quinta-feira, março 30, 2006

(Des)iludo-me


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Falta de ar. Falta o ar. Neste cubo envidraçado de mim. Embaciado de um respirar de coração na boca, nevoeiro torpe que me cega. Um grito louco estilhaça as finas vidraças da minha pele, rasgando o silêncio entre o tecido-prisão prestes a ceder pelas brechas das mordaças cerradas das palavras. Palavras tapadas com os cobertores pesados do medo, emaranhadas entre os lençóis-confusão. Palavrasasfixiadasentresentimentosapertados, atropelando-se entre golfadas de ar engolido e cuspido, engolido e cuspido, engolido e cuspido. Estilhaços de mim pelo chão dilaceram-me os pés, ensanguentados, mancham a transparência de mil vidrinhos, mil reflexos, mil espelhos partidos de mim, espalhados como ratoreiras de dentaduras sedentas que abocanham e cospem-me no vazio. Afiadas lâminas da pele rasgada espetam-se com violência na carne descoberta pintada de encarnado-dor, sujando o pálido beje mesclado em veias de um pulsante e vivo azul de ilusão e sonho. (Des)iludo-me. Pego os pedaços aguçados de amargura e escondo-os num buraco oco do meu roupeiro. Instantes roubados empurrados para dentro de uma gaveta secreta. Vidrinhos cortantes entre fotografias desbotadas, brinquedos partidos que escondi para não dar para a caridade, cassettes infantis e um caderno de desabafos e contos por acabar. Porque cada um de nós é um fingi-dor. Sufocando gritos no barulho ensurdecedor e estonteante de uma trovejante gargalhada, riscando lábios para cima por cima dos lábios para baixo, esborratando lágrimas com a manga preta da camisola, arco-íris de risinhos fluorescentes por cima do marasmo enevoado e desfocado a preto e branco. Limpa-brisas de automóvel com bolhinhas coloridas de sabão na tempestade. Prisma transparente, absorvendo, roubando e lançando ilusões multicolores. O inimigo do prisma é o espelho (especialmente o mais pequenino, velho, estilhaçado, embaciado e sujo, de unhas por cortar e olheiras cavadas).

quarta-feira, março 29, 2006

Malas prontas

Eu hoje vou fugir. Pegar na mala, cansada de estar fechada no armário lúgubre e asfixiante.Hoje, um dia seguinte a um ontem e um ontem de um qualquer amanhã.Hoje parto para um lugar muito longe da agitação agonística das ruas da urbe. Um topos onde cai neve fria em flocos no nariz, nas mãos, nos olhos.Onde a neve tem aroma de sonhos e não derrete. Onde o mar é azul, muito azul e transparente e a areia faz cócegas nos pés. Ouvirei o som de pianos e violinos e irei abrir os braços e rodopiar, rodopiar sobre um sol abrasador até cair no chão. Rir da minha insanidade.

Por isso eu queria escapulir.Porque as minhas paredes são escuras.Porque o meu hoje nunca mais passa a amanhã. Mas o meu topos é utopia.Sobram-me as frustrações. a janela, fechada ainda, e o som do piano, apenas na rádio. O prazer de um capuccino acabado de fazer,de uma mão a segurar a minha, com cuidado, minha mão-cristal. Conseguirias colar a minha mão-cristal se, porventura, a quebrasses?Se tu podes colar a minha mão-cristal, será que eu sou capaz de realizar um desejo meu?

Talvez se pedir a uma estrela cadente. Uma moeda num poço de desejos. Se fizer muita força. Era um desejo. Tão pequeno como um ínfimo sopro.Um. Um passo.Uma hora. Um desejo.

domingo, março 26, 2006

Sistema Solar

A minha almofada e a cabeça pousada sobre ela. O mundo lá fora. O mundo cá dentro. Em mim desfila o sistema solar. Nascem mil sóis no meu Planeta Vénus. Faço rodar Saturno com a palma da mão. A cabeça na lua. A minha pele a cheirar ao perfume do teu corpo. A tua pele, agora tão longe como Plutão, enquanto tento adormecer. E o barulho do relógio a deixar de importar enquanto fico imersa neste solitário e disfórico recordar. Queria bater os sapatos vermelhos da menina do Feiticeiro de Oz ou ter os pós da Sininho. E sair daqui. Deste planeta Terra que é o meu quarto, com estrelas falsas no tecto, e ir contigo até Marte no sopro quente e indizível de um beijo.Dizes-me qualquer coisa ao ouvido mas já não consigo ouvir. Os meus olhos perdem-se nos teus como se uma luz ofuscante os envolvsse. Estou a engolir o ar às golfadas rápidas. Não consigo respirar. Ao longe ainda ouço uma música perfeita para um momento mais que perfeito. Nesse momento m que vivemos ao invés de existirmos. Sussurrámos ao invés de discutirmos. Falámos com os olhos ao invés de usar as palavras.E nada neste texto é complicado. Porque nos momentos mais que perfeitos nada resta que se complique.

Are you in your skin?

"Inject yourself with liberty - it's free, it's free!"

Salvation, The Cranberries


A coloured degradé is painted as the rainbow spins in dark and bright tons, as fast as I bunge-jump between shinning eyes to deep ringinded face, grey face to make-up face. Make it up. Face your errors. Sun glasses apart. Errors apart. A part of you. A part of your past.


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Smile till your cheeks hurt.

Feel in your skin. Jump in to you.

terça-feira, março 21, 2006

Juras?!!


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"Creio no que dizes porque nos amamos
Mas quantas vezes as juras quebramos?
Intenção é mera escrava da memória,
Nasce forte mas viver é outra história;
Verde o fruto na árvore mal estremece
Mas cai sem lhe tocarmos quando amadurece.
Mas que natural é nos esquecermos
De pagar o que nós próprios devemos;
Bens que pela paixão a nós próprios damos
Finde ela e logo os deixamos;
A violência do que nos alegra ou dói
Seus próprios actos com ela destrói;
Onde a alegria canta deve haver quem se lamente;
Dar é alegria e alegria dar ao mínimo acidente."

Hamlet, Shakespeare

quinta-feira, março 16, 2006

Could I draw you with my words?






Saltar em cima da cama ao som da música do dartacão. Revivermos juntas as memórias pequeninas da infância através de “músicas teletransporte”. Ver-te a dormir e tentar acordar-te e rir-me da tua preguiça. Dizeres que precisas de mim no meio de uma aula qualquer. Passearmos pela praia e rirmos descontroladamente. Descobrirmos, sempre por entre risos contagiantes, que usamos a mesma marca de creme. Daqueles que usamos para tentar ficar mais bonitas. Trocarmos de roupa com a emoção que se trocam presentes. Sermos irmãs e cunhadas ao mesmo tempo. Pensarmos e termos sempre ideias mirabolantes juntas. Fazer contagem das mil e uma coisas que nos ligam. Deliciar-me com os morangos. Deliciares-te com bolachinhas molhadas no leite com café e um abraço sincero. Ficarmos deitadas às escuras a desvelar frustrações. E descobrirmos que a amizade é exactamente isto. È irritar-me contigo e a tua ligação emocional ao pequeno ecrã e teclado. É iritares-te comigo pela minha maneira de ficar irritada e de dizer palavras estapafúrdias. É rir depois da irritação irritada e parva e já nem nos lembrarmos de nada disso. É contar-te um segredo, porque em ti desaguam todos os segredos para deixarem de ser segredos. É estares em grande parte das mensagens da minha caixa de entrada, estares sempre laranja na minha janela de msn, sempre a pôr a moeda na caixa do meu sorriso, como se pões a moeda para andar naqueles carrinhos à porta dos cafés. É sair de tua casa com a tristeza da falta dos teus risos e confusões . Do teu passo pequenino e das nosssas conversas simultâneas que mais ninguém entende.

segunda-feira, março 13, 2006

Irritação


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Hoje sinto-me realmente irritada. E é esquisito porque está tudo... "bem". Mas é um bem daqueles "bens" com ponto final imediatamente a seguir. Vivo sempre uns episódios caricatos nesta a que me habituei a chamar cartoon life, mas resumem-se a situações a que já me habituei como chegar tarde a uma aula, sentir que o professor se calou e que ficou em ácido devido à minha chegada, e de súbito toda a turma (de uns poucos 80 x 2 olhos), concentrada em mim.

Sinto-me envolta numa névoa de marasmo absolutamente asfixiante (mesmo sendo adepta do dolce fare niente, o culto do sofá)!!! E se está tudo "bem", porque sinto isto? Vou procurar um bode expiatório... Ora... as cadeiras deste semestre...o horário?? Hum...talvez!! Segunda não há aulas (mas não me apetece ir para Lisboa de propósito para não fazer nada, e o resto dos seres estudantis tem aulas), à terça nem tempo temos para comer, quarta só das 8 às 9h30 (quem é o grandessíssimo palhação que regula os horários? É que eu tenho de acordar às seis da manhã, antes dos cães da rua e da minha atenta vizinha velhota, por UMA hora! UMA HORA!!!!!), quinta é quase das 8 às 20h, e sexta é só à tarde, mas ATÉ tarde! Agora as cadeiras... Sociologia da Comunicação, Pragmática da Comunicação, História da Imagem, Teoria do Texto... and so on, and so on... tudo com comunicação, História ou teoria no nome! Não há nada diferente como no semestre passado. Nem uma produçãozinha, nem uma introdução ao jornalismo propriamente DITO! Só grandes teorias sobre importância do texto e da imagem na comunicação e... BAH!!!!! Para que serviram todas as cadeiras "introdutórias" do primeiro ano? Eu sei que ainda não sabemos nem metade do que devemos saber sobre toda a essência da comunicação e da linguagem, e afinal o curso não é só de jornalismo, mas eu estou à espera de algo mais prático, se não for muito incómodo!!

Sou por natureza muito ansiosa. Presentemente, o meu curso deixa-me muito inquieta. Não quero viver em kilos e kilos de fotocópias (pobre pai, que nem imaginas como o fruto do teu trabalho se derrete em folhas que às vezes são lidas na diagonal, tão úteis e interessantes que são). Eu quero aprender a fazer notícias como no semestre passado, quero inventar ideias esquisitas para filmes jamais realizados, quero ir para a régie e contar as pessoas que tropeçam nos fios. Não quero mandar mensagens nas aulas, rascunhar sobre Habermas e Foucault pela milésima vez em dois curtos anos, e acabar as aulas sabendo que não posso exactamente desatar a falar do que ouvi, porque ninguém está interessado em como os agentes sociais modelam o comportamento comunicacional do indivíduo e pardais ao ninho. Sinto-me ESTAGNADA! Parece que estou a passar por uma fase de frustração académica, criativa (não me sinto particularmente inspirada ultimamente)... nem a música parece salvar-me deste tédio angustiante! Parece que oiço sempre as mesmas músicas, parece que já as sei de cor demais para sentir o seu efeito terapêutico! Já tentei uma revolução musical mas não há nada na música actual ou num qualquer estilo alternativo com o qual me identifique particularmente! Até parece que me tornei naquelas irritantes pessoas do contra mas...não! Sinto-me ausente! Parece que nenhuma conversa me cativa e me entusiasma especialmente, porque também não tenho nada de diferente para contar! Sinto-me distante de tudo, e de mim...completamente "anhada" como diria a minha irmã. Há quem me anime sim, mas por vezes não está tão perto como eu gostaria. Ah, a eterna insatisfação das relações humanas!!! A banal odisseia por caras e vozes que dificilmente nos cativa, na acumulação de frustrações e histórias mal acabadas.

Será a idade que nos complica tanto? Enfim.

sábado, março 11, 2006

Flashes

"Abre los ojos. Abre los ojos... Open your eyes... Open..."


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"Every passing minute is a chance to turn it all around."

Vanilla Sky, Cameron Crowe, 2001. Tom Cruise, Penelope Cruz.


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Blurring image. Is this a flash of you, or a flash with you? Looks like a flash, and feels like reality. I may be turn it all around the wrong way, but I don't care. Gonna live a flashy moment, gonna fill my days with our flashes.

Entrelinhas













Eu vivo no mundo das palavras,dos parágrafos, das metáforas. Eu vivo num mundo de almas incompletas e de mão abertas . Eu vivo num mundo de sonhos e fantasias: de Darcys e de Lizzies, de pianos imaginários e de realidades paralelas. Eu vivo num mundo de sentimentos e sensações. Eu vivo num mundo do qual agora fazes parte. E não te vou dizer as palavras banais de sempre.Apenas sinto vontade de te mostrar o meu mundo por dentro e do avesso, de te levar comigo ao meu moínho de sonhos à beira rio e te beijar debaixo dele. De correr bem depressa e rir até ao fim das gargalhadas. E o teu sorriso fica sempre preso nalgum fio do meu pensamento, nalgum pedaço de mim que vou desenrolando. O teu sorriso que é aquele lugar onde todas as coisas fazem sentido. Como se ao sorrires trouxesses a manhã dentro do teu sorriso. Não és especial, porque te peço originalidade. E especiais foram os outros. Ès tu, não sei se adoro, se gosto de ti, não sei, porque as palavras pouco dizem. Não sei. Apenas te trago no meu olhar, tento descobrir contigo a beleza das coisas que já julgávamos perdidas. Pega-me na mão e foge comigo. Foge comigo para um lugar onde as palavras não magoem, onde os sentimentos não se partam, não se estilhacem, não percam o prazo de validade. Foge comigo para um sítio onde possamos esquecer, onde haja uma caixa para guardar as coisas do passado e despir os medos. Leva-me ao colo e olha-me nos olhos. Leva-me para uma praia qualquer e ensina-me as constelações. Ensina-me a ser simples. Ensina-me a sentir os meses como se fosse um único dia, este dia que é nosso. Não tenho mais para te dar senão estas palavras. Para que não importa o que o tempo nos reserve elas permaneçam mesmo que tudo o mais desapareça. Uso as palavras para passar a perna ao tempo e à imperfeição de que todos humanso padecemos. Fica comigo esta noite. Fica. Fica e ouve as minhas lágrimas. Fica e beija os meus sorrisos. Adormece enfim no meu colo e sente apenas isto. Esta mistura de coisas que fazem a pele queimar e a boca se perder nas histórias de outra boca. Sussurra-me ao ouvido coisas que nunca tinhas dito a ninguém. Traz no cesto do piquenique essa criança que há em ti. Amua e chora para rir logo depois. E os sentimentos como rebuçados de morango, eu dou-te um tu dás-me outra. Deitamo-nos na relva e eu digo um disparate qualquer. Fazemos um jogo e eu ganho e depois perco. Dizes que gostas de mim e eu nem ligo, fico a saborear o meu capuccino e a imaginar imagens nas nuvens. E lá estás tu na última nuvem da direita.










E lá estou eu na primeira nuvem da esquerda. A tua nuvem parece o barco do peter pan e dos meninos perdidos. A minha nuvem é um carrossel. O meu mundo é este. De uma dança sem coreógrafos, de uma actriz sem papéis decorados. E rodopio nos teus braços ao som de uma música dos clã. E imagino-te ainda vestido de cavaleiro na minha porta. Talvez os sonhos possam ser de verdade. Como o pinóquio que se transforma em menino. Mas não faz mal. Vivo no meu mundo de cantigas infantis e de de cabelos ao vento.

quinta-feira, março 09, 2006

Televisão


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"Para aqueles que dizem «as pessoas não assistem, não estão interessadas, estão demasiado complacentes, indiferentes e isoladas», apenas posso responder: existem, na opinião de um repórter, provas consideráveis contra esta alegação. Mas mesmo que estejam certos, o que têm a perder? Porque se estiverem certos, e se este instrumento não servir para nada, a não ser para entreter, divertir e isolar, então a televisão está a vacilar e em breve veremos que a luta está perdida. Este instrumento pode ensinar. Pode esclarecer e sim, pode inspirar. Mas apenas pode fazê-lo na medida em que os seres humanos estejam determinados a usá-lo para esses fins. De outra forma, são apenas fios e luzes...numa caixa.

Boa noite, e boa sorte."


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David Strathairn, no papel de Edward R. Murrow, em "Good Night, and Good Luck", de George Clooney, 2005

O esforço da comunicação social não é infrutífero. Há sempre alguém que ouve, que investiga, que acredita, que se instrói, que cresce epistemológica e culturalmente. É preciso desafiar barreiras, tabus, pressupostos sociais, limites politicamente correctos. Porque os media, e a televisão, neste caso concreto, podem estar envenenados pelo vazio do sensacionalismo, por serviço vazio de conteúdo, mas não merece descrédito. Serei utópica? Talvez... Também Murrow o foi. Pela controvérsia dos seus programas, viu o seu programa a ser mudado de horário e limitado a cinco edições, e dedicou um deles à perda de qualidade da televisão. Fred Friendly, o seu colega, animou-o dizendo: "vale mais ir ao fundo a dançar". Não vamos ser todos politicamente correctos porque é o que rende, ou porque esta e aquela figura são intocáveis. Os valores éticos e deontológicos do jornalismo postulam a liberdade de expressão, de criação, de participação, de consciência, de religião, de culto, de reunião e manifestação, e é a sua consagração que honra a carteira e dá sentido ao ofício. Por isso, há que acreditar no jornalismo, porque a sua essência não é a dos high lifes e dos papparazzis. É a da verdade. E esta será proclamada. Porque há sempre alguém que a procura, e sempre alguém que a ouve.

sábado, março 04, 2006

Quando a cortina cai

D.Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia
Cadáver adiado que procria?

Mensagem, Fernando Pessoa


Nada fica nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irresponsável treva que nos pese
Da húmida terra imposta
Cadáveres adiados que procriam

Leis feitas, estátuas visitas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carne
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Ricardo Reis

Balanço entre a serenidade epicurista e a sofreguidão de sorver cada minuto como o clímax de mim, entre a afasia estóica e o pathos que rebenta a cada acto da minha peça. Pensei que não precisava de máscara, e caí mesmo a meio do palco. Mercador de Veneza transformou-se no Auto da Barca do Inferno. Corro aos tropeços para os bastidores, entre as gargalhadas do elenco e do público. Beijos e lágrimas aplaudidas, talvez todos esperassem que eu acabasse por cair como o rouxinol, no canto mais perfeito, na pirueta mais graciosa, na expressão mais estudada, no olhar mais sincero. Assim morrem os artistas. Num passo em falso, num desmaio em cena, uma fraqueza. E a minha queda ressoou pela ampla sala de teatro. Já no camarim, contemplo-me no espelho brilhante do estocador, despenteada, a maquilhagem esborratada pelas lágrimas, os collants cheios de malhas, o tule sujo de pó. Fecho a porta à chave, respiro fundo. Bato muito rápido com os pés como quando estou enervada, e dou um grito abafado. Limpo as lágrimas, e canto para não ouvir o frenesim do palco. Não me importo. Sei que é só esta noite. Na próxima peça, serei apenas um conto contando nada, um fantasma de outras galas, de outros bailes, de outros aplausos.


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E louca fui, porque quis grandeza... Mas nunca serei um cadáver adiado.

Sem nexo

Era uma porta pequenina como aquela da Alice do país das Maravilhas. Mas não havia um coelho com um relógio na mão e também não havia biscoitos para ficar mais pequena e poder passar pela porta. A porta era muito pequena e frágil e tinha um buraco demasiado largo para a fechadura. Encostei o ouvido e ouvi o barulho de risos abafados. Espreitei pelo buraquinho da fechadura e vi uns olhos muito brilhantes marejados de lágrimas. Depois não me lembro de mais nada a não ser de ter caído em espiral e ter aparecido de repente em cima do corsel mais lindo do carrossel. E de repente olhei para trás e vi que afinal não era um cavalinho de carrossel, era um cavalinho real e o cavaleiro segurava-me para eu não cair. Depois caí novamente em espiral e vi uma janela para uma praia. Palmeiras e côcos e o cavalo a desaparecer no horizonte. Palavras sem nexo no desenlace das palavras. O sol a explodir no peito e o rio na boca.

sexta-feira, março 03, 2006

Cogito ergo sum

Eu sou a busca interminável de mim mesma. O retalho da manta que ainda não foi acabada de tricotar. Uma pegada que o mar ainda não apagou. Um momento num rol de momentos. Um curto circuito num apagão eterno. Eu sou a chama olímpica a ser levada para um não sei-onde. Eu sou um presente-passado sem saber o que fazer hoje ou amanhã. Eu sou esta mão que busca sem descanso a tua, porque hoje só tu me podes valer. Porque o teu sorriso faz-me esquecer outros sorrisos que traziam escondidos lágrimas. Eu sou um palhaço triste num circo pobre. Um pierrot com a lágrima pintada no canto do olho. Eu sou esta cobaia que se experimenta. Mas não percebo nada de poções, de frascos em laboratórios estranhos. Preciso de ti, sejas tu quem fores. E descubro que não vale a pena fazer planos sobre a forma que os frascos ou os líquidos vão ter. O futuro não existe.É uma palavra fictícia como a vida. E há coisas tão estranhas neste circo pobre que parecem magia. A forma como as coincidências, ou que entendemos por coincidências, acontecem.Como se a vida fosse uma enorme lição e nós estivéssemos constantemente a escrever a mesma frase no quadro. Não sei se já aprendi a minha lição. sinto-me reviver muitas vezes a mesma cena, o que talvez signifique que fiz muitas vezes o mesmo erro e não posso evoluir. E sinto-me vítima de mim mesma. Nesse circo pobre em que ainda não sei amestrar feras. E sinto que ainda não aprendi a lição e a lutar com o lado lunar. Porque é ele que nos cega e nos oprime. E nos faz continuar neste circo, a representar todas as noites para uma plateia invisível. Representaremos também enquanto dormimos?Que nos quererá dizer o inconsciente?Que nos quererá dizer a energia do mundo que não conseguimos ouvir?Que erro grotesco estaremos a cometer?Porque pensamos em ser felizes e não o somos?Porque arrastamos um saco pesado de culpas e de amores mal vividos. O amor não é um "amo-te". Amor é generosidade. Interiorizei isto e descobri que faz todo o sentido. É uma totalidade em que embatemos mas não conseguimos penetrar. Porque o passado nos amarra como correntes. Porque não sabemos amar senão na escravidão do outro. Porque amar faz todo o sentido. Mas amar sem correntes. Porque só o amor nos liberta, um amor sem pressas e sem razões. Um amor sem de falta esperas em que possamos ver no outro uma energia própria que não queremos gastar mas alimentar.