segunda-feira, abril 23, 2007

Mais uma música que já decorei e mesmo farta deixo tocar. O volume no máximo e de soslaio olha-me quem apenas sente um barulho estranho envolvendo o meu corpo.
A voz grita-me aos ouvidos, louca como pernas apressadas que se atropelam no metro, que se sufocam no comboio, para a contagem decrescente da fome, e o sono cronometrado.
A estação é um lugar de ninguém onde vibra a tentação de partir para lado nenhum. Mas fugir não é fácil. Logo mil cartazes perseguiriam a minha estrada.
No comboio vou só entre olhos apertados que trocam suores do dia esgotado. As janelas trazem a praia para dentro, frágil miragem de vidro. Os carris arrastando-me igual a cada minuto do dia anterior. Todos os dias o mesmo caminho, as mesmas paisagens, os passos de uma vida itinerada (perdi o mapa do tesouro). O mar vai e vem confuso, e é de tudo o que mais sou no mundo, calma sempre ameaçada por tempestade. À minha volta uma multidão de caras mudas e esquecidas, que não me vêem. E ainda bem. Sou o fim do que o egoísmo almeja. Desejo furioso de ser maior que tudo, de encontrar nos outros o amor que não me tenho.
O comboio até sabe ser confortável. Ao menos aqui, posso ser só mais um banco ocupado.

2 comentários:

Ninfa disse...

Há alturas em que me sinto cansada desse caminho quotidiano de passos entre comboios e corridas para apanhar um transporte. para 5 minutos. as vezes não me apetece nada. O que há em mim é um tremendo cansaço e uma vontade louca de sentir os lençois macios e a cama aconchegante. Quando todos os que nos cercam não têm muito para dizer ou acham que têm autoridade para nos dizer o que devemos ser, que beleza devemos ter e como devemos sentir... grr! mas viva a praia que vemos nos vidros viva o amor que vemos nas letras=)

xuxana disse...

Há coisas que por vezes têm a capacidade de quebrar essa rotina e tornar mais confortavel cada viagem... Porque não chega sermos SÓ MAIS UM banco ocupado... **