quinta-feira, julho 12, 2012

O Fim

Mais um bocadinho e chegas lá. Só mais um bocadinho, prometem-te. Mais um par de horas frente ao computador, uma directa, duas noites sem dormir. No reflexo transparente da janela do comboio assustas-te com a tua imagem, as olheiras cavadas, os olhos vermelhos e pequeninos de sono. Tudo isto e para quê? O tempo voa e a vida avança desiquilibrada, como livros empilhados no chão, sempre a ameaçar desmoronar-se: mais uma desilusão, mais um sonho adiado e uma promessa quebrada, tremes na ansiedade da queda iminente, como tremem os livros e a torre finalmente se desfaz no chão. O fim seria mais fácil, pensas. Seria mais fácil assumir a derrota como os livros caídos que continuar trémula no topo da torre de Pisa. Mas até quando vais aguentar? E a que preço?

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Vermelho-papoila

O jardim agora está mais bonito. Apressa-se o passo passeando pelo passeio. O jardim vestido numa míriade de tons avermelhados, vermelho-papoila, vermelho-o-meu-vestido. Vermelho-amor. Ou o vermelho dos beijos que são como as cerejas, que como sem me importar de repetir. Uma e outra vez. Atrás das orquídeas que florescem e do cheiro a rosmaninho do meu jardim encantado. O vestido rodopia sem se cansar, dança no crepúsculo de mais um dia. O teu olhar dança no meu e os teus olhos lembram-me cidades que nunca visitei. Mas agora sinto que conheço o mundo inteiro no meu pequeno jardim. O Outono está a chegar e em breve as folhas vão-se desprender das árvores. É esse o aroma dos teus olhos, as folhas, as árvores e,claro, as cidades pinceladas de tons sépia. No teu olhar há um labirinto. No meu jardim um canteiro. Onde se esconde o que não queremos que mais ninguém saiba. Mas ensinaste-me como percorrer o labirinto dos olhos cor-de-sonho e plantaste flores no meu canteiro. Agora já não podemos fugir porque partilhámos um lanche de segredos neste meu jardim vermelho-paixão, a condizer com o vestido e os sapatos e a chama nos teus olhos a lembrar cidades. Agora acho que consigo ver Paris, a cidade da paixão. Mas está tudo tão vermelho. É o meu jardim, Paris, a paixão. Tudo junto num lugar maior-grande-gigante-mais-que-enorme e que não se inventa nem se dá à toa. Muito prazer, chamo-me coração. Com letra pequena e tamanho desconhecido.

Fruta da época

Hoje apeteces-me. Não sei se é de mim, este egoísmo de não te querer esquecer e de não parar de te lembrar. Apeteces-me como fruta da época, para te comer em pedaços. Para te provar uma e outra vez sem me cansar do teu sabor. Ainda me sabes a mar, amor, vida e desejo. Mesmo que te tenhas esquecido de outros tempos e de outras palavras. Eu não me esqueci de nada e continuo a trazer-te em mim, uma pérola preciosa que roubei ao mundo e não quero mostrar a mais ninguém. Quero-te só para mim. E hoje apetece-me olhar-te e mostrar-te quem és, quem somos. Para relembrares os anos que vêm dançando à frente dos nosssos olhos. Mas somos iguais a antes, ainda te beijo e sinto os pés fugirem do chão e o meu coração querer saltar do peito. Querer saltar e correr para outras margens, ser mais que coração, ser rio, ser verão, ser primavera. Nada mudou e no entanto nada está igual. Quero voltar ao tempo dos segredos. Agora conto-te eu. Agora contas tu. Crianças apaixonadas num mundo de adultos. Eu cá não quero crescer. Sou um dos miúdos perdidos do Peter Pan. Neste mundo quem somos sem as nossas ilusões? Apenas muros e paredes que apetece esmurrar até sangrar. Porque a realidade dói. Deixa-me ficar a viver este sonho que tem telhados, janelas para arejar e flores para pendurar na varanda. Hoje apeteces-me como se tivesse uma fome (in) controlável. Não consigo parar de te escrever, és a vírgula das minhas frases, o meu ponto de exclamação e espero que entre nós não haja um único ponto final. E se houver, que não tenha parágrafos, para te conseguir trazer de volta. És o acento que acentua tudo na minha vida. Há quem ponha alguns pontos de interrogação a um amor assim. Eu dou-lhes as reticências e um único hífen. Aquele com que se escreve amo-te.

Meteorologia

Chovia a conta-gotas como se cada gota estivesse precisamente destinada a cair assim, numa perfeita simetria de água sem palavras. O tempo passa rápido, dizem os especialistas. A meteorologia da vida. Nada como esta chuva sem pressas. O céu chora devagar e toca com as suas lágrimas em cada pequeno mortal, que passeia por este mundo de luas cheias e vazias. Enquanto o céu chora lentamente, as nossas vidas vão avançando ao ritmo de uma valsa, rápida e engenhosa. No fim da dança, parece que ainda estávamos no início. A valsa não é eterna. Os rostos vão acumulando o tempo e as imperfeições. Só o céu continua a chorar uma perfeição que magoa. Uma perfeição que faz inventar novas metáforas, um choro que se transforma em riso quando as pequenas gotas fazem comichão no nariz e na pele. Quando os arrepios de viver nos fazem correr, nos fazem sonhar. Eu sou um sonho transformado em realidade. Um único momento entre o aqui e agora. Somos uma pequena gota que um dia terá de secar. Mas agora, só agora, a meteorologia prevê chuva a conta-gotas e sol no coração. Talvez seja um bom dia para passeares dentro de mim e eu dentro de ti. Porque lá fora o céu continua a chorar baixinho sem fazer alarido. E o tempo passa rápido, não te esqueças nunca. É o que dizem os especialistas. Saberão eles que entre a chuva passou o amor? E não foi a conta-gotas. Foi a contra-relógio, contra a corrente, contra os muros, até desaguar em nós. O amor passa rápido, dizem também esses especialistas. Mas o que sabem eles?Ainda ontem diziam que hoje ia estar sol e nem trouxe guarda-chuva. Agora encharquei o meu casaco favorito e corro pela rua. Pelo menos está sol no meu coração. Só falta darmos aquele pequeno passeio.