tuas entranhas, mas sem forças. Não era amor, era abismo, os teus braços ainda........a crescerem.........cada vez maiores e eu a fugir em pés de cinderela. E os teus braços a crescerem na noite sem estrelas,estrelas consumidas neste amor sem ser amor, nesta voragem da despedida sem adeus. Não te amo, no entanto quero-te, preciso-te, incorporaste-me em ti, como se fosse carne na tua carne, irmã siamesa do teu corpo, como se não tivesse tido existência antes de ti. Fusão, Perfuração, invasão, quero-te porque não me deixas outra saída.
Conseguiste o que tanto ansiavas!Satisfeito?Esbofeteia-me nessas tuas carícias que me dilaceram a alma, não quero saber!És um mentiroso perfeito, um ilusionista, mago a tirar coelhos da cartola, tiraste-me também da tua cartola.Contente? A mentira é tão boa que já não consigo sair dela, cárcere onde vou morrer viva. Quero-te ainda, vem traz a tua boca-mentira e beija-me uma e outra vez, beijio a saber a licor, licor-veneno. Ficcionaste-te. Usaste-me.Ficionaste-me também. Moldaste-me.Agora só nos resta levar a farsa até ao fim.Um dia o pano há-de cair. O pano....... cair.......

terça-feira, fevereiro 15, 2005

O abraço do luar


 Posted by Hello
O Céu deixa-se conquistar pelo poder da Lua, e deixa sem hesitar o Sol que fere olhos que vivem sonhos e sonham ilusões. Por fim, anoitece. Envolvo-me na escuridão e abandono-me na noite... Sentindo-me, o luar abraça a minha alma, calando a música angustiada do meu coração, que, dilacerado, solta notas agudas de sofrimento e melancolia, sangrando no sufoco de um bater solitário e de uma desesperada e obcecada busca do amor eterno, reminiscência dos contos de fadas dos tempos de infância. Tempos em que, de olhos ávidos e sonhadores, mergulhava por horas sem fio num rio de linhas fantasiosas, surrealmente maravilhosas, deixando a realidade, e encarnando em mil e uma princesas e heróis, voando de castelo em castelo, viajando de reino em reino, numa odisseia incansável de histórias de encantar, acabando por adormecer, cansada de tanta felicidade.

E esta alma que a pouco e pouco se aprende, se conhece, se descobre, encontrando-se no silêncio da noite, amaldiçoa a ingenuidade que teima em não a abandonar, mas deixa-se embalar pela serenidade e quietude do luar, e confortar por um sem-número de pequenas estrelas que, cintilando e resplandecendo de ternura, a acariciam e beijam, sussurrando palavras de esperança, e desenhando um caminho mágico de brilho e cor em direcção às vidas de encanto que outrora criara.

Viver

A vida passa por mim
Será que a vejo…
Viver tudo o que há para viver,
É esse meu desejo.
O futuro espera-me
Chama a todo o instante, tira vida de mim
Esse imenso rio, que corre ainda sem fim!
Eu sei que esse rio é tenebroso.
Mas é nele que terei de vaguear,
Viver cada momento, sem um só minuto hesitar!
Encher minha mente e coração de alegria
Afugentar a solidão!
Só fugindo dela sou feliz
Fazendo o que minha alma me diz
Sei que haverá sempre alguém
A quem posso dar minha mão
Seja por amor, amizade, compaixão!
Existirá sempre no mundo
Um alguém a quem para sempre
Com toda a minha honestidade
Jurarei fidelidade.

Uma criança a querer pular pelos olhos

Inspiro com força
Quero aspirar de uma vez o odor da noite
Inspiro...
Ressuscito os sentidos
Inflamo o olhar no fulgor de uma estrela qualquer
Toco,
Acaricio o vento
Que em delírios meus são teus cabelos
Revejo o teu sorriso
Choro,
A criança que mora no meu olhar agita-se
Não quer saber de inquietudes
Amores disconexos
A noite é calma
Extasia-se com formas difusas no breu
Chamam-lhe beleza
Algo que apela aos sentidos
Tão simples
Que a criança
que mora nos meus olhos
Atrai-se, suspira, treme
Numa esquina qualquer
Desta cidade sem nome
Há crianças escondidas
No olhar de cada rosto
À espera...
Presas por uma membrana invisível
Chamam-lhe medo
Ou será esquecimento
Olhares no chão
Passos pesados
Uma criança a querer pular pelos olhos
A infância tão perto e tão longe
Era a fome do riso que trago ainda
A gargalhada
Uma criança a morar nos meus olhos!
É possível aspirar, sorver, mastigar a vida
E uma criança a querer pular dos teus olhos...

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

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Uma manhã chuvosa
Saio à rua...meio a tremer
Mãos frias
Sentindo o coração a bater
Estava desconfortável...
Nada em mim estava bem
Possuía-me um frio gélido
Precisava de um ombro, um alguém
Deambulava pela rua
Andando...no vazio
Estava tanto frio…
Repentinamente, tudo mudou
Foi a beleza daquele olhar
Que em minha alma entrou
Trazendo-lhe um imenso calor...
Um calor que me transformou
Luzente…em forma de amor
Deixou-me o frio, ou a minha dor
E meu coração sussurrou…
“Gosto de ti”

Corações partem-se como cristal

Corações partem-se como cristal
Cacos de vidro na sala
Na sala, no quarto, nas ruas
Pisamo-los....cortes, golpes
Jorra sangue sem jorrar
Há gritos surdos
Sem ninguém gritar
Gritos e bocas fechadas,
Cacos que se entranham na pele
Envenenam o sangue
Morte longa, dolorosa, agonizante
E quando no fim da vida
Olhamos os escombros
Ruínas da memória
Não sobram mais do que cacos de vidro
Do ódio que deixámos entranhar em nós
Pedaços do que fomos
Da desilusão do que poderíamos ter sido
Mas nunca conseguimos ser
Gargalhadas cavernosas
Quando nas conversas se fala de amor
Amor em cacos sem conserto
Amor faz-de-conta
Amor fingimento
Finge que eu sou tua
Finge que és meu
E depois do fingimento
Corações partem-se como cristal
Multiplicam-se os cacos
Então morremos ...
No meio dos destroços dos nossos corações
Valeu a pena?
Valeu a pena viver?
A mesquinhez? o egoísmo?
Agora o que te resta?
Só cacos e feridas que ardem
Labaredas e mil fogos
Fogos que não se extinguem
Chamas que não se apagam
E cacos...
Mais nada...
Nada...nada...nada...

domingo, fevereiro 13, 2005

Letras... soltas. Desenhando a minha vida.


Tentei desenhar a minha vida numa folha de papel. Com um lápis de carvão, fui descrevendo o rumo que deixei que ela tomasse… deixando a minha mão passear por aquela então imaculada folha branca, deslizei com o lápis, desenhando os mais tortuosos e incompreensíveis caminhos, reconstituindo mentalmente o mais pequeno passo, e descobrindo, curva a curva, que sempre me deixei levar, como um rio que não conhece o destino das suas águas, mas diz-lhes, baixinho, num cantar que o vento e as folhas das árvores acompanham, para seguirem ao sabor da corrente. Preenchendo devagar aquela folha que por certo não imaginaria que em pequenos riscos incompreensíveis mesmo a olhos de um qualquer criptólogo, representaria algo tão poderoso como uma vida, li-me por dentro, abrindo o livro do meu passear pelo mundo apenas com uma folha e um lápis de carvão… capítulo a capítulo, descobri também que sempre sussurrei ao meu coração que vivesse, que deixasse os sentimentos voarem em direcção a algo que os abrace e lhes fale baixinho de felicidade e harmonia… descobri que sempre quis sentir que não agarrava a vida com a preocupação e a racionalidade dos que se regem pelo medo de sofrer e acabam por deixar apodrecer o seu coração… porque eu nunca o quis fazer bater apenas por necessidade, mas pela beleza de uns olhos que brilham, reluzindo e cintilando como que tomados pela magia das estrelas, porque encontram na tempestade um arco-íris quando alguém rompe multidões que se debatem e competem entre si, para abraçar num beijo alguém que só quer sentir o milagre e a beleza da vida…

Horas e horas de leitura depois, quem olhasse então para aquela folha de papel, veria apenas um enorme novelo confuso e recheado de linhas, pelas quais percebi que, felizes ou nem tanto, já conduzi a minha vida pelos mais variados caminhos, com rédeas pouco cerradas… posso dizer que já vivi qualquer coisa e que estou cada vez mais perto do preenchimento e da satisfação plenas… e isso só foi possível devido aos pequenos pontinhos que fui fazendo junto às confusas linhas que deixei a minha mão desenhar… os pequenos pontinhos, singelos, únicos, intrigantes e belos, cada um à sua maneira… quem tem acompanhado o meu caminhar… os leitores do livro da minha vida.