quinta-feira, maio 31, 2007

Meu espelho

Acordo, entre a almofada o telemóvel, a rebentar de mensagens, tantas de pessoas que precisam de mim, às sete, oito, nove da manhã. Vens almoçar, sim, não, vens ter comigo à tarde, trazes o gravador para a entrevista, a máquina para a reportagem, o meu elástico do cabelo, o lápis que deixei em tua casa. Trago o mundo na mochila e o medo de todos no telemóvel. A tua mensagem de nome maior destaca-se das outras. Como eu corres de corpo em corpo por abraços fortes de deixar tudo de ti. Cansas-te, os outros cansam-te. Eu gosto de te saber ansiosa e louca de vida, inquieta e maior que o tempo. Encontro-te invisível no ecrã preto e branco mas tão colorido do teu sentir, um espelho de mim. Contigo vejo-me e vejo-te entre caminhos diferentes de um viver igual. Quase igual. Tu, que me seguras para não partir.
Bebo-me até me embriagar de mim, até me odiar e gritar tudo o que dói. Vomito-me até não poder mais comigo e a frustração que pesa, cansa, se arrasta, me arrasta. Acordo sem horas, vida adiada, esquecida, anestesiada, sem mim, melhor.
"O que foi do corpo num turbilhão?
(...)
Só meras, brisas, raras..."

Clã

Enchias as minhas horas de gargalhadas e a mão de saudades. A mão no telemóvel ansiosa com os olhos. Eu era o mundo dos teus olhos. Esperava-te escondida no vão da escada (e tu assustavas-te sempre para me fazer a vontade), passavas horas na estação pelo meu comboio, beijavas-me entre abraços fortes de não me querer deixar partir. Hoje entre olá e adeus ficou o que vivemos. Pouco, silêncio. "Foi melhor assim", disseste tu.

segunda-feira, maio 21, 2007

Volver

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"(...) Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a encontrarse con mi vida
.
tengo miedo de las noches
que, pobladas de recuerdos,
encadenan mi soñar.

Pero el viajero que huye,
tarde o temprano detiene su andar
Y aunque el olvido que todo destruye,
haya matado mi vieja ilusión,
guardo escondida una esperanza humilde,
que es toda la fortuna de mi corazón
. (...)"

A gravata aperta-te o pescoço, os olhos escondidos no escuro dos óculos de sol, e a boca inerte, não sorris direito ao volante, tudo é um sufoco de imagem, um aparato. A única fotografia que tenho tua passado dois anos, é apenas mais uma mentira. Sempre pensaste que eu queria mais do que eras, que não me chegavas. Sempre te forjaste comigo.
Não tiras os óculos porque os olhos te denunciariam. Sempre falaram melhor comigo que tu. O medo, quando me dizias "eu volto prá semana, vou arranjar dinheiro". À distância te constróis e não me queres ver até inchar de orgulho. Para os outros é muito mas eles não sabem o que já quiseste ser. Quiseste um curso que a boémia te roubou e sim, eu também. Lutaste por mim, não por ti. Em fúria te acabas num trabalho que não te dá vida mas nome. O que é um nome se for apenas assinatura nos papéis desarrumados da gaveta? O teu nome será mofo antes da reforma.
Não te quero encontrar. Deves cheirar a papel e notas gastas no bolso. Deves ter as mãos amarelecidas de dinheiro e dentes sujos de café. Deixaste o Acqua de Gio das surpresas. Mãos no meu rosto, quem é? És tu, sei bem. Eras tu a descer da segunda carruagem. Deixaste-o por outro perfume tosco e forte, de Homem como me disseste tu. Sempre te perguntei pelo teu perfume. Quando me telefonavas imaginava-te de jardineiras e inspirava Acqua de Gio de dentro de mim. Imaginava-o meu, ainda na camisola.
Nunca usaste gravatas, gostavas de jogar à bola todos os dias, e agora só tens tempo para ver televisão. Na fotografia a tua gravata nem cor tem, azul escura confunde-se na estofo do carro. És apenas mais um rosto à espera que do sinal verde para passar.
Tenho tanta pena de ti. Estás outra vez a lutar por mim, não por ti.

sábado, maio 12, 2007

HardCore

Morre. Era mais fácil se morresses. Ou vai para fora da Europa onde quando eu estiver acordada estejas a dormir e as chamadas custem uma coca-cola no Hard Rock. Afasta-te. Vai, não sejas palavras de saudade e amor sem boca, faz-me tanto mal como uma tablete inteira de chocolate. Toca-me. Shot de vodka incandescente seria agora o teu beijo. Arde-me. Tiro fatal e orgásmico. Sente-me. Sem te beijar não te quero mais ouvir. Morre.

terça-feira, maio 08, 2007

Quem me dera estar na Jamaica

Há dias que não são bons. Há semanas que se espremem mas não deitam sumo. Há sonhos que saiem pela chaminé em forma de fumo. Há corações apertados entre mãos vazias. Sentada num canto, tece uma colcha de tristezas que já tapa toda a cama. As lágrimas fugiram pela janela, o rio secou. Mas o mar do peito parece querer rebentar no paredão. A alma solta um gemido abafado, mas toda a gente o consegue ouvir. Há dias assim, diz um coro em surdina. Pega-se no carro mas de que serve?Não há para onde ir, apenas uma verdejante solidão cobrindo os passos, as montanhas e os vales de cada um destes dias arrancados à força do calendário. Que demoraram a passar. Se o carro não vai para lado nenhum, não vale a pena esperar o autocarro. Ele não apareceu ou perdemos o único desta plácida manhã. Não, eu nem tenho jeito para escrever. Estou a abarrotar de letras que não querem sair, de lágrimas que não querem ser choradas. Lágrimas que pensam e que imploram para permanecerem quietas e escondidas. Os dedos martelam furiosamente para tentarem ser mais rápidos que a água que quer preencher os olhos. Hoje não vais quebrar a promessa. Não vais chorar nem alimentar desesperos. Fica apenas sentada na cadeira que te mostra o teu pequeno e enfadonho mundo. E não esperes mais porque quem espera desespera. Ama e sente o coração encher-se de ar. Sorri mesmo que tenhas de morder o lábio quando o fazes. A culpa no fundo é tão tua. E as letras hoje tiraram férias. Desistiram de te entender também. Letras na jamaica, na boca do inconfundível sotaque melodioso dos que habitam as margens da despreocupação. Só tu prescrutas o vazio de olhos maiores que o mar e imensos como o mundo. só tu mexes furiosamente no cabelo e tentas a todo o custo não chorar. Enquanto os outros estão na Jamaica das emoções.

segunda-feira, maio 07, 2007

Torpes emoções

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Sou emoções a conta-relógio, sempre prestes a explodir de tão ansiosas e intensas, atropelando-se violentamente. O coração parece martelar os dedos a necessidade fulgurante de não parar. Vivo rápido demais, hoje roubaram-me um ano de irresponsabilidade e amanhã tenho de trabalhar, afinal não soube desistir, atrasar teorias de exame de vida marcado ou fugir.
Ziguezagueei pela inconsciência sem me perder, à beira do desastre sempre me segurei - mas só no último segundo, triunfal, como os heróis nos filmes. Noites enlouqueci farta de fingida perfeição e insana me embriaguei até não me sentir. De mãos nervosas o copo esvaziava esquecendo-me de ser até ao fundo transparente, onde descobria o meu desfocado espelho, olhos desistindo de abrir. Desfocada estava já essa torpe e frágil barreira de loucura, mas maior era o desejo de a quebrar, de me desafiar.
Deambulando ruas arrastadas de riso louco e genuinamente feliz valia a pena o fulgor ininterrupto de cada dia. Cada noite como cada dia, sim, vivida até à vertigem do sono, o sol tão oposto à lua. Acelerei a vida porque me parecia fugir, porque não tinha tempo para ela. Live fast, die young.

...

Uma vez disse-te que eras uma janela. Daquelas com vista para o mar. Com o vidro intacto. Na altura, recordo-me perfeitamente, contei-te que me era tão difícil abrir essa janela. Hoje reparei que já não é so o mar que se vê através dela. Toda a via láctea paira na vidraça. Se te dissesse que o meu amor por ti é uma constelação acreditarias? E se te dissesse que eu não sei de mim?Para onde fui eu?Embaciei os vidros das janelas com as lágrimas que fui limpando com lenços de linho. Enquanto sussurro baixinho uma história que tu não consegues ouvir. Porque secalhar falo mesmo baixo demais. Era uma história cheia de estrelas e sonhos. Tu és o meu sonho. Apenas um pouco mais real que todos os outros. És mais que uma janela, és toda a casa, todas as estruturas que não me deixam cair. Sinto-me tão ridícula. Queria oferecer-te um sorriso, está aqui no meio destas letras. A constelação estrelada do meu sorriso junto ao teu. Constelações vizinha num único e amado céu. Perco-me e imagino-me repetidamente neste céu. Não quero mudar de planeta, quero orbitar em torno do teu mundo, beijar-te em translação e rotação. Amar-te e ouvir-te dizer baixinho alguma coisa. Troco todas as coisas para que não te desiluda. Uso a palavra desculpa quando não tenho nenhuma na manga que exprima este não sentir bem, esta culpa que não passa. Este pensar que incomoda e não abandona. Porque só tenho desculpas.E beijos de amor e amora a enamorar o caminho. Permanece a minha janela.Deixa-me mostrar-te que sou a mesma menina. A dos teus olhos

domingo, maio 06, 2007

Prefiro que não me saibam

"Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério com o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.
Nada poderia indignar-me tanto como se no escritório me estranhassem. Quero gozar comigo a ironia de não me estranharem. Quero o cilício de me julgarem igual a eles. Quero a crucificação de não me distinguirem. Há martírios mais subtis que aqueles que se registam dos santos e dos eremitas. Há suplícios mais subtis da inteligência como os há do corpo e do desejo. E desses, como dos outros suplícios, há uma volúpia."

Fernando Pessoa

Thinking Blogger Award

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Nomeados estão os poetas que deslumbram os olhos e se prendem na mente.
Obrigado aos Segredos aos Pedaços e Como levar uma estrela para o céu? por nos terem nomeado.

O Planeta de Mariana

Entreacto

Preliminares


Sou inútil

Lupanar do Pensamento

E o desafio continua. ;)

Estrada

Agora os meus pequenos pés são poderosos pedais e empurram-me tão longe quanto quero ir, onde nem sei chegar. Talvez o saibam melhor que eu. A cada arranque o corpo oscila convulso atirado contra o banco ou o volante. Não estou só a conduzir até ao médico, sinto a turbulência de mim na velocidade com que me movo. Sou a máquina. Acelero o motor nervoso do coração por entre ruas e ruelas desesperadas de refúgio. Ou longas auto-estradas em que exagero a loucura pelo infinito horizonte. Não tenho travões.

quarta-feira, maio 02, 2007

A vida é um combate

Chovia. Chovia tanto que ninguém deu pelas minhas lágrimas. Chovia a potes. A minha alma sangrava mas ninguém reparou no meio das tentativas desesperadas de fugirem do temporal. Eu tinha guarda-chuva mas não tinha guarda-lágrimas. Procurei ainda no meio da confusão da mala, mas não achei nada. Todos passavam chocando uns com os outros com enormes guarda-chuvas e nem viam. A minha alma sangrava e eu julguei que ela se esvaía em sangue. As minhas palavras sabiam a sangue e a incertezas. "És tão estúpida", assobiava o vento que passava, em tom de escárnio. Ou talvez dissesse outra coisa, mas eu era mesmo estúpida. O meu cabelo voava ao som do temporal. Aos poucos a rua ficou deserta, só que era um deserto molhado. Homens e mulheres nas suas casas tiravam as roupas encharcadas da chuva e engomavam camisas. Eu já não ouvia nada, nem a chuva nem o barulho incessante do mundo. Naquele momento eu tinha perdido uma parte de mim. E a minha alma parecia querer explodir. Ressoava nos ouvidos a letra de uma música, " a vida é um combate". Teria perdido mais uma batalha?
O tempo pára e só eu existo. Movo-me com a música que rompe o pulsar mudo de cada simples vida em janelas abertas e portas sem chave. A aldeia está calma, o silêncio da noite amacia o verde e castanho da agreste paisagem. O frio gela os ossos. Acaricia-me vento suave e arrasta o mal para o outro lado da placa. Eu podia ser paz, se não fosse também euforia de aqui estar.

Inter-rail?

Vamos partir sem dizer a ninguém, dormir onde calha, trocar de músicas e roupas, encontrar cascatas sem nome e conhecer paraísos que não vêm nos livros.