segunda-feira, abril 29, 2013

"I could tell you of a man not so tall
Who said life's a circus and so we are small"

How I Go, Yellowcard

quarta-feira, abril 10, 2013

Pai

O meu pai é o meu Rei Leão. Vimos o filme juntos no eterno sofá castanho lá de casa, e quando o Mufasa é morto por uma desenfreada manada de antílopes, começa a música dramática e o Simba chama pelo pai, eu agarrei o meu a chorar e pedi-lhe: Pai, não quero que tu morras! Ele abraçou-me e riu-se, sem responder ao meu apelo. Sempre foi reservado nas emoções, parco em palavras, aquele tipo de homem simples que não procura conversas com demasiados sentimentos. Mas nunca me fez sentir deslocada ou como se não gostasse de mim: na aldeia, quando eu ainda não conhecia ninguém da minha idade, levava-me para as capeias e ficava lá sentado comigo toda a tarde, mesmo que preferisse estar com os amigos. Preocupou-se quando eu entrei num curso de humanidades em vez de informática como ele gostaria, mas recebi a notícia no aniversário dele, e nada nunca o fez tão feliz como nesse dia. Quando emagreci 14 kg e ainda achava que era pouco, veio falar comigo, triste como tudo, pediu-me em toda a simplicidade que parasse. E fica sempre triste quando corto o cabelo, porque com o cabelo comprido lembro-lhe a minha mãe quando era nova. Na sua timidez, confessa o seu orgulho nas minhas conquistas à minha mãe, mas não me ressinto por isso (também não me diz directamente quando se chateia comigo). O meu pai é a minha imagem de perseverança, como o Mufasa para o Simba, quando penso nele, lembro-me de quem sou. Não quis estudar, mas é empresário em nome próprio há mais de 30 anos. Não lê jornais, é mais honesto e conhecedor que qualquer outro comentador político. Ele soube o que era a miséria, após a mãe falecer quando ele tinha 5 anos, passou pela guerra colonial, teve dois empregos para comprar uma casa que ainda tem, e construiu mais duas. Após 10 anos sem conseguir, ele e a minha mãe não desistiram de me ter, e entretanto o meu pai abria uma das mais conhecidas e concorridas oficinas no Estoril. O meu pai é o meu Rei Leão, aquele que me lembra a minha força quando esta me falta. Quando sorri, tem o sorriso mais lindo do mundo, porque sorri mesmo com os olhos. Dizem que tenho o sorriso dele. Espero que sim. Tenho receio que nunca estar à sua altura, de conquistar coisas e criar uma fonte de subsistência para os meus filhos, como ele. Tenho de ter sonhado demais em ser escritora, sem ter o talento necessário, em vez de estudar para ser advogada, informática ou gestora. Queria que ficasse orgulhoso de mim. Mas como pode ele olhar para mim, ao lado de tudo o que ele fez e faz? Gostava de te perguntar, pai, se acreditas em mim, como eu acredito em ti. Um dia, talvez, se calhar, se conseguir, hoje.
PS: Escrevi este texto há uma semana. Há dois dias, numa longa conversa no sofá, o meu pai disse que tinha muito orgulho nas suas filhas.

quarta-feira, abril 03, 2013

Do medo. De ficar ou partir.

"Sabia que devia estar assustado, mas só sentia entusiasmo perante a perspetiva de lutar - uma luta a sério e não só ficar sentado em reuniões (...). Sem dúvida que o medo viria mais tarde. Antes de um jogo de boxe, no balneário, não sentia medo, mas ao entrar no ringue e ver o homem que queria bater-lhe até ficar inconsciente, ao contemplar os seus ombros musculados, os punhos duros e o rosto cruel, nesse momento a boca secava-se-lhe, o coração batia descompassadamente, e tinha de reprimir o impulso de se virar e fugir."

O Inverno do Mundo, Ken Follett