terça-feira, setembro 07, 2010

Lisboa

Lisboa acorda na penumbra dos despojos de mais uma noite. As garrafas espalhadas pelo chão, os vidros partidos em jeito de memória de conversas que já se tiveram. O aroma de mil aromas desta Lisboa, indecifráveis e que deixam o seu rasto. É assim o despertar da capital, como se Lisboa dormisse. Tem sono leve, esta cidade do mundo, enebriada de gente que passa na sua calçada. Toc Toc Toc. O barulho dos saltos das mulheres nos passeios, o arrastar dos pés do homem da mercearia, que carrega as caixas da fruta como um fardo que lhe pesa. Lisboa pesa na alma de quem aqui vive, é rumor de conversas, de memórias, de estátuas que se falassem teriam mais que histórias para contar. Uns vêm-na como a cidade boémia, de bares em ruelas escondidas, de conversas sufocadas pelo fumo do tabaco. Outro encontram-na todas as manhãs, no caminho para a escola, para o trabalho. Alguns visitam-na pela primeira vez. Amam-na ou detestam-na. Esta Lisboa de pombos que voam e povoam as ruas divididas entre o passado e o presente. Lisboa de encantos e olhares, de Fernando Pessoa, menina e moça. A cidade que me acolhe ainda o dia é uma criança e de mim se despede, já com o cansaço nos olhos, quando a tarde já vai longa. Onde encontro sempre um lugar diferente, uma montra que ainda não foi descoberta. Que me cansa e me atormenta. Lisboa de mil amores, de mil passados. Cidade onde uns se perdem e outros se encontram, e guarda os seus segredos bem escondidos. Lisboa de insónias, que nunca dorme, talvez para jamais ser esquecida. Que embala nos seus braços os mendigos, que dormem nas suas vielas e recantos. Passamos todos uns pelos outros, nas suas ruas, e no bulício matinal. Ninguém se fala. Nada se diz. E Lisboa respira, cada vez mais acelerada, no tempo moderno em que pomos sempre os olhos no chão. Em que há pressa de ter pressa para chegar a um lugar. Por agora, chegámos a Lisboa. Quem sabe qual será a nossa próxima paragem...

1 comentário:

Tracey disse...

Gosto :) Tu de facto trabalhas no Bairro Alto...Não há mais lisboa que isso! *