quarta-feira, janeiro 29, 2014

Acordo ortográfico

Não faço acordos. Nem sequer ortográficos. Coloco os c's que eu bem entender e os pontos nos i's. Com os pés bem assentes na terra distribuo acentos que acentuem a intensidade de tudo o que sou. Construo as minhas histórias abusando de vírgulas porque não pretendo deparar-me com os bandidos dos pontos finais, salteadores de alegrias nos caminhos das frases. Aqui e ali abro aspas, e vou bebendo de algumas experiências. Há dias em que apenas me apetece mudar de parágrafo mas noutras ocasiões altero tamanho e tipo de letra. Uso artigo indefinido porque em mim não há definição, e sou o sujeito e às vezes o complemento. Mas apraz-me ainda mais a magia do verbo. Sonhar, andar, pular. Se fosse um substantivo seria comum ou abstrato. Não sou de substantivos próprios, e em mim há sempre um quê de inapropriado. Gostaria de fechar a minha vida apenas com um ponto de exclamação mas, até lá, tenho pontos de interrogação para tudo. Não sou voz passiva. Em mim vivem metáforas e onomatopeias. Sou sujeito singular e prefiro os meus verbos no presente. Sou uma reticência. Já que a frase da minha vida ainda tem muito para contar.

terça-feira, janeiro 28, 2014

apenas isso

do alto da sapiência que só a longevidade de uma vintena de anos pode dar, tinha a arrogância de ser melhor que o mundo corporativo que desde cedo conheci. sentia-me apenas mais uma, perdida, entre a máquina de café e a maior televisão daquele piso. tantas vezes caras conhecidas e desconhecidas se detiveram para espreitar o que eu seguia na televisão, o meu trabalho, aquela caixinha mágica. faziam-me perguntas, falávamos de filmes, de séries. 'até amanhã', diziam, quando eu ficava até mais tarde, entretida com a minha caixinha mágica, formiguinha no inverno. agora sento-me ao lado da janela e em vez de uma televisão, tenho três televisões nas minhas costas e outra na minha secretária. ainda mais pequena me sinto, com todas as caras que irrompem daquele quadradinho e roubam todas as atenções, mais que o meu metro e meio de gente pode alguma vez despertar. mas hoje, já era tarde, e alguém com preocupações muito maiores que a minha pequena pessoa, parou e perguntou-me se estava tudo bem, porque é que eu estava ali àquela hora. e eu corei, olhei em volta, 'está a falar comigo!'. agradeci e disse que me ia embora dali a nada, que estava tudo bem. e senti-me um bocadinho maior, importante, naquele mundo que é um mar de cabeças e computadores, televisões e máquinas de café.

o resto é a sombra

segue o teu destino,
rega as tuas plantas,
ama as tuas rosas.
o resto é a sombra
de árvores alheias.

a realidade
é sempre mais ou menos
do que nós queremos
só nós somos sempre
iguais a nós-próprios.

Fernando Pessoa

Chuva violenta

Começa a chover violentamente. Chove nas ruas. Chove nas casas. Chove nos corações. Mas eu nunca tive medo de chuva e não são umas gotas idiotas que me vão derrubar. O som da chuva ressoa nos ouvidos e faz eco. Viagem entre o céu e o solo. Gotas de água vão caindo e morrendo no chão e vou pisando o solo molhado enquanto um vento gelado me atravessa a espinha. Ainda assim, sinto-me viva. Os sentidos finalmente despertos. Continuo sozinha e não lutao contra a chuva, que agora não passa de chuva molha-parvos ou chuva molha-sonhadores. Eu vou sonhando e andando mas o piso é escorregadio. Foi da chuva que alagou as ruas, as casas...e até os corações.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Palco


Nesta vida sem ensaios, vou estrear a cada dia a minha peça sem esperar aplausos. Assim é o teatro da vida. Estou no palco mas vejo-me na plateia. Sangro e já nem sei se sou eu. Lágrimas vão escorregando gentilmente. Mas quem chora agora? EU na plateia ou EU no palco? E se eu choro quem irá rir por último? Anseio que as luzes se apaguem e possa parar de fingir. Que sou uma super heroína. Que sou forte, gigante, maior. Sou apenas eu, sorriso pronto, olhos grandes, pequena, insignificante. E este palco parece ser demasiado grande para mim.
 

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Biblioteca

Regresso às origens. E então lá estou, de novo, sentada naquela mesa da biblioteca. Nas estantes, os livros que eu li observam-me. Pergunto-me se ainda guardam alguma memória de mim nas suas páginas. Eu mudei. Os livros também mudaram. Ganharam novos sentidos ao passarem por tantas mãos. Nas suas páginas fui-me tornando mulher. Os livros acompanharam as minhas primeiras paixões de adolescência e acalmaram, com os seus conselhos, a minha loucura. Vivi os romances dos livros como se fossem meus e chorei tantas vezes por finais (in) felizes. Aquela biblioteca acolheu-me e foi a minha segunda casa. Os livros, os meus fiéis companheiros. Os amigos que nunca te recriminam. No silêncio das suas palavras passei noites em claro e desbravei histórias como se fossem florestas. Conquistei mundos e fundos sem sequer sair do meu quarto. Mais do que isso, sonhei e imaginei como qualquer criança deve fazer. E hoje os livros continuam comigo, inspiram-me e eu sonho e imagino como qualquer mulher deve fazer. Quando o mundo parece desabar, só os livros ficam. Guardam os seus segredos para sempre e nunca morrem. Têm sempre uma palavra para dizer e uma história para contar. Ao contrário das pessoas.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Estranho pedido

Hoje vou só refugiar-me neste pensamento: cada dia é uma página em branco à espera de ser escrita. Mas poderão os rascunhos de hoje apagar os borrões de ontem? E, se assim for, fica mais uma pergunta. Conseguirei algum dia adivinhar o que devo escrever amanhã? Porque amanhã gostava de escrever uma história absurda e inédita, que me fizesse feliz. Gostava de saltar alguns muros, ou barreiras, e gritar para quem quisesse ouvir. E se puder apagar os borrões de ontem, poderia retirar todas as palavras injustas, negligentes. Poderia fazer esquecer todas -as imensas- vezes em que falei (de)mais, mais do que a conta, sílabas projetadas em excesso de velocidade. Porque falo como vivo, intensamente. Sempre tive o dom da palavra mas há dias na vida em que parece que não sai nada. E por mais que espremas ela parece não ter sumo. Que contos terei contado nesses dias? Não me seria permitido, só porque sim, rasgar algumas folhas, rasgar violentamente e voltar a escrever? Não posso apenas corrigir alguns erros, riscar e riscar com força até rasgar o papel? Só para depois voltar a dizer outra coisa qualquer?
E não, não quero que ninguém escreva a minha história por mim. Sou a autora de mim mesma, ainda que isso nem sempre signifique que fico com os melhores desfechos. Tropeço tantas e tantas vezes nas palavras e alguns olhares dizem-me, sem dizer, «não te compreendo». Insisto neste meu pedido e talvez seja a altura de pedir mais folhas. Porque há dias que merecem mais do que uma página.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Avesso

O meu mundo está de pernas para o ar. É assim que o imagino e gosto dele. Completamente do avesso. E na roda da vida acho que vou virá-lo mais uma vez. Vou fazer dele a minha montanha russa e girar até à infância. E voltar, ir, voltar. Porque essa parte de mim nunca morreu. Uma e outra vez acaba por adormecer, enroscada sobre si mesma, sem se aperceber. Alguns sonos são longos, outros nem tanto. Mas a minha infância vive dentro de mim, essa criança que nunca morre ou se cansa. Que descobre a cada cheiro e a cada gesto a maravilha de estar viva. Essa criança trago-a comigo para me lembrar de sentir. Tenho essa criança em mim para me lembrar que o meu mundo está de pernas para o ar. E posso mudá-lo de novo. Posso sair para a rua e apanhar chuva, gritar ou rir e não interessa o que me podem dizer. «Porque corres, porque choras, porque gritas, porque sorris?». E eu respondo matreira: «Não sou eu, sabes, é essa criança que me assalta de quando em vez». Chamo-lhe Loucura, mas contou-me, em certa ocasião, que afinal se chama Vida. Corre atrás de mim nas ruas e chama-me para correr atrás dela, mas nem sempre oiço o seu chamamento. «Sabes, é como o piano. Gosto tanto de o ouvir que às vezes me esqueço do resto da orquestra». Eu sou o piano, mas tenho em mim violinos e guitarras. Preciso de aprender a ouvir as suas notas. Preciso dessa criança rebelde a saltar-me no peito.  Mais do que tudo isso, preciso do meu mundo de pernas para o ar. A rodar no sentido inverso dos ponteiros do relógio. E que graça teria, no fim, se o meu mundo não fosse ao contrário?  Por favor deixa-o ficar do avesso. Deixa-me girar e girar até ficar tonta neste universo sem sentido. Tão parecido comigo na sua perfeita imperfeição. Completamente de pernas para o ar.

O sorriso (não um qualquer)

E o sorriso dela era tão grande e tão alto que se via mesmo dali, do outro lado da montanha. O sorriso dela era como música para os ouvidos de alguém. Descendo pelas ruas escuras de Lisboa era o sorriso dela que eu via nos acordes de uma guitarra perdida.
O sorriso dava a volta ao cinzento dos dias e coloria as minhas palavras. Os pés ecoavam no soalho e o sorriso dela na minha cabeça. Ao fundo a guitarra entrelaçada nas minhas tranças e no sorriso que se fundia na noite. Era apenas um sorriso que me ia esmagando, deixando tonta e perplexa. Porque tinham-me dito que era proibido sair à rua e sorrir assim. Que os tempos eram outros. Mas o sorriso transformava-se agora numa gargalhada, impossível de conter, enquanto os pés continuavam a martelar o chão e a música ia deixando de se ouvir.
Era esse o sorriso dela, o meu sorriso, feito de coisas de que só os sorrisos são feitos. Do tudo e do nada, do muito e do pouco, da alegria e da tristeza. Dos opostos que se vão atraindo, das bocas que se vão juntando. Dos mundos de outros que vamos tocando. O sorriso, que rompia os mistérios e deixava as próprias palavras sem saber o que dizer. Sonhos e poesia transformados assim, num sorriso maior que o mundo. Porquê? Ela, eu, ninguém sabe. Mas sabe mesmo bem sorrir assim.