terça-feira, setembro 28, 2010

Escrever

Todos viam como os olhos lhe brilhavam de novo. Naquele dia ela voltou a pegar no microfone, a ler olhos desconhecidos e a beber histórias novas. Voltou a voltar a casa com horas de conversa para desgravar, como uma matéria-prima que se carrega como um bebé até à oficina, para lhe dar forma e pô-la a brilhar. Porque nunca se tinha esquecido de como se fazia, tudo o que era preciso era polir muito bem, tirar o pó às palavras, suspirar bem fundo e ser mais forte que o silêncio daquela folha branca. Tudo o que era preciso era evocar com força a magia adormecida nos seus dedos, até voltar a saber escrever de olhos fechados. Até que aqueles dez anõezinhos voltassem a ser tão trabalhadores como os amigos da Branca de Neve.
Aquela emoção voltou. Conhecer, descobrir, escrever. E é incrível como sabe sempre, sempre, como se fosse a primeira vez.

The Pretender

Quando parares de fingir quem és, será que ainda te vais lembrar de quem foste?

segunda-feira, setembro 27, 2010

Tanto tempo

"Procura no sítio mais escabroso do teu coração
Lá me encontrarás, a cantar,
De cerveja na mão,
E se te parecer que sorrio,
Não vai passar de uma impressão,
Causada pelo calafrio constante
Que me traz a solidão.
Baixa o volume,
Dá-me a mão,
E um abraço.
É que eu passo tanto tempo
À tua espera
"

Orelha Negra

Para me lembrar de não esquecer

domingo, setembro 26, 2010

A estrela pequenina

Era uma vez uma estrela pequenina que sonhava ser Sol. Nasceu com aquela mania, nada a fazer. Estrelas somos muitas, pensava ela, sou igual a tudo, uma noite vou ser dia e ser Sol. As outras estrelas, invejosas, cujos sonhos se tinham apagado há muitas noites (e toda a gente sabe que os sonhos é que dão brilho às estrelas), contaram ao Sol, que, na sua arrogância de ser Sol, ordenou a todas as estrelas que ao nascer daquela noite tapassem a estrela pequenina e não a deixassem brilhar. E foi assim que fizeram, as estrelas más. Ao nascer daquela noite, a estrela pequenina acordou e procurou um espacinho no céu para brilhar, mas as estrelas apertavam-se e não deixavam a estrela pequenina iluminar nem o bocadinho mais pequenino de noite. A estrela pequenina, triste, chorou, chorou muito, e as estrelas más riram de satisfação, porque uma estrela triste não brilha. Até que a estrela pequenina engoliu as lágrimas e fez força para brilhar o mais que conseguia. Mordeu os lábios, fechou os olhos, cerrou as mãos, e a noite fez-se dia. As estrelas más, loucas de raiva, procuraram a estrela pequenina pelo céu-noite feito dia, até que viram uma bola gigante e iluminada pendurada no céu mais alta que elas, mais brilhante que elas, mais forte que elas. A estrela pequenina tinha nascido Lua. E naquela noite em que se fez bola gigante e iluminada, rival para sempre do Sol, prometeu iluminar para sempre as estrelas pequeninas como ela, que tantos Sóis e tantas estrelas más tentam tapar. Para sempre seria a confidente dos sonhos das estrelas pequeninas, como ela.

sábado, setembro 25, 2010

A palavra

Era uma vez uma palavra. Tão pequena, tão fugaz, que ninguém daria por ela. Chegou de mansinho, de boca em boca, e desaguou no meu coração. Nunca julguei que houvesse palavras assim, capazes de nos fazerem sentir tão sozinhos e idiotas. Palavras-punhal ou palavras-flecha que chegam sem pedir licença. Não pedem nada mas tiram tudo. Palavras que me mostram o frágil que sou e me dizem que não faço nada certo. Cujo sussurro-veneno me corrói, dança comigo e me acompanha quando afasto os lençóis para mais um novo dia. Dizem que as palavras doíem menos que uma estalada. Eu acho que as palavras são um murro no estômago, um vazio no coração, um salto no abismo. Quando choramos e a culpa é das palavras, quem mais poderemos culpar? Os ouvidos que ouviram estas sementes de lágrimas? As mãos e os pés que não fugiram antes de serem bombardeadas com respostas a perguntas que nunca se fez? Para não ouvir as palavras vou criar uma bolha. Vou viver dentro ela e ser apenas eu. Nada me poderá magoar, proque sou apenas uma bolha de sabão, saída da arte de uma criança. Uma bolha colorida com vontade de sonhar e palavras doces a encherem a boca. Quero que as minhas palavras saibam a vida, amora, hortelã, amor, prosa, poesia. Ao menos não são como as tuas palavras com um trago de solidão, tristeza e raiva. A partir de agora vivo numa pequena bolha, a flutuar no céu. Onde já não há lágrimas, porque só as nuvens podem chorar as lágrimas do céu. Haverá tristeza dentro de uma bolha?

sexta-feira, setembro 24, 2010

Pensamento

Há pensamentos que nos corroem a um certo ponto da nossa vida. Parece que estão vivos e, futilmente, acreditam que devem perturbar a nossa - já de si - problemática existência. Tenho um desses fantasmas no meu armário e que insiste que o seu lugar é ali, bem perto de todas as coisas que formam o presente e a lembrar que não posso esquecer o passado. Há um labirinto de escadas que subo, a trilhar novos caminhos e a acender novas chamas, mas o pensamento que me magoa obriga-me a descer degraus, a voltar atrás, a saltar de dois em dois e a começar a subida de novo. Quero mandá-lo embora, só que ele não ouve os meus gritos e enamora-se da minha covardia. Deixem-me voltar ao tempo onde este pensamento ainda não tinha sido conjurado, em que ainda não tinha sentido o peso que é calarem-nos de repente com a palavra desilusão. Desiludiste-me e eu não te pedi. Amaste-me e eu deixei. Agora há um pensamento, ainda, que se eleva acima dos meus gritos e das nuvens do céu. Vestido de negro e cara coberta, a lembrar-me a inocência perdida. Volto mais atrás na vida e estou ao baloiço. Tenho sete anos e não preciso de relógios. Alguém me empurra e o voo é em direcção ao céu. Dou beijos no armário e tenho namorados imaginários que não me podem magoar. O carrossel avança e depois já sou uma mulher, olho-me ao espelho e por entre os sorrisos sei que ele está ali. Imperturbável, sentado na poltrona da sala, o pensamento que me atormenta. Revela-se depois dos fingimentos de mais um dia e parece estar cada vez mais forte. Sorri-me, de quando em vez, e já nem precisa de falar para corroer as cordas da minha garganta. É uma memória de traição, desamor e confusão. Fecho a luz e tento adormecer. Sei que ele está lá, no meu mundo de maravilhas a dizer-me que é apenas um mundo de almas perdidas e anseios desfeitos. Vai estar nos meus sonhos. Vai regressar uma e outravez. A lembrar-me que não esqueci. A lembrar que há arranhões demasiado pronfundos que nunca vão chegar a sarar. O pensamento que me corrói.

quinta-feira, setembro 23, 2010

hoje

Os meus olhos devoram o mundo e procuram respostas para todas as perguntas do mundo. Os meus olhos grandes abarcam a vida num segundo. São persianas que se abrem, a cada manhã, para a vida. Presas em janelas de sonhos que se espreguiçam numa vista de mar e sol. Ao longe, as gaivotas voam e depois vêm pousar-me nos ombros. Digo "bom dia" ao mundo e agradeço por poder olhá-lo, respirá-lo, senti-lo, ouvi-lo. De repente sinto-me em casa, enquanto os meus cabelos esvoaçam e o meu sorriso se escapa sem precisar de chaves ou segredos. Vens sentar-te a meu lado e continuo a sorrir, a rir, levantam-se vendavais de gargalhadas que arranham a garganta. E o mundo sabe-me a mar, a sonhos perdidos mas nunca esquecidos. O mundo sabe-me à tua boca, tem o aroma do teu corpo a tocar no meu. Agora já nem sinto o mundo. Sinto-me nós. Sinto a tua mão a sussurrar-me verdades que julgava ter esquecido. E vejo agora o teu sorriso, tenho medo que me escape entre os dedos. Mas afinal é só areia. Não me canso destas emoções. Hoje o mundo sabe-me a felicidade. Até quando?Não sei. Só consigo saber que a tua pele é quente, o teu coração palpita contra o meu e sinto que vou morrer agora. Nos teus braços, no teu riso, nos labirintos do teu beijo. Sinto-me completamente completa. Lua cheia. Laranja com todos os quartos. Um puzzle finalmente terminado. Afinal a peça que me falta és sempre tu.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Espero-te

Espero-te como a D. Sebastião. Espero-te sem olhar para o relógio, sem hora marcada, deixo os segundos, as horas, os dias esquecerem-se de te trazer sem te esquecer, sem deixar de te lembrar com um sorriso e um arrepio, sinto o teu rosto como se ontem o tivesse beijado.
Esperar-te faz parte de mim, de cada segundo em que nada se agita senão a doce lembrança de ti, ainda sinto os lábios quentes dos teus, os meus braços vazios dos teus. Sei que não virás mas no meu pequeno mundo imaginário prefiro viver-te a não ter mais nada. Pequenas coincidências te trazem pela fina barreira entre a ilusão e o vazio, como acordar depois de sonhar contigo e receber de repente um bom dia teu no telemóvel, pequeno aparelho que te traz a mim sem te poder ver. Palavras que surgem da tua mão sem lhe poder tocar. Desejos da tua boca que não posso sentir.
Quando te sonho é como se te tivesse nesse perfeito mundo paralelo entre a almofada e o infinito nada da noite. E em silêncio te namoro, como um segredo que nem tu sabes, re-estreia de um filme antigo pelas mesmas deixas que sei de cor, um amor sem tempo, um romance de pedaços rasgados de outra estória, a mesma, reescrita por mim. Espero-te. Espero-te sempre.

A minha mão direita secou

A minha mão direita secou, fraca deixou-se cair de palavras e histórias por inventar. A minha mão direita secou, foram-se as metáforas, as sinestesias, as personificações, os paradoxos, as analogias, as ilusões-palavra, os textos arco-íris. A minha mão direita secou, agora não serve para nada, tudo o que sabia fazer era brincar com vírgulas e pontos finais e fazer de sinais escuros em papel branco um quadro de Van Gogh. A minha mão direita secou, áspera perdeu a magia que lhe dava vida, as palavras que pareciam nascer por entre os dedos, as unhas cor-de-rosa, os dedos pequeninos e vertiginosos de emoção, feiticeiros de ilusões e mundos-mentira.
A minha mão direita secou. Fui eu que abandonei as palavras, ou as palavras é que me abandonaram a mim?

Impressões do Crepúsculo

"Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!"

Fernando Pessoa

Anoitece,

e lembro-me sempre dela, de adormecermos à lareira a remexer os paus do lume, de lhe falar das brigas com o colegas da escola primeiro e de como queria ser médica depois, para curar o avô, de como ela sorria placidamente e dizia que sim a todos os meus sonhos, todos eram possíveis aos olhos dela, todos, todos, até mesmo entrar em medicina sendo uma nódoa a matemática, até mesmo curar o avô...
Hoje anoitece ao ecrã do computador, não há lume para remexer, ela já não me pode prometer todos os sonhos que eu quiser, com cheiro a arroz doce com canela, com doce de abóbora e torradas feitas ao lume, com os olhos e o rosto dela a cabecear para o lume, "vó está a adormecer, está cansada, vamos dormir", "não estou nada filhinha, diz lá vá".
Que me dirias agora se pudéssemos adormecer outra vez ao lume, vó? Foste embora, e levaste os sonhos também. Já não há olhos como os teus para me ajudarem a sonhar.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Que os sonhos já não são mais iguais

"Que os sonhos já não são mais iguais
E a noite não dança em mim
E a noite não dança em mim
Por eles posso ser o que sou
(...)"

E enquanto não dançava em mim, Manel Cruz

sábado, setembro 18, 2010

Vírgula ponto final vírgula ponto final

Procuro-me entre estas letras e não me encontro, sei que me abandonei num qualquer ponto final, perdi por lá os sonhos também, hoje percebi que devia tê-los deixado entre vírgulas, ou parêntesis, quem sabe, que o saramago existiu para destronar a tirana gramática, viveu e morreu entre vírgulas também, sem pontos finais, e eu sem saber fui deixando pontos finais pelo caminho, em vez de vírgulas, que como as migalhas do Hansel e da Gretel dão sempre para voltar atrás, dá sempre para deixar mais uma ou outra e virar a história, como a vírgula vira o texto, deixei de virar a minha vida, e fiz pior, pior que pontos finais, fiz parágrafos, e de enter em enter deixei silêncios e sonhos por viver, sonhos calados no vazio da folha entre parágrafos, deixei que a gramática e o mundo ditassem os pontos finais dos meus sonhos-palavra, formataram-me o texto e a alma, as palavras arco-íris fizeram-se cinzentas e choveu, choveu, choveu até me varrerem as ilusões e perceber que o sonho não serve de guarda-chuva, é pequeno demais e vira-se com o vento, de repente parte-se e chove em mim, fica frio e tenho de desistir, é só por agora penso eu, como penso sempre, faço um novo parágrafo, e tento de novo sem parágrafos, sem pontos finais, tento resistir ao mundo de guarda-chuva-sonho nas mãos, e volta a chover, chove e tenho de mudar de parágrafo de novo, talvez até de capítulo e de palavras, e penso vai ser amanhã, amanhã é que vou conseguir, amanhã começo do zero, amanhã vai ser como dantes, começo um caderno novo de folhas ainda quentinhas, a força e o guarda-chuva-sonho vão ser maiores, mas nunca são, todos os dias chove e eu resisto, então procuro os seus beijos e ele dá-me um guarda-chuva-sonho novo, abraça-me e aquece-me do frio da chuva, e procuro-me entre estas palavras outra vez, não me acho mas resisto ao ponto final,

terça-feira, setembro 14, 2010

O rapaz mais bonito da minha vila

Ele era o rapaz mais bonito da minha vila encantada de sonhos. Parecia ter sido feito à minha medida, especialmente porque a minha cabeça assentava perfeitamente na curvatura do seu ombro. Não era demasiado alto ou muito pequeno. Tinha a altura ideal e simétrica em relação à sua beleza. Ele era, de facto, o rapaz mais brilhante, esplendoroso, apetecível e misterioso da minha pequena vila. Uma vila cheia de pomares cobertos de maçãs vermelhas, de moradias coloridas e jardins cor-de-rosa. Ele preenchia todos os vazios e todas as esperas e todas as quimeras. O seu rosto era intenso, doce e tinha a cadência de uma pauta escrita a preceito. O seu rosto era música para os meus ouvidos. Os seus lábios desenhados a carvão faziam curvas e contracurvas, no meu coração sem travões. Não podia haver beleza assim. Não devia ser permitido porque assim alguém iria acabar por se apaixonar. Os seus olhos pareciam ter nascido só para que os olhasse assim, pareciam rir sozinhos e por si só e até acho que me faziam caretas. O rapaz mais bonito da vila tinha ar de matreiro e sorriso-verão. Tudo porque derretia até a neve mais espessa dos Invernos mais frios das ruas da pequena vila onde eu morava. Sobrancelhas levantadas, testa franzida, ao rapaz mais belo do meu mundo já lhe conheço as feições e as fintas. Esse rapaz parece ter sido pintado a tinta da china, mas é bem português. Brinca com o meu coração porque sabe que lhe dou troco. E não é pouco. Às vezes acho que me sinto um iô-iô e vou para cá e para lá no balanço das traquinices deste miúdo. Os seus beijos sabem a amoras e sem demoras quero prová-las outravez. A gula é um pecado feio, só que não há mal que não venha por bem. Se o diz o provérbio, porque não provar deste mal dos teus lábios, uma e outra vez, e colher as amoras até o sol se pôr e a noite chegar de mansinho? O rapaz mais bonito da vila diz que está apaixonado por mim. Dá para acreditar? Agora quando ando acho que os meus pés mal tocam o chão e caminho sobre nuvens. Não sei se ele sabe, no entanto, que eu também estou apaixonada por ele. Às vezes olha-me, de modo altivo, e parece estar longe. Está na minha vila mas acho que se perdeu noutro lugar. Saberá que é o mais bonito de todos? Tem de saber, é inevitável e completamente absurdo que essa ignorância possa existir. Ele sabe que é como um poema que não consegui acabar, porque me dói tanta beleza. É o rapaz mais bonito da minha vila e diz que só tem olhos para mim. Só que agora, às vezes e quando me olha, tenho medo que assim não seja. Afinal, que posso eu esperar?Uma comum mortal numa vila repleta de ruas pequeninas e tortas, como eu. De locais onde é bem possível que me perca mil e uma vezes, como num labirinto. Que tropece, caia, me arranhe. Será que ainda assim, o rapaz mais bonito da minha vila vai querer ficar comigo? Hoje ainda não o vi. Se o encontrarem digam-lhe que hoje gostava de colher mais amoras. Ele irá perceber que se tratam de beijos. É que o rapaz mais bonito da minha vila é meu namorado.

domingo, setembro 12, 2010

São bocadinhos

São bocadinhos. São bocadinhos de amor, de magia e de luz. São bocadinhos em que me dás a mão e sorris para dentro dos meus olhos. São bocadinhos de magia em que me lês mesmo antes de eu escrever. São bocadinhos de amor em que me abraças e fazes o mundo desaparecer. São bocadinhos de luz em que me fazes rir e reencontrar o meu sorriso, perdido em bocadinhos sem ti. São bocadinhos de sextas à noite no cinema, sábados em Sintra e domingos na praia, são bocadinhos de férias a correr entre este lado da fronteira e o outro, entre montanhas-russas de olhos fechados e museus de olhos arregalados, são bocadinhos que até podem ser mais que bocadinhos mas que nos fogem como aquele filme tão bom de três horas que parece que só foram dez minutos. Às vezes são bocadinhos tão bocadinhos que em texto seriam um fax, um telegrama, frases de jornalista com ponto final à vista. São bocadinhos que deviam ser frases do Saramago para serem sempre vírgulas e nunca pontos finais com carros a desaparecer na esquina e eu sozinha outra vez. São bocadinhos tiranos de um tempo que nos foge. Mas é por esses bocadinhos que eu espero todos os dias, todas as semanas, bocadinhos de amor, magia e luz, que enchem de saudade os bocadinhos vazios que passo sem ti.

Tudo são histórias

"- Quero que reúna todo o seu talento e se dedique de corpo e alma, durante um ano, a trabalhar na maior história que alguma vez criou: uma religião.
Não pude deixar de desatar a rir.
- O senhor está completamente louco. É essa a sua oferta? É esse o livro que quer que eu lhe escreva?
Corelli assentiu serenamente.
- Enganou-se no escritor. Eu não sei nada de religião.
- Não se preocupe com isso. Sei eu. Não ando à procura de um teólogo, mas sim de um narrador. Sabe o que é uma religião, amigo Martín?
- Lembro-me muito mal do pai-nosso.
- Uma oração muito bonita e bem trabalhada. Poesia à parte, uma religião é no fundo um código moral que se expressa por meio de lendas, mitos ou de qualquer tipo de artifício literário a fim de estabelecer um sistema de crenças, valores e normas com os quais regular uma cultura ou uma sociedade.
- Ámen - repliquei.
- Como na literatura ou em qualquer acto de comunicação, o que lhe confere eficácia é a forma, e não o conteúdo - continuou Corelli.
- Está a dizer-me que uma doutrina não passa de uma história.
- Tudo são histórias, Martín. Aquilo em que acreditamos, o que conhecemos, o que recordamos ou mesmo aquilo com que sonhamos. Tudo são histórias, narrativas, sequências de acontecimentos e personagens que transmitem um conteúdo emocional. Um acto de fé é um acto de aceitação, aceitação de uma história que nos contam. Só aceitamos como verdadeiro aquilo que pode ser narrado. Não me diga que a ideia não o tenta.
- Não.
- Não o tenta criar uma história pela qual os homens sejam capazes de viver e morrer, pela qual sejam capazes de matar e deixar-se matar, de se sacrificar e condenar, de entregar a sua alma? Que maior desafio para alguém do seu ofício do que criar uma história de tal modo poderosa que transcenda a ficção, transformando-se em verdade revelada?"

in O Jogo do Anjo, de Carloz Ruiz Zafón

terça-feira, setembro 07, 2010

Nostalgia

Dizem que o amor não dura para sempre. Mas acho que nunca vou desaprender de amar-te, tal como continuo a saber o aeiou e a fazer contas de somar e de subtrair. Parece, no entanto, que já não sou tão boa na matemática do amor. Por muitas reviravoltas que dê, e me perca em equações, é impossível medir a distância, largura, comprimento, altura e raíz quadrada da minha afeição por ti. Contei os segundos e as horas, os dias, os meses, os anos que o calendário nos juntou. Tempo algum é suficiente para estar contigo, para te abraçar, para te dizer todas as coisas que tenho para te contar. Lembras-te dos risos? Dos passeios na praia, dos pés descalços e encharcados de mar, dos olhos reluzentes?Não eram já olhos, eram rebuçados. Doces de te olhar assim. o que é que mudou? As contas falam-me em infinito, mas os teus olhos já não me sorriem. Depois abraço-te e choro baixinho, sabendo que me estás a ouvir. Apenas não dizes nada. Conheço-te e às vezes, nas noites mais escuras deste caminho a duas mãos, parece que não sei quem és. Apesar de saber o mapa do teu corpo de cor. De adivinhar, tantas vezes, o que vais dizer a seguir. De conhecer o teu cheiro e mergulhar de cabeça nos teus braços. A forma como mordes a colher do café, o copo da cerveja. A forma como o teu riso nasce e o toque das tuas mãos. Sei de cor as linhas do teu rosto. O que mais odeias e o que mais amas. Sei exactamente que presente te oferecer e, na maioria das vezes, irá assentar na perfeição. As tuas facetas também as sei de cor. A romântica, a alegre, a triste, a zangada. Conheço-te. O teu sabor. Ainda assim, sento-me no banco do jardim e choro compulsivamente. Porque neste momento não sei quem és. As tuas palavras parecem vir de outra boca, os teus olhos frios nos meus olhos-rebuçado. Talvez continue à espera que chegues ao banco do jardim e me digas "vem, anda comigo". Aí vamos voltar a ser o Darcy e a Lizzie, o Wall-e e a Eva. Vamos passear nos jardins e voltar a falar de coisas que só nós conhecemos, a rir de fantasias que só nós soubemos imaginar. Veremos as formas das nuvens, eu irei correr para me apanhares. Nada será mais importante que eu. Irei olhar nos teus olhos e verei uma lareira. Acesa, inflamada, com o que chamam paixão. E a tua mão na minha. E ninguém vai saber que te perdi. Porque nesse dia, meu amor, talvez me possas encontrar.

Lisboa

Lisboa acorda na penumbra dos despojos de mais uma noite. As garrafas espalhadas pelo chão, os vidros partidos em jeito de memória de conversas que já se tiveram. O aroma de mil aromas desta Lisboa, indecifráveis e que deixam o seu rasto. É assim o despertar da capital, como se Lisboa dormisse. Tem sono leve, esta cidade do mundo, enebriada de gente que passa na sua calçada. Toc Toc Toc. O barulho dos saltos das mulheres nos passeios, o arrastar dos pés do homem da mercearia, que carrega as caixas da fruta como um fardo que lhe pesa. Lisboa pesa na alma de quem aqui vive, é rumor de conversas, de memórias, de estátuas que se falassem teriam mais que histórias para contar. Uns vêm-na como a cidade boémia, de bares em ruelas escondidas, de conversas sufocadas pelo fumo do tabaco. Outro encontram-na todas as manhãs, no caminho para a escola, para o trabalho. Alguns visitam-na pela primeira vez. Amam-na ou detestam-na. Esta Lisboa de pombos que voam e povoam as ruas divididas entre o passado e o presente. Lisboa de encantos e olhares, de Fernando Pessoa, menina e moça. A cidade que me acolhe ainda o dia é uma criança e de mim se despede, já com o cansaço nos olhos, quando a tarde já vai longa. Onde encontro sempre um lugar diferente, uma montra que ainda não foi descoberta. Que me cansa e me atormenta. Lisboa de mil amores, de mil passados. Cidade onde uns se perdem e outros se encontram, e guarda os seus segredos bem escondidos. Lisboa de insónias, que nunca dorme, talvez para jamais ser esquecida. Que embala nos seus braços os mendigos, que dormem nas suas vielas e recantos. Passamos todos uns pelos outros, nas suas ruas, e no bulício matinal. Ninguém se fala. Nada se diz. E Lisboa respira, cada vez mais acelerada, no tempo moderno em que pomos sempre os olhos no chão. Em que há pressa de ter pressa para chegar a um lugar. Por agora, chegámos a Lisboa. Quem sabe qual será a nossa próxima paragem...