terça-feira, outubro 26, 2010

apetite por destruição

"as coisas estavam a melhorar, pensei. talvez por isso, porque parecia que ia finalmente sair do atoleiro, fiz o que fizera sempre que a minha vida encarreirou pelo bom caminho: deitar tudo a perder"

porque bem não é bom. bem é confortável. bom é outra coisa

Rei Sol

Há certezas que nos acompanham ao longo da vida, talvez a tentarem trazer um pouco de paz à mente atormentada do Homem. Repleta de tantas (in) certezas. Tal como o sol, que nasce a cada novo dia, como as ondas que batem incessantemente nas rochas. O sol nunca se cansa da sua rotina e o mar segue o seu fluxo. Nesta pedra em que sento, no alto do mundo, vejo tudo e sei. Quando eu morrer o sol vai nascer para ser contemplado por outros olhos, as ondas vão desaguar do mesmo modo. Só ficarão estas letras, que talvez até o tempo apague. Por agora, oiço o rumor do mundo à minha volta, respiro, sorrio. O sol regressa, entretanto, às entranhas da terra.Espalham-se sonhos vermelhos de nuvem pelo céu.Que será de mim? Não sei. Mas o sol, esse, vai emergir do seu sono de bela adormecida e mostrar o rei que há em si. E eu, rainha do meu reino do aqui, que um dia será mais além.

sábado, outubro 23, 2010

diz-me

"diz-me o porquê dessa canção tão triste
me fazer sentir tão bem
decerto alguma coisa mais te disse a mesma voz
que tu não dizes a ninguém"

Manel Cruz

sexta-feira, outubro 15, 2010

poesia

como uma chama que de pequenina se faz gigante te sinto a chegar, aqueces-me, incendeias-me, sinto-te a correr pelas minhas veias, o fogo de ti que me enlouquece, sinto-te a cada bocadinho de mim, primeiro as mãos, sempre onde me nasces, os braços num sopro, inflamas-me a garganta, de súbito tenho mil palavras a querer sair pela boca, loucas atropelam-se e eu sinto-me poderosa. envolves-me no teu manto de loucura mas paz, de emoções mas calma, levas-me o medo e devolves-me o coração, quando te grito o que sinto, e me deito nas palavras, finalmente, mais calma, regresso a mim. voltaste. poesia.

a serra

são dias-tempestade, os segundos, os minutos, as horas, são árvores enraivecidas pelo vento que me fustigam sem piedade, batem os minutos como ramos enlouquecidos de girar. e eu resisto, continuo como quando na aldeia dos meus pais cortava as silvas com uma navalha para passar, no caminho da serra que tanto gostava de fazer a pé. sozinha. eu bato-me, mas como naqueles passeios entre silvas que em miúda chamava de silvias não me livro sem sangue, os braços crivados de cortes e arranhões, eu bato-me mas um dia não haverá pele para mais feridas. e aí ficarei a meio do caminho, a capela no alto da serra ao longe, a paz tão longe e tão perto, e eu estirada sem pele nem força que resista

Horas e segundos.

Apetecia-me que as horas passassem mais velozes que a velocidade da luz, mais rápido que o metro que percorre a cidade, numa vertigem que engolisse os minutos, os segundos e os milésimos. Para correr para os teus braços, esbaforida e sem ar, para fazer um sprint até ao teu beijo. Derrubar todos os obstáculos e chegar até ti. Para encontrar o meu coração, que ficou contigo. Preso a ti na última vez que nos encontrámos. Deixa-me aconchegar-me no cobertor dos teus braços, na ternura pura dos teus lábios. Deixa-me saber como foram os dias-sem-mim e eu conto-te como foram as horas-contadas-para-te-ver-outravez. Permite-me que te encontre. Rogo ao tempo que passe rápido e me leve para perto de ti. Sinto-me longe de tudo, nesta manhã cinzenta, e tão absurdamente distante das tuas mãos. Apetecia-me que os quilómetros se transformassem em metros que se atravessassem a pé. Que os semáforos estivessem todos verdes para chegares mais depressa ao teu destino: EU. Estas paredes apertam-me, agora, sem cessar, os meus pensamentos estão roucos de gritar por ti. Quero sair daqui, quero ter passos de gigante para te encontrar em três pulos. E lá estarás, a reflectir tudo o que importa, tudo o que me alenta. Há dias tão longos não é? Apetece-me que este dia tenha o sabor de um segundo. Pode ser?

Quem mora na minha cabeça?

Quem será, que já não sou eu?

quinta-feira, outubro 14, 2010

coelho

esta era mais uma noite de chegar a casa, mais uma noite para dormir e esquecer até amanhã, quando as luzes do meu carro iluminaram um pequeno coelho, que, apressado, se meteu pelo mato sem avisar. deixei de o ver. procurei-o, fui atrás dele, mas não havia nenhum buraco encantado por onde cair

segunda-feira, outubro 11, 2010

"I'm dreaming my life away..."

enquanto me perco nos sonhos perco-me da vida e peço só mais um minuto ao meu despertador, por favor deixa-me ficar. deixa-me ficar que a vida há muito que me perdeu. dei-lhe um tempo, disse-lhe: "amor, volta quando me amares outra vez, espero para sempre por ti", mas o amor esqueceu-se de voltar, perdeu-se entre as rotinas cinzentas e os olhos a meia haste, fugiu para o alasca qual intelectual frustrado com a sociedade. eu e a vida acabámos. e não, não insistam. quando não há amor, não vale a pena voltar

terça-feira, outubro 05, 2010

Da modernidade

"Desenvolvemo-nos, mas continuámos fechados. A maquinaria que produz a abundância deixou-nos na pobreza. O nosso conhecimento tornou-nos cínicos e a nossa inteligência duros e cruéis. Pensamos demasiado e sentimos demasiado pouco. Mais do que de maquinaria, temos necessidade de humanidade. Mais do que de inteligência, temos necessidade de amabilidade. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo será em vão".

Charles Chaplin, em The Great Dictator

Somewhere...



Banda sonora dos últimos dias. Em repeat na minha cabeça há tempo demais...

segunda-feira, outubro 04, 2010

A chuva

A chuva, o amor e um cobertor, um sofá, meia dúzia de filmes e o fim-de-semana parece não acabar, não acabes por favor fim-de-semana, não acabes que eu quero ficar sempre aqui, nos teus braços debaixo do cobertor, de mãos quentinhas na chávena de chá, de coração aconchegado no teu peito, de paixão doce de Inverno, daquelas que se saboreiam como a um chocolate quente, lenta e demorada.
Lá fora a chuva cai e eu abandono-me em ti, entre uma chávena de chá e um cobertor, não preciso de mais nada.

sexta-feira, outubro 01, 2010

"But the tigers come at night,
With their voices soft as thunder,
As they tear your hope apart
As they turn your dreams to shame
..."