sexta-feira, junho 30, 2006

Desdém


 Posted by Picasa

Na certeza mais alta de mim, aproximo-me, direita e confiante. Claque, claque, claque. As molas cedem, as portas reconhecem-me. Entro. Explosão de efusividade. Como uma onda num estádio. Como um golo num café. Olá, olá, olá, tudo bem, isto anda calminho e por lá, quando chegaste, vieste sozinha, atropelam-se, lançam-se em catadupa. Caos de caras saltitantes, corpos-íman, euforia que me hipnotiza e me desenha um sorriso fácil com os olhos telecomando sem nome, que me seduzem e se sobrepõem sei rei nem lei. E de súbito disparas o teu brilho glacial, tão pouco humano. Fulminas-me como uma bala furiosa. Mas perdeste a tua pontaria de faquir de punhais certeiros e dilacerantes. Baixo o meu olhar como os míticos cowboys do Texas. Sigo de soslaio o teu olhar guloso, o sentir de cada sinal de mim que vibra em ti, como o mais psicótico assassino. Sorves cada pedacinho de mim. É delicioso beber cada gota do teu insaciável, previsível e estúpido desejo. As vozes enrolam-se em cacofonia com a música da aparelhagem. O barulho das gargalhadas entre o batuque electrónico moe-me a cabeça, e desligo o som. Concentro-me em ti. Cruel sou, neste gozo calado. Estás cego. Fui eu, sei-o bem. Fui eu que te roubei a lucidez num pestanejar de inocente sedução. Que te puxei o tapete debaixo dos pés num tiro de magnetismo. (Oh Baby I shot you down, bang bang) Vês-me entre músicas trocadas, entre bebidas servidas, entre goles e passas. Moves-te entre o nevoeiro do teu fumo, visão enublada, pensamento perdido na ficção de tu e eu. Fazes tudo de olhos baixos e rectos, imóveis, com um autómato. E de repente fitas-me com o teu olhar prepotente, disparando uma baforada de fumo na minha direcção, sorrindo e piscando-me o olho entre sopros. Riposto com o meu olhar de escárnio, a ti, robô que te afundaste em mim, abanando a cabeça de desdém. Como esqueces que te esqueci, como te desprezo, como ignoras que te perdeste entre o meu canal memória, como não revejo o que fomos... como me enojas. Como estou imune ao veneno de ti! E tu não sabes!

(Cuidado. Tu ainda não tomaste o meu antídoto!)

quarta-feira, junho 28, 2006

Master of puppets


 Posted by Picasa

Ainda a brincar com as marionetas da mentira e da ilusão? Já tiveste tempo de as arrumar na prateleira. Já viste como deixaste o quarto de ti desarrumado? Querias brincar aos donos do mundo e espalhaste todos os bonecos no chão. Despenteaste-os, tiraste-lhes a roupa, mutilaste-os, desarranjaste-os da cabeça aos pés. E soltavas gargalhadas estridentes, confiante do teu poder. Dominavas um circo de aberrações. Estalavas os dedos e eles prostavam-se perante ti. Até que eu acordei e fugi, porque afinal há brinquedos que acordam quando estamos a dormir. Eu era a maior pecinha de lego, e estraguei a simples matemática das tuas casinhas, mas tu remexeste o teu imenso balde de legos e continuaste a brincar. Fingiste que não davas pela minha falta, o teu boneco preferido. Olhando para os outros, nem me fizeste muito mal. Não podias, eu sei-te melhor que eles. Tinhas medo de mim porque me desenhaste na beleza singela e harmoniosa de uma boneca de porcelana, vestida de fidalga da mais requintada corte. E a minha fragilidade convidava-te a segredar-me os teus pecados e os erros. Quando fugi calei a tua hipocrisia, e tu levaste o teu trono do quarto para a varanda. Não podias deixar de brincar, não agora. Eu estava livre e podia espalhar a tua fraude. Cresceste em falsidade porque já não me tinhas para chorar as tuas quedas e impetuosidades. Exageraste histericamente a tua pretensiosa superioridade. Estás despenteado, pesado, sisudo. A tua pele está macilenta, o teu falar é arrastado. As pessoas que riem ao pé de ti não te sentem a cair pela gigantesca bola de neve em que te tornaste. Escorregas lentamente na montanha sinuosa das tuas palavras, que se atropelam, que se magoam, que se empurram em contradições e teias de sujidade no rasto de ti, cantos poeirentos de palavras vãs e falsas, mal enroladas num novelo confuso. As tuas mãos estão suadas e o teu corpo cansado. Despenhas-te devagarinho, e não vês o fundo do precipício. Está escuro. Acendes-te na artificialidade do teu sorriso, como um candeeiro ofuscante sem luz própria. E eu sei que não tens brilho. Os outros não. Até quando serás a gargalhada inebriada e torpe das três da manhã, o hálito alucinogénico do copo vazio, o corpo cambaleante que serpenteia entre as luzes dos holofotes e as marteladas electrónicas da música? O disco acabou, e o teu encantamento também. O pano cai. Adormeces agarrado às marionetas, adormeces o teatro. Amanhã uma nova peça estreará. Porque tu és um rei teimoso de capa rota e coroa enferrujada, preso ao teu cadeirão bafiento.

segunda-feira, junho 26, 2006

Gosto

Gosto quando chegas sem pressa de voltar para esse qualquer lugar de onde tenhas partido. Gosto quando uma música me lembra de ti e me faz dançar sozinha revolvendo os cortinados do quarto. Quando fico arrepiada perdida no teu beijo. Gosto quando adivinhas os meus pensamentos e sabes exactamente o que dizer. Fico a imaginar o meu ar de criança perdida ansiando por te encontrar novamente, cada segundo de uma intensidade fluorescente. Gosto quando agarras o meu rosto e me beijas repentinamente. Quando te perdes nos meus olhos, que reflectem o brilho dos teus. Gosto quando falas baixinho ao meu ouvido, sem pressas, como se todo o tempo fosse pertença nossa. Agarro-te com muita força, encosto a minha cabeça ao teu peito e tento esconder as lágrimas. Fico a prendê-las com força, a prender-te com força no meu Mundo. Não vás embora ( martela-me insistentemente esta frase no cérebro). O teu cheiro a perfume entranha-se no meu corpo e sei que quando voltar para casa o teu cheiro voltará comigo. Ficará na minha memória e, se por mera coincidência, alguém que usar a mesma marca de perfume passar por mim irei certamente, num flash, saber que é o teu. E sentirei saudades. A tua voz irá preencher os espaços do meu coração e lembrar-me-ei de muitas passagens deste livro que as nossas memórias já fizeram. Das horas que juntos percorremos, dos ponteiros que andaram muito depressa de cada vez que nos encontrámos. Vou continuar a andar com ar sonhador e desejar com muito força que um qualquer feitiço te possa levar até junto de mim. Cerro as mão com força como quem pede um desejo, mas nada acontece.Permanece a a rua cheia de pessoas e a brisa a levantar as folhas das árvores. Mais uma tarde amena. Gosto de tardes amenas, soalheiras, em que ficamos a rir e conversar sobre todas as coisas e sobre coisa nenhuma. Penso ainda que gostava que me visses neste momento em que me encontro embriagada de desejos e quase levito no meio da rua. Que subitamente soubesses exactamente onde estou. Me agarrasses pela cintura e chamasses baixinho pelo meu nome. Saberia que és tu. Sei-te de cor.

domingo, junho 25, 2006

Medos a fugirem da cave


Viajei pela memória por segundos, não havia música a tocar mas era como se existisse. Ressoavam no meu cérebro sons inconfundíveis, memórias sucedendo-se a um ritmo alucinante, até ficar a ponto de vomitar. Senti-me perdida de repente, eu que sou epicentro de todas essas emoções. Senti-me um terramoto e comecei a tremer em choro convulso. Tantas foram as vezes que me puxaram o tapete debaixo dos pés, muitas foram as vezes em que o meu mundo de paredes sólidas ruiu, inúmeras as vezes em que a minha terra firme tremeu. Hoje não passam de fragmentos prismáticos, de estilhaços ou flashs dos quais já não consigo recordar o todo. E senti-me como uma laranja a quem espremeram todo o sumo. Doeu. E foi uma dor que nenhuma palavra pode descrever. Porque nenhuma palavra é dor e nenhuma dor é palavra. Daquelas que deixam os olhos inchados e vermelhos de choro. Ou que nem dão sinais visíveis mas nos quebram por dentro. Esses momentos em que nenhum cliché estapafúrdio como “amanhã é um novo dia” me impediu de sentir uma consternação ímpar e um nó no peito que não conseguia desatar. E em certos dias em que o ser se remete à reflexão as pérolas-lágrimas reaparecem e percorrem o caminho do rosto até ao chão. Caiem a limpar a alma, são lágrimas de medo. Quando nos pisam muitas vezes criamos o mecanismo de afastar o pé porque temos medo. Não atravessamos tão depressa a estrada.Só agora, neste ínfimo segundo em que enuncio, confesso baixinho: “tenho tanto medo”. De que não exista nada nada daquilo que faz girar o meu mundo. De que aquilo que lutei, que acreditei seja mais uma ilusão. E fico com vontade de me esconder debaixo da mesa da cozinha para ninguém me encontrar. Fico a jogar às escondidas com os meus medos secretos (que às vezes fogem da cave.) Escondo-me e fujo do medo. Debaixo da mesa trauteando baixinho uma música harmoniosa. Mexo muito no cabelo como faço quando estou nervosa. Quando o medo chegar vou-lhe dizer muitos disparates por estar mesmo nervosa. Vou-lhe pedir em voz doce para ir embora, vou chamar por ti por entre as palavras, para afugentar o medo. Para levares o medo contigo e me levares também. Não, não sei para onde. Não conheço mais do que este caminho entre a minha casa e o Mundo das cores e sabores. Não sei mais do que este andar por aí, sem saber exactamente como ir para esse “aí” ou “ali”. Já sei o que quero pedir par a o meu aniversário. Dá-me o mundo. Sim o mundo todo na reviravolta dos dias. Agora, simplesmente nesta fracção de tempo fico sem rumo e polvilhada de receios, em vez de açúcar (aquele com que gostas de polvilhar pastéis de belém). Fico com os olhos grandes cobertos de sombras e luas em quarto crescente. Anseio ser apenas lua cheia a iluminar o véu negro que esconde os amantes. A noite onde me escondo de tudo e me escondo em ti. Sacudo os medos com a mão, mas eles não vão embora. Que fazer?Faço-me de forte, mas de facto não tenho músculos.Não tenho força. Baixo a cabeça e abano-a em jeito de resignação. Será que me ouves por entre os pensamentos inconfessáveis?Deito-me na cama e continuo a chorar em silêncio, digo baixinho “boa noite meu amor” fixando o tecto, viro-me de barriga para baixo, aconchego-me e deixo-me levar na minha almofada. Para qualquer lado inexistente que os sonhos me queiram transportar.

sexta-feira, junho 23, 2006

Runnaway train, never coming back...


Posted by Picasa

- Agora não vais chorar, ouviste? Não podes... fazes-me chorar também e não podemos ficar assim. - a sua voz meiga engrossou, os olhos sorridentes incendiaram-se; parecia um tenente-general a dar uma ordem a um soldado frágil e desajeitado.
Sentindo as mãos quentes transformar-se num toque glacial, ela tentou aligeirar a conversa, tentando ser engraçada. Como sempre.
- Sabendo que vou naquele comboio horrível é quase impossível. Nem é por ti... aquilo é um suplício! Nem música há; os picas são todos bexigosos e rebarbados...
- Não desvies a conversa, por favor. - voltou com o seu olhar de gelo.
(Silêncio. Ela não insistiu mais. Aquele dia tinha sido apenas uma ilusão, por mais que Rui Veloso ecoasse na sua cabeça, entre as planícies verdejantes do Norte.)
- Ok... então quando vais lá? - insistiu, colada ao seu peito, afagando-lhe o pescoço e brincando com aquele olhar de menina abandonada.
- Não sei... - disse, com o olhar perdido pela estação.
- Não sabes? Quando acabarem as praxes, não? - largou-o de repente, como se as suas palavras fossem um vento que a fossem afastando de mansinho... Olhou-o por cima do ombro, e foi-se dirigindo para a porta do comboio.
Ele aproximou-se, agarrando-lhe a mão e abraçando-a de novo, por cima dos seus braços inertes, colados ao corpo, teimosos.
- Não sei. Depois é o baptismo, o cortejo, as festas... Não posso sair assim. - e tentou a voz quente de novo, num esforço vão de a apaziguar, acariciando-lhe as mãos encostadas às pernas.
- Ah. Tens muito que fazer, já percebi. - olhou-o de lado de novo e repeliu com os ombros os seus braços.
- Fogo... não gosto nada desta altura. Estás a ver aqueles dois ali? Lá vai a namorada para longe e fica o rapaz sozinho. Eu vejo-nos ali, mas eles não são tão nervosos. - desabafou, baixando os olhos e assistindo à despedida melosa do casal ao lado.
- Se calhar ele não tem mil festas a que tem de ir. Seu Lili Caneças. - e riu-se do ridículo daquela situação, daqueles meses condensados num segundo, que o traduziam melhor que outro dia qualquer. Tudo tinha sido um chegar e partir estonteante, um filme cheio de peripécias, encontros e desencontros, daqueles filmes que se passam apenas num dia. E já antevia as palavras "the end" na tela. E se não era daqueles que acabam "e eles ficaram felizes para sempre", valia mais aproveitar o momento que deixá-lo entre discussões e lamentos.
- Beija-me. - desafiou-o, olhando-o de cima, arqueando as sobrancelhas. Ele não estranhou o pedido. Conhecia as suas constantes mudanças de humor. Gargalhadas, amuos, sorriso, careta.
- Tenho uma ideia! Vamos os dois comer chiclas de mentol daquelas que te deixam com falta de ar. Vai ser uma explosãããão de frescura!
- Vamos então! - e sorriu, complacente, enquanto ele tirava o pacote de pastilhas do bolso. Ele também sabia, e estava a fazer tudo para que não acabasse como um filme romântico piroso. E ainda bem, porque só ela sabia como tinha suspirado ao saber que ele os adorava.
E envolveram-se num longo beijo de mentol, fresco e doce, entre risos. Anestesiados, e as bocas ainda querendo mais, separaram-se e olharam-se profundamente nos olhos. Na cabeça dela algo ecoou: "este beijo soube pela vida", como tinha ouvido uma vez. E ele foi o estalido que os fez acordar daquela nuvem cor-de-rosa, como nas ilusões mágicas: "Bem, e com isto faziamos uma publicidade para chiclas espectacular!!"
Abraçou-o sorrindo, apontando em seguida para uma máquina onde se podiam comprar pastilhas e chocolates. "Se quiseres mais..."
O comboio apitou. "O comboio inter-cidades vai dar entrada na...
- ... linha número seis. Senhores passageiros aproximem-se da plataforma. - completou ele. - Já conheço esta cantilena de cor. Essa mulher é uma malvada... Vá, deixa-me entrar para ver onde é o teu lugar. Quero ter a certeza que não há lobos maus para assustar o capuchinho vermelho.
- E se te fosses esconder na casa-de-banho? Ou lançar o pica borda fora? Que velhinhos horríveis aqueles... - replicou ela, tremendo por dentro, pensando já que não mais voltaria a viver aqueles simples momentos de plenitude. Dois em um, outra vez um sem dois.
"O comboio inter-cidades, na linha seis...", repetiu aquela voz estridente, irritante, o som de um filme a acabar, entre o polifónico do aviso da voz.
- Já te viram! Estão-te a mandar embora. Vou-te mandando mensagens para aguentar o martírio da viagem.
- Eu vou para as aulas... mas vou respondendo quando puder, ok?
Aquela resposta, aquela sensação voltava. Ignorou. Beijou-o novamente.
- Não me deixes ir...
- Telefona à tua mãe e fica uns dias! Que mal tinha?
- Tu e as tuas parolices de novelas. Sim, sim, era como dizer que ia chegar atrasada para jantar. Vá...vou entrar.
- E eu vou-me...não te quero ver partir.
Abraçaram-se intensamente, quase se esmagando um contra o outro. Ela puxou-o para dentro do comboio, e sussurrou-lhe ao ouvido: "vem tu comigo..." Ele abanou a cabeça, baixando os olhos. Afastou-se do comboio, acenou, virou costas, e desceu as escadas da estação enquanto o comboio ia silvando e afastando-se, egoísta (se ao menos de repente parasse e tivesse um problema qualquer que o fizesse voltar para atrás). E ele não olhou mais para a janela em que ela tinha a mão cerrada e os olhos muito abertos, como fazia sempre para não chorar. E então ela soube que não o veria mais.

domingo, junho 18, 2006

Nada vezes nada


Posted by Picasa

Nada vezes nada é nada. Que é como quem diz zero vezes zero é zero na primária. A conta mais fácil e que nos fazia rir. E é isso que me sinto. A conta mais simples, mais banal, mais lógica e natural. Na naturalidade da sucessão dos dias e na rotina de frustrações e ambições perdidas como pegadas na areia apagadas pelo mar. Ou aquele andar pesado e arrastado na neve, suplantado ainda por um novo nevão. E se escrevo é porque sou como aquelas crianças que caem e se levantam sem chorar, sacudindo apenas o pó do chão. Eu já sacudi todo o pó que me fazia espirrar de arrependimento e saudade. Hoje só quero qualquer coisa que me devolva a certeza de ser, neste viver decorado entre tardes e noites. Que manhãs já não conheço. Pôr-do-sol de cores fortes que quer brilhar mais, e se esconde e desaparece entre as nuvens com medo. Esse medo que eu nunca admitir ter, penteando o longo cabelo e sentindo-me bem só porque se quiser posso sorrir. Sei-o desde pequenina. Move os lábios e os outros sentiram que estás bem, aprendi. Disfarço-me de mim e sou de novo. Inventando fotografias de sorrisos nas horas mortas. E os sorrisos não são de nada mais senão eu, sem mais nada nem ninguém, a certeza de estar, a certeza de continuar, apesar de tudo. Podem ser apenas sorrisos ao pé da minha cama entre os livros, sorrisos estirados no sofá, sorrisos na longa viagem de comboio, mas são sorrisos. Sorrio, e escrevo. "Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações", diria Fernando Pessoa, espelhando-me cruelmente nas suas palavras. Furiosamente escreveu-me como não gostaria de ter lido. E agora escrevo, para varrer a angústia para os dedos, para romper o paradoxo de sentir um não sentir devastador, com metáforas da emoção inebriante que se perdeu, procurando debaixo das palavras o coração escondido outrora entorpecido na sofreguidão de um beijo, a tela Arco-íSis no deslumbramento de um novo despertar. Sinto-me adormecida, mas escrevo. E sorrio.

(Às vezes, quando não sei quem sou, passo por estas letras, e encontro-me a espreitar entre as palavras.)

A história do princípe sem capa e sem espada


Encontra-te comigo no meu sonho. Eu vou estar lá no fundo da praia ao pé da bandeira, vestida de branco (como tu gostas) e com aquele sorriso pelo qual te apaixonaste. Virás a correr e vais-me abraçar e fazer-me rodopiar como vi nos filmes. Vou acordar sobressaltada e telefonar-te histérica e resplandecente: "sonhei contigo", "foi um sonho tão lindo!". Irás responder sorridente: "fazes-me sentir tão bem!" e eu vou ficar a sorrir pateticamente para o auscultador do telemóvel, sem tu me poderes ver. Num silêncio de segundos eternos todas as palavras vão ser ditas. E sim, repeti a palavra sorrir várias vezes. Porque o nosso sorriso é o par de sorrisos mais lindo das molduras. Os nossos sorrisos e as nossas mãos: ambos encaixam na perfeição.Gosto da palavra sorrir. Sim, também gosto de ti. Toco na moldura da tua fotografia devagarinho, como se fosse a tua pele, como se ao tocar na moldura ela se transformasse no teu ser de carne e osso. O teu cheiro está na minha vida. Cheiras a ternura e algodão doce. Ai e esse teu aroma de cerejas. Os beijos também são como as cerejas. Olho embevecida para todas as recordações da minha caixinha de papelão. A tua letra pequenina no meio das minhas memórias. Imagino-te de espada e capa, (ou de capa e espada) como um princípe, montado a cavalo a galopar...perco-me nas minhas fantasias e quem galopa afinal é o meu coração, num trote descompassado. Já ouço a campaínha e o coração acelera ainda mais, como se o cavalo à solta no meu peito estivesse numa verdadeira corrida. Desço as escadas a correr, de dois em dois degraus para chegar mais depressa. Quase que tropeço e caio (mas não posso), se cair vou demorar muito tempo a abrir a porta e podes não querer esperar por mim.Espera por mim. Abro a porta. És tu. Sem cavalo e sem espada, com um ramo de túlipas brancas nos braços. Beijo-te sem pressas e ponho as túlipas na jarra. Esse jarra de vidro, que espero nunca se quebre.Gostava que este amor fosse como este texto e como essa jarra. Simples e intacto. Cheio de beleza. Como aquelas lindas túlipas.

quinta-feira, junho 08, 2006

Miminhos

Peguei na agulha e comecei a rebentar os balões,todos eles num curto trajecto perdiam a sua graça e ficavam a um canto do passeio, da estrada, sozinhos e desprovidos de toda a cor. Passei a minha vida a ver balões que pareciam tão bonitos rebentar ou simplesmente fugir-me da mão. Um dia achei que mais valia crescer e deixar de comprar balões. Cheguei a pensar que o senhor que vendia balões e me estendia sempre um sorriso rasgado tinha desistido. Tinha ido procurar outras portas nas quais houvesse meninas que quisessem comprar balões de todas as cores e de todas as formas (que dali a pouco tempo iriam ser apenas restosvazios sem oxigénio ou hélio). São assim muitas das pessoas que conheci.
O senhor dos balões achou que eu tinha desistido do amor. E ficou escondido a um canto. À espera. Porque as pessoas que são como os balões já não me interessavam. Até que um dia o senhor voltou com o seu carrinho que chiava pela manhã e com o sorriso rasgado. “A menina deseja alguma coisa?” e eu respondi “Já não tenho idade para balões nem para brincar”. O senhor de barbas e de olhar meigo estendeu-me um balão, com cores que não sabia existir. Quando me voltei já não estavalá ninguém. Apenas a rua deserta e crianças a brincar com os seus balões. Umas riam, outras choravam (quando o balão ficava preso no telhado). Só que o meu balão não rebentava com agulhas. O meu balão não era igual aos outros. Desenhei-lhe com uma caneta uma boca, uns olhos, um sorriso como o que vira naquele que me vendera o balão mágico. Um sorriso com cheiro intenso a bolo de alegria. Um balão que ao invés de voar me levava a voar com ele. Voltávamos à noitinha pela janela pequenina, sem fazer barulho. Só eu e o meu balão. Se me perguntarem por aí se acredito no amor vou responder que sim. Nunca mais espetei o dedo a rebentar balões. Nem o balão ficou preso nalgum telhado.

Meet me in my dreams


 Posted by Picasa

E hoje quero que o dia acabe mais cedo, para fechar os olhos e rodopiar entre os lençóis até te encontrar nos meus sonhos. Porque eu sei que é em ti que está a cauda do arco-íris que desaparece entre as casinhas de gengibre do meu sorriso adormecido. Porque tu me beijas com a pastilha de mentol, e fazes-me bater os ténis como as donzelas dos anos 20 que deixavam saltar os sapatinhos de verniz quando os noivos lhes davam aqueles loucos e emocionantes beijos-surpresa. "Porque um beijo só é perfeito quando o teu sapato parece saltar e te arrepias espinha acima". Hoje quero encontrar-te e ser Mary Poppins. Porque eu sei que podemos rir até tocar no tecto. Mesmo nos sonhos. Os sonhos não são menos realidade (e tu dizias que o nosso sonho tinha olhos bonitos - e não precisavam de ser azuis). Quando me largas a mão e deixas que o comboio te leve também parece que te perdi, que foi apenas um sonho, que ficou só aquele sabor nos lábios, suave como o chocolate, e a respiração de um entre cada beijo de dois foge de mim como o coelhinho da Alice. E quero bater os ténis outra vez, mas como a Dorothy, e voltar ao nosso mundo mágico de Oz, entre coca-colas, piqueniques em clareiras de uma selva urbana, sotaques trocados, e idiotices que cheiram a mim e sabem a ti. Porque não me apetece dormir se não for para sonhar contigo. Para estar contigo. Mais uma vez.

quarta-feira, junho 07, 2006

Soulstorm

Eu sou um espírito livre a flutuar no interstício de um texto que ainda não foi escrito. Sou um par de asas ferrugentas em cima da secretária numa ânsia desmesurada de voar acima das casas, e ver tudo mais pequenino, a metros e metros de altitude. Eu sou uma alma em tempestade, um paradoxo que julgava irresolucionável. Tu és a solução da minha equação. A aproximação do meu paradoxo. O íman (aquele do frigorífico) que atrai vorazmente.Eu sou uma alma perdida num quarto que se percorre num minuto e cujas paredes são todas de cor alva, clara demais suponho. Eu sou um barco a querer descer um rio de Terra. O mundo é uma metáfora da realidade. Porque o Mundo não existe. Porque nada existe à pertida. Tudo isto é um daqueles jogos de cubos, uma (des) construção, um conjunto de meta meta pensamentos. As palavras não existem. Usamo-las para expressar emoções que perpassam o nosso corpo físico, nesta nossa urgência do dizer, do comunicar, de simbolizar e mostrar a todos essas mesmas sensações. Mas nenhuma palavra descreve exactamente o que sentimos. As palavras são estes fingimentos adornados. São cristalizações de passado, assim que se diz, já foi dito.As palavras são memória, com elas escrevo para me lembrar de ti, de ontem em qeu te disse tantas outras palavras que não descrevem a a forma como seres tu te fica tão bem.