quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Dias de tudo e de nada

"Há os dias que são feitos de tudo, de espontaneidade e conquistas, os dias em que a vida é cheia de sentido e invencibilidade. E depois há os outros, que são quase todos — os outros que não sendo iguais entre si acabam por se definir na dificuldade que temos em encontrar algo que nos desprenda de nós próprios. Algo que nos faça sentir mais seguros nas nossas escolhas, na nossa maneira de ser e na nossa forma de ver o mundo. Porque em última análise, a alienação constante a que nos entregamos é só isso mesmo, uma forma inconsciente de nos sentirmos menos sozinhos."

in P3

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Chaves

É normal fecharmos o que sentimos à chave. Como fechamos os bens mais preciosos. Assalta-me o pensamento de deitar a chave fora, abrir a caixa de pandora e gritar as verdades, deixar sair os demónios. Mas fechei os medos e os fracassos há tanto tempo. Mil cadeados e correntes rodeiam os meus pesadelos. É normal esquecermo-nos onde deixamos as chaves, está sempre a acontecer. Lembro-me da minha vila, a minha casa de portões azuis numa rua de portões azuis. Encaro os meus olhos grandes e, ali bem perto, a chave pousada numa mesa distante. Volto à mesma casa mas a chave já não mora ali. Os meus pensamentos mais secretos armazenados naquela pequena caixa imaginária. E como o sete será sempre um número cheio de significados e as caixas se fecham sempre a sete chaves, tive de arranjar mais seis. Espalhei-as aqui e acolá junto com os meus sonhos e sorrisos. Sigo em busca das chaves. No momento decisivo serei capaz de as deitar fora dizer tudo o que precisa ser dito? Afinal, é normal fechar o que sentimos à chave.
 

sábado, fevereiro 22, 2014

Fast food de emoções perdidas

Percorres veloz a área de restauração do centro comercial, olhas os semblantes em volta. Sem sorriso, olhares sem vida, devoram num hambúrguer emoções perdidas. A crise não levou apenas o nosso dinheiro, mas também a poesia nos nossos olhos. Quantos sonhos adiados, quantos braços rendidos ao trabalho sem amor, ao emprego sem vocação, ao expediente sem fim? Pedes mais uma sobremesa, as bolachas estão com desconto no continente, enrolas-te no sofá de casa com o filme de sábado à tarde e descobres a solidão no fundo de um balde de pipocas. Fazes zapping na TV e a Europa avisa: os teus governantes enganam-te, vem aí mais austeridade. Adormeces no sofá, a sonhar com aquele curso se guionismo que gostavas de fazer e aquela viagem a Londres que já adiaste tantas vezes. "Para o ano, talvez".

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

vida

A vida é apenas nascer e morrer e fazermos o nosso melhor no entretanto. Quando as doenças surgem é injusto e doloroso. Mas ninguém é poupado, mesmo que ache que se tenta portado bem. Ninguém é poupado porque ninguém é especial. Como eu gostava de envolver as minhas pessoas especiais numa capa super forte contra doenças, mas não posso. Por isso há dias como hoje, em que para afastar os maus pensamentos lembro-me do que disse o MEC: "A morte será assim tão importante que mereça dedicarmos-lhe grandes nacos da nossa vida?"

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Amigos assim-assim

Li hoje numa tira da Mafaldinha que "crescer é dizer adeus às coisas" e a frase ficou colada no fundinho da minha nuca. Sou muito ingénua, sabes? Ainda acredito em contos de fadas e os filmes da Disney são os meus preferidos. Talvez por isso não consiga deixar de ir aos jantares de aniversário de amigos "assim-assim", aqueles que me deixam na ponta da mesa e que na noite inteira falam duas vezes comigo: para dizer "olá, obrigada pela tua presença" e "adeus, espero que tenhas gostado". A verdade é que já fui dizendo adeus a alguns amigos nos últimos anos: da faculdade, do secundário... até de infância (esses doem mais, é como se te arrancassem o apêndice à força, sem uma anestesiazinha, nada). Por minha culpa, por culpa deles. Porque eu desisti de insistir que ficassem, porque eles deixaram de insistir em ficar. Não somos piores pessoas por isso: à medida que deixamos as barbies e depois os livros de estudo, mudamos de interesses, temos outras conversas, deixamos de gostar daquele café e daquele restaurante. Mas não deixa de doer, sobretudo quando percebemos que esses amigos "assim-assim" querem usar desse estatuto imenso que é a Amizade, mas só aparecem uma ou duas vezes por ano para perguntar se está tudo bem, se temos emprego, namorado, se os pais e a irmã estão bem.
Antes, dizia que tinha muitos amigos. Sentia-me orgulhosa por isso. Sentia-me bem rodeada, tinha sempre planos e programas. Mas logo que o tempo e o dinheiro apertam, para onde foram esses amigos?
Hoje orgulho-me dizer que tenho poucos amigos, daqueles que não fogem quando não dá, quando temos de adiar. Aqueles que sabem que algo não está bem quando não falamos. Aqueles que enviam uma mensagem só para dizer bom dia. São raros, esses amigos. São raros, e são meus.

sábado, fevereiro 08, 2014

Quem somos

Não podemos mudar quem somos. Podemos, tantas vezes, inverter o rumo ou andar em contramão. Mas como o velho carvalho preso às suas raízes, estamos presos a nós mesmos. Às raízes de sermos simplesmente nós.
Um dia todos voltamos a um lugar chamado casa. Porque a saudade é como todas as dores dos homens. A falta do que não se tem. E todos sentimos falta daquele canto em que podemos simplesmente abdicar dos nossos refúgios e lugares comuns. Mas sei que há um lugar extraordinário dentro de nós. E como num baú em que remexemos velhas lembranças, há sempre momentos para nos lembrarmos de quem somos. O bom e o mau, a luz e a escuridão.  Por muitas voltas que possas dar acabas por ir parar ao mesmo cruzamento contigo mesmo. Podes escolher a esquerda ou a direita mas não podes deixar de ser quem és. Tu mesmo, mesmo que não saibas exatamente o que isso quer dizer.