Em casa

Ontem sonhei convosco outra vez. Um sonho bonito que me fez acordar a sorrir. Sonhei que estávamos outra vez todos juntos em vossa casa, em volta da enorme mesa da sala, com todos os lugares sentados, como dantes. Todos ríamos e comíamos com vontade, cantávamos enquanto o avô tocava acordeão. Como dantes, a música saía dos seus frenéticos dedos louca e feliz, envolvendo-nos a todos numa bolha indestrutível de segurança e amor. O mundo deixava de existir quando tocavas, avô. A tua música levava para longe as preocupações teimosas que escondíamos por trás dos sorrisos quando, silencioso, te levantavas de repente do sofá em que estavas sempre sentado e tocavas para nós pela noite fora. Sem nada dizer, apenas absorvido na tua música, o sangue que corria nas tuas veias. De olhos perdidos e misteriosos, por vezes mostravas o teu belo sorriso de olhos claros. Esse raro sorriso que guardei para sempre no baú mais precioso das minhas recordações.
Vocês não me disseram mas eu sabia que só tinham voltado por um dia, para matar saudades e lembrar-nos que, afinal, vocês nunca foram embora. Afinal, vocês estarão sempre connosco, de cada vez que nos sentarmos à volta da mesa. E ali, entre o caldo escoado e o arroz doce, a música dele e os nossos risos, na sala mais feliz da minha infância, eu soube mais uma vez que por mais que faça e aconteça, por mais que ganhe e gaste, são só aquelas pessoas que me fazem mais feliz, que me fazem sentir em casa.

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