domingo, dezembro 14, 2014

Vezes infinito

A história repete-se mais uma vez, ano passa e eu entro em depressão nos primeiros dias de dezembro. Não, não é o drama da passagem de ano, isso para mim não é nada, o meu drama é o dia anterior, de 30 para 31 a minha mãe dá-me os parabéns e lembra-se "há x anos roubaram o carro ao teu tio, ainda vivíamos todos no apartamento, vimos tudo a acontecer assim de repente, da varanda, ele ainda foi atrás do ladrão de pantufas, e então rebentaram-se-me as águas". Só me esperavam para a primeira semana de janeiro, mas a minha tia ganhou a aposta e eu ainda consegui nascer no ano do primeiro bebé proveta em Portugal, ganhei bilhete para entrar na escola com 5 anos e a garantia de ser sempre a mais nova, onde quer que fosse. Ninguém faz anos na passagem de ano! Pois não, mas eu faço. Eu e o meu primo-irmão - em Espanha diz-se primo-hermano, disse-me a minha amiga tradutora -, que nasceu oito anos antes de mim mas seu avô quis que nascesse a 1 de janeiro como ele, para celebrarem juntos num dia de festa lá da terra.
E então entro em depressão nos primeiros dias de dezembro, acordem-me quando chegarmos a janeiro e eu não souber responder que idade tenho, desde os 25 que deixei de contar e de perceber a diferença. Que mais dá se são 26, 27 ou 28, está tudo na mesma e nada muda - tudo menos o meu cabelo, que se rende todos os dias à genética e vai somando cabelos brancos, bem espetadinhos no alto da cabeça, comme il faut.
Já está, troco mensagens com a melhor amiga a dizer que faço 28 anos e ainda não fiz nada de jeito, o meu avô dizia "posso não valer nada mas a minha presença vale muito", e será que a minha vale alguma coisa? No escritório sei que não vale nada, ninguém é insubstituível. Somos todos números e o meu nome é pouco importante, mesmo que seja o mais sonante num edifício de oito andares - Casanova, pel'amor de deus, é o melhor apelido que existe.
E agora vou enterrar a cabeça na almofada e pensar que estou quase a passar a idade fatídica para a malta das artes, os 27. Vá. Ao menos isso.

Para que lado é o sonho?

Às vezes penso no que ela diria de mim, se me visse agora (ou se me estiver a ver). Será que ia dizer que não lutei o suficiente, que deixei que o peso do mundo me asfixiasse, ou que iria ler nos meus olhos a desilusão de quem se perdeu no caminho para o sonho? Será que ela ainda acreditaria em mim, quando já nem eu acredito? Não foi só o meu sonho que se perdeu, mas o dela também. Ela a quem lia as minhas histórias em voz alta, quando ainda não sabia ler. E ainda aprendeu. Com 60 anos, foi a melhor da turma. Aprendeu a ler e a escrever com os meus cadernos da primária, a minha letra feia, torta e trapalhona de quem quis aprender a dança da escrita da noite para o dia. Lia as minhas composições devagarinho, lutadora. E nós emocionados, felizes, a avó aprendeu a ler.
E eu agora, a chegar aos 30, presa a uma crise financeira que (ainda) não me deixou ser quem sou (será só culpa da crise?), mostrar tudo o que posso ser, fazer-me ouvir, levar as minhas palavras e o meu nome, pelo mundo. Ontem uma das tuas netinhas terminou o mestrado, vó. O meu pai perguntou-lhe 'não chega já de estudos?', 'para já sim, disse ela'. Mas riu-se: 'ainda sou capaz de pôr mais uma moedinha, dar outra uma volta...'.
Tudo é tão pouco comparado ao que tu fizeste, o exemplo que nos deixaste. Desculpa vó, se eu não souber ser quem te prometi. Prometo, sim, que não deixarei de tentar.

Ainda não, mas um dia

"(...) ainda não disse um milhão de vezes ao meu pai que o adoro, mas estou lá perto e bem vistas as coisas um milhão é pouco para algo infinito assim, ainda não abracei a minha mãe e lhe dei um beijo na desta até que os lábios secassem e os braços cansassem, pode ser agora mesmo, quando acabar este texto, ainda não escrevi a obra-prima e só tenho mais coisa menos coisa mais setecentos mil milhões de frases para o tentar, mais algumas, provavelmente, tenho a certeza que vou morrer de caneta na mão, ou de computador no colo, a última frase será qualquer coisa como "Desculpem qualquer coisinha, mas leiam, e sobretudo amem."
Pedro Chagas Freitas