sexta-feira, março 07, 2014

Em casa

Ontem sonhei convosco outra vez. Um sonho bonito que me fez acordar a sorrir. Sonhei que estávamos outra vez todos juntos em vossa casa, em volta da enorme mesa da sala, com todos os lugares sentados, como dantes. Todos ríamos e comíamos com vontade, cantávamos enquanto o avô tocava acordeão. Como dantes, a música saía dos seus frenéticos dedos louca e feliz, envolvendo-nos a todos numa bolha indestrutível de segurança e amor. O mundo deixava de existir quando tocavas, avô. A tua música levava para longe as preocupações teimosas que escondíamos por trás dos sorrisos quando, silencioso, te levantavas de repente do sofá em que estavas sempre sentado e tocavas para nós pela noite fora. Sem nada dizer, apenas absorvido na tua música, o sangue que corria nas tuas veias. De olhos perdidos e misteriosos, por vezes mostravas o teu belo sorriso de olhos claros. Esse raro sorriso que guardei para sempre no baú mais precioso das minhas recordações.
Vocês não me disseram mas eu sabia que só tinham voltado por um dia, para matar saudades e lembrar-nos que, afinal, vocês nunca foram embora. Afinal, vocês estarão sempre connosco, de cada vez que nos sentarmos à volta da mesa. E ali, entre o caldo escoado e o arroz doce, a música dele e os nossos risos, na sala mais feliz da minha infância, eu soube mais uma vez que por mais que faça e aconteça, por mais que ganhe e gaste, são só aquelas pessoas que me fazem mais feliz, que me fazem sentir em casa.

quinta-feira, março 06, 2014

O meu poema

No meu poema vais ser exatamente quem eu quiser. Os teus olhos podem cheirar a castanhas e os beijos que não me deste terão exatamente o sabor que eu inventar. A tua boca vai saber a mar misturado com sangue, das nossas bocas a rasgarem o tempo. As nossas línguas entrelaçadas vão dizer coisas impossíveis de compreender. Depois vamos afastar-nos e vais olhar para mim sem entender porque não consegues respirar, o ar demasiado pesado para ti. Mas não te vou responder, vou beijar-te. Depois vou convidar-te a fazeres amor com o meu sorriso. Vais sorrir e dizer que isso é impossível. Vou explicar-te, como se fosses uma criança pequena, que nos meus poemas não há impossíveis e que na história que eu contar tu serás a personagem que eu desejo. O teu riso vai flutuar até mim e encher devagar os locais adormecidos do meu corpo. E depois vou beijar-te mais uma vez. Só porque sim. Porque não? Vou deixar-te pensar que estás a controlar mas depois vou virar o teu mundo de cabeça para o ar. Sem ar. Ar. Vais tentar lembrar-te de como respirar mas já não consegues pois não? Vou despir as tuas incertezas e sussurrar baixinho ao teu ouvido. Em resposta o teu coração vai bater. Rápido. Acelerado. Um comboio a alta velocidade prestes a descarrilar. Olha para mim. Ar. Inspirar, sentir. Mordo o lábio devagar e fazes amor com o meu sorriso. O meu riso. O resto da história será exatamente a que eu for escrevendo, enquanto a noite atravessa a cidade. Aqui só vejo luz, enquanto o meu corpo se vai tornando incandescente, a minha pele na tua pele. Tu, esta noite, a personagem que eu quiser inventar. A tua boca a saber a vida, no meu poema.

sábado, março 01, 2014

A minha avó

Todos nós temos histórias. Pergunto-me que histórias guardarão estes rostos envelhecidos pelo tempo, pelas lágrimas ou pelos sorrisos. Olho para a minha avó e imagino que histórias guardará de outras idades. Nunca soube quais foram os seus sonhos ou amores secretos. Quem seria antes de alguém a chamar simplesmente mãe ou avó. Agora a minha avó vive aqui, no meio deste jardim, numa casa de paredes brancas, com tantos outros rostos gastos pela vida. A minha avó olha-me mas não sei o que vê. A sua memória vai fugindo, umas vezes chora e outras ri. Olha-me com os olhos marejados de lágrimas e repete sem se cansar: «a minha neta, a minha querida neta». E quando pronuncio a minha avó, já não é a mesma palavra que pronuncio. Sinto pena misturada com amor. Pena que nunca tenhas sido uma verdadeira avó. Nunca me embalaste nos teus braços. Nunca me disseste que gostavas de mim. Eras sempre a outra, e não era pelo teu colo que chamava. Mas agora vejo os teus olhos cobertos de lágrimas e penso que te esqueceste. Ou talvez só agora te tenhas começado a lembrar. Dizes para eu ir devagar, desejas-me tudo o que uma avó pode desejar a uma neta. Gostava de gostar mais de ti, mas não sei se consigo. A palavra avó é demasiado pesada entre nós, uma noite infinita. Tantas coisas que ficaram por dizer na minha infância, enquanto fazias o jantar para a família e o avô, sentado à cabeceira da mesa, ria muito e eu tinha vontade de rir também. Porventura esqueceste-te, as memórias com teias de aranha e os teus olhos marejados de lágrimas. Gostava de te ter conhecido melhor. A palavra avó tem um travo amargo a ressentimento. A hora da visita acabou e prometo voltar. Olhas-me com ar suplicante e repetes: « a minha neta. A minha querida neta».