domingo, abril 30, 2006

I'm just a dreamer...

Pó de arroz. Para disfarçar as impurezas da vida e do amor. Pó de arroz. Porque nem tudo é como o almejaste num daqueles balões engraçados da BD, quando as personagens sonhavam, com aquela forma engraçada. O sol põe-se em tonalidades de vermelho e o céu adormece em cima do mar, deixando difusa a certeza de onde se inicia um e onde é o térmito do outro.Deixo a caixinha do pó de arroz em cima da pequena cómoda, dispo o fato do tempo, das memórias, dos ardis, e mergulho em ti: eu sou céu e tu és mar, ou serás tu céu e eu mar?Duas mãos entrelaçadas em fundo laranja, em pôr do sol avermelhado, numa moldura que trago acorrentada no meu peito. Adormeço nas almofadas de penas e sinto-me eu mesma leve como uma pena. Dormes a meu lado enquanto sonho contigo. Acordo e permaneces imóvel por entre os lençóis e cobertores que revolto em danças estapafúrdias. Danço ao som dquilo a que a nossa língua dá o nome de felicidade. Felicidade ou amor. Ou talvez ambos. Ou talvez nenhum. Apenas a sensação gigantesca por entre as palavras vazias. Nenhuma delas consigo vestir que me sirva. Porque a sensação é demasiado intensa, arrojada, inovadora, um tremor de terra, um tsunami, um furacão com o teu nome e a tua forma. Porque eu vejo-te. Com as lentes de graduação mágica que um dia inventei. Entre nós brota um diálogo mudo, sem como nem porquê. Vislumbro o mar e as minhas pegadas na areia. a areia de conchas brancas de todos os tamanhos e feitios. O mar e a espuma branca. o céu e o sol. A água cintilante nos meus olhos. O brilho que arrasta tudo à sua volta. De um céu infinito, quase tão perto que o posso tocar, o céu tem o teu cheiro. A vida tem esse paladar da tua língua, e a areia é deserto, sem a marca da tua brisa que por ali passa.



És essa brisa que me faz voar os cabelos, a torre mais alta de uma qualquer igreja ou monumento, a torre onde se dizia sempre estar enclausurada a donzela em apuros. A torre mais alta, onde se está mais perto daquilo a que chamam Deus. A que tem a vista panorâmica sobre a natureza, essa casa que o ser habita. Se eu sou céu, tu és gaivota. Se sou gaivota és essa linha do horizonte que permanentemente anseio ultrapassar. Se és hipérbole sou metáfora. Porque entre nós não há comparação. Somos apenas um ponto pequenino no meio de uma multidão mesclada de cores e sabores. Somos um agora e nem quero saber do depois do agora. O depois do agora fica lá no fim do mar e ninguém sabe onde fica o fim do mar. Gosto de pensar que o mar não tem fim.Que tu não tens fim. Cai o pano, ou mais precisamente cerram-se as pálpebras. Sinto ainda uma mão leve na minha face. Adormeço.

sexta-feira, abril 28, 2006

Fantasy land












A manhã vestiu-se com o seu manto mais bonito e saiu à rua- O mundo despertou com ela e as cidades encheram-se de passos. Ao longe uma criança acena com o seus dedos pequeninos e o seu riso desengonçado sem o dente da frente. Lembro-me. De ser também uma dessas crianças. Das fontes do riso. Levei o cantarinho à fonte e parti-o.


A relva é verde e cheira a Primavera, que se vestiu de folhas e flores. Pela pequena janela do comboio vejo o Mundo passar a grande velocidade. Os montes e o pasto, a lezíria da terra onde eclodiu o meu primeiro riso, o meu primeiro choro. Uma sensação telúrica daquele sítio pequenino, onde outrora também eu fui uma criança rabugenta e desdentada. Cuspindo a sopa e correndo de forma desvairada pela casa.O pequeno pedaço de terra, de cuja janela sonhei com horizontes longínquos.Refugio-me nas palavras para chegar a esse horizonte.De quimeras poéticas, de risos a arder a arder no estômago. O comboio afasta-se agora para outras paragens. A imagem permanece no recôndito espaço da memória.Ela que é imagem enfraquecida dos flashs dos olhos. E se um dia voar para outra moradia, nos confins do mundo, a memória dos cheiros, das faces das pessoas que conheci, a paisagem dos meu país das maravilhas permanecerá. Serei ainda a Alice? Que lia histórias na varanda e mergulhava em voo picado noutra dimensão, emprestada pelos livros.

O comboio estaca repentinamente. É a minha estação. O sol nos olhos de alguns, o nevoeiro nos olhos de outros. Fecho a mão com força e inspiro a energia univiersal de todas as coisas. Digo para mim mesma: - Está um dia bonito. Tudo vai correr bem.A dulcíssima lágrima compõe o cenário bucólico de mais um dia de Primavera. Recomeço a andar com uma criança a cantar baixinho no meu peito, com o sol nos olhos, a vida nas pálpebras e o céu nas mãos.

Ser Só, Só Ser... Azul.

"Tem-se prazer em dizer que não a esses apetites e a esses desejos que constituem a maior parte da nossa personalidade, ou do que supomos que a seja; prazer em pôr de parte a esperança; prazer em não ter nada e mesmo em não ser nada, para nos sentirmos pura e simplesmente existir."

Marguerite Yourcenar, "O quê? A eternidade"


Posted by Picasa

Abraço o luar e deixo-me embalar pelo sussurro das estrelas... O vento beija-me a pele nua e o mar toca uma melodia suave, calma, que me acaricia a alma e me envolve na sua tranquilidade. Estendo-me no fino areal e rendo-me ao murmúrio das ondas, ao brilho da Lua sobre o mar… Fecho os olhos, deixo os meus lábios tocarem-se... parece que qualquer coisa me pede que me abandone ao não-ser, que esqueça por momentos o horizonte humano, a estação onde um estonteante corropio de corpos se arrastam como autómatos, de rosto inexpressivo, olhar perdido e alma vazia deixam os sonhos de um passado pela ganância e a ambição de um presente e por um nada de emoções e sensações (recordações!) num futuro… Reconheço a voz que me pede reflexão e recolhimento interior… vem do mar… Num resplandecente e brilhante azul como o mais belo dos sonhos e quimeras, essa voz pede-me silêncio – quer encontrar a minha alma. Apenas ela entenderá as palavras que a espuma branca das ondas traz do coração da Natureza, que bate na beleza ímpar e singular dos corais, na vida do berço do mundo, nos confins do profundo oceano, que esconde o tesouro do segredo do milagre da vida. A maresia torna-se o meu perfume enquanto me perco no horizonte, azul, azul… o meu espírito abraça o imenso mar, e voo pela harmonia das suas palavras até ao lugar em que o mar toca o céu, em que o sonho se pinta em tons celestes. Una com o sonho caio no sono, e SOU de novo. Despida do Homem, da ansiedade, da frustração, da desilusão, da farsa, da ganância e da inquietação, SOU… (Quem me dera ser sempre azul, e não ser Homem.)

quarta-feira, abril 26, 2006

A minha casa

Apetece-me escrever, pego num guardanapo da mesa do café e esboço uns rabiscos. Apetece-me escrever em letrinhas pequeninas e harmoniosas. Falar só por falar, da minha casa pequenina à beira mar, casa de madeira, que o lobo mau ainda não se lembrou de soprar para destruir. A minha casa de um branco azul laranja verde, onde cheira a comida acabada de fazer,se ouve sempre música bem alto e há muitas gargalhadas e lágrimas salgadas. Sim, perto do mar, há lágrimas salgadas. E pessoas a chapinhar na água como crianças matreiras. O meu cabelo parece voar e o meu vestido branco aparenta rodar infinitamente. O meu corpo quer ser vento e voar como Ícaro. Começo a correr pela areia e as nossas pegadas misturam-se. Tu sabes que eu fujo, porém acabo sempre por voltar. Fujo por segundos, mentalmente, para um universo de canela e incenso, em que faço bonecos de plasticina e monto a vida como um lego.










O amor é um lego. Sentamo-nos no chão da casa que eu inventei e vemos o nosso lego, pomos bonequinhos a passear pelo jardim de pequenas peças, que montámos a custo.E os bonecos do lego, a quem empresto a voz, dizem-te coisas que eu não tive coragem de contar. Estendes-me um lenço, para limpar o rosto humedecido de água das emoções. As lágrimas são a água das emoções, a água dos sentidos. Por vezes sinto-me também uma bonequinha, uma bonequinha de trapos abandonada numa prateleira de loja, à espera desesperadamente que a vão buscar, que choraria,se os bonecos chorassem, perdida e sozinha. Outras sinto-me como a bonequinha preferida, a que em pequena nunca deixava em casa, que levava comigo no carro e penteava inúmeras vezes por dia. Cuja ausência provocava birras. E a minha casa é uma casa de fantoches e bonecos. E a minha casa é de madeira de árvores mágicas, construída por duendes e tijolos feitos de imaginação. Da minha janela vê-se o mundo todo e a minha porta dá directamente para a tua casa. Como é a tua casa faz de conta?Oh!Ponho-me lá num pulinho, por um carreiro estreito cheio de papoilas em volta. Sempre imaginei a tua casa feita de chocolate e guloseimas, qual história dos irmão Grimm. E enceto mais uma viagem (com um cestinho cheio de cerejas para te chegar directamente ao coração do estômago). Na tua casa feita de smarties e rebuçados de mentol. Vou ao pé coxinho a trautear canções engraçadas. Os ponteiros do meu relógio não aguentaram esperar mais, sei que ainda dormes na tua cama-nuvem e estás bem leve na terra dos sonhos, mas vou acordar-te com cerejas despejadas no colo. Eu vou. Eu vou. Tenho é de fazer força para não comer as cerejas todas e ficar só com os caroços. E não sujar o vestido branco. Começo a correr depressa porque o sol parece querer espreitar e já me está a piscar o olho. Digo bom dia ao sol e pisco o olho também. Só o esquerdo, porque não consigo piscar o direito. O sol faz balões com a pastilha mas eu também não sei. Nem consigo assobiar. Vou em passinhos apressados até ti. Os duendes querem brincar, mas ainda não é hora. A tua porta range um pouquinho e lá dentro tudo é límpido, claro, transparente, cintilante, fulgurante, tanta claridade que os olhos mal se conseguem habituar a tanta luz. Tu dormes e à tua volta agitam-se os pássaros no seu alegre chilrear. E vejo uma luz que te envolve, porque a tua sombra é luz. Despejo as cerejas e os pássaros voam. Espero pacientenmente que acordes no teu mundo-luz. Come as cerejas. Monta o meu lego.