terça-feira, novembro 27, 2007

"Ainda não manejei nenhuma arma que não desse ricochete
E a cicatriz sobrevive sempre
À mais perfeita ligadura
..."

JP

domingo, novembro 25, 2007

Um ano depois

Demos a volta à vida, demos a volta às letras. Entretanto, passou um ano. O LetraSoltas continua à venda na livraria Sá da Costa, na Baixa, e ainda por encomenda na Fnac ou pela editora.

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Bem haja a quem continua a viajar pelas letrasoltas.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Creep

"When you were here before
Couldn't look you in the eye
You're just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
And I wish I was special
You're so fuckin special

But I'm a creep, I'm a weirdo.
What the hell am I doing here?
I don't belong here.

I don't care if it hurts
I want to have control
I want a perfect body
I want a perfect soul
I want you to notice
When Im not around
You're so fuckin special
I wish I was special"

Radiohead

Ainda me lembro

Ainda me lembro do teu sorriso de água, a desabar em cascata sobre todas as coisas. Ainda me lembro de cada prenda, surpresa, gesto ou qualquer coisa especial que tenhas dito. Ainda ardem os ouvidos das palavras que me disseste, como se estivesses a pronunciá-las agora e pudesse sentir o bafo quente da tua boca. Ainda te digo mais de tudo o que me lembro e que, perto ou longe, não posso esquecer. Peço-te que te lembres e saibas que vou guardar comigo cada pedacinho de ti, solto em mim. Afinal tu és já parte indissolúvel de mim. Tu és estrela, eu Lua, Tu íman, eu metal. Tu és mar, eu areia da praia. Cruzamo-nos sem cessar. Somos parte do mesmo fio embaraçado, aquele que se tenta e não se consegue desfazer o nó. Diria que somos um nó cego, mas de cega não posso ter nada porque me perco a olhar para ti, e cada vez que olho quero olhar mais e mais, como se fosses todo o horizonte e toda a alegria. Eu parto, ou por outra e não querendo adivinhar o futuro, suponho que parto ou partirei (devo usar o futuro), mas a minha boca irá continuar a saber a fruta da época, como dizem. Fruta da nossa época, que espero seja longa, frutuosa e feliz. Que o fio não se desate, que o amor não se gaste ou avarie. Perto e longe, os teus braços ainda, porque os imaginarei. E a imaginação e o coração sabem mais de mim e conhecem-te, como nunca antes conheci ninguém. E depois de tudo espero poder dizer: "espera por mim ao pé da fonte" ou "estou quase a chegar". E o coração a rebentar de não poder mais. E dizer ainda ao teu ouvido "Eu ainda me lembro". Não te esqueces?

quarta-feira, novembro 21, 2007

Sinfonia e disfonia

O teu beijo é como uma cereja. Um rebento primaveril no meio da invernia que assola Lisboa,a minha vila ribatejana e muitos dos lugarejos do meu país. O teu beijo é morno e coberto de esperas, quando os nossos lábios se afastam por dias que se assemelham a meses e se cobrem de saudade os campos da minha alma. E só quando chegas, em passos rápidos até mim, se cobrem de flores os campos e voltam as cerejas. As cerejas são assim, não se pode comer só uma. E entre um beijo e outro se aquece o paladar de sonhos e revivem-se memórias de outros beijos. Perco-me no labirinto a que chamei éden por ser nosso. As palavras dos outros habitantes terráqueos envolvem-se de bruma, nesse preciso instante em que colho as cerejas, ou mais precisamente, te cubro de beijos. Só quando os nossos lábios se voltam a desencontrar se desfaz o encantamento. Regressa o burburinho de vozes na rua, no centro comercial. Os nossos olhares riem um para o outro de satisfação. Conversamos longamente, entre pausas e silêncios, entre jogos de olhares ou palavras conotadas sempre com a mesma entoação apaixonada. Assim é, nos dias de inverno em que nos reunimos para dar lugar à paixão. Certas vezes, esquecemo-nos do tom e perdemo-nos em notas mais agudas, soltadas fora da harmonia em que se processa a nossa melodia. Mas tudo volta com naturalidade ao início melódico de que se havia retirado. Como se um maestro invisível, a que chamo amor, pudesse comandar o retorno das notas ao mundo da musicalidade e da sinfonia. A disfonia fica de fora, a nevar sobre lugares distantes e gelados. Cá entre nós meu amor, sempre fomos Verão não é?

terça-feira, novembro 20, 2007

Óculos escuros

"Dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

Conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

Dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos"

Al berto

Esta almofada não é minha

"O mundo é uma travesseira estranha (...) porque nem sempre nos aconchega da forma que ambicionamos. (...) O mundo é uma travesseira estranha porque chegados à cama nem sempre a travesseira nos aceita(...) E nos trata como um corpo estranho, um amante ausente (...) Uma cidade órfã num país que sabe não ser o seu. (...)

Quantos de nós já não acordamos numa cama que sabemos não ser nossa pela estranheza do barulho da rua, do cheiro que habita o quarto, da almofada que é mais alta do que deveria, da rigidez do colchão, dos passos de pessoas que não nos são familiares, das vozes que entoam agora pelos corredores e que nunca havíamos ouvido, do toque do telefone de casa, do bater da porta que é diferente em todas as casas – entre, entre! - Do cheiro, do cheiro a caruma, do cheiro da comida dos outros que deve estar tão bom, do cheiro das outras pessoas que ainda agora passaram num firme e seguro passo que eu julgo desconhecer, alguém que atenda o telefone, da chiadeira infernal de uma carrinha que tudo indica estará estacionada em frente a esta casa a vender produtos frescos. E alguém sabe onde é a casa de banho? E chegados lá, depois do corredor na primeira porta à esquerda, percebemos que não é a nossa casa, quando nos é aí revelada a marca de champô, o gel de banho, os cristais, o espelho menos amplo que o nosso, as toalhas menos garridas que as lá de casa, o estupor da água que não há maneira de estabilizar na temperatura certa (...)"

Fernando Alvim in "O mundo é uma travesseira estranha"

sábado, novembro 17, 2007

Fotografia

E ali, no centro de uma luz pálida e despreocupada de fim de tarde encetei a mais árdua e difícil de todas as tarefas a que já me propus. Aventurei-me dentro, nos caminhos inóspitos das varandas e jardins secretos da memória e da alma, como ouvi dizer. Comigo levei apenas´o olhar de que me sirvo para guardar o mundo em fragmentos. Esses flashes de tempo que resistem. Esses cheiros e sorrisos presos num fio do obscurantismo do pensamento.Faço força em recordar e aventuro-me assim pelo templo das preciosas memórias. Frutos suspensos de uma árvore reluzente. Alguns frutos caiem apodrecidos. Esquecimento. Outros permanecem intocáveis nas linhas da tecelagem do tempo. Brilhando, ainda que proibidos. Já diz o poema: o que foi não volta a ser. Poderá ser semelhante mas jamais igual. Na vida não há repetido como nas fotografias em que as cópias miméticas do ser se massificam. E aí, congeladas mais do que para sempre (a não ser que as rasgue um golpe de fúria ou outro qualquer) os sorrisos do que já foi e não mais será, dum qualquer segundo de um qualquer solstício ou equinócio que passou. Bom ou mau. Amargo ou doce. Náquele efémero instante.

domingo, novembro 11, 2007

"Nunca quis saber nunca quis acreditar
Que tu irias partir não podias cá ficar
nunca quis escutar muito menos quis ouvir
O teu silêncio que avisava a intenção de não voltar
(...)

Pede-me que fique mais
Por um segundo eterno
(...)

Aperta-me a mão
Ri por um instante
Deixo-me ficar
Só por esse instante
"

Donna Maria

segunda-feira, novembro 05, 2007

Partir outra vez

Acordei sem chão. Fora da almofada, longe de sentir. Atirada para o dia que me roubou a noite, os meus olhos a quilómetros dos teus, a saudade.
E é sempre assim a cada madrugada, quando falta outra vez tanto tempo sem te ver, o sonho anestesia a solidão, e o dia grita-a com todas as cores. Será sempre assim. Acordar de saudades, por mais que saiba que vou voltar, por mais que o filme se repita. Sabes, é o meu filme preferido.