domingo, outubro 25, 2015

Cartas ao meu tio - V

Olá, tio. Tu que não tinhas pressa de viver, como podes ter partido tão cedo? Passo à porta da tua casa, espero que as tuas filhas desçam as escadas, e imagino-te na cozinha, a comer de pé como tantas vezes te vi, já reformado mas ainda com o prato equilibrado nas mãos, como se ainda fosses sair para o turno da noite. Imagino que ainda lá estás e isso conforta-me, sinto a tua falta nos almoços de família e penso que estás apenas atrasado, como sempre, ou a fazer dois turnos para acumular folgas. Sabes, tio, tenho receio que este golpe tenha sido demasiado forte para a minha mãe. Continua a vestir-se de preto, e voltou a tristeza que lhe marcou o olhar durante anos, depois de os avós terem partido. Voltou e escureceu-lhe os olhos verdeados, agora quase sempre castanhos de mel. É o olhar de quem nunca se consegue esquecer que, afinal, a morte está sempre ao virar da esquina. Nas veias da minha mãe não pulsa o sangue, mas toda a vida dos seus irmãos e pais. Toda ela é feita de memórias e histórias eternas, que só ela sabe contar. Sabe de cor o nome de todos os cinquenta e seis primos que vocês tinham, onde moravam e o que lhes aconteceu. Tem os seus números de telefone e, ao fim de semana, muitos telefonavam e deixavam nos seus ombros as suas dores e males de espírito. Lembro-me de me contar como o meu tio avô António lhe ligava com queixas da mulher, e logo a seguir, a tia lhe ligar com queixas do marido. É assim a minha mãe, a eterna confidente de uma família de infinitos primos direitos e afastados, o fio de crochet que liga a manta de retalhos que nós somos. Agora o telefone lá de casa toca menos. Eras tu, a prima Leonor, a tia Florinda, os tios António e Ines, e mais, são os xailes pretos que a minha mãe carrega todos os dias. São as saudades que as partidas prematuras lhe deixaram. E ela suspira e pega no telemóvel, lembra-se da sua responsabilidade de matriarca da família e liga à prima que está grávida, pergunta como está, quer ver a ecografia e saber o sexo do bebé. Volta a sorrir e a família, como o sonho, pula e avança. Espero que nunca deixe de sorrir assim, animada pelo toque do telemóvel ou da campainha de casa. Mas é certo que o sorriso que guardava para ti, ela não dará a mais ninguém, tio.

terça-feira, outubro 13, 2015

O peso dos sonhos


Qual é o peso dos sonhos?
Serão tão leves como as folhas de outono que se agitam ao vento e se desprendem das árvores sem qualquer dificuldade? Ou serão pesados como paredes, das que abanam mas nunca vão cair?
Ou será que o peso dos sonhos depende de como os alimentamos?
Se assim for, os meus sonhos pesam toneladas, porque todos os dias eu trago comigo mais um pequeno sonho e um objetivo. Todos juntos deviam ser impossíveis de transportar. No entanto, sei que estão comigo a todas as horas do meu dia. Por vezes, são pequenas coisas. Tão pequenas que nem parecem ser sonhadas. Algumas acontecem e aí faz-se magia. Outras, são apenas sussurros, como se falasse debaixo de água. Sinto que é demasiado sonhá-las. Há sonhos tão preciosos que tenho medo
que fujam de mim. Os mais pesados e os mais leves. Enquanto eu trouxer estes sonhos junto do coração, nunca vou morrer verdadeiramente. Vou estar sempre bem viva, bem acordada, com a vida a mover-se aos meus pés. Terei sempre um novo caminho, um novo sorriso. As tempestades não me vão perseguir e o medo não me vai vergar. A chuva não me vai aquecer e o sol não me vai molhar. E não me digam que é ao contrário. Afinal, quem manda nos meus sonhos sou eu. E já custa imenso não os deixar cair.