segunda-feira, setembro 07, 2015

Cartas ao meu tio - IV

Um mês. Passou lento e doloroso o primeiro mês da tua partida, o teu nome e a tua foto ainda nos nossos contactos de telemóvel e facebook - é tão estranho, mas ainda assim apaziguador, como se ainda cá estivesses. Ainda não acredito que partiste, que nos trouxeste de súbito a dor que quis adiar por muitos mais anos.
Passou um mês e compreendo melhor agora aqueles clichés sobre passar tempo com a família, telefonar, enviar uma mensagem com um beijinho... Quando partiste, amaldiçoei-me porque a última vez que falei contigo foi há quase dois meses, quando te encontrei em Vila Franca. O trabalho novo, o tempo a voar, e não falámos mais. Sabia que ia estar contigo durante as férias, que te irias sentar connosco à mesa a todas as refeições do mês de Agosto. Mas agora não servem de nada estas palavras vãs, que tu partiste sem que te dissesse o quão importante foste para mim, para todos. Disse-te algumas vezes que admirava a tua inteligência, o teu génio musical. Insisti muitas vezes contigo para que passasses a reforma a dar aulas de música, ideia que rejeitavas com uma gargalhada - "Só tu, Fátima". Atormenta-me pensar como eras humilde, simples, como nunca reconhecias o teu talento. A tocar acordeão, baixavas o olhar, tímido e inseguro - o avô fazia o mesmo, nos seus últimos tempos.  Nós víamos como as mãos já te tremiam e que isso te enervava, mas nem te dizíamos nada. Ficou muito por dizer, e é talvez por isso que agora nos custa tanto - de formas diretas ou indiretas, tentámos mostrar-te que estávamos preocupados contigo, mas que direito tínhamos nós de questionar o teu modo de vida, o que escolheste para ti? Tento serenar o turbilhão de pensamentos e emoções que me ocorrem quando penso em ti, o que fiz e disse e podia ter feito, mas tenho a certeza que, se voltasse atrás, seria tudo igual. Cada um é como cada qual e tu eras o nosso Tio Gil. E amamos-te profundamente tal como eras, tal como escolheste viver.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Cartas ao meu tio - III - O que foi não volta a ser

Esta semana vi uma foto da casa da avó no facebook. Já não é a mesma casa da avó: a varanda está despida dos mil e um vasos de flores bonitas que ela cuidava, e a porta está fechada. A porta de casa da avó nunca estava fechada, só à noite. Durante o dia, a porta ficava escancarada, convidando quem quisesse a espreitar a marquise com o sofá onde o avô se deitava, e a entrar a qualquer hora.
Quando a avó e o avô partiram, passei muitos anos sem conseguir lá entrar. Não era a mesma casa: a avó não me viria receber à porta e o avô não chamaria passarito à minha irmã. No início, fechava os olhos quando chegávamos à aldeia, pois a primeira imagem que vemos é aquela frondosa vivenda a abrir os braços à nossa chegada, agora vazia dos braços que nos recebiam. Os meus pais já tinham uma casa nova em Aldeia Velha, o que nos deu o distanciamento necessário para continuar a visitar a aldeia e, aos poucos, deixar de sofrer tanto com a partida dos avós. Habituámos-nos, também, a pensar que agora era "a casa do Ti Gus e do Ti Gil", a porta de onde vos víamos sair, sempre bem arranjados e cheirosos (seguindo o legado do avô, todos os meus tios são aprumados, mas o mais vaidoso eras tu, tio, que nunca saias de casa sem pentear muito bem o cabelo e engraxar os sapatos).
No dia da cerimónia das tuas cinzas voltei lá a casa. A cozinha está igual, a lareira onde eu e a avó adormecíamos à conversa pela madrugada, o fogão onde ela fazia os melhores petiscos e sobremesas, e na bancada o rádio onde ela ouvia o terço, todos os dias às 19h. Tio, tu continuaste passar ali as tuas férias, a sentir a presença dos avós em cada quarto. De certeza que percorreste muitas vezes aquele corredor pensando nos Natais que ali passámos todos juntos, eu e as tuas filhas a pendurar meias à lareira. O futuro parece-me tão triste sem isto, os cheiros da casa da avó, a música do teu acordeão, as tuas bochechas rosadas à mesa (mesmo sem teres bebido nada, eu sei!! A tua Marília é igual). Tenho medo de sermos menos, tenho medo que os meus filhos já não saibam o que é isso de ter uma família com muitos tios e primos à mesa. Fico tão triste quando penso que já só te irão ver a tocar num vídeo ou em fotografia... não é justo, simplesmente não é! Tanta gente má que Deus podia tirar da minha vida, e escolheu-te a ti, tio, que tanto gostavas de mim... se me faltam os meus tios ou os meus pais, falta-me o meu berço, o meu refúgio, o meu chão. Não sei o que sou sem quem me conhece e me faz feliz.
Mas como diria a música "o que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira" ... Deixa só que te possamos recordar, dia após dia, aniversário após aniversário. Deixa que te veja nas tuas filhas, tão parecidas contigo. Deixa-me ter para sempre a recordação do teu sorriso verdadeiro e sereno, que me ajuda também a acalmar.
Tenho tantas saudades!!!!