terça-feira, janeiro 30, 2007

O meu menino

Corta o vento e despenteia o cabelo, o meu menino desafia as pedras do caminho e salta as raízes das árvores. Distraído grita e ri a vitória sobre os outros, é o mais rápido e vai chegar primeiro ao campo de futebol. Abre os braços e sente o ar puro da serra a arrepiar-lhe os pêlos da nuca. Roça nas silvas e esfola os braços,
ainda consegue roubar algumas amoras na louca corrida. E devorá-las enquanto fica com os dentes vermelhos e nas mãos o sumo mistura-se com a poeira, a pele tem um tom acastanhado mas agora também vermelho de vida e doçura. Baixa as folhas dos arbustos para passar e larga os mais baixos para lhe chicotearem o peito. Para sentir o estalo da Natureza e a adrenalina de lhe ser maior.
De repente o pé entala-se numa pedra com que não contava e deita o corpo entre a relva e o pó num embate seco e duro. Doeu, mas cerra os lábios com força e abre muito os olhos, o truque que lhe ensinara o avô para não chorar. Sente uma pontada aguda nos joelhos, e a frescura de qualquer coisa que lhe escorria pelas pernas. Levanta-se e senta-se no chão. Os amigos ainda vêm longe, cansados ficaram a comer amoras lá atrás. Nunca o conseguiam bater mas não ficavam chateados, era sempre assim, ele vivia o caminho muito mais que eles. O menino olha a pedra chateado. "Não devias estar aqui, alguém te lançou de outro lado esta tarde, eu conheço as pedras e os arbustos deste caminho todos de cor!" E atira-a para longe, chateado. Gostava de todas as pequenas coisas que pintavam a paisagem da serra como um postal, o seu reino dos livros de encantar, o seu mundo sem prédios nem fumo. Gostava de cada pedra, árvore e arbustos que o compunha, e todas obedeciam à harmonia em que ele se tinha habituado a correr. A Natureza envolvia-o porque ele sabia amá-la e aceitá-la. Sempre tinha sido a sua companheira de brincadeiras e desafios com os amigos. Porque tinha aquela pedra sido má para ele agora? "Não", pensou. "A Natureza não é má. A pedra quis brincar comigo." Já tinha caído mais vezes antes, quando ainda não era forte como a Natureza queria. Depois aprendeu o caminho, e deixou de cair. Sabia que aquela pedra redondinha como um seixo não era dali. "Só queria brincar comigo, não a devia ter atirado para longe." E ficou triste por ter sido mau com a pedra, mas repetiu para si para não mais se esquecer: "A Natureza também gosta de brincar. A Natureza é como eu!" A Natureza é como ele. A Natureza, é ele.
De súbito lembrou-se da roupa e dos joelhos, da mesma cor que as suas mãos. Escura e pintalgada de vermelho, e agora não de amoras, mas de sangue. E tinha as calças rotas nos joelhos, como todos os dias. Normalmente era da bicicleta ou de montar muito depressa nas burras e nos cavalos, o tecido cedia e rompia. Mas hoje tinha os joelhos esfolados. Levantou-se e sacudiu a poeira maior. Limpou o sangue com a ponta mais limpa do lenço do nariz, enrolado e sujo num dos bolsos das calças. Ele preferia limpar-se à manga da camisa, era mais cómodo, mas a mãe era teimosa. Afinal se lavava tudo, mais um lenço era mais trabalho, mas a mãe não entendia o seu sentido prático, nunca tinha corrido tanto como ele pelo monte. Era uma senhora de casa, irmã mais velha dos seus cinco irmãos, sempre tinha tratado de todos como mãe enquanto a mãe deles recolhia o almoço e o jantar no campo.
Já mais limpo e recomposto, caminhou até aos amigos que deliciados comiam amoras deitados no chão, aprenderam com o meu menino a não se preocupar com a roupa estar suja - a mãe lavava sempre, mais suja menos suja. Disse-lhes que tinha de ir buscar as vacas ao terreno, o pôr-do-sol não tardava e depois ficava escuro. Todos se ofereceram para ir com ele, mas como sempre negou. "Minha mãe quer que eu vá sozinho, para aprender." Todos encolheram os ombros, já esperavam uma resposta assim.
E lá foi o meu menino, a mascar uma palha como o Oliver Twist, porque todos os meninos do campo são assim. Foi para casa para que a mãe lhe tratasse dos joelhos, mas não podia dizer isso aos amigos. Ele era o mais forte, e tinha ensinado que as mazelas ficavam para o fim do dia, até lá havia muito para correr. Mas os joelhos sangravam mesmo muito, tanto que se permitiu a dar uma folga à sua valentia.
Entrou em casa, cheirava a canela. A mãe estava a fazer arroz doce para o jantar, porque o avô fazia anos! Lançou-se para o fogão e quase se esqueceu dos joelhos. Mas ao tentar correr, mancou e a mãe reparou. Agaçou-se e soprou pelo buraco das calças, acalmava sempre a dor. Olhou-o compadecida. "Anda que te trato isso", e levantou-o pelos braços.
E só naquele dia antecipou a melodia que o embalava entre os lençóis. Enquanto lhe limpava a ferida e lhe afagava o joelho, cantou baixinho:

"O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso que é pequenino
(...)

Quantos sonhos ligeiros
p'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu pr'amar
(...)"

O meu menino é d'oiro, Zeca Afonso

domingo, janeiro 28, 2007

A nossa música

Sentia-te a desafinar a minha música preferida, porque ela era toda tu. Já não a conseguia ouvir. Já não TE conseguia ouvir. A cada dançar de palavras na melodia te ouvia, a tua voz por entre as ondas, e eu de olhos fechados de lá para cá, embalada na (nossa) música.
Tudo começou quando te atiraram água à cara, e tu pensaste que tinha sido eu. Assim preferias acreditar, porque me perdoarias mais facilmente que a um qualquer invasor dos nossos mares. E sem querer disseste que já não querias cantar a minha música. Sabes como sou sensível com as minhas músicas. Não gostar delas é não gostar de mim.
Virei-te as costas antes de me virares as tuas. Continuavas a duvidar de mim. Mergulhei para longe e o mar disfarçou as minhas lágrimas. Subi a uma rocha e ali fiquei lançando-te relâmpagos de raiva, o meu olhar ardia de fúria: doeu e tu não pedias desculpa. Ao longe gritavas qualquer coisa que eu não conseguia (nem queria) ouvir. E ignorava as tuas caretas de grito e saudade. Estava tanto frio naquela rocha, era a mais alta daquela costa. E era escorregadia. Tanto que comecei a deslizar, a deslizar, até sentir o arrepio do meu peito na água. Deixei-me ficar, enquanto o mar dançava comigo até adormecer. O mar anestesiou o meu orgulho. E acordei a ouvir-te cantar. A minha, a tua, a nossa música.

"(...) You know where you've sent her
You sure know where you are
You're trying to ease off
But you know you won't get far
And now she's up there
Sings like an angel
But you can't hear those words
(...)"

Unforgivable Sinner, Lene Marlin

O amor é um circo?

As palavras aparecem-nos acinzentadas dos momentos gastos e mortos. Na verdade elas são arco-íris, e escondem segredos mágicos que nem todos podem ler. O amor não é um circo.

Mas se fosse, era um circo de feras.

Adeus

Vivemos no vício do desejo, na doença da dependência e da carência.
A pureza da vida também morreu com ela.

Poeta

Podes não ser poeta, mas os meus olhos rimam nos teus.

Sensações

Nunca ninguém pintou um quadro sobre sensações.
Não há cores suficientes.

Eco de nada

Quando a música acaba, já ninguém ouve. Quando o sol se esconde, já ninguém vê. Quando a festa acaba, já ninguém fica. Quando tudo é trabalho, já ninguém abraça. Quando tudo é tristeza, já ninguém telefona.
Quando não há sorrir, não estás. Quando não há beijo, não vens.
No final de tudo, só eu estou, só eu oiço, só eu vejo, só eu fico. Eu e um eco de nada.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Confusão

O meu coração pensaria “amo-te” se pudesse pensar. Mas como o pensamento não é uma das qualidades do meu coração, ele não pensa, sente. E ama-te de qualquer forma. Os batimentos cardíacos aceleram de tal forma, que juraria, o meu coração e o teu fazem amor neste instante. Mesmo que as nossa pele nem sequer se toque. Faz amor com o meu coração. Faz amor comigo. Mistura o teu paladar no meu e torna-te pôr do sol do meu corpo. Junta ao meu o teu quarto crescente. Sê lua cheia comigo. Se o meu corpo pudesse falar diria “desejo-te” ou “beija-me”, falar não é dom do meu corpo, apenas a minha mão que te puxa na minha direcção com fervor. E se os teus lábios ouvissem? Sim, conheceriam este suspiro enquanto te beijo. Mas os teus lábios não ouvem e, de facto, este deve ser um suspiro entre-bocas. Se a tua alma voasse não estaria mais aqui. Se a minha alma voasse estaria despida com a tua. Faz amor com a minha alma.Não há nada de errado nisso. Apenas a tua alma na carne da minha alma. O teu corpo na leveza do meu corpo. Quentes e invadidos por uma febre-paixão em curto circuito. Sê a descarga eléctrica de mim. Eu serei brisa morna nas areias movediças do teu corpo-mundo. E o meu coração que não pensa e o meu cérebro que não sente ficariam confusos com tanta emoção, se o meu coração e o meu cérebro tivessem o dom da confusão.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Saudade

O ano começa sempre assim. Na contagem decrescente do dia em que não te conseguimos tirar do pensamento. E quando chega pesa tanto como dantes, mesmo que os anos passem cada vez mais. A tua gargalhada ainda ecoa em mim. Tento imitá-la mesmo a tua voz não saia. Eu sei que o abraço mais verdadeiro da minha vida não volta. E que mais ninguém será tão feliz a ver-me arrastar cacos de porcelana atrás do vestido rodado que a mãe gostava tanto que eu usasse. Era tão bonito mas tão perigoso nas minhas correrias. Mas nem te importavas que as prateleiras ficassem mais vazias férias após férias. A mãe ralhava comigo e tu deixavas-me raspar o arroz doce da panela. E de repente o avô desaparecia. Eu agarrava a bicicleta e serpenteava pelas ruas empedradas e pelos caminhos de cabras à procura dele. E tu lá tão atrás de passo curto e avental sujo do queijo mole que fazias ao lume, pedias que não andasse tanto. Avisavas-me que pouco faltava para ficar sem fôlego, era bem feito por te desaparecer entre as quelhes escuras e as largas árvores dos caminhos. Era sempre assim e tinhas sempre razão. Malditas alergias, espirrava quando a poeira me envolvia e as folhas passavam a coçar-me o nariz no vento da minha grande pedalada. Mas eu insistia. Passavam gastas e frias caras cobertas de luto que me chamavam ciganita pelo cabelo comprido, a face queimada do sol e suja da poeira, a quem replicavas, “é a minha neta”, e elas “que bardina te saiu”. Acabávamos por encontrar o avô a cismar sentado numa pedra, às vezes dias depois dos tios correrem a serra e a mãe que chorava a cortar as batatas para o caldo. Eu e tu sentávamo-nos ao pé dele e nem perguntávamos o que o tinha levado a deixar-nos mais uma vez, porque ele nunca respondia. Abanava a cabeça e dizia que era um menino pequenino que nada sabia. Mas lá se deixava conduzir por nós até casa, eu a cantar na bicicleta e tu calada ias guardando as amoras do caminho no bolso do avental, cada vez mais sujo. Eu pedalava ao pé do avô trauteando alguma música da rádio (“Cala-te passarito, vai tocar piano”, “Vocemecê não me ensina!”, “Tu sabes”).
E hoje percorro os mesmos caminhos entre a poeira e a saudade, distingo aquelas caras cobertas de negro, que me sorriem e me falam de ti, descobrem-te no meu sorriso. Afinal, tu nunca nos deixaste.

terça-feira, janeiro 16, 2007

É naquele momento em que as pálpebras desistem de acreditar e o rosto perde a força que a cabeça descai para um lado que tudo volta a ti, revolteias-te no sonho um sentir sem pensar. Quando não sabes o que é sentir, o melhor mesmo é sonhar. Porque quando acordares não te lembras ou recordas pouco, e assim dói menos. Sufoca-te eu não poder abraçar os teus suspiros e beliscar-te o braço para não chorares como quando caías em pequenino e o teu pai te fazia sempre, mas as nossas cidades continuam longe. Desculpa. Não é culpa minha. Nem tua. Alguém nos uniu e esqueceram-se das asas na prateleira, por isso hoje somos paixão platónica em todo o seu (não) viver. Talvez porque o amor nunca nos custou. Então serviram-nos um prato de crepe com chocolate e gelado que desaparece quando lhe espetamos o garfo. Para que custe. Para que doa. Um desafio agri-doce como alguns pratos orientais, e eu não gosto de caril nem malagueta.
No lugar da tua voz ecoará a estridente senhora da estação, a malvada que sem saber te roubou de mim. E não tentes beijar-me de palavras inúteis apenas coloridas pelo telemóvel, porque o que foi não volta a ser...

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Fiz duas canecas de leite com chocolate. A luz da escrivaninha agride-me os olhos de vermelho-sono. Pupilas pesadas de quase quinze dias injectadas de boémia. Olheiras cavadas e sinceras, sim, não durmo sem pensar há tanto tempo. Aquele dormir como uma televisão escura, desligada, silenciosa, tranquila. Sem aquele zapping de momentos e frustrações confusas que são os sonhos... ou pesadelos. Enervo-me sempre quando acordo. Não devia ter sonhado contigo! Que raiva de mim! Os sonhos gritam a fraqueza da minha louca montanha-russa. E como está a minha pele! Branco-coma como naquela noite. Apetece-me vivê-la de novo, até. Poder ser e não me lembrar. Como me libertaria, lançar com violência a pesada mala dos medos à porta, como no quinto ano, em que largava a correr a mochila no pátio e partia sempre o estojo de vidro do compasso. E o chocolate que só me deixa farta e enjoada! Atira-me um míssil psicotrópico! Álcool! Queima-me a ansiedade nas labaredas de um shot e deixa-me perder a consciência gargalhando o meu ridículo - sem saber porquê, porque agora sei demais! E ninguém me responde. A minha casa ressona, o telemóvel inútil fustiga-me com a hora tardia, e tudo o resto dorme. Mas deve haver alguém acordado por aí. Onde estão as chaves do carro?

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Paixão vs Amor

A paixão passa mas o amor fica. Acabou a conversa. Frase tantas vezes repetida.Enchendo o ar e chocando com os átomos que profanamente o povoam. Sem vestígio de um deus dentro de si, átomos apenas. E no essencial ondas sonoras propagadas de um EU para um TU evidenciaram que a paixão morre num compasso em que o amor permanece. A paixão envenenada com cianeto ou vítima de taquicardia ou qualquer maleita prolongada. Não, a paixão resiste, luta obstinada no útero do amor, nasce e morre e volta a semente que perecerá às mãos do tempo, é paixão em múltiplos suspiros, ais e uis despidos de sentido e de contexto. E o amor?Está em cada gemido, em cada gesto ou nos rabiscos das cartas que escrevi. Na maior das banalidades dos amantes. A paixão também. Por vezes escondida ou camuflada numa estratégia de Guerra. Só precisa de um despertador. De um grito que acabe com os cansaços dos que amam mas que se cansaram de lutar. Amor posssível na suposta impossibilidade do explodir do sol oriundo da paixão. E o amor, calmamente sorri sentado numa cadeira de raio de cometa. A paixão ri concupiscente. Esconde-se por momentos ou dias ou meses e cobre-se do carinho subtil. Não parte, está só a pregar uma partida e a deixar os batimentos cardíacos recuperarem o fôlego no aconchego ternurento do amor.Espera paciente um regresso. Que se lembrem dela e recomece a balbúrdia de corações virados do avesso e penas fora das almofadas.