domingo, abril 29, 2007

Deixa-me morar na tua barriga

Eu gostava de morar na tua barriga. Se eu morasse na tua barriga eu sentiria o teu aroma no despertar aceso de cada manhã. Eu gostava de habitar na tua barriga, ser dedo eterno a percorrer o teu ventre macio e belo. Se eu morasse na tau barriga adormeceria todas as noites como uma criança que encontrou o seu poiso, o seu ninho.

sábado, abril 28, 2007

It's sad but so true..

Há ilusões que não passam de desilusões escondidas. Há lágrimas que nunca chegarão a risos. E não importa os caminhos que sigas irás sempre dar a esta encruzilhada. Em que ilusão e desilusão se tocam e têm o sabor mais antigo de que te consegues lembrar. Aquele que povou os teus pesadelos e nunca mais te deixou. Tenho a pele arrepiada, não sei se de frio ou de medo. Talvez seja de medo, o sol já chegou por estes lados. A pele arrepiada dentro da camisola e a desilusão dentro do peito. Há coisas que nunca mudam, dizem por aí.

quinta-feira, abril 26, 2007

Era uma vez...

...uma menina muito pequenina que andava aos pulinhos pra chegar às pessoas grandes. E toda a gente se baixava um bocadinho para falar com a alegre menina pequenina. Até que um dia a menina pequenina decidiu ser grande. Que ninguém se inclinasse mais sobre ela! Fechou os olhos e apertou as mãos com muita muita muita força e cerrou os dentes até doer enquanto na sua mente um desejo grande grande grande grande se repetia a uma velocidade vertiginosa. Grande, grande, grande, grand, gran, gra, gra... Quando abriu os olhos não conseguia ver, estava tão perto do Sol! Quando abriu as mãos doíam-lhe, eram muito grandes e pesadas! E a boca sabia a sangue dos dentes afiados! Não mais se inclinaram sobre a menina. Agora encolhiam-se. Tinham medo dela...

terça-feira, abril 24, 2007

"Foi como entrar
Foi como arder
Para ti nem foi viver
Foi mudar o mundo
Sem pensar em mim.
Mas o tempo até passou
E és aquilo que ele me ensinou
Uma chaga pra lembrar
Que há um fim.
(...)
Não vai haver um novo amor
Tão capaz e tão maior
Para mim será melhor assim."

Chaga, Ornatos Violeta

segunda-feira, abril 23, 2007

Mais uma música que já decorei e mesmo farta deixo tocar. O volume no máximo e de soslaio olha-me quem apenas sente um barulho estranho envolvendo o meu corpo.
A voz grita-me aos ouvidos, louca como pernas apressadas que se atropelam no metro, que se sufocam no comboio, para a contagem decrescente da fome, e o sono cronometrado.
A estação é um lugar de ninguém onde vibra a tentação de partir para lado nenhum. Mas fugir não é fácil. Logo mil cartazes perseguiriam a minha estrada.
No comboio vou só entre olhos apertados que trocam suores do dia esgotado. As janelas trazem a praia para dentro, frágil miragem de vidro. Os carris arrastando-me igual a cada minuto do dia anterior. Todos os dias o mesmo caminho, as mesmas paisagens, os passos de uma vida itinerada (perdi o mapa do tesouro). O mar vai e vem confuso, e é de tudo o que mais sou no mundo, calma sempre ameaçada por tempestade. À minha volta uma multidão de caras mudas e esquecidas, que não me vêem. E ainda bem. Sou o fim do que o egoísmo almeja. Desejo furioso de ser maior que tudo, de encontrar nos outros o amor que não me tenho.
O comboio até sabe ser confortável. Ao menos aqui, posso ser só mais um banco ocupado.

domingo, abril 22, 2007

miss azeitona

Como nas histórias da carochinha esta começa com "era uma vez". Ora bem, era uma vez uma azeitona num prato com tantas outras azeitonas. Uma azeitona saborosa e verdinha colhida de uma oliveira, já antiga e carregada de outras azeitonas. A sua sorte tinha sido o aperitivo, a zona nobre das azeitonas que querem alcançar um certo estatuto social. Nada dessas coisas de ser azeite ou qualquer coisa que se pusesse na frigideira para cozinhar outros alimentos. Elemento secundário. Não, esta azeitona em estado (quase) puro, polvilhada com óregãos, iria ser placidamente devorada por alguém apreciador do seu fantástico sabor no paladar. Alguém que deixaria intacto o seu caroço real. A pequena azeitona saltitava nervosa no prato de barro, especialmente concebido para ela e suas compatriotas do "mundo azeitonal". Dizia azeitonas em letras brancas. Uma mão apressou-se a recolher esta azeitona. A miss azeitona foi enfim cumprir os seus desígnios. Os caroços amontavam-se no prato. Sim, eu comi a azeitona

passado não move nem moínhos nem aviões

Tu não existes. És um mero reflexo de tudo o que acreditei mas já não acredito. De uma dor arrancada ao mais profundo do meu poço sagrado de emoções. Este poço já não tem água para ti. Nem para ti nem para eles. Os fantasmas que povoaram as aldeias do meu passado. Eu não vou mais abandonar o meu sonho à sua sorte, não vou mais deixar que me digam que sou menos do que nada. Que não passo de um desejo ou de um instante. Não vou mais jogar às escondidas e à cabra cega com as paixões que não valem a pena. Achei o amor capaz de derrotar os medos escondidos dentro do espelho. Que só reflectiam uma luz pálida de desilusão. Desilusão, encheu-me o copo tantas vezes. Dormiu tantas vezes comigo nas horas mais solitárias da minha vida. Será que vale a pena?Isto é uma pergunta retórica. Sim, vale a pena. Agora vale a pena. Porque amar-te me enche de uma luz que já não é pálida. Luz- pirilampo. Não me abandones.Desilusão não me enchas o copo de novo. Por vezes sinto-me tão só na comunhão de nós os dois. Fecho os olhos e nem dá para dormir. E tu não irás saber. Então voltam os fantasmas que exorcizei e martelam em tom insistente. Mas não vou mais chorar. Porque a minha consciência está em paz. Recordo a tua mão na minha nos maus momentos, das lutas com a almofada para te encontrar nas madrugadas que ainda rompiam, dos teus olhso fechados sobre as pálpebras das minhas lágrimas como um longo cansaço entre nós. Mas em mim não há cansaço, apenas amor. Amor pelos teus passos e pelo teu cheiro a sol a chegar em bicos de pés ao mais profundo do abismo do meu ser. Do teu sorriso de linho branco e puro. Esqueci o teu esquecimento de mim. Mas não me esqueço mais de mim. Lê nos gestos e saberás. E por fim e de novo no ciclo que começa e não mais acaba. Amo-te. Tudo em ti.

Compromisso

Acordou às seis da manhã com a dor a querer sair pela boca. Convulsa agitando o corpo, tosse do mais profundo de si. Nos pulmões uma emoção presa que gritava de sufoco. Na boca, uma náusea a sangue. E ninguém o sabia melhor que ela: ia morrer. O verbo que para todos estava no futuro, para ela era presente e até imperativo. Conjugado numa só pessoa, eu. Tu e ele num só adormeceram o choro na almofada, o único outro que convivia com a doença. Nós não existia, porque esse outro assistia, não acordava pela madrugada a cuspir sangue. Vós e eles tinham olhos estúpidos de pena e palavras hipócritas a que ela preferia fechar a porta (na cara). Estava sozinha. Certezas dos outros, ir ao cinema, dormir para trabalhar no dia seguinte, viagens e festas, eram nela a caneta nervosa na mão, a morte a bailar na agenda como a incerteza de cada dia na certeza do seu fim. Antes que outro alguém marcasse o seu único compromisso, escreveu à sorte num dos cinzentos dias no seu quinto mês de doença: morri.
"Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que alguém sonhou
Alguém que veio ao mundo
para me ver
E que nunca na vida me encontrou!
"

Florbela Espanca

quinta-feira, abril 12, 2007

despidos

Despiram as roupas e despiram as almas. trocaram de corpos e ficaram sem voz. afónicos na presença da luz da fusão dos dois. Despiram a roupa e tornaram-se onda a baloiçar em abismos de areia. Perderam o tempo e não o quiseram encontrar. Não gastaram o tempo inútil em esperas que gastam as pedras da calçada. Arrancaram as roupas e amaram-se num sopro vago de inconsciência. Foram vítimas do aquecimento global dos seus corpos despidos, derretendo glaciares. Gotas de suor-chuva molhavam o doce templo. Purificados. E a alma em convulsões de loucura num amor sem camisas de força.

Interlúdio de um beijo

beijo_thumb_thumb.jpg
Minha boca apertada contra a tua, furiosas mordem-se, saboreiam-se, amam-se como se nunca se tivessem encontrado. Entre arfares os lábios descolam-se inchados de vermelho-sangue. Vida a vibrar no teu beijo. Coração a saltar pela boca. Por segundos te vejo do outro lado dos meus olhos e não em narizes entrelaçados. Desejo-te sem tempo de o pensar. Tu boca, eu língua.

"Este beijo soube pela vida."

O amor tem o fulgor da surpresa. Quando menos espero as tuas palavras revolteiam-me e a saudade é só uma mania que insisto em repetir porque não sei dizer mais, afinal estás sempre comigo.

quarta-feira, abril 11, 2007

Puzzle

Falto-me, mas não me quero encontrar peça de um imenso puzzle de caras iguais. Prefiro continuar perdida debaixo do armário. Tanto tempo entre o pó que não encaixo entre os outros. Perdi a forma. Estranha forma de vida...
"Este é um privilégio da solidão: a gente pode fazer o que bem nos parece. Pode-se até chorar, que ninguém olha."

Mrs Dalloway, Virginia Woolf

Ressaca

Olhos loucos piscam a cada centímetro do café, quero guardá-lo para que amanhã sem ele o possa sentir. Carros de caras murchas, olheiras de loucura esgotada, vagos sorrisos que quem conhece entende, a voz rouca não consegue explicar e os outros não vão perceber. A minha aldeia é tudo o que mexe dentro do coração. E tudo o resto horas mortas enquanto a minha aldeia não está, afinal a minha vida fica aqui.

Fora-da-lei

Como Jeremias de Jorge Palma. Tinha prazer em faltar às aulas importantes, dormir até tarde, irritar com a sua calma os compromissos de gente nervosa. "Não esperando nunca que a sociedade viesse um dia a ser melhor, Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora". Também ela esperava a explosão dos edifícios públicos numa gargalhada. Quando o mundo urgia e podia desmoronar nas suas mãos, sentia-se dona de si olhando de soslaio a onda gigante empurrada por uma mão invisível que é o homem cego. Ser e destruir em cada mão. Porque entre o marasmo e a destruição, mais apetecível era pra si o fim, que o vazio.

Vibro com jogos de amar e odiar. Danço contigo até que a música se desvanece e a noite nos esconde. Sem uma palavra, violenta te percorro e sôfrega te beijo.
O teu beijo sabe como o primeiro, naquele momento nada mais importa, somos nós outra vez. O tempo não existe, o tempo somos nós. E o dia nasce. Tu para a esquerda, eu para a direita. A vida sempre nos levou por caminhos opostos. Mas não faz mal. Encontro-te sempre na encruzilhada de nós. Sensações sem limites e nada nos detém. Meu anjo mau.

Cabeça dos outros

Se a minha cabeça fosse a dos outros eu saberia o porquê dos passos sibilantes da mulher de óculos-garrafa, que agora atravessa a passadeira. Se a minha cabeça tivesse lá dentro o cérebro dela, eu veria as razões do seu mundo, os seus cataclismos diários e os seus diálogos.
Saberia talvez, tudo o que me escondem em olhares dissimulados que prometem franqueza, mas dão escárnio. Dos risos nervosos entrelaçados com pensamentos trocistas. Ai se a minha cabeça fosse a dos outros!Se o meu pensar fosse o entendimento das razões do mendigo que passa e ninguém olha, se eu soubesse porque está ali. Talvez o pudesse distinguir, então, de todos os outros mendigos, que só não tiveram mais sorte porque estenderam as mãos à desgraça e largaram as cordas do mundo. Talvez lhe tenha morrido um filho, a esposa, terá sido a bebida?Será que sabe que é um desgraçado?Para onde vai?Se eu estivesse na cabeça dos demais deste planeta, conciliaria o sono sem indagar as razões que levam a que muitos digam e "desdigam" logo depois o que disseram. Como uma camisa a que apertam um botão, para novamente o arrancar da sua casa. Na cabeça dos outros, a que não é para mim mais do que uma sombra, em que tremelica ainda um raiar de sinceridade. Na minha cabeça, a única que não se fecha para mim na escuridão, reinam as mais absolutas incertezas sobre os outros. Sobre mim mesma. Não se fiem nas palavras. Afinal também elas nos traiem. Nos enganam. Quando os pensamentos dos outros se tornam eufemismo. Acho que descobri o porquê de tantos recursos da língua. Para esconder o que pensam eles, e o que eu penso deles. O bom e o menos bom.

terça-feira, abril 10, 2007

Ópera da Morte

Tocou-lhe levemente no braço, e o peso abandonado do namorado reagiu. Olhou-a.
- Mesmo que estivesses a dormir, acordei-te.
- Sim... que se passa? - perguntou, de cabeça enterrada na almofada e um só olho espreitando-a. Pousou-lhe a mão na face e sentiu-a molhada.
- Estiveste a chorar?
Silêncio.
Às vezes parecia que ninguém se ouvia naquela casa de música e vida.
Ele era compositor e o seu mundo era o estúdio. Tempos houve em que partilhava com a namorada cada nota da pauta, cada grave e agudo; a música era a sua dança pelo amor. Até que o dinheiro os obrigou a uma pausa na valsa da sua vida. Comprou um estúdio que tirano sufocou a música num pequeno quarto e deixou o resto da casa muda.
Ela arrastava-se pela sua doença de quatro paredes, o cancro. Os seus dias passavam devagar; para si o marasmo era pior que a doença. Pensar que se habituara àquela vida de mulher de casa acomodada com as garantias do namorado e agora a morte pregara-lhe uma partida. "É bem feito", repetia às vezes enquanto lavava a loiça, "esqueceste a vida, e a morte achou que já estavas preparada".
Ele adormeceu-a com um beijo; foi o seu último sopro de vida.
No dia seguinte, o compositor acordou com a morte. O silêncio dos seus olhos inertes foi a última nota do músico. Terminou com o Dó Maior a ópera que há doze anos balançava sem fim anunciado, e a sua música morreu com ela.

As Horas

Se eu pudesse sacudir esta letargia e partir, apagando as marcas do tempo em mim. Madrugadas passariam mais facilmente sem o relógio a fustigar-me com os ponteiros, a martelar na minha mente minuto a minuto que uns vogam num sono tranquilo e eu continuo de olho vivo sem nada apetecer e sentindo cada pulsar latejante nas fontes. Será o peso das insónias uma noite capaz de me cerrar as pálpebras?
Ao menos não existisse o tempo. Ficção fulgurante da rotina, as horas repetem-se, como cada acordar e correrias vaivém cama-frio-cama. São as horas que me ferem com o silêncio da minha solidão. Mais um dia e o quarto vazio. "Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós...", balança na música a voz de Jorge Palma. Tempo-solidão, música-consolo.
E o sono só se cumprirá se as insónias prometerem não voltar. Teimosas, duvido que me abandonem.

Loucos não dormem

Kafka escreveu-me como eu gostaria de ter feito. “Como é que os loucos podem ter sono!”, atirou forte e impiedoso sobre tantas e tantas almas inquietas. Quando o sono não chega e me fustiga ser tão pequena num mundo tão grande, ansiosa espreito por entre as palavras que guardam os meus segredos. A escrita é o meu refúgio, o meu berço, onde me dou a todos sem dar a ninguém.

domingo, abril 01, 2007

...

Apetece amar-te tanto e com tanta força e nunca te ver içar as velas e partir. Amar-te com tanta força como a que uso para apertar a almofada agora que já não estás. E o teu cheiro se escapuliu na água do banho. Só o amor por ti não me deixa em paz. Nenhuma água o leva, nó que não se consegue desatar. Apetece apertar-te nos braços num abraço só meu, para te dizer que te quero tanto meu bem, sem nada dizer.Amar mesmo que o mar nos separe. Deixa-me amar-te mesmo que ja não estejas. Amor que me dá alento e nunca me basta. Porque só nos fartamos das coisas vulgares. Para mim tu és invulgarmente dono do meu coração. Que bate na luta da tua ausência numa saudade que palpita.

Amar-te. Agora.