terça-feira, maio 30, 2006

Agora

"Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho. Pesa-me como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu desejara - que posso presumir da minha vida amanhã, senão o que será o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Não tenho nada do meu passado que me relembre como desejo inútil de o repetir. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas. O que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto."

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego



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Sou exactamente o que a imprevisibilidade previsível da vida fez de mim. Sou o que o sobrolho franzido, os olhos abertos e os punhos cerrados me ensinaram. Sou as lágrimas engolidas e a voz forte, sou o liliputeano que cresceu Gulliver, que pisou os gigantes do passado e olha de cima para o presente. Sou a mesma, mas não sou sempre a mesma, como alguém disse um dia. Sou os sonhos encavalitados uns nos outros, rosto cinzento esborratado a arco-íris, derrotas como autocolantes com vitórias coladas por cima que escondem e ignoram o fogo daquela lágrima, como o bilhete do passe de cores brilhantes que tapa cores velhas, lances e lances de escadas subidas por outras que ficaram a meio. Sou o escudo da luz ofuscante do meio-dia, sou o fim de tarde amarelo-alaranjado, indeciso, indefinido do pôr-do-sol, sou a ténue e confusa linha do horizonte. Sou a careta perdida numa fotografia de cores gastas de um albúm poeirento, sou o sorriso tímido mas curioso e a mecha de cabelo com que brinco enquanto escrevo, sou riso único quando invento aquela piada seca, a gargalhada estridente que ecoa ao fundo do túnel como uma quimera ou um filme que vi e confundi entre o que (vi)vi, sou o rosto seco da torrente dos meus olhos lavado pela chuva que me eleva e o olhar iluminado pelo relâmpago de mim, sou as fotografias que ainda não tirei, sou o som das teclas e o silêncio entre cada palavra, sou o suspirar, o empurrar (o passado para longe), sou o inspirar de golfadas refrescantes da pastilha de mentol, sou o girar louco e assustador da montanha russa. Sou a lenga-lenga sou capaz sou capaz sou capaz sou capaz.

Sou verbo saltar e sonhar. Não sou verbo esperar.

quarta-feira, maio 24, 2006

Missing Piece


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"Do you feel like a puzzle and you can't find the missing piece?"


Talk, Coldplay
Perdidos. Pecinhas de mim, bocadinhos arco-íris, pedaços-sorriso, minutos-gargalhada. Sugados pelo remoinho dos ponteiros do relógio do coelhinho apressado da Alice no País das Maravilhas. O tempo tinha pressa e o coelhinho levou-o. A vida tinha pressa e o vento do tempo levou-a. Se eu pudesse abrir um buraquinho no ar e mergulhar noutra dimensão, mundo paralelo do outro lado do arco-íris, pintado de mar e calor, e salpicado de risos e carrosséis... mas não posso, porque o passado não me deixa entrar. Ele não gosta de ser visitado, porque está a dormir. Ele guarda a casa enquanto o presente vai passear. E ele não gosta de ser visto porque já não é quem foi, porque ele tem tantas feridas como cicatrizes e gargalhadas tatuadas na pele, mas já não sabem ao mesmo e forçar o deliciar do que já passou é demasiado superficial. O passado é uma pastilha mastigada, sem açúcar.
Levaram as pecinhas do meu puzzle, como quando passava a tarde a construir casinhas de lego e de repente, num laivo de loucura, partias-a para construir casas diferentes. Mas havia sempre uma peça que se escapulia para debaixo do armário, e a minha mãozinha era pequenina e frágil demais para conseguir tirar o pequeno lego do escuro e poeirento, entre os picos da madeira trabalhada, e ficava perdida para sempre. Eu tinha pena mas esquecia-me rapidamente da peça porque tinha muitas. E logo me entretinha novamente a fazer quintas e fortes da lego, onde inventava mil estórias como nas telenovelas ou nos contos da disney. Falava sempre em sotaque brasileiro, porque eu achava que as estórias eram especiais e por isso não podiam falar como eu mas sim como os grandes, como os da televisão. E assim passava a tarde como o Gulliver amigo dos meus liliputeanos. Eu sabia que eles me conheceriam de alguma maneira, porque ajudava-os a falar e construia-lhes casas bonitas e cheias de cores. À noite espreitava-os ao escuro para ver se se mexiam como uma vez vi num desenho animado... Mas eu sentia que eles eram mais espertos que eu, e não se mostravam quando eu estivesse a olhar. Eu sabia que eles não queriam que eu soubesse que também podiam trocar de roupa sozinhos, porque cuidar deles fazia-me feliz.
Hoje os meus brinquedos estão na estante do quarto e no sótão, quietos e calados porque sabem que eu ainda me lembro deles. E os puzzle dos smurfs está pendurado e eles sorriem sempre porque orgulham-se em terem sido o primeiro puzzle que eu completei. Mas eles não sabem que além dos legos pequeninos também há peças de mim perdidas por aí. Que alguém escondeu em si e agora tenho medo de pedir. Porque já estão poeirentas e também eles se esqueceram delas.

segunda-feira, maio 22, 2006

Gostava...

... de te encontrar por acaso depois de ter perdido o comboio (mais vezes)...
... de te estalar os ossos da mão e vincar as minhas unhas na tua pele (mais vezes)...
... de te fazer cócegas até que ameaces ficar sem ar (mais vezes)...
... de inventar piadas sem parar enquanto finges não me ouvir e sorris a olhar para o lado (mais vezes)...
... de ouvir a tua gargalhada soelevar-se ao barulho de um café cheio (mais vezes)...
... de inventar caretas contigo (mais vezes)...



Gostava que o às vezes se tornasse em muitas vezes.

sexta-feira, maio 12, 2006

Menina dos olhos-berlinde

Mexeu-se mais uma vez na cama. Voltas e mais voltas. Não conseguia dormir mais. Os olhos fechavam-se ainda, na esperança do entorpecimento e do posterior sono-pedra, profundo e regenerador. Nada disso aconteceu. Abriram-se as persianas e a luz de um sol ainda fraco encheu todo o quarto. A rapariga de olhos muito abertos fixava o tecto com medos a bailarem-lhe nos olhos-berlinde, medos-sombra. Os medos transformaram-se em lágrimas, dança da chuva no rosto. E a rapariga dos olhos-berlinde que queria voar sentou-se na cama e molhou os lençóis com as suas lágrimas. Não podia desistir, não agora. Agora que já tinha construído uma cabana, que teimosamente o vento ansiava derrubar. Agora que já tinha elaborado umas asas, embora ainda não a fizessem flutuar. Sentia-se um espelho, fragmentado em tantas partes, com bocadinhos espetados no coração. Frustrada e sem ninguém a quem mostrar a sua face-chuva, a sua face-inverno. Os soluços enchiam toda a divisão e o medo alastrava aos ossos, a menina tremia. Tentou trautear uma canção baixinho e sorriu um pouco por entre os soluços. O estômago comprimido de fome e nervoso miudinho dava lugar a uma sensação nova que a invadia. Ela era capaz. Ela podia voar. Mesmo que que 99,9% das probabilidades dessem o seu vôo como falhadao. Restava ainda 0,1% de esperança. Esse 0,1% misturado com chá de fé. Ninguém nos pode dizer que não somos capazes. Nada pode parar um sonho.

segunda-feira, maio 08, 2006

Café frio

"Mas as confidências sexuais, sempre difíceis, nunca o são tanto como entre um homem e uma mulher que se estabeleceram por seu lado relações amorosas. Às vezes, ao princípio, vai-se muito longe, os dois como que ainda incertos sobre a profundidade do abismo que têm à frente, e têm curiosidade em explorar. Depois, muito depressa, instala-se uma rotina nas confidências e nas carícias, que nunca consente uma entrega completa. O café arrefece nas xícaras. A refeição acabou."


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Marguerite Yourcenar, "O quê? A eternidade"

Na montanha de mim, cume isolado, eu eremita, grito e o eco não me devolve o sufocado expelir da angústia da minha garganta. Não me vais conseguir ouvir. Tudo é trivial, frívolo, banal. Está frio. Gélidas mãos, ar cortante, vento arrepiante, coração glacial. Eu iceberg.

terça-feira, maio 02, 2006

És

Ès. A cereja no topo do bolo. Café no leite.Sopa no mel. Rio no meu mar. Poema numa folha, da minha caneta a despontar. Ouro sobre azul.O meio de todas as minhas frases.O meu trapézio. As asas cujas penas usei na minha almofada. És. Meu horizonte. Riso nos meus olhos. Amor.

Alma poética

Acordei com um aroma adocicado de orvalho nas narinas e a janela, como habitualmente estava aberta. A cama cheirava a lençóis de linho novos, o coração cheirava a café com leite a fumegar. Procurei debaixo da cama, dentro do armário mas o papão ainda não tinha aparecido. Talvez tivesse adormecido como da outra vez, na soleira da porta. A minha sombra estava descosida como a do Peter Pan. Era tudo bonito. Eu estava sozinha (até sem sombra) e a beleza doía nos olhos e na boca sedenta de beijos. Os olhos eram escuros e castanho-vazio. O gato malhado esperava a andorinha sinhá. Eu esperava qualquer coisa. Mas do céu nem chuva nem vento. Prendi a fita no cabelo e liguei a rádio. Arrumei o quarto mas não tinha tempo para arrumar a vida. Deixei-a ficar assim como debaixo da minha cama, um lugar onde se pode encontrar facilmente de tudo, onde se escondem coisas. Escondi sentimentos debaixo da minha cama. Escondi lágrimas no bolso esquerdo do casaco. Amarrotadas como um papel com um qualquer número de telefone. O bolso era grande, enorme, gigante e o número do príncipe encantado estava lá. E o mail também. Porque os príncipes modernos assim são. E o sapato da cinderela ficou numa poça de lama bem funda. Mais uma história de frases disconexas. Mais uma prece à e pela vida. Uma corrente de sentimentos na ponte de todos os marasmos. O amor na corrente, um arrepio a percorrer a corrente de todos os desejos.