sexta-feira, dezembro 17, 2010

Como eu escrevo

"Como não escrevo. Não escrevo sem lavar os dentes, as palavras ganham sarro e devem sair frescas da boca para a ponta dos dedos. Não escrevo sem pensar que são quê, cinco da manhã, voltaste a acordar antes do sol e é bom que tenhas algo a dizer na confusão do mundo. Não escrevo de barriga cheia ou com vestígios de ressaca. Reduz o horário de escrita do ano, mas nada a fazer. Se começas a ficar tonto, come as palavras que estão a mais, há sempre muitas. Quando não aguentares o jejum, se a própria fome te engorda a frase, vai ao frigorífico e repõe o açúcar e o sal no sangue.



Não escrevo sem pensar nas possibilidades do ridículo de escrever, que nunca acabam. Não escrevo sem pensar que posso ser mais uma pessoa que devia fazer outra coisa na vida. Não escrevo sem perceber que então ia fazer o quê?


Agora como escrevo, se conseguir. Escrevo contra a maldade e a ignorância que estão dentro de mim. Escrevo também a favor delas, são adversários magníficos a quem foram dados muitos anos de avanço.


Escrevo a pensar nas formas impossíveis do amor, se for preciso inventa-se mais uma verdadeira.


Escrevo contra a escravatura das religiões, a obrigatoriedade da fé que tanto mal faz às crianças da Terra. Tenho respeito por Deus, mas se existe é má pessoa. Eu mudava de atitude, com tantos poderes.


Escrevo a combater as conspirações da realidade, a meio desta frase lá está ela a conspirar, algures. Apesar de tudo, acredito que a vida triunfa, não escrevam Fim antes de acabar a história. Sou um optimista mas não percebo porquê. E se isto fosse fácil era para os outros, como dizem os marines e disse uma pessoa que amei. Escrevo porque me pediram para escrever e porque me pediram para não escrever e foram todos bons conselhos de gente formidável. Escrevo porque tenho muitos amigos e amigas e alguns deles são um pouco malucos. E tenho filhos e pais e irmãs.


Escrevo porque viajei e vi injustiça e sofrimento. Não serve de nada escrever sobre desgraças, ou quase nada, mas algum nada temos de fazer. Muito do sofrimento que vi é meu e português e mundial. Também faz rir, mas acredito que o humor é aprofundar, não aligeirar.


Escrevo contra as pessoas parvas.


Escrevo porque as mulheres são bonitas e cheiram bem. E pelos vivos e pelos mortos, as pessoas vivem e de repente morrem-nos. E o mar tem peixes e os bosques pássaros e o esgotos ratos. Escrevo porque é uma profissão interessante, há de certeza melhores, mas não me calharam nem podia ser."

Rui Cardoso Martins, em Time Out Lisboa. Autor de Deixem Passar o Homem Invisível, de 2009

Como mudar para um país diferente

Um dia ele olhou para mim, e fez-me feliz. Ele, com o seu olhar maroto mas tímido, misterioso como só ele. Abriu-me uma janela para o seu mundo, mas eu queria entrar pela porta. De tapete vermelho estendido, triunfante, qual Napoleão, queria conquistar o mundo dele e declará-lo meu. Para mim parecia tão simples como entrar numa loja e comprar qualquer coisa. E dizer que era minha. Para mim era óbvio que se eu gostava dele, ele tinha de gostar de mim. Mas percebi, para desespero da minha arrogância e temperamento impestuoso, que não era bem assim. Que amar alguém é como mudar de país. Tudo acontece aos poucos e a seu tempo. Primeiro temos autorização para nos mudarmos, deixam-nos entrar. Arrendamos uma casa só com portas e janelas. Compramos uma cama e decoramos a nossa nova morada, o número de telefone. Mas ainda não sabemos falar a língua. Aprendemos a dizer bom dia, boa tarde, bom almoço, mas ainda é tão pouco. Depois descobrimos que eles não servem pequenos-almoços depois do meio-dia. Acordamos mais cedo, mudamos rotinas. Descobrimos que ali o tempo é demasiado quente, renovamos o armário. E aos poucos a cidade que pintávamos todos os dias, de ruas e caras novas, a cidade em que volta e meia nos perdíamos e que nos frustrava porque pensávamos que já tínhamos decorado o caminho para casa, torna-se familiar. As ruas tornam-se amigas e já não nos confundem, o caminho é automático e simples, tudo se torna mais fácil e habitual.


Amar alguém é assim. Amar não é entrar de rompante e já saber o que ele costuma guardar em cada gaveta. Amar é descobrir, todos os dias, como se fosse o primeiro, é entrar em casa de bicos dos pés para não o acordar, até um dia deitar no sofá dele quando ele não está. Amar é assim. Um país, uma cidade, uma vida nova, que aprendemos a viver todos os dias.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

herói ou vilão

O meu avô é como um herói dos livros. Nunca o conheci bem e, no entanto, sempre ouvi falar dele. Quando nasci, ele já não estava em condições para me contar as suas aventuras do passado. Um avô tem sempre histórias para contar. Mas o meu tinha mais. E por isso tenho pena de ter sempre ouvido na terceira pessoa as suas aventuras e desventuras pelo mundo dos homens. Quando me contavam quem tinha sido o meu avô, eu olhava para ele, de olhos arregalados, aquele velhinho que se fazia pequenino e frágil no sofá da marquise, encolhido em si e de mãos cruzadas no peito, de olhar fixo num ponto invisível. Dizia ele que era um menino pequenino, que não sabia nada da vida, e que queria fugir. Estas eram das poucas coisas que ele dizia. Um dia, depois de muitas histórias que me contaram sobre ele, percebi.
O meu avô foi de pequenino trabalhar para uma casa de uma família rica da aldeia, onde aprendeu a ler e a escrever, a escutar às portas dos meninos ricos que aprendiam em casa. Também aprendeu a tocar acordeão, piano, guitarra e flauta - tudo sozinho. Os meninos tocavam e ele imitava. A música corria-lhe pelas veias. Foi também naquela casa que aprendeu o ofício de barbeiro, que naquele tempo envolvia não só aparar barbas e cortar cabelos, como curar feridas e agrafar cabeças partidas. O barbeiro era uma espécie de enfermeiro naquelas aldeias a dias de distância dos hospitais.
Quando a idade lhe permitiu, abriu uma barbearia e inventou um novo ofício: o de taberneiro. Na taberna no meu avô, tanto se serviam copos como se faziam barbas e se agrafava a cabeça do miúdo que caiu a andar de burro. Nos serões da taberna do meu avô, ainda se liam cartas de familiares emigrados e se resolviam burocracias: afinal o meu avô era dos poucos que sabia ler naquela aldeia. Era para o meu avô que todos se viravam, na alegria e na tristeza, para um copo de vinho ou uma guitarrada, ou para ler a carta do filho que estava em França.
Mas o meu avô cansou-se cedo da vida de taberneiro e barbeiro. Os livros alimentaram-lhe ambições, e trocou a taberna por um contacto em França. Partiu, contra a vontade da minha avó, a minha mãe e os meus tios, que se tinham habituado aos serões da taberna, em que ele os sentava no balcão e acompanhavam com a voz o meu avô à guitarra. Quando ele partiu para França, foi também quando a minha mãe e os meus tios, que devido ao negócio do meu avô tinham conseguido ir todos para a escola, começaram a ver o seu futuro mais enevoado. A minha mãe sonhava ser professora de português e francês, e já estava no 5º ano, num colégio na Guarda, quando a minha avó percebeu que não dava mais e teve de tirar os filhos da escola. Eram seis crianças, todas com livros e quartos no colégio para pagar, que na aldeia não havia mais que a escola primária.
Entretanto, o meu avô tinha aprendido a falar e a escrever francês, devido à facilidade que tinha em aprender, e arranjara um trabalho na fábrica da Vichy. Mas só trabalhou até ganhar dinheiro para comprar uma bicicleta e atravessar França, Suíça e Alemanha em duas rodas. Viveu durante vinte anos como um bon vivant em França, de peito e sorriso embriagados pela liberdade.
Às vezes penso em como gostava de fazer o mesmo que ele, deixar tudo e partir, começar de novo e largar as amarras. Mas depois lembro-me como a minha mãe não pode ser professora de português como sempre sonhou, e o meu tio Eusébio veio para Lisboa carregar mercearias desde o Terreiro do Paço ao Castelo de S. Jorge. Não consigo decidir se o meu avô foi um herói ou um vilão. As suas histórias fazem-me vibrar de curiosidade, e tento inventar a vida que levou em França - dizem que se deixou enamorar no Molin Rouge... Mas ao mesmo tempo penso na minha avó, que envelheceu a trabalhar de sol a sol no campo, e a minha mãe, que tanto queria ensinar, e não quero saber mais histórias sobre ele.
Gostava de ter conseguido falar com ele, saber se valeu a pena. Gostava de saber se valeu a pena voltar para o amor-ódio dos filhos e da mulher, para se abandonar num sofá de uma marquise. Gostava mesmo de o ter conhecido.

deixem-me

Deixem-me só seguir por aquela estrada lá ao fundo. Não sei onde leva mas sempre é um desvio deste trilho onde fiquei, sem mais opções do que seguir em frente. Por vezes penso em ir pela esquerda mas não me deixam. Eu quero aquela outra estrada, aquela que não se sabe onde termina, aquela onde pode haver outro mundo para mim. Porque este já não sei o que é.Apenas uma sucessão de pressas para lado nenhum, de esforços que se traduzem na mais estonteante fumaça já vista. Estou cansada do mundo. Este não foi o final para a história que escrevi, para o argumento da minha própria vida. Não posso ficar por aqui, tenho de achar outros finais antes que o mundo me mate de ressentimentos e pesadelos. Parece que parei de viver e vivo em função de um sonho que o deixou de ser. Nunca voltar atrás. Digo a mim mesma. Mas o que é que tu fazes quando te apercebes que os teus sonhos nunca passaram de miragens e que a realidade é tão difícil?Será que atas os sapatos e corres, será que te acostumas a viver numa espécie de filme de suspense até que te tirem a respiração no final? O que é que fazes quando te apercebes que queres mudar mas não consegues? Atei os sapatos, estou pronta para a maratona da vida mas a vida prefere obrigar-me a correr. O mundo continua a girar a uma velocidade que não consigo acompanhar. Tens de ser luz, som, para andar assim tão rápido. Apagaram-me a luz e cortaram-me a voz e as asas. Só me restou o teu amor para me lembrar que ainda há sonhos doces no planeta. Continuo a ver a tal estrada ao fundo mas ainda não consegui lá chegar. Quero desviar-me do trilho, quero ir po ali!Aquela estrada. Deixem-me sair daqui. Sufoco, morro, intoxico-me. O tempo passa por mim a fugir e escapa-me entre os dedos como areia. Só o teu amor. Ainda. E as incertezas onde outrora floriram rosas de uma nação. Rosas, dizia o poeta. Porque é que uma flor tão bela teria de ter espinhos? E porque é que alguns caminhos ficam tão longe uns dos outros?