quinta-feira, junho 19, 2008

vazio

Em mim há só um vazio. Um longo, imenso, terrível vazio... e lágrimas. Algumas choradas e outras por chorar. Há em mim uma desilusão tão quente que arde em mim, vulcão a irromper na lava das minhas pequenas lágrimas. Há em mim uma criança abafada que soluça na noite. Que se cala, mas quem cala consente. E quem ama? Um amor que muda tudo o que existe, que nos enche a alma e que nos magoa. A mágoa é uma palavra muito triste. Quase tão triste como eu. Quase tão assustada como eu, no canto da sala para que ninguém me encontre e veja que estou de novo a chorar. Até que as lágrimas correm e correm e o rio seca. Depois fica só um silêncio doloroso de querer chorar e não poder e a raiva contida cá dentro e as mil e uma palavras que se queria dizer numa noite mas não se consegue. As explicações que se queria ouvir e as que se queria dar. E querer que a mágoa e a dor passassem leve no vento que vai e vem e volta e vira e voa. Mas a mágoa mantêm-se martelando, moendo a mente.Só um vazio e um era uma vez sem felizes para sempre. Afinal, hoje eu sinto-me por demais infeliz para essas histórias. "Oh mas onde está a princesa". A princesa esta noite morreu.

segunda-feira, junho 16, 2008

Escrevo-te com a fé infantil da criança que já fui e que, muitas vezes, continuo a ser. Amo-te sem tamanho possível de conceber. A minha mão nunca largará a tua nos caminhos difíceis da vida. Da nossa vida. E quando chorares eu chorarei contigo, e quando sofreres e rires eu farei o mesmo. Porque tu és parte de mim, metade da minha carne. E vou observando os teus gestos, a tentar-te conhecer mas falta muito até ter a tua alma por inteiro. Talvez nem o queira, porque conhecer-te dá vontade de ver mais sem nunca tirar todo o véu. Magoas-me mas eu entendo. É uma dor que te persegue, tu lutas contra ela e eu tento. Eu não sei tentar melhor. Talvez possa entender mais e ser mais. Mas os anjos ainda não me deram um par de asas novas. Já parti tantas vezes as asas. Mas eu queria muito voar de novo até ti e dizer-te ao ouvido que estou aqui. Escrevo-te para te pedir que não me ignores, que não mostres a indiferença que magoa mais que tudo o resto. Afinal, eu amo-te com o comprimento de todas as luas e estrelas que percorrem o céu. Desculpa pela minha falta de asas. Mas eu tento voar no teu sorriso e no meu. Não o apague.

domingo, junho 15, 2008

Escrever

"Nesta obstinada profissão de fé, só muito tarde aprendi que escrever é cumprir uma promessa feita não se sabe a quem - nem porquê. E de que a fronteira entre dois mundos, o visível e o invisível, nasce do que imaginamos ser o que o não é.
Mercador de simulações, inventei ruas, bairros e uma cidade, através dos quais, e das pessoas que lá coloco, procuro a música dos estribilhos que nos indique algum sinal de esperança. Tédios e perdas, desalentos e desventuras, módicas alegrias e suaves aspirações, eis sobre o que escrevo. Pequenas sagas de nada que nos enredam nas mãos do frágil e caprichoso tempo."

Baptista-Bastos in "A cara da gente"

quarta-feira, junho 11, 2008

faróis e pó de estrelas

Eu já não tenho medo do escuro. E tu que pensavas que eras a única luz. Pois é. Os faróis apagaram-se. Naufragou-se numa esperança doce e leve. Peço desculpa pelas vezes que apaguei as estrelas, em vez de acender as candeias. Eu já não tenho medo do escuro. Por vezes tenho medo dos meus pensamentos, de me perder no fundo negro de alguns deles. Desculpa se por vezes os meus pensamentos te castigaram ou te magoaram e divagaram para fora de mim. Eles amam-te, os meus pensamentos. Eu sinto-me uma estranha em mim, uma tempestade de areia lançada num qualquer deserto. Pergunto-me sobre o oásis, és tu, serás tu? Seremos nós? A vida muda tanto. Eu cansei-me de lançar redes. Destruí todas quando ficaste preso no meu barco e depois foste tu que me libertaste. Só que eu gelo de medo e as lágrimas caiem frias pelo meu rosto. Eu não sou perfeita como escrevi que queria ser. Sou um reflexo de uma perfeição inacabada, uma amálgama de barro mal acabado, de erros feitos e por fazer. Perdoa-me mas a minha alma navega em ti ainda. Secalhar ainda tenho medo de algum escuro. Das planícies dos meus temores e dos teus olhos muito abertos sem me ver. Do teu coração perto do meu a bater devagar em vez de galopar na minha direcção. Eu grito mais alto que as nuvens e as tempestades para que ouças e outras vezes sussurro-te com os dedos na tua testa sem palavras. Eu sou o gesto. Que te embala quando tiveres medo. Mas eu confesso, estou tão assustada de mim mesma, do que penso e do que sou. De nós e do mundo. De que se apaguem as estrelas e eu não tenha tempo de te mostrar a constelação que desenhei no céu para nós dois. Uma cúpula de sorrisos e de sentimentos espelhada na imensa galáxia.