quinta-feira, março 31, 2011

runaway train, II

lembro-me que quando parti naquele comboio percebi que não tinha amado, que não sabia o que era amor. ele tinha descido as escadas da estação sem sequer esperar que o comboio partisse, sem correr atrás, como fazia sempre. lembro-me de como amaldiçoei todos os encontros, todos os telefonemas, todas as mensagens e todo o tempo que perdi em algo que, afinal, nem valia uma despedida na estação digna de filme. nem um típico nunca te esquecerei entre lágrimas ou um beijo arrebatador, final, dramático. nada que arrancasse um par de lágrimas à espectadora mais lamechas. durante anos fugi de qualquer coisa que pudesse virar outra decepcionante despedida, tão pouco fílmica. porque amar é cinema. é apaixonar-se num segundo, é todo o mundo seres tu, é ter a vida nos teus beijos e viver só para rir contigo. amar não é descer as escadas da estação e esperar pelo próximo autocarro, é correr atrás e ficar até o comboio partir. ou então não é amor.

I'm not there

recomeça, tudo de novo, o dia de ontem em repeat, as vozes de toda a semana, o tic tac de todo o ano. recomeça, e eu não estou aqui, os meus olhos voam para trás do horizonte, procuram-te mas não estás lá, onde estás? vida, sonho, o mundo na boca e a boca no mundo. onde estás? quem te roubou o arco-íris dos olhos e te deixou a chover, pequena no teu canto? tenho saudades de sonhar. e de acreditar nos meus sonhos.

segunda-feira, março 28, 2011

Io Sono L'amore

"Feliz? Feliz é uma palavra que não se diz, porque nos deixa tristes"

in Io Sono L'amore

domingo, março 27, 2011

eu e ela

somos tão diferentes. ela e o seu olhar perfeito e decidido, o seu sorriso certinho e direito sem dentes, como quem sabe exactamente o que quer. e eu, os meus olhos perdidos e distraídos, o sorriso grande de ingenuidade e inocência. eu sou uma miúda, o meu carro chia e faço um dia de cada vez, ela tem um topo de gama e sabe onde vai estar daqui a cinco anos. eu desprezo a política e as matemáticas e ela faz deles o seu dia-a-dia, eu sonho com o cinema todos os dias e para ela isso é coisa de fim-de-semana. ela conta as calorias que come e eu peço uma mousse no fim do jantar, ela gosta de ir à praia e eu prefiro o inverno porque me posso esconder nas pesadas camisolas de lã de todos os dias. não sei como ele me escolheu, sabes. e imagino como eles se devem perguntar sobre isso. os pais e os amigos. como enumeram as diferenças e me imaginam como um intervalo divertido de uma vida a sério, que ainda pode ter - com ela. eu sou a gargalhada, as férias, as noites no cinema e no quarto a ver séries. ela assina cheques e compra casas. ela está noutro mundo agora, e ele está no meu. ri-se e vive no meu desenho animado. mas quando cair o pano e o filme terminar, fica escuro e são horas de fazer coisas importantes. e os desenhos animados não existem no mundo dos crescidos.

deixei-me cair

o despertador chamava por mim mas eu não respondi. ouviam-se passos no corredor, o meu nome arrastava-se pelos pés e o cheiro do café entrava suavemente no quarto. o dia acontecia, eu deixava-me ficar. tinha o plano perfeito. enrolei os lençóis ao estrado da cama e dei nós que nem o mais hábil escuteiro conseguiria desatar. enrolei-me toda na manta mais pesada da cama, qual crepe chinês eu era só camadas e camadas de lã fofa e aconchegante. e deixei só o meu nariz de fora, uns fios de cabelo mais rebeldes que resistiram ao meu bunker, e deixei-me estar, até que se esquecessem, que desistissem de mim. quando tinha cinco anos gostava de brincar aos submarinos e mergulhava na cama a fingir que era o mar e contemplava as mais incríveis espécies de peixes entre os lençóis. gostava de me afundar na cama até ficar tão quentinho que o mundo lá fora parecesse impossível. e de ficar tão escondida que a minha mãe procurava por mim e me descobria à força das cócegas.
mas naquele dia não havia mar nem nem calor nem cócegas que me trouxessem à superfície. naquele dia deixei-me ficar enrolada nos lençóis e nas mantas até que a casa esvaziasse e se esquecessem de mim. até que o silêncio absorvesse a casa e engolisse a minha ausência. naquele dia eu era pijama e cama e estou doente e não vou trabalhar. naquele dia eu era uma criança de 5 anos que põe o termómetro no copo de chá para fingir que tem febre. naquele dia eu não aguentava mais o peso do mundo. naquele dia eu desisti.

e enchi outra vez a impressora de papel e voltei ao meu computador.

terça-feira, março 22, 2011

Perdida

Às vezes sinto que estou perdida dentro de mim mesma. Tal e qual um labirinto abismal de perguntas sem resposta e de palavras contidas por dizer. Perdida dentro de caminhos que ousei trilhar e de escadarias que não ouso subir. Oiço dizerem-me baixinho que sou capaz de saltar cada lanço e obstáculo dessas pequenas escadas. Oiço o meu coração bater mais depressa que um furacão, como se falasse comigo e me dissesse: «avança». Só o meu corpo, languidamente, desobedece aos meus quereres. Fica ali, uma pedra para sempre adormecida. Quero fazer ricochete dessa pedra e encontrar a coragem que perdi em algum lugar. Fazer inversão de marcha naquela rua de sentido único em que me tenho refugiado. Gritar, a plenos pulmões, o verdadeiro grito da liberdade. Sem deixar que as palavras sejam engolidas à pressa e se colem no fundo da garganta. Sem deixar que o medo me ultrapasse em alguma esquina e o embaraço me faça parar. Que fazer quando mordes a língua e as palavras não te saem?Quando te fechas na concha do silêncio em vez de arrastares as ondas ao teu redor? Quando vais começar a lutar? Quando vais deixar de te perder nas rotas de ti mesma e vais perguntar a alguém o caminho de volta? De volta ao que mereces e não ao que aos outros esperam de ti. Ainda não é tarde para encontrares o caminho de volta.