quarta-feira, fevereiro 28, 2007

fila indiana

Saíram cabisbaixos em fila indiana, os indianos que esperavam o autocarro para a Índia. Tinham a pele queimada, do sol do deserto, e um ar contente-triste a bailar-lhes no rosto que não bailava.Porque o rosto não tem pernas como as pernas que dançam. As suas pernas eram finas e permaneciam estáticas esperando o regresso a casa. Esperando e esperando enquanto o autocarro se demorava nas entranhas de aldeias e vilas, até chegar mais perto deles. Daquele grupo com ar de loucura, esquizofrenia, esperando um autocarro no meio do nada. Esperando uma vida no meio do nada. Com roupas e sonhos brancos lavadas à pressa com sabão, restando o resíduo de nódoas na brancura das vestes. Viria o autocarro?Ou seria miragem?Talvez não estivesse ali ninguém. Porventura um delírio do calor que se fazia sentir. Ali, no meio do nada onde indianos em fila indiana tentavam (ou não) ir para a Índia.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

ele e ela (pura invenção)

Ela estava sentada ao canto da sala, como era já seu hábito, com o olhar distraído percorrendo o horizonte, através de uma minúscula janela que se apertava contra as paredes branco-sujo. Ele chegou com o casaco numa mão e o guarda chuva na outra. Estava seco, o que se comprovava também pelos raios de sol invadindo a pequena janela, para a qual ela olhava sem se ter apercebido, ainda, de uma segunda presença, para além de si própria. Ele acendeu um cigarro, gesto pretensioso junto de um sinal que proíbia o acto. De repente ela olhou, talvez desperta do seu transe pelo cheiro do cigarro, que formava agora pequenas nuvens de fumo, notórias num espaço tão fechado como aquele. Não era um café, nem um restaurante, era um espaço público decerto, irreconhecível, no entanto. Sem setas ou placas que indicassem a que servia aquele local, sisudo e asfixiantemente fechado. Mas voltando a ela, quando cruzaram olhares (como se os olhares se cruzassem), levantou levemente a sobrancelha e nada disse. Não o esperava mas o ar trocista dele mostrava que aquele encontro não era por acaso. Trazia a gravata amarrotada e a barba por fazer. Ela encontrava no seu aspecto uma tristeza que os seus olhos tornavam indecifrável. Ele mostrou a intenção de se sentar e puxou uma cadeira. Nenhum dos dois disse nada. Ele apagou o cigarro sem desviar os olhos dos dela. O silêncio tornava-se cada vez mais pesado, mas nenhum dos dois fez menção de tomar da palavra. Estava frio ali dentro e o ambiente tornava-se irrespirável. Não só pela falta de saídas de ar mas especialmente pela ausência de palavras. De súbito ela disse em voz baixa e um pouco rouca:
- Não vale a pena. Eu já sei de tudo. E não acredito em mais nada que disseres.
Ele não chorou, talvez na sua educação os Homens não chorassem nem se revoltassem. Ficassem apenas naquele silêncio trôpego e instável de coisas interditas por dizer.Finalmente ele tomou da palavra num tom caloroso mas agreste, simpático mas arrogante.
- Não te peço que me ouças.Aconteceu. O verbo está no passado, como podes constatar. Se fosse "acontece" talvez não tivesse coragem de estar aqui frente a frente contigo. Não vês que te amo?
- Não não vejo. Usaste-me, traíste-me. O teu corpo e a tua alma perderam-se do meu. Deitaste estes três anos no lixo. Como sabes, descurei sempre a reciclagem. Não há volta entendes? Não percebo como continuas com esse ar superior.
Ele não disse nada. Prolongou o silêncio até aos limites em que ele transbordou as margens. Levantou-se e saiu. Ela voltou a olhar pela minúscula janela. Ela estava na sala de espera do tribunal. Iam-se divorciar.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Há muralhas e muralhas

Vamos mexe-te, há tantos sonhos à espera de ser vividos - sussurra a voz quase imperceptível da consciência, que baloiça entre as teias de um cérebro fatigado. Sentia-me estação em vez de comboio. Local de chegada em vez de local de partida. Eram horas de despir a inércia, corpo abandonado em cima de uma cadeira, e vestir-me de acção, movimento, salto, sopro. Corre corre corre, pelo mundo, pelas paisagens e pelos castelos. Aqui vou reinar, neste minuto em que descubro um país de muralhas e descubro que as minhas muralhas já foram destruídas. Afugentados esquemas tácticos e estratégias. Os meus ardis. O meu país é tão belo, apetece dançar nos areais e agarrar o sol plantado no céu. Olho do cimo da serra o verde luxuriante da terra, as estradas sinuosas que percorrem os caminho entre mim e o mundo. E apercebo-me que o mundo está tão perto, mesmo que o contador dos quilómetros avance e avance indicando aquilo a que se chama “longe”. Mas nada é longe verdadeiramente. Não tinha pressa (nem eu nem tu) e sem pressa nada é longe, porque és feliz enquanto percorres o longe e o perto. Longe de um sítio, perto de outro. Perdida num mundo tão grande e tão pequeno. Tu és tão mundo, simultaneamente praia e serra, verde e azul, e em ti encontro caminhos também eles sinuosos, alguns estrada, outros de terra batida que ainda não conheço. Quero percorrer cada um dos teus caminhos sem ter pressa de chegar a qualquer lugar. Sou feliz sem correr para metas. Como neste segundo em que o contador do carro diz que estamos a ir para longe e sinto tudo tão perto. Tu, o sol, o céu e o verde do meu país natal.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Ilusão

Amei alguém que não existia, só em parte em si, e totalmente em mim.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Já??

Hoje o letrasoltas faz dois anos. Obrigada a todos os que acompanharam este percurso de sensações e divagações e, que arranjaram sempre um espacinho para comentário. Obrigada aos "musos" e "musas" inspiradoras, mesmo aqueles que nos marcaram da forma mais negativa. Tornaram-nos mais fortes e permitiram-nos escrever textos sentidos, poesia desta nossa vida. E hoje, em que comemoramos muitos sonhos e barreiras ultrapassadas, há que sorrir e sorrir bastante. Estas letras já não são apenas digitais, têm vida num papel e estarão brevemente em vários pontos do país. Isto é suficiente para ficar bastante feliz. Porque ainda tão nova realizei um sonho tão mas tão importante. O meu livro. O nosso livro. Este dia é também para ti Ísis, amiga incondicional tanto nas letras como nos seus interstícios. Nas entrelinhas desta nossa vida, que escrevemos diariamente nas coisas que fazemos e nas letras que se desprendem de nós. Pelo teu abraço leal o meu ainda maior obrigada.

E como diria a ísis...bem haja a todos vós=)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Sabes-me sempre a pouco

"E olha, não dá para contar
Mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei."

Sérgio Godinho

Não posso

Não posso pedir que estejas sempre a brilhar no meu telemóvel. Palavras a néon na artificialidade menos falsa da minha vida. Tu tens a tua. E mais pessoas a neón, de certeza. Não posso pedir que apertes o meu inquieto dormir; as placas da estrada esbofeteiam-me a ilusão com a distância do teu abraço que chega quase às centenas. Não posso muito mais e até me cansa escrever sobre isso.
Cansa-me tanto pensar que não te posso ter.

Gravada no mármore

Quando era pequenina gostava de me esconder no armário para ver se alguém dava pela minha falta. Gostava de me deitar no chão da cozinha de olhos fechados para a minha mãe pensar que eu estava morta. Gostava de riscar as paredes, e a parte debaixo da mesa da cozinha, o meu mundo de desenhos e letras que só eu sabia ler. E ao canto dos meus bonecos de olhos esbugalhados e as palavras coladas - para não se perderem das amigas, dizia eu, como nas visitas de estudo em que damos a mão uns aos outros -, escrevia um pequeno "FC". Era a única coisa que se entendia no meio daquela salganhada de riscos a lápis de cera. A minha mãe pedia para usar os cadernos (todas as semanas comprava um novo e mais bonito para eu deixar aquela mania), mas eu replicava que eram pequeninos e rasgavam-se, molhavam-se e estragavam-se, e as paredes eram fortes, frias, largas, coloridas, o cenário perfeito para a minha imaginação. A minha mãe sempre teve muito zelo pela casa, e eu trouxe o caos com as minhas canetas e sorriso traquina. Mas ela sempre foi a mãe de toda a gente, a mais velha dos seis irmãos, e soube controlar os meus rabiscos. Explicou-me que não era a única lá em casa e que ela também tinha o direito a brincar com as paredes. A mesa da cozinha era a minha preferida, de mármore mais frio que as paredes e a parte de baixo escondida pela toalha, podia desenhar sem que ninguém me visse nem incomodasse. Deixou-me ficar com a mesa, e lavou as paredes. Paredes para ti, mesa para mim, assim ficou combinado. Um dia perguntou-me porque não escrevia tudo "como deve ser" como "FC", e se o meu nome todo não era mais bonito. Eu respondi que ninguém tinha de perceber, mas que dali a muitos anos iam descobrir um bocadinho de mármore com desenhos e "FC" no meio de muita terra e fósseis, e iam ler muitos livros para me descobrir. Se descobrissem, eu seria um bocadinho lembrada por pessoas inteligentes. Ideias que os desenhos animados e o primeiro ano de escola me davam.
Não importa que nunca encontrem um bocadinho de mármore com um tímido "FC". Debaixo da mesa de cozinha e coberta pela toalha verde de frutos eu desenhei quem queria ser. E não importa que daqui a alguns anos ninguém saiba. Eu deixarei as minhas letras com a certeza do que fui. E as letras soltas serão sempre um bocadinho de mim.

domingo, fevereiro 11, 2007

I'm a whisper in water, secret for you to hear...

Calei imensas palavras, como se sussurrasse dentro de água e esse sussurro se tornasse impossível de escutar. Calei tantas palavras, meu amor, por achá-las despropositadas ou ter medo de as banalizar. O facto é que já passou um ano e essas palavras vão mudando e mudando sem nunca se repetirem.A cada palavra que invento, há mais um sentimento. A cada palavra que repito há mais um sentido. Obrigada por tudo o que me dás mesmo que nem sempre me aperceba. Por nunca me ter faltado a tua mão na minha mão, mais pequena que a tua, tão solitária e sonhadora (tantas vezes). Por nunca ter falhado, no teu olhar, aquele raio de paixão, e por seres capaz de evoluir e lutar como os príncipes fazem. O dia, que tu sabes que dia é, foi cúmplice e nesse dia um ano passou, nesse ano tornámo-nos um. Continuamos a aprender a ser apenas um nas diferenças dos dois. Pensando diferente mas amando absolutamente igual. E hoje nada resta qeu nos divida. Somos soma. E a ti não me quero subtrair. Se és árvore quero ser um dos ramos. Se és pássaro quero ser o teu canto. Amo-te, ainda não entendeste?Quero lá saber que seja lamechas ou piroso. Isto não é um poema. O poema é outra coisa qualquer. Isto é apenas uma coisa. Que só nós sabemos mas que os outros estão fartos de saber. Está escrito nos nossos olhos. Vê-se a léguas.

(obrigada por este ano maravilhoso..gonçalo..sim és tu. É O TEU NOME!)

sábado, fevereiro 10, 2007

Cumplicidade pecadora

Estranho como continuas na minha vida sem estar. Acompanhas o fio ténue que nos enlaça nas músicas que eu oiço aqui e tu aí, loucos ritmos coloridos de holofotes e beijos estonteantes. Hoje é por ela que vou sabendo de ti, ela a pedra que atirávamos do caminho, de noite que não víamos por onde passávamos, tantas vezes em que nos perdemos na serra, ora de carro, ora a pé, dependia da velocidade de sentir que nos apetecesse. Ao amanhecer lá estava ela de novo, e aí quem tinha de se atirar para longe eras tu. Nunca entendi muito bem o que nos mergulhava naqueles escuros momentos de emoção. Talvez fosses uma maneira de não me importar com nada, e eu para ti o salto de trampolim dos teus dias sempre iguais. Não te queria durante o dia, a minha vida está longe da tua, no meu perfeccionismo não havia espaço para ti. A tua vontade era simples, nada te prendia a não ser ela, mas esse desafio eu não queria correr. Eu tinha planos e tu tinhas música, contigo não teria silêncio. Por isso assim continuámos, na nossa cumplicidade pecadora, encontros fortuitos de um abraço só. Apesar de aos outros parecer, não lhe sei chamar traição, nem desejo cego ou inconsciência. Não era o prazer que eu te pedia, mas o olhar. Esses olhos de que hoje me desviei. Prometi-me a não precisar de ti mais que isto, nas músicas que nos pertencem e oiço quase todos os dias, nas palavras em que ainda te oiço mesmo que por outra voz, ironicamente do rosto que nunca quis ver e hoje me precisa. E nas risadas à margem que dou quando me fala de ti, porque te conheço sem nunca ter acordado a teu lado.
Fica onde estás. Sei-te sem estares, e acredito que tu também.

To be or not to be

"I always thought it was better to be a fake somebody than a nobody."

Talented Mr Ripley, 1999

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Melodia de chuva

Estava a chover mas não fazia mal. Eu exultava por dentro enquanto soltava os cabelos. Caíam lágrimas do céu, num choro de paradoxal alegria com matiz de tristeza. Molhavam-me a alma e a face, num mesmo ritmo. As gotas tocavam uma melodia que não conhecia, talvez porque nunca prestasse muita atenção. Ia ficar constipada, mas nem isso importava muito. Eu dançava com a chuva e sentia-me viva. "Beijar à chuva é tão romântico", dizem por aí. Fechei os olhos na imaginação de um beijo molhado de gotas cristalinas. As vidraças dos carros e das casas estavam, nesse instante, polvilhadas de gotas que escorriam levemente, sem pressa. Eu tremia por fora mas dentro de mim fervia um bule cheio de água quente, para fazer chá de canela ou camomila. Desprendia-se um fumo de lareira da minha alma cheirando a rosmaninho e alecrim. E eu ensaiava passos desconhecidos ao ritmo intenso da música da chuva. De súbito e sem aviso, pararam as gotas. os pára-brisas dos carros voltaram à posição original. Só o meu cabelo molhado lembrava ainda o jardim de gotas, que o céu tinha enviado há minutos atrás. Pulando ao pé coxinho fui rindo e chorando para casa, de saudade e emoção. De alegria e tristeza. Estava na hora de enxugar os cabelos e as lágrimas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

beijo artístico sem tela onde ficar gravado

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir (...) "

Chuva, Mariza

E o ser-livro é marcado nas memórias, e só ficam aquelas cuja força, malévola ou boa nos impede de esquecer. Quando o coração bateu mais forte que o rádio, mesmo estando a música no máximo. E hoje quando o comboio avançava, ora lentamente ora mais rápido, vi a minha vida reflectida no vidro. Locais onde já estive, onde vivi alguns momentos dos que ficam na História, talvez não na do Mundo, mas na minha história. Só me recordo nessa cronologia desengoçada da memória, de pedaços de tempo, trazidos a lume de repente, quando o comboio pára em tal estação.De súbito recordo o teu beijo. O teu beijo que é arte. Que se une na poesia do meu. Recordei as lágrimas mais dolorosas da minha existência. Um dia quando eu já não for eu talvez digam quando alguém perguntar, "quem era ela?": alguém que gostava de pequenas coisas, ria muito e chorava muito, era sensível, dançava e cantava pelo mundo, era amante das túlipas como da poesia e apaixonada pela vida. De resto mais nada saberão. Das memórias que trago comigo. Dos jardins onde pus os pés, nada saberão do sabor dos teus lábios. Levarei tudo isso comigo, atracado ao meu cais de sonhos. Vejo as nuvens no horizonte, surgem agora no pensamento as nossas conversas, afinal lembro-me de tanta coisa. Trago-te comigo. Trago uma fatia do mundo suspensa na mente.

You will fix me



"When you try your best, but you don´t succeed
When you get what you want, but not what you need
When you feel so tired, but you can´t sleep
Stuck in reverse
When the tears come streaming down your face
When you lose something you can´t replace
When you love someone, but it goes to waste
Could it be worse?

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

High up above or down below
When you too in love to let it go
If you never try you´ll never know
Just watch and learn
(...)"

Fix you, Coldplay

"Não interessa o que pensam de ti, não interessa. Ser estrangeira é bonito. Ser étrangé... Ser anjo... Estar entre dois mundos, entre dois tempos..."

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Sai

Sais e entras na minha vida como se eu fosse o teu quarto. Pois bem, eu não tenho cara de almofada! E sim, isto é para parecer estúpido. Não vês o quão ridículo és?! Vê se lês bem desta vez: quando saíres, vou fechar a porta à chave! E atirá-la pela janela!

O peso do mundo

"Agora estava mais velho; e no mundo, sim, mas não no mesmo mundo. Quando era forte afastaram-no dos homens, agora que começava a ficar fraco atiravam-no para a vida real. Eis o que sentia. O mundo era agora mais forte porque ele perdera a força."

De novo Jerusalém, Gonçalo M. Tavares

Disseram-me um dia que eu tinha força para não deixar que o peso do mundo me asfixiasse. Até tenho, mas há dias em que a deixo como a mochila, abandonada no chão.

Chuva

"Pensar incomoda como andar à chuva", disse alguém. E hoje está mesmo de chuva.

Cinema

Ouvi de um professor há dias: "Gosto de sair da sala de cinema com a sensação de que a minha relação com o mundo mudou".

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O mundo é tão pequeno que cabe em cento e vinte minutos ou menos. Tudo depende do filme, algo fantástico não corresponde à vida, mas às vezes confirmamos num filme a estúpida previsibilidade do Homem, cego de sensações e perdido de sentimentos. Afinal a pele está mais perto de sentir que o coração. E quase como um espelho de nós, dirigimos a realidade dos nossos olhos para uma tela, o cinema pinta-nos nas cores mais fortes quando nós não nos queremos assumir. E sabe a verdade mesmo que nos fira os olhos.

Dicionário

"(...) A minha alma já não chora
Nem eu tenho coração
Sou uma emoção estrangeira
Um erro de sonho e luz (...)"

Há uma música do povo, Mariza

Quando o verbo acreditar morre, nem o chorar fica. Ao longe um eco de desistir soa como uma nota desafinada e estridente. Eco teimoso que não consigo calar. Toco com fúria por cima da voz e parto uma corda da viola. Não consigo tocar, nada posso fazer.
Vou ao dicionário, estes verbos já não me servem.

Comboio

Gosto de me inclinar na linha poucos segundos antes da chegada do comboio e sentir-me no vento da fulgurante máquina que quase me arrasta. Mas nunca me deixo levar.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Silêncio

Como me sou no silêncio. Como me descanso e como me descubro. Ou talvez seja só um intervalo de mim mesma.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Na minha terra

No meu país encantado, os rios são de café com leite e correm sem destino. O cabelo muda de cor consoante a direcção do vento e as árvores são feitas de plasticina no tronco. Na minha terra de fantasias e quimeras de oiro, o mar é doce e as flores sabem a gomas. Nos bosques há criaturas bizarras e místicas, unicórnios percorrem as redondezas e todas as casas têm uma chaminé a fumegar, cheirando aos cozinhados das avós. As portas são pequeninhas e é preciso baixarmos a cabeça para entrar. A mãe natureza é generosa e no meu país não há fome nem guerras a troco de míseros tostões. Multiplicam-se as cascatas de água cor de prata ou água cor de água cristalina ou até água cor de âmbar. Há eco em todo o meu país, palavras andando de lá para cá. Assim é o tal país. Pena que seja apenas um país imaginário, circunscrito aos caminhos tortuosos da mente.

Tout le monde est seul

"Tout le monde est une drôle de personne,
Et tout le monde a l'âme emmêlée,
Tout le monde a de l'enfance qui ronronne,
Au fond d'une poche oubliée,
Tout le monde a des restes de rêves,
Et des coins de vie dévastés,
Tout le monde a cherché quelque chose un jour,
Mais tout le monde ne l'a pas trouvé,
Mais tout le monde ne l'a pas trouvé.

Il faudrait que tout le monde réclame auprès des autorités,
Une loi contre toute notre solitude,
Que personne ne soit oublié,
Et que personne ne soit oublié

Tout le monde a une seule vie qui passe,
Mais tout le monde ne s'en souvient pas,
J'en vois qui la plient et même qui la cassent,
Et j'en vois qui ne la voient même pas,
Et j'en vois qui ne la voient même pas.

Tout le monde est une drôle de personne,
Et tout le monde a une âme emmêlée,
Tout le monde a de l'enfance qui résonne,
Au fond d'une heure oubliée,
Au fond d'une heure oubliée"

Tout le Monde, Carla Bruni

Tout le monde est ensemble dans leur solitude.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Telhados de vidro

A tua casa tem telhados de vidro? O teu lugar- mundo tem telhados de vidro? Que se podem quebrar a cada instante?Sim, então fechas-te no teu mundo de vidro para que não o partam em cacos. Depois descobres que tudo passou, que a banda tocou nas tuas redondezas só que tu nem ouviste. Estavas entretido a dar brilho aos cristais. Fechaste-te em ti. Um dia o telhado vai cair, temo dizer-te. Quando não tiveres força para seres pilar de ti mesmo. Um só pilar não resiste muito tempo. Não está na altura de abrires a porta e tirares o sinal de fechado para obras? Toda a gente sabe que estás sozinho, o vidro está intacto mas tu não. Estás em mil pedaços por muito que tentes colar. Não sabes de ti, a tua casa é demasiado grande só para duas pessoas: tu e a tua companheira de sempre. A que te acorda e te adormece. Que te deixa as mãos vazias entre os lençóis. A tua amiga solidão. Que te povoa e nem te dás conta. Há um furacão na tua casa de vidro. Será que não vês? Estás sozinho e o vidro vai partir. Só a solidão vai ficar.

voltaste inspiração?

Bebi um chá de orquídeas esvoaçantes. Fui embalada de lá para cá num nenúfar fantasiado. E o chá ameno de flores enrubescidas. Rubor da paixão escaldante reflectida nas flores. Bebi o chá. Caí no pantano da loucura. Sonhei não sonhando que sonhava um sonho luz. E as flores coradas desprendendo o seu aroma. Lembrando a paixão acutilante de tantos momentos. A paixão pela vida.

Acordar é que eu não queria

"Ninguém volta ao que já deixou
(...)
Ninguém lembra nem o que sonhou
(...)
Ao largo ainda arde
A barca da fantasia
O meu sonho acaba tarde
Deixa a alma de vigia
Ao largo ainda arde
A barca da fantasia
O meu sonho acaba tarde
acordar é que eu não queria."

O Pastor, Madredeus

Cães dos nossos cães

"...estava Theodor Busbeck, a passo firme, dirigindo-se para a absoluta inutilidade, para o absoluto tempo perdido, um tempo de excitação, sim, de pura excitação, de divertimento e portanto de eficácia negativa, em suma: tempo de não-humanidade, tempo onde não se constrói. «Se fôssemos só isto, o que eu sou neste momento, a caminhar apressado com o [sexo] duro, desejado encontrar rapidamente uma mulher, se fôssemos só isto seríamos agora os cães dos nossos cães."

Jerusalém, Gonçalo M. Tavares

Não o somos já...?