sexta-feira, novembro 28, 2014

Despedidas

Nos funerais encontramos familiares dos quais não nos lembramos, primos e afilhados e tios que nunca se tinham sentado a conversar ao nosso lado. Mas agora estão aqui. Todos me dizem: «os meus sentimentos», mas realmente nunca nenhum me explicou que sentimentos eram realmente os seus. Beijaram-me as faces e afastaram-se enquanto eu continuei ali sentada a velar pelo teu sono, avó. Sei que nunca fomos amigas, nunca trocámos confidências e não me recordo se alguma vez disseste que me amavas. Mas, à minha maneira, eu amei-te. Vi-te na semana passada e soube que era uma questão de tempo. Chamei-te aos gritos mas acho que já não me reconheceste. «Avó sou eu, a Marta, a tua neta!». Olhaste-me bem fundo nos olhos mas não posso garantir que ainda soubesses quem eu era. Pedias-me rebuçados e bolos, e naquele dia não me disseste nada. Não sorriste e eu chorei. Chorei mais do que no dia em que me disseram que já tinhas partido. Chorei porque estavas ali mas ias definhando aos poucos. A tua garra, o teu feitio e o teu orgulho. Não restava nada da mulher que eu conheci. Foi o último dia em que te vi. Sobraram tantos rebuçados avó, queria dar-tos mas já não conseguias comer. Não sabia que ia ser uma despedida mas eu abracei-te, avó, e nunca mais te vou poder abraçar. Toda a gente me diz que «é a vida», como se essa fosse a resposta para todas as coisas. Regresso à capela fria onde continuo a velar o teu corpo imóvel. O teu corpo vazio e o teu rosto de olhos fechados. Desculpa, avó, mas não tive coragem de ver o teu rosto. Quero lembrar-me de ti de outra forma. O pai está muito quieto na cadeira e tento fazer conversa para passar o tempo. Ele perdeu a mãe. Eu perdi a minha avó. E apavora-me saber quantas mais pessoas irei perder ao longo desta dura jornada que é a vida. Abraço o meu pai e ele não diz nada. Ele sabe que já não pertencias aqui. Oh avó será que és mais feliz agora? Será que algum dia te vou voltar a ver? Gostava de te ter conhecido melhor mas sempre te fechaste em copas e talvez tenha herdado algumas coisas do teu feitio. Há personalidades fortes na família. Espero que haja algo depois disto, mais do que a última morada onde te deixei. Onde te deixaram num buraco, a apodrecer na terra. Terás concretizado os teus sonhos avó? Terás sido feliz? Vou sentir a tua falta. O pai vai sentir a tua falta. Até sempre, Avó.

segunda-feira, novembro 10, 2014

A casa

Se os sonhos são feitos dessa matéria doce a que sabe a infância, então os meus cheiram a terra molhada, a filhozes quentinhas e a caldo escoado.

Sempre que sonho com a terra dos meus pais, aquela pequena e velha aldeia do interior beirão, vejo-me ainda na casa dos meus avós, no tempo em que os animais faziam parar o trânsito e os sapadores não tinham campos para limpar. Achava curioso quando a minha mãe me contava que, quando sonhava com a aldeia, se via na casa dos pais antes das obras, um pequeno piso térreo que eu já conheci como uma grande vivenda de dois pisos. Há algum tempo que me acontece o mesmo, adormeço e estou na casa deles, a minha avó está na cozinha a alourar as batatas ao lume, o resto das batatas cozidas que sobraram do almoço, cheira também a chicharrão e a mílharas acabadas de fazer. Eu e os meus primos sentamo-nos na mesa mais pequena, "dos putos", e pedimos as batatas, mas não há nada para ninguém enquanto não comermos todos o caldo.

Sonho sempre com aquela sala cheia, essa que perdeu todos os cheiros que tinha, a comida da minha avó, os doces, amor, família. Depois da partida dos meus avós, quisemos fechar aquela casa no tempo, mudámos os almoços e jantares de família de cenário, não escrevemos mais histórias naquela mesa, sem os protagonistas daquelas paredes e cheiros.

As novas paredes já ganharam cheiros e recordações, mas não é a mesma coisa. Já ninguém faz filhozes na véspera de Natal, as mãos rugosas a benzer a massa, os enchidos ao fumeiro no curral. A comida que sobra vai para os cães e galinhas do meu tio, não vai para os porcos da minha avó, nem há burra a fazer barulho durante a noite. As batatas, cebolas, cenouras e couves da sopa não vêm lá de baixo do curral, onde a avó guardava o que tirava da terra, embora alguns tios já se tenham dedicado a recuperar alguns terrenos da família. Tudo mudou e nós continuamos os mesmos, embora incompletos para sempre. Como num livro de decalques, os meus avós foram roubados e levados para mais longe que debaixo da cama, para onde fogem as peças que faltam.

Quando adormeço em polvorosa, cabeça a girar em desatino, o dia que ainda não chegou a ameaçar pesadelos, acordo e sonhei com eles, estivemos juntos no passado congelado daquela sala cheia. Emoções para sempre guardadas numa infância feliz.